quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Para Andreas

________________
No início você era eu, mas em pouco tempo, deixou de ser, ultrapassando-me, ainda mantendo, entretanto, algum laço de personalidade. É inevitável: enquanto você existir, será um pedaço de mim.

E eu torço mesmo para que deixemos de ser parecidos, cada vez mais. Acho mais interessante assim. Não deve fazer um mês que você deixou de ser eu. E ainda não sei exatamente quem você é, apesar de tudo. Ok, isso não é tão difícil de entender assim.

Sei que você é alguém interessante, bem sucedido, aparentemente de poucos amigos (ou nenhum?), vejo que anda observando as coisas e pessoas por aí, entedia-se com certa facilidade - me parece -, alguém de muitas paixões, poucos amores, talvez nenhum. Ainda.

Vejo que está se envolvendo em algo que o assusta, vejo que a vida aponta para um novo caminho, menos previsível, mais inconstante, incerto, marcado por dores, mas, igualmente, cheio de prazeres.

Apareça mais.

Jean Souza, 26/12/2007 (06:42 AM), Rio de Janeiro, Brasil.

__________

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Diário do Intangível - inscrição X

_______
Coisas idiotas do meu trabalho:

1) casalzinho de modelos apresentando programa de esportes, falando como se fossem dois robozinhos;
2) alguns dos meus convidados, que insistem em falar as mesmas coisas, como se tudo fosse muito novo;
3) eu.

Ok, não estou num bom dia...


_______

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

sem título, 3

________
Que fazer, Humano, agora que alcançou a humanidade? Que fazer, Humano, agora que abandonou a sua condição de animal e tem poder de escolha sobre sua própria natureza?


Que fazer, Humano? Gerar pessoas, fazê-las nascer neste mundo difícil, sem piedade, cheio de horrores, de dor e desprazeres?

Que fazer, Humano, agora que você já nasceu? Por que atender ao egoísmo da tua alma e criar um novo ser, moldá-lo à sua vontade, moldá-lo de acordo com teu ego?

Que fazer, Humano?
Voltar à sua condição animal?

Ou pensar?

Que fazer, Humano?

Não tenha filhos.


________

sábado, 8 de dezembro de 2007

Diário do Intangível - inscrição IX

Eu sei que não me surpreenderia se começasse a sentir o que sinto neste momento. São nove e alguma coisa da manhã. A luz entra por uma fresta da porta de vidro do meu quarto, que dá pra varanda. Gosto da luz que entra de manhã, gosto do dia me despertando, gosto de acordar cedo, ouvir os passarinhos que moram na árvore em frente à minha janela.

Hoje bateu uma preguiça, misturada a essa tristeza...
Não sei exatamente se tristeza ou se saudade. Mas qual saudade que não tem sua tristeza, não é? Mente quem diz que saudade é uma coisa boa. Porra, tô mal pra caramba. De repente deu isso. Eu sei que é por causa do Gustavo, não por causa desses caras que passaram por aqui durante esses tempos.

Outro dia parei pra pensar e vi que não foi um caso bobo, foi sério esse lance. E, assim, de um dia pro outro, tudo acaba, cara..., acho que ambos fomos muito idiotas por ter deixado a relação acabar. Foram três meses apenas, mas três meses que pareceram três anos, ou muito mais do que isso. Foi muito especial, sincero. Vivemos muito bem enquanto durou. Agora já se vão mais uns, não sei, quatro, cinco meses desde que ele resolveu sair, segurando aquela mala cheia de roupas, cheia de coisas que eram nossas. E nós, contentes, sorrindo, como se separação realmente fosse a coisa certa. Em alguns momentos não é.

As pessoas têm sonhos, mas acho que não tomamos a decisão correta. O Gustavo se foi, mas não devia, tinha de estar comigo, aqui, agora, nesta cama, acordando, cantando as coisas malucas que inventava durante o dia, falando sobre ralis, sobre viagens sem dinheiro no bolso pela costa da América do Sul, afagando meus cabelos com a mão macia, beijando minha cabeça e, num salto, levantando pra abrir a geladeira, gritando palavras de ordem, "acorda, preguiçoso!", "levanta da cama!", puxando lençóis, jogando almofadas no chão, me irritando.

Ele se foi, eu acho.

Tenho uma ereção contínua, infinita.

_________

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Diário do Intangível - inscrição VIII

_______
Vou apresentar um programa novo. Estamos em fase de finalização. Sabe, tenho ficado muito satisfeito com a produtora, com os programas, com as matérias e os convidados. Tudo muito bem feito, muito bem pesquisado, bem produzido, bem acabado. Gosto da minha imagem no vídeo, tenho atraído audiência, a resposta do público tem sido positiva. Estou contente.

Acho que fico mais contente ainda por ter sucesso fazendo o que faço, podendo andar pela rua, sem um monte de gente me perseguindo, falando asneira, dizendo qualquer coisa saída de uma cabeça vazia. Segmentação tem destas vantagens. Estou lá no canal trezentos e sei lá quanto, aparentemente esquecido, mas pago as minhas contas, viajo, tenho minha vida, saio, curto algumas pessoas.

Não gosto de dizer que sou feliz, mas acho que sou. Eu sei que a sociologia odeia o conceito, mas tem vezes em que me acho o próprio 'homem médio', resultado de alguma estatística bonitinha, capaz de precisar exatamente nossos medos, desejos, sei lá, renda, padrão de consumo, até o quanto de vezes que a gente tende a chorar, que hábito de leitura vai adotar, quantos minutos vai gastar pra foder alguém na cama...

Só falando besteira...
Não, eu não me considero homem médio. Eu não acredito em homem médio. Não acredito nem em estatística.

Eu sou um homem feliz, mas falta alguma coisa nesta minha vida. Falta conflito!

________

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Diário do Intangível - inscrição VII

_________
Hoje, sábado. Duas coisas que preciso dizer. Uma: pela primeira vez, em cinco anos, falei com a minha vizinha. Valquíria o nome dela. Já tinha visto antes, na correspondência, cruzamos algumas vezes na portaria, mas, hoje me dei conta, nos falamos pela primeira vez dentro de cinco longos (pelo menos pra mim) anos. Tá certo que eu posso contar as poucas vezes que nos vimos durante este tempo, mas, fico surpreso, nos falamos pela primeira vez só agora.

Valquíria, vinte e oito anos, americana, do Minnesota, dupla cidadania por causa da mãe, portuguesa, que se casou com o pai, americano. Formada em engenharia, trabalha numa empresa que fica a cinco quarteirões da minha, namora um cara chamado John, ou Johnny, alguma coisa assim, que é mais velho que ela. Conheceram-se na empresa e ano que vem passam as férias em Bariloche, lugar que eu odeio e não quero falar sobre agora.

Acho que Valquíria é uma pessoa feliz. Sabemos bastante um do outro. Obrigado, senhores exatos quarenta e seis minutos presos no elevador...

Pelo menos ela guardava lanche na bolsa. Pão com queijo e tomates. É verdade, eu nem tinha fome, mas comer ajuda.

Segunda coisa. Estou saindo com este cara, Toshio, um japonês. Segunda vez que saio com um cara oriental. O primeiro foi na adolescência, Willian, estudava comigo, último ano do colégio. Toshio, um espetáculo. Alto, ombros largos, voz grave, traços fortes, aparência meio agressiva. Acho que algumas pessoas têm medo dele. Economista. Nos conhecemos no cinema, durante um filme do Cuarón.

Penso agora: nos falamos na fila, mas nos conhecemos mesmo na sala de exibição. Então... nos conhecemos durante, hehe...

E, na verdade, não estou mais saindo. Saímos por três dias só. Ele viajou, vai pra São Paulo. Depois fica seis meses em Osaka.

Toshio tinha gosto de hortelã. Mas era bom.

_______

Diário do Intangível - inscrição VI

_______
Hoje não consigo pensar em nada interessante. Não dormi muito bem, dormi pouco e preocupado com coisas do meu trabalho. Tenho precisado de idéias novas, faz um calor absurdo aqui. As ruas e as peles das pessoas fervem sob este céu fudido, esburacado, poluído. Não tenho nada de interessante pra fazer. Faz um tempo que não nos vemos. Gustavo. Voltamos outro dia ao Café Paris. Que coisa engraçada.

Já deve ter alguns meses...


_________

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Diário do Intangível - inscrição V

_________
Logo que acordamos, ele canta baixinho no meu ouvido. Nunca eleva sua voz. Uma vez me disse que não conseguiria, não insisti em saber por quê. Também tenho as minhas manias, todo mundo tem as suas, convivemos bem assim.

Eu sei que não vem ao caso, mas queria dizer, meu pai viaja esta semana pra Alemanha. Lugar magnífico! Sinto saudades de viajar...


___________

Diário do Intangível - inscrição IV

____________

Conheci este rapaz num café, um lugar muito bom pra se conhecer alguém. Eu nunca entro ali, sempre passo correndo, mas, eis que, naquela segunda, resolvo parar e tomar um capuccino. O relógio marcava sete, este horário em que as pessoas ainda estão voltando desesperadas pra casa. Me senti feliz, porque tinha, então, caminhado contra o fluxo, e resolvido apreciar a calma. E tomar um café. Deixe-me não pensar em nada...

Eu já sabia que não resistiria e logo pediria um dos chocolates exibidos na vitrine, quando me deparo com este moço, de olhos tão negros e semblante levemente iluminado, em frente a mim. Não sei há quanto tempo estava ali. Nossas mesas, uma de frente pra outra. Parecia esperar alguém. Olhei-o tão intensamente que fiquei constrangido. Cumprimentei rapidamente, voltando os olhos pro meu pouquinho de café, que ainda pintava o ar, com cheiro morno de calma.

Apaixonei-me. Precisava olhá-lo novamente, contemplar mais uma vez o seu rosto de homem bom, os olhos negros, o nariz pequeno, a boca fina, a barba crescente, o pescoço macio. Os dedos impacientes tamborilando sobre a mesa. Certamente espera alguém. Impaciente, atenho-me ao reflexo dos seus dedos, sobre a mesa de madeira, será que ele percebe?

Devagar, inclino o pescoço sobre meu ombro esquerdo, levo a mão à cabeça, ajeito o cabelo, levanto os olhos e lá estão os dele, de novo, dentro dos meus. Fico sem graça e sorrio compreensivo, que pena que te fizeram esperar. Ele retribui com outro olhar, obrigado, desconhecido. Entendemo-nos. E volto, impaciente, ao meu café.

Veste uma camisa azul marinho, não muito escura, faz um contraste bonito com a pele clara, os braços cobertos por pelos finos e curtos, sob esta luz. Olha para o relógio. Certamente está aqui há muito mais tempo que eu e, mesmo assim, ainda não pediu nada, nem uma água, nada. Espera, sem muito se alterar. Apenas os dedos afagam, sem som, a superfície da mesa, ora descompassados, ora em sintonia. Aposto que repete o movimento com um dos pés, contra o chão, mesmo mantendo essa cara de céu tranqüilo, esse sorriso de compreendo o mundo.

Gostaria de ouvir sua voz. Apaixonei-me, quero ouvir sua voz dizendo eu te amo para mim.

Peço chocolates. Ele me fita, eu percebo, no canto dos olhos, e, mesmo assim, recuso-me a olhar em sua direção, não quero me fazer inconveniente, mas já não curto a minha adorável solidão, aquela que existia minutos antes, quando eu resolvera ultrapassar aquela porta, deixando a multidão apressada lá fora. Já não estou só.

E antes que deixemos de ser dois, antes que sejamos três, ou ele resolva ir embora, surpreendo-me, a mim, num impulso mais forte que a razão. Ele afasta a cadeira, recolhe o casaco, prepara-se para levantar. Antes que se levante, estendo a mão. Ofereço um chocolate, fazendo-me solidário. Ele compreende, aceita: "Alguns encontros não acontecem", sorri.

Aceno com a cabeça, concordo, não digo uma palavra, sorrio feliz.

Ele se levanta, puxa a cadeira à minha frente, me encara com olhar profundo, e me fita, como quem tem pressa pra dizer um milhão de coisas.

"Obrigado pelo chocolate...
Se importa se eu me sentar?"

"Não, por favor!
(...) Quer tomar um café?"

"Sim, te acompanho".

Ajeita-se à mesa, arruma a cadeira. Sinto seu cheiro. Seu joelho encosta no meu.

__________

__________________

Diário do Intangível - inscrição III

_________
Estou em casa. Depois dos embarques, desembarques, da estrada na mata...


Não sei como vim parar aqui. O importante é que sempre volto, sempre chego são. Até hoje não morri, apesar de tudo, apesar de toda essa cidade caótica, de toda essa desigualdade que cresce a cada dia, exponencialmente...

Estou em casa. Aqui é um lugar seguro.

___________

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Diário do Intangível - inscrição II

____________

De vez em quando isso acontece. Não me recordo de nada pela manhã. Também, quando é de manhã, sinto frio, mesmo que lá fora faça calor.


___________

domingo, 2 de dezembro de 2007

Diário do Intangível - inscrição I

__________
Por hoje, naveguei durante horas, pela noite, enquanto muitos dormiam. Não estava só, viajávamos, juntos, vários passageiros, mulheres de tailleur, homens em ternos carregando malas, todos, assim como eu, relativamente serenos, mas apressados em chegar aos nossos destinos.

Foram três portos, em intervalos curtos de tempo, o mar não estava agitado, mas sentimos a apreensão das tripulações, por vários momentos, o que nos deixava intrigados.

Aportamos, por fim, num porto distante, que nos fazia, após o desembarque, cruzar por alguns quilômetros de mata densa, passando por uma estrada asfaltada, ali construída, bem conservada, suficientemente iluminada, mais segura que a instabilidade do mar. Tínhamos, agora, os pés no chão.

Saímos divididos em vários grupos. Alguns pegavam táxis caros, outros esperavam parentes, outros, como eu, não sabiam o que fazer.


________

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

About this moment

_____________


C'mon! Let's fuck!





NOW!


________

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Começa um tempo fatídico [o verbo]

Mas amar é bom.

Por algumas coisas.
E me envergonho.

E talvez por vocês.
Por você, por você, por você.
Porque agora, sei que amo.

Amar.
Resolvo usar o verbo.
Resolvo quebrar o tabu.


_________

O verbo [começa um tempo fatídico]

Resolvo quebrar o tabu.
Resolvo usar o verbo.
Amar.

Porque agora, sei que amo.
Por você, por você, por você.
E talvez por vocês.

E me envergonho,
por algumas coisas.

Mas amar é bom.


_________________

terça-feira, 20 de novembro de 2007

sem título, 2

- vômito que escorre pelo chão do ônibus

- perdigotos que saem da boca do homem no banco de trás e grudam no pescoço [dele mesmo]

- pessoas que tossem e você houve [sic] o catarro em movimento nas gargantas delas

- mulher com vagina fedendo

- homem suado com odor insuportável

- homem com uma ferida na cabeça e a impressão de que todas as bactérias, todos os germes, vinham contra o vento, diretamente à sua [narrador] boca. levantou-se do lugar onde estava. não havia mais lugar no ônibus. ficou em pé mesmo. ninguém entendeu.





[anotações em pequeno pedaço de papel, tempo não preciso, provavelmente entre 1998 e 2003]


____________

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

sem título, 1

__

de dia tem feito sol

de noite tem feito chuva



de dia eu vejo navios, que aportam.



quando é tarde, eles já partem

vermelhos e negros e grandes.

em cascos e metais,
formas de aço,
assustadores, em negros, em azul.




às quatro da tarde,

entra pela janela uma luz amarela,
lânguida, suave,

que me acalma,
me excita, me deixa feliz.

e me convida: sinta esta vida!
e me convida pra tomar um café.


e quando me banho e sinto esta luz,

que do sol entra pela fresta dos prédios,

e toca minha pele esquecida,
desnuda e tocada, pela fresta,
este feixe de luz.



minha pele,

por baixo dos panos,
por baixo dos prédios,
da civilização.




quando é de noite, eu vivo, sozinho,

falo com almas, converso, de longe,
falamo-nos distantes, por entre fios,



entre cabos, e telas e mídias e meios.




quando é de noite, eu vivo,

e vivo em cores,
e sonhos,
e sons.




quando é manhã e eu canso,

me deito, e ouço pássaros,
e fujo do sol.


quando madruga, e me escondo das luzes,
navios aportam, e apitam, e encantam.
em cascos de ferro, de negro e azul.

e quando durmo, eu sonho com eles,
enormes, gigantes, em águas e medo.
e tenho medo,

das águas, dos homens.



e então me deito,

navios.
meus leitos.



__________________

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Para eles

- Pensando em algum famoso?
- Porra, direto! Antes eu achava mó tosco, mas agora eu nem ligo. Eu já ****** pro Sufjan Stevens, pro Jake Gyllenhaal, pro Jude Law. (...) Até pro Ciclope, dos X-Men! Isso na época em que ele ainda era só desenho, hein!, hahahaha!



_________

Com oito dedos sobre uma linha, sem que todos eles sejam utilizados

March! [ou 1,2,3; 1,2,3; 1,2,3; 1,2]

abandonem suas calças!
abandonem suas saias!
venham, comecem, neste instante!

caminhemos em direção ao hí-bri-do!
caminhemos em direção à in-de-fi-ni-ção!
sejamos o duplo, o triplo e o muito!

caminhemos em direção ao novo,
sejamos felizes, beijem-se!, abracem-se!
caminhem, caminhem, pessoas!, há-só-es-ta-vi-da!

felizes, caminhem, pessoas,
caminhem, sejamos o muito!

_________

Confessa

Minhas palavras estão secas.
Estão secas ainda.
Duras, diretas, como eu.

É necessário regá-las.
Penso: talvez.

Alguma palavra mais mole, alguma frase mais solta,
alguns adjetivos tolos, alguns artigos a mais.
A, as, umas, umas coisas com vírgulas,
algumas frases mais longas, coisas desnecessárias.

Alguma coisa que não sou eu, penso, eu, agora.

Quero dizer all is full of love.
Is all around you.
All is full of love.
E ainda sou isto. E gosto.


________

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

discriminação cíclica

Discriminação cíclica: é o que nos cerca hoje.
Obrigado, queridos, por não perceberem.
Isso só agrava, cada vez mais, a nossa vida.
Assistam ao filme Crash, de Paul Haggis.
E compreendam.

Ou olhem ao nosso redor.


_________

Rio de Janeiro

São duas grandes esferas, dois estados de espírito, duas grandes cidades, uma, em constante festa, outra, em constante guerra. Alternando entre uma e outra, muitos humanos, passeando, cortando as linhas que as dividem e que, por vezes, chegam a fazer com que a cidade da festa seja ao mesmo tempo a cidade da guerra, fazendo desta cidade uma festa-caos, onde se vive, se sobrevive, se chora, se dança, se anda com medo e se fala com erre arrastado, o esse chiado.

São belas estas formas, mas tão belas estas formas, que mesmo as rotinas não impedem que se olhe pro mesmo canto, pra mesma montanha, as águas, um dia atrás do outro, sem que se cansem os olhos e se abram sorrisos agradecendo o que quer que seja, a deus, à natureza, ao acaso, pelas formas que aqui se formam, pelos sóis que aqui se nascem, que aqui se põem.

São sons e batuques e fanques, o charme que só aqui se vê, das mulheres de cabelos que voam e saias de cores vivas que bailam, de passos apressados e cheiros de perfumes que ficam quando passam, e misturam na brisa, na maresia, no sal, no sol, na calçada que ferve, nos contrastes de preto e branco de ondas, de praias, de rios de janeiro e outros.

São festas caóticas e caos e muito caos e medo e dores. E dinheiro, por que se briga, por que se mata, se fere, se corre, se esgota cada dia o homem nos ônibus, nas ruas, no escuro, nos becos, nas margens de toda esta cidade, como no resto do mundo. Aqui é o mundo, o pior dele. Subemprego, mãos estendidas nas ruas, esmolas, assaltos, furtos, polícias-ladrões e milícias, as drogas, as armas, guerrilhas e balas que se perdem em corpos, em nada alheios a tudo isso que passa.

E rápido, a vida nesta festa-caos. E porque, mesmo assim, a gente fica, como quem gosta da morte e do risco.


__________

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Flint

Registra. Registra e pontua o (este) momento. Complica de propósito, finge que faz arte. Não era, não era pra vírgula. Desobedece. Volta pro ponto. Finge que sabe o dáda, que sabe o dáda, que faz com que tenha sentido. O nada, e tem.

Porque esta é a nossa vida, uns mapas, umas distâncias, umas estradas, vozes, sons, sonhos, palavras, cheiros, o céu, gosto de chocolate, pequenas coisas. Pianos, letrinhas de livros, estrofes de poemas, papéis rabiscados sobre a mesa. Algumas lágrimas.


Ouço agora uma música boa. E daqui, te mando um beijo.


* dedicado à Pâmela e Lenice


____________

terça-feira, 6 de novembro de 2007

A segunda lua

Acham que eu não me recordo, mas lembro claramente de muito do que se passou naquela época. O suficiente pra desconfiar de tudo isso, o suficiente para, qualquer dia, ir além do que a simples desconfiança tem me feito pensar por estes cantos, entre os milharais.

Tinha sete anos de idade. Lembro-me da verdadeira guerra civil que se instalara de forma absurdamente sem sentido, entre pessoas e pessoas que não consigo distinguir quem exatamente eram, o que exatamente queriam. Era uma guerra sem sentido, como já disse. Uma guerrilha. Um conflito muito pequeno. Desconfio muito se fora noticiado por algum jornaleco das imediações. Creio que jamais tenha alcançado ondas de rádio ou algum segundo no noticiário da tevê.

Acho que minha cidade desapareceu. A minha família era muito bem instruída, os meus vizinhos eram poderosos, éramos todos muito influentes, a nata, a elite, os que pensavam a vida, os que decidiam rumos. Pelo menos ali, em nosso mundo estranho, uma comunidade global, aquele universo muito rico, muito moderno, muito atual, mas sempre algo como construído entre-mundos. Como se habitássemos uma redoma de vidro, nos protegendo dos outros, dos crimes, do mundo lá fora. Meu mundo, um grande condomínio. Pensando bem, acho que nos procuram até hoje. Imagino nossas fotos nos jornais, nos livros de história, nos arquivos do mundo inteiro: “Uma cidade que desapareceu”.

O nome da minha irmã é Sara. Cinco anos mais nova que eu. Logicamente não se lembra de nada, mas, hoje, depois de tanto me ouvir falar, descrever cenas, perguntar-me sobre o que é isto que me aflige diariamente, essas memórias são suas também. Cada detalhe.

Se um dia eu morrer, ela terá consigo as minhas memórias. E talvez carregue consigo as minhas dúvidas. Talvez encontre as respostas. Talvez esqueça tudo, e siga vivendo esta vida, correndo entre os milharais, entre estas plantas, entre estas terras, e estas pessoas, e estas crateras, este mundo mais simples. Esta vidinha feliz que levamos.

É lógico que um dia eu vou morrer. Não sei se morro antes dela. Talvez sim.

Tenho medo de ficar louco. Eu me lembro claramente: os meus pais, os meus tios, meus vizinhos, a polícia, alguns desconhecidos e outros mais ou menos familiares, lutando. Contra eles, do outro lado, alguns inimigos. Todos armados, todos muito tensos, todos muito assustados, muito preocupados em preservar suas proles, lembro das armas, revólveres prateados, cápsulas, projéteis dourados caídos pelo chão, o cheiro da pólvora, barulhos cortantes no ouvido, os tiros, gritos abafados, a guerrilha silenciosa, passos abafados, corridas quase nas pontas dos pés, pessoas se escondendo entre muros, roupas rasgadas, deixadas em pregos e cacos nas paredes, braços rasgados em portões, calças manchadas, arrastadas em frestas, microações, calculadas, entre cigarros, por vezes, um quase silêncio. Lembro-me que chorava.

Durou três dias. É tudo que minha lembrança consegue guardar. Acho que fiquei em estado de choque, mas nunca tentaram me tratar. Olharam-me como se fosse adulto, ninguém nunca ligou direito pra mim. Vivemos razoavelmente felizes agora.

* * *


Sara: Estava procurando você.
Eu: ...
Sara: Pensando nos seus sonhos, mais uma vez?
Eu: Não são sonhos. Você sabe, não gosto que fale assim.
Sara: Desculpa, mas é muito difícil para mim, por favor, entenda...
Eu: Não quero me explicar pra você de novo.
Sara: ...
Eu: O que foi?
Sara: Jantar...
Eu: Não quero comer.
Sara: Você precisa. Amanhã é dia de aragem. Começa a mudança de culturas...

(...)

Sara: Um quarto do campo descansando, pra próxima estação...
Eu: Eu sei, você sabe que eu sei dessa baboseira muito melhor que você. Rotação, rotação, muda solo, muda solo. Parece que vocês se divertem mesmo, mudando umas sementes de lugar, 'arando solo!', celebrando a colheita! Sara, você não entende? O ser humano não precisa disso! Já vivemos fases muito melhores! Ninguém precisa sujar as mãos de terra, ou seja lá o que for, pra viver um dia após o outro! Eu não agüento, não posso viver neste lugar...
Sara: Eu sei. Sei que isso não te agrada. Mas nós gostamos disso aqui. Queria que você gostasse também.
Eu: Sabe, há muito tempo atrás, viveu um homem chamado Chuang Tzu. Um dia ele sonhou que era uma borboleta.

(...)

Eu: Mas quando acordou, descobriu que não tinha como ter certeza: ele não sabia se era um homem sonhando que era borboleta, ou se era borboleta sonhando que era homem.

(...)

Sara: E você acha que nós realmente vivemos na Lua?


* * *


Avista-se, ao fundo, o céu. Logo à frente, um espantalho.



__________________

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

O metrô

Foram seis ou sete viagens. Não me lembro, por motivos óbvios: pelo sangue, pelos gritos, pelo desespero, pelo coração que palpita intensamente quando lembro. Creio que tenham sido seis viagens e meia, não me lembro exatamente quem conduzindo que quantidade.

Começou com meu pai. Fazia tempo que não o via, estava mais magro, mais moço, mais bonito, porém mais sério. Não nos falamos. Nós nunca gostamos de conversar mesmo. Fiquei observando ao longe, gosto de observar, principalmente quando estamos em plataformas novas, onde as pessoas e os hábitos são novos, os passos ainda não são marcados pelo hábito, cada um procura a posição que mais lhe agrada, e vai repeti-la ad infinitum, até que um dia alguma coisa mude sua rotina.

Estou em pé, não como nada, não bebo nada, não fumo, não falo, nem gesticulo. Apenas transpiro calmamente, estou apoiado na parede, olho para frente, observo.

Meu pai é o condutor, tem protetores-fones no seu ouvido, usa um par de óculos de lentes azuis e grandes. Ele olha para mim como quem acena e diz até logo, as pessoas entram apressadas, as portas apitam, esperam dois segundos, fecham, a plataforma range, os vagões se movem, os trilhos eletrizam, meu pai à frente leva todos os seres aos seus destinos. E partem, digo adeus internamente, amo vocês, pessoas que não sei quem são.

A viagem se repete, e repete, e repete. Não são longos os intervalos entre uma e outra. O fato é que eu pareço adormecer, e me dar conta de que a vida existe somente e justamente quando o trem aporta à minha frente, e ouço os trilhos, ouço as vozes, vejo os passos, as mãos e as salivas, os pescoços, os pelos, unhas, cabelos, dentes e carros.

É a última vez que vejo meu pai antes do acidente de dimensões que desconheço. Quando ele volta, depois de minutos dos quais não sei a amplitude, a gravidade e o que seja, tem o braço enfaixado, preso fortemente, rente ao peito, seus olhos não são de alegria, sua boca não pensa em palavras. Apenas anda, se afasta, não me olha.

Me desespero, pois as pessoas entram por esta porta, em fila, amontoadas, atenho-me à mulher levemente gorda, de rosa, os sapatos altos, ridiculamente rosas, e barulhentos, empurrada pelos que atrás aparecem, alguns parecem cair por baixo do trem, mas quando parte este novo carro, vejo que todos partiram, e nada de mal acontecera, apesar do braço ferido de meu pai. E aceno, internamente, agora preocupado, adeus pessoas, até uma outra hora, quando voltarem por este caminho.

Adormeço, como automático. E acordo de súbito, com a chegada do novo carro, na verdade o mesmo, mas cada viagem é uma experiência nova, para mim é como se tudo fosse novo. Não acredito em ciclos, acredito em retas, em rios que nunca são os mesmos, em pontos que nunca são os mesmos. E homens que nunca são os mesmos, apesar de serem os mesmos rio e homem que se banham por estes relógios, pendurados por estas grandes paredes, ornadas por rostos, que olham e calam, e espelhos que refletem o que desejamos de nós mesmos.

Tenho certeza que já se passaram horas, mas eu não ligo, e permaneço imóvel, ancorado sobre meus pés de cimento, pregados ao chão, esperando cada viagem, atento a cada janela, recluso em meus pensamentos, por muitas vezes vazios, por muitas vezes intensos, e pesados, e fatigantes.

Eu vejo a minha mãe agora. E tenho receio, e lembro do pai, que ferira o braço, e nunca mais voltara, e partira de olhos tristes, e partira, concentrado na dor. Internamente eu grito, mãe, não faça, não parta!, não conduza este trem!, deixe para outros, volte para casa! E ela, igualmente, protetor nos ouvidos, óculos de lentes azuis e grandes, à frente de todos os vagões, dá o sinal para que vocês, passageiros, se preparem, e ultrapassem a faixa que antecede cada carro, e passem por sobre o vão, e se acomodem, e dêem lugares reservados para aqueles que envelheceram, para aqueles que vão nascer. E cedam seus lugares para etcetera, e reclinem-se, encostem, e conversem, flertem, façam o que quiserem, e pensem.

E parte este carro. A mãe olha para mim, e me beija de longe, eu sinto, e apitam os trilhos, e mudam os ponteiros, mais uma viagem. Boa viagem.

Eu sinto o silêncio, eu o como, acho doce, e fofo, aconchegante, e gosto.

Aproximam-se outras pessoas, alguns rostos familiares, outros nunca vistos mais magros, mais gordos, mais amarelos ou azuis. Também anseio por este trem. Tenho saudade da mãe, principalmente depois do que sucedera com o pai, e eu nunca recebera notícias do que tenha acontecido.

Aproximam-se rostos, e vozes, e ponteiros. Faíscam de repente estes trilhos, e zunem ao longe, cada vez mais fortes, até que surgem luzes dos faróis. E vejo ao longe a mãe, logo no primeiro carro, heróica, a condutora, que traz a todos e leva a todos para suas casas, trabalhos, encontros, ensaios de peça de teatro às quinze horas da tarde, entrevistas de emprego, e médicos, e visitas. Ela me fita, e nada diz, e logo estará de volta, após outra viagem, e outra e outra.

Eu fico satisfeito por poucos instantes, pois desde que o pai partiu, os embarques têm sido cada vez mais conturbados, as pessoas mais amontoadas, as viagens mais perigosas, o vão entre o trem e a plataforma cada vez menos estreito, cada vez mais abismo, cada vez mais risco de choque, risco de morte, risco de choque. Cuidado.

Avisto esta mulher de rosa. Isto prova que já se passaram dias desta minha atividade prazerosa e angustiante, que é ficar aqui, esperando trens, preso à parede, esperando os carros, os ponteiros e as pessoas. Qual a minha função aqui?, pergunto-me por um instante. E me questiono sobre destinos, sobre fatalismos, e teleologias, e thelos.

Acalmem-se, pessoas!, tenham cautela com o vão!, não corram, por favor, não morram, não tenham tanta pressa!, eu grito silencioso. Cuidado, mãe!

Mais uma nova viagem. Ninguém me ouve, nenhuma dessas pessoas me ouve, e começam a cair neste abismo, e se empurram, e se matam, e morrem, algumas eu não consigo ver. Algumas adentram os vagões, e comemoram. E não vejo minha mãe, e preocupo, e choro, e me ergo nas pontas dos pés, e olho por entre as pessoas. E desespero.

E lembro do pai, assim que vejo os olhos da mãe saírem por entre os rostos desesperados, contra o fluxo, que segue, em desespero, na direção do túnel que as leva. E procuro coisas boas. Minha mãe está sangrando. Perdeu um dos dedos do pé. Deixa rastro de sangue, que sai da multidão, que sai da plataforma, que sai de dentro do fluxo, que sai daquelas pessoas.

Eu não quero ferir o meu braço, aleijar-me, andar com quatro dedos, estou aqui, pregado na parede.

De súbito, surge uma criança, contra o fluxo, segura um dedo nas mãos. Corre, seguindo o rastro, tudo ficará bem. Eu me acalmo. E partem, e seguem.

Fica o silêncio. E não quero ser, não eu, o próximo condutor. Desprendo-me. Corro por entre o escuro dos túneis.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Perda de tempo

____________

Sim, e você é este escritor, diria até 'esse escritorzinho aí, barato', mas, resguardado na sua modéstia e longe da auto-depreciação, porque o melhor mesmo é o valorizar-se, resolve escrever umas linhas de desabafo, mesmo sendo sempre contra o falar olhando para si, este falar egoísta, no qual outros até se identificam, e por isso mesmo o lêem. E escreve.

E você, autoral, e quiçá compreendido, termina:

— Se existe algo ruim, isto é perder tempo. Perder tempo é algo ruim — conclui.



______________

sábado, 20 de outubro de 2007

Quero namorar um menino chamado João

________


Quero namorar um menino chamado João.



________




sábado, 13 de outubro de 2007

Algumas de minhas palavras favoritas

___________

contingência

aleatoriedade
probabilidade
racionalidade


____________

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Ok, eu gosto disso, eu faço isso, acredito nisso, e repito:

_______________

Eu gosto do aleatório,

Eu gosto do aleatório,
Eu gosto do aleatório!


_____________

Eu dou tchau

Eu dou tchau pra criancinhas,
às vezes elas acenam pra mim,
às vezes eu aceno pra elas.

Hoje uma garotinha feliz,
dentro do carro sorriu,
dizendo oooooiiiiii!!!,
e seguiu.

Retribui rapidamente:
tchaaaau!!, acenando forte
e ágil, num sorriso contente!



____________

sábado, 6 de outubro de 2007

New Rave

João amava Henrique que amava Ricardo que amava Maria
que amava Fernanda que amava José
que não amava ninguém.

João foi para Londres, Henrique foi estudar Filosofia na USP,
Ricardo virou traficante, Maria virou mãe solteira,
Fernanda virou iDJ e José casou com Emanuella F. Ramiro
que não tinha entrado na história.



____________

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Sou amor, paixão e clichê

Antes eu tinha um nome, mas agora não me importo qual seja. Estou apaixonado. Estou apaixonado e sou um outro homem. Logo eu, que sempre fui contra clichês! E agora descubro que o amor é mesmo um grande deles, repetição, tautologia em forma de rede, que enlaça, deixa marcas, faz gozar, faz rir e provoca dor.


Neste momento eu sou amor,
e não ligo se puro clichê.
Eu repito, e me sinto feliz:
sou puro clichê, sou puro clichê!


Estou apaixonado, sou não sou correspondido. Sou apaixonado, correspondido, Julieta, sou apaixonado, sou não sou Aramis. Julieta ama a mim, que não tenho nome, Aramis não sabe da minha paixão, mas amor por mim também sente, eu sei.

Quando chega Julieta em minha casa, no meu portão, cresce em minha face um sorriso inevitável, meus poros dilatam, e minha pele se esquenta em arrepios, como se uma fragrância de amor e de desejo fosse capaz de, produzida, enlaçar nossas vidas e nossos olhares, em cada segundo antes da palavra. Antes mesmo da primeira palavra.

Ela me beija, e meu corpo responde, a cada toque, a cada gosto dos seus lábios, da ponta dos dedos, tua face quente, que roça o meu rosto e me diz que este segundo nosso é eterno. E que, quando você parte, mesmo que o amanhã me traga de volta, eu sinto dor, como quem perde um pedaço, e sente que o corpo lateja, inquieto, querendo seguir atrás, querendo a parte que falta, que pulsa.

Eu sou clichê. E eu te amo. E gosto quando nos sentamos lado a lado e, sem dizer nada, o seu braço me encosta de leve e devagar. E te quero a todo instante, e sou clichê. E de ti faço pequenos desenhos, enquanto passo o dia, pensando, e perco a concentração e rio entre goles de café. Você são músicas singelas, que ouço pra matar a saudade.

Eu sou clichê. E amo Aramis. E ele gosta de mim, mas não me tem amor. E tem amor. E ele tem a mim, e eu o tenho, do seu jeito. E, quando ele vai embora, eu olho dentro dos olhos, e digo até logo, e quero um beijo, e ele diz até logo. Somente até logo.

Meu braço não toca sua pele, e me envergonho quando se aproxima de mim, e me esforço pra sentir seu hálito, seu perfume, seu sorriso, seu ombros, suas mechas, e guardo tudo comigo. E ele me olha, me gosta, não me ama e não se apaixona. E eu sou clichê. E amo, desejo.

E sou clichê, e tenho vergonha, e certeza. Quando é de noite e quero o amor de Julieta, é de noite e a pele de Aramis. E quero a todos. E não sou a mim, pedaço e gozo, felicidade e desejo, e sou amor, sou amor.


O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.


Sou amor, desejo, e certeza. Sou a mim, sou nós, sou você. Sou amor, paixão, e clichê.




___________________

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Sobre o imprevisível

A vida pode acabar agora,
Ou daqui a quarenta anos.

O cliché diz: Viva!




____________

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Eu te liguei, mas desisti

Eu te liguei, mas desisti, achei que não valia a pena. Coisa que a gente decide no último segundo, que decide, de repente, que é melhor não ir adiante.

Eu te liguei, mas desisti. Acho que seu telefone nem tocou.




___________________

domingo, 23 de setembro de 2007

Esguia

Esguia, adoro gente esguia,
vou fazer uma poesia pra gente esguia.



_____________________

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

inspirasao l33t ///leet ((lit))**88888

tiop, inspirasao,,
mininë a linguajen coiza maraviliösa

surjiu o lit!!111
evolusao, surjiu o ävanso do lit

repito: limgajën

qqqqqqq/////////// /////

*88888 reflitä (((888***

ok, ok, ok,
[[redundansia]]ººº

bjosmeliga.

domingo, 16 de setembro de 2007

Maria Bethânia

São grandes as cascatas e tórridas as águas que correm nestas quedas. São verde-água, são azuis. Imensos os rios, os caminhos que levam pra algum lugar, nesta chapada, cercadas as margens por matas, por cílios que tocam as gotas, e flores que pintam de rosa, de branco, amarelo, de azul, de vermelho e cores pequenas as matas e tudo.

Dois grandes lobos nadam depressa neste rio, são brancos e fortes, felizes nadam por entre as águas, sob o sol e o céu, que os olha e se aproxima. Aproxima.

Em uma das margens surge Maria Bethânia. Os cabelos em tranças, que moldam e desenham, a voz que se abaixa, pisa a terra úmida, olha entre os galhos, o verde e as folhas. Sente a brisa, a força que brota daqui. Ligeiramente se abaixa. Beija um dos lobos, toca seu pêlo. Olha em seus olhos. Prosseguem seu caminho.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

O homem que conversava com o chapéu sobre o joelho, como se aquele fosse outro homem, seu interlocutor

Quando voltava para casa, hoje, logo à noitinha, avistei, no meio da praça, um homem que falava com o próprio chapéu, como se aquele fosse o interlocutor que, contestando-o em suas argumentações, promovia, ali no meio da gente, um acalorado debate, de coisas incoerentes ou não. Logo acima, perto do chafariz, uma pequena família passava o tempo, despreocupada, sem pressa, sem testas franzidas de aflição, destas que aparecem no meio da semana. Um homem, mulher e filha, a criança vestida de rosa.

Alguns passos, vejo um casal apaixonado que, como em cena de filme, dança sem música, como se não houvesse mundo ao redor. Mundo só de dois, abraçados como um só, entre as pessoas, no meio da praça, embaixo das copas escuras das árvores que enfeitam ali.

São de mercúrio as luzes que iluminam este lugar, outrora palco de histórias não tão banais. Hoje não há skatistas, imagino onde estão agora. Talvez em outros paços, talvez em suas casas, assistindo televisão. Em vez de rodinhas e sons de pranchas batendo no chão, vejo mais casais, logo à frente, onde estariam os skates, sentados, na borda da praça. Enamoram-se, beijam e fazem este lugar. À frente, um menino dança, outra dança, sozinho, consigo. Eles vivem. E alguns dias são felizes.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Foi feliz sem ser pobre [Da Série: Foi Feliz Para Sempre]

Ela não teve culpa, foi muito feliz, muito feliz mesmo, sabe? Dessas pessoas que acordam todo dia com um sorriso no rosto, independentemente do que aconteça? Então, ela era assim... Nunca passou fome, nunca sentiu frio, nunca nem teve doença grave ou preocupação com dívida de fim de mês. Ah, como era boa aquela vida! Ela conheceu o mundo inteiro, dormiu nos melhores hotéis, degustou as melhores bebidas, os melhores vinhos, os privilégios mais caros. Teve outros amigos ricos. Nem teve amigos falsos. Durante a adolescência, fez questão de ser uma boa aluna, perdeu a virgindade aos dezessete, quando finalmente achou que era a hora. Não teve pressa. Casou com um jovem chamado Alfredo, a quem todos chamavam de Fred. O marido tinha sobrenome importante, era de família poderosa, mas nem por isso era uma pessoa má. Ele também não teve culpa de ter nascido rico. Ah, como foram felizes! Ela não quis ter filhos e os pais não ligaram, porque seus dois irmãos, um mais velho e uma mais nova, trataram de lhes dar netos. Teve motorista particular, tocou piano em noites quentes, no pátio, à beira da piscina. Bebia água importada, doou dinheiro pra instituições de caridade. Vestiu-se bem, mergulhou no Mediterrâneo e no Caribe. E foi feliz para sempre.

Dez situações que aconteceram em 25 segundos

1. Tem uma barata em cima da minha roupa, sobre as minhas costas, e eu sei, (...) não quero tirá-la daí.


2. Eu já falei pra você fazer exercícios!,..., é por isso que engorda!, chega e não sai deste quarto, ou então fica jogado, deitado sobre o sofá! Que merda!


3. Por favor..., [silêncio prolongado] não fale sobre isso pra ninguém, ok?


4. Eu percebi que devia parar de fumar quando um estranho me olhou na rua, com um ar de reprovação, e ao mesmo tempo, decepção. Era como se ele me conhecesse, e soubesse que eu só fazia mal a mim mesma. E ao bebê.


5. Meu pau fica pro lado esquerdo, hahahaha! [gargalhadas]


6. Não gosto da minha mãe! Não gosto da minha sogra! Não gosto muito de mulheres. Com exceção da minha.


7. Fiz algo que nunca tinha feito antes, eu mesma não sabia que era capaz, achava que esse tipo de coisa só acontecia em filme, em livro, mas, não, gente, é real. Só agora eu me dou conta de como a vida é estranha, de como a gente acredita em Deus, achando que ele olha pela gente, mas na verdade Deus nem existe, o que existe é a nossa imaginação... Eu matei aquelas pessoas. E não me arrependo.


8. Não sei, acho que não passo dos trinta e cinco. Mas tô feliz com a minha vida assim... Prefiro continuar assim.... Quê? Tão olhando o quê?


9. Não, espera, eu acho que vou ficar com o azul. (...) Combina muito mais com a minha bolsa.


10. Coloca a tua mão aqui, isso. Você pediu, agora vai até o fim. É assim que eu gosto... Não pára.



___

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Pequeno Poema de Frase Parnasiana *

Amor, coisa estranha, que machuca, sabem eles o que é, e querem que seja agora.



*Dedicado a Tais Nara e Gueko Hiller.



__________

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Corpo/Máquina

corpo/máquina
corpo/máquina
corpo/máquina
corpo/máquina

homem/máquina
homem/máquina
homem/máquina
homem/máquina

homem/corpo
homem/corpo
homem/corpo
homem/corpo

máquina/máquina
máquina/corpo
homem/corpo
corpo/corpo
comem/máquina

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Pequeno Tratado Sobre a Amizade

A relação de amizade é reflexo de duas fraquezas do ser humano. A primeira delas diz respeito à incapacidade de viver feliz sozinho. Obviamente, a idéia de viver feliz encontra-se aqui extremamente resumida. O conceito de felicidade jamais poderia ser simplificado e generalizado de maneira tão pobre sem que uma modesta justificativa o acompanhasse, porém, não tenho tempo, agora, para escrever sobre felicidade. Não importa, já registrei de forma suficiente tudo o que pude ver sobre este breve estado de gozo, que a experiência de humanidade permite.

Sabendo que felicidade é saldo, sempre inconstante, e nunca definitivamente esclarecido, de complicadas equações individualmente determinadas, sua idéia limita-se, aqui, à acepção mais imediata que o intelecto de cada leitor ou leitora, é capaz de elaborar.

A necessidade humana de afirmar a própria existência, através da relação direta de negação ou afirmação do outro, consiste na segunda fraqueza. Esse processo, invariavelmente, resulta, sempre, na afirmação de si.

A primeira fraqueza se manifesta tanto nas relações onde o elo principal é puramente a amizade §seja ela entre pessoas de mesmo gênero sexual ou não§, como naquelas relações em que o apreço característico das relações de amizade divide espaço com manifestações de desejo carnal. Assim como neste caso, em que a primeira fraqueza se manifesta, no segundo caso, ela igualmente independe da configuração do par: afinal, independentemente do tipo de prática sexual, a partir do momento em que se percebe a necessidade não estritamente carnal do outro, novamente o que supre tais lacunas de afetividade vem a ser a amizade.

Afirmar a própria existência §através das relações com os seres humanos denominados amigos§ é uma das maiores propriedades de tais relações. Contudo, implicitamente, é através delas que se revela o eu-ísmo necessário a qualquer relação de amizade. É a partir da necessidade do outro que se forma a interdependência entre pessoas.

Em uma dada circunstância, o primeiro só estabelece relação de afeto com o segundo porque encontra nele atitudes, formas de pensar, de falar e agir que correspondam àquilo que o forneça prazer. O primeiro gosta do segundo e o estima porque é este que o faz rir, que o faz recordar boas lembranças, que o protege, que o aconselha, que o faz bem. O gostar do outro e a manutenção da convivência com ele é sempre garantia do bem estar de si mesmo.

Minha passagem pela vida entre outros seres humanos me permitiu registrar algumas das prerrogativas-base para a constituição do que se convém denominar amizade: §Gosto de você porque me faz rir§, dizia um mancebo, em certo dia de outono, enquanto regozijava anedota do amigo companheiro. §Gosto de você porque me deixa feliz§, presenciei a esposa declarar-se ao homem. §Choro com tua partida porque me sentirei só, porque não haverá quem me faça companhia§, registrei, certa vez, de um senhor.§Choro com tua morte porque não haverá quem me ouça, nem quem me ame§, ouvi, certa vez, de uma mulher, no sepultamento da amiga morta. §§Manifestações de eu-ísmo características da relação de amizade§§

Amar o outro, senhoras e senhores leitores destas linhas, é confortar-se a si mesmo. A preocupação com o próprio §eu§ é o motor das amizades. Igualmente, assim como o primeiro satisfaz seus desejos e faltas tendo como meio o segundo, o segundo retira daquele as garantias de seu conforto. Estabelece-se nesse par, a equação em constante interferência por fatores externos, que, ao procurar seu equilíbrio, move paixões, humores, constrói monumentos sólidos de afeto e de confiança.

Se o homem, em meio à turbulência de sua rotina, porventura consegue notar a fraqueza de sua natureza, se ele consegue enxergar o eu-ísmo de sua essência §na relação de amizade§, mesmo naquilo que acredita ser uma das poucas de suas mais sinceras demonstrações de afeto, rapidamente ele permite que sua inconsciência cegue seus olhos e o faça seguir adiante § outra fraqueza do ser humano.

Se o eu-ísmo é o que move sua vida, este é também o que ele busca aniquilar, equilibrando forças em sua jornada de sentimentos, procurando anular aquilo que o condena, procurando, incessantemente, superar exatamente aquilo que faz de si um ser humano.


§ § §

*eu-ísmo: aceita-se o termo como eu-para-si ou, na acepção moderna, egoísmo.



sexta-feira, 20 de julho de 2007

Fetiche

O homem, de terno grafite, bem alinhado, aparência jovem e despreocupada, sentou-se no banco da praça, onde fazia primavera, de flores amarelas, para tomar um sorvete. O sol era baixo. Não fazia frio, nem calor, fazia homem.

O homem, de terno grafite, bem alinhado, de mangas claras e riscas cor de grafite, leves, que só se via de perto, tomava sorvete, no movimento explícito. A língua, no gosto, que derretia, cremoso, no seu toque, quente, pornográfico. Não fazia sol, fazia homem de terno, que tocava o creme, que derretia, os lábios concentrados, a barba por fazer, o homem, despreocupado, sentado na praça de primavera, pornográfico e sexo. Ninguém o tocava.


________

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Delírio

Maurício, na rodinha de amigos, fez a seguinte confissão:

- Gente, na primeira vez em que eu misturei cocaína com LSD, eu vi uma sereia que gritava sem parar: "Eu tô com muita sede, quero água com gosto de vanádio!, tô com muita sede, quero água com gosto de vanádio!!".

Todos riram.

terça-feira, 17 de julho de 2007

A experiência de morte de Vincent

Quando Vincent morreu, isto obviamente foi muito assustador para ele. Pode ser que ‘obviamente’ não seja exatamente o termo correto, já que nem tudo nesta vida, e mesmo na morte, faz necessariamente lógica e tenha algum sentido coerente que permita lhe classificar como óbvio ou, longe disso, lógico. Na experiência de morte, ou quase-morte, não há logicidade, não há muito nexo. Nexo, isto existe apenas em poucas coisas.

De qualquer forma, a experiência de morte de Vincent foi muito estranha. Enfim, corrija-se a partir daqui: na verdade, trata-se de uma experiência de quase-morte, já que Vincent conseguiu voltar para sua vida relativamente normal, e contou para poucos a sua passagem pelo outro lado da vida. Isto aconteceu num dia onze de novembro, fique registrado, dos seus parcos vinte e dois anos, numa época em que as pessoas já eram suficientemente individualistas, descrentes e desgarradas de crenças um tanto quanto medievais e baseadas em coisas místicas, para que sua quase-morte fosse encarada com considerável seriedade.

Tudo aconteceu depois que o jovem voltara de uma reunião com amigos da faculdade, tarde da noite, quando, de repente, ao passar por uma rua estreita, de volta para casa, fora atingido por algo que nunca ninguém viu o que pode ter sido, apesar de muito se suspeitar ter sido um carro. Como não se encontraram testemunhas e Vincent jamais soube explicar o que o atingira de forma tão intensa, a ponto de o fazer parar no hospital — como aconteceu depois daquela pancada—, convém a todos, quando contam esta história — e querem pular a parte da pancada por objeto, animal ou veículo não identificado — dizer que ele fora atingido por um carro.

Vincent caminhava distraído pela tal rua, quando fora atingido pelo carro hipotético. Acrescentemos: é bom que se diga, não estava drogado, nem mesmo um pouco alcoolizado. Enfim. O rapaz, não se sabe após quanto tempo depois de desacordado à beira da calçada, foi encontrado por uma família de três pessoas, que passava por aquela rua de carro (desta vez, um carro preto, compacto, modelo discreto, que combinava bastante com aquelas pessoas) e que, imediatamente, o levou para o hospital mais próximo.

Ao chegar no pronto-socorro, uma equipe da emergência veio ao encontro de Vincent, já na maca, na porta do hospital, e iniciou a checagem de dados vitais do jovem, levantando as pálpebras, apertando seus pulsos, observando-lhe a boca, tentando falar com ele, procurando no corpo sinais de agressão, cortes, alguma lesão grave, costelas quebradas e uma infinidade de coisas. Era certo, porém, que ainda respirava, que estava vivo, mas não se sabia a gravidade de seu estado. Foi então que, ainda no caminho para a sala de atendimento de emergência, uma enfermeira notou que atrás de sua cabeça havia uma alteração no tecido que revestia o crânio, algo como um ligeiro inchaço, seguido de corte aparentemente raso e sem sangramento, quase imperceptível, escondido sob as mechas de seu cabelo preto. Logo em seguida, Vincent teve uma parada respiratória, inexplicável como tudo aquilo, gerando grande preocupação entre a equipe que prontamente o atendia, e que até então, não conseguia compreender direito o que se passava, e como deveria atender aquele paciente.

Logo em seguida, o rapaz tivera, então, numa corrida pela sua própria vida, o tórax massageado fortemente e as veias penetradas por agulhas, injetando-lhe coisas, seguindo tais procedimentos por uma série de tubos, máquinas, especulações e cuidados, até que, enfim, conseguiu-se estabilizar seu estado, que não era simples e despertava preocupações. Vincent estava em coma e era necessário avisar seus familiares. Corria sério risco a sua vida. Seria muito lamentável morrer tão jovem, sem nunca ter realizado metade dos sonhos que compartilhava nas mesas de bar e nas livrarias da cidade.

A partir daí, começa a história mais estranha. Foram necessárias duas horas para que Vincent recobrasse alguma consciência, uma forma de cognição muito estranha, apesar de perfeitamente límpida e até coerente. Que seja descrito, então, a partir daqui, tudo o que ele viveu por momentos não muito rápidos, que se sucederam sem interrupções e estão gravados em sua mente — fato este, até hoje compartilhado com pouquíssimas pessoas.

Em um primeiro momento, Vincent, apesar de ligado aos aparelhos, não muito sedado, em coma, os dados vitais seriamente comprometidos, acorda aqui, neste espaço. A mente completamente sã, os reflexos vivos, ágeis, a respiração sem alterações, os olhos atentos, tentando, em sincronia com sua mente, compreender e registrar o que se passa e que lugar é aquele. A sua primeira constatação: trata-se de um ambiente retangular, o qual não se pode medir, porém não estreito — muito menos apertado ou claustrofóbico. O lugar é grande o suficiente para que não se enxergue muito bem o que há na outra extremidade do retângulo. Há de se convir que não há muita luz e que o vermelho escuro, mesclado ao negrume das paredes, não ajuda muito na visualização de qualquer coisa que se apresente a alguns metros dos olhos. Não faz frio, não há sequer uma brisa. Sente-se, ligeiramente, um conforto morno, agradável até. O rapaz percebe que se encontra vestido, mas não é possível dizer exatamente como. A visão que, posteriormente, Vincent guarda de si mesmo, é aquela em que se encontra de costas, vestido de jaqueta de couro marrom, uma calça jeans surrada qualquer e sapatos. Coisas aleatórias que nem mesmo saberia dizer se tratavam exatamente de posses suas.

Desde então, não há registros de emoções fortes, como medo, angústia ou pavor, o que permite ao jovem chegar até bem próximo da outra parede, o suficiente para enxergar o que existe lá do outro lado. Afirma-se, aqui, ‘chegar ao outro lado’, porque em nenhum momento foi possível, apesar da seqüência ter se dado sem interrupções, registrar Vincent caminhando até a outra extremidade do retângulo passo a passo, um pé atrás do outro. Há que se registrar, também, que, em nenhum momento, Vincent olhara para cima, a fim de descobrir o que, ou que mundo poderia haver sobre sua cabeça, se as paredes eram limitadas apenas até ali onde seus olhos podiam acompanhar, ou se acima tudo era escuro, avermelhado, ou mesmo infinito como céu.

Ele simplesmente estava na outra extremidade, próximo ao quadro grande, de molduras douradas, em detalhes de madeira, muito maiores que seu corpo, alcançando, facilmente, o dobro de sua estatura, ou até mais. Vincent se aproxima do quadro e se aproxima, também, da grande porta de formato quadrangular à sua direita, ao lado do quadro imenso que avistara agora há pouco. Esta experiência se dá de maneira absurdamente estranha, pois, enquanto anda, o rapaz enxerga, ao mesmo tempo, dois caminhos, como se pudesse enxergar para a frente e para o lado. E não só enxerga, como penetra, ao mesmo tempo, as duas direções. Ele enxerga e anda para frente, enxerga e anda para o lado, em um movimento muito assustador, mas que, naquele momento, não lhe provoca grandes indagações.

Vincent caminha. O movimento para frente é interrompido, continuando apenas o movimento para a direita, o qual, depois de dois ou três passos, o leva ao encontro de uma outra porta, onde tudo é muito escuro e silencioso, e apavorante, como quando se está na porta de um trem-fantasma e não se deseja entrar pelo túnel. Apesar da alusão um pouco infantil, o trem-fantasma é o que primeiramente vem à sua mente, quando Vincent tenta descrever aquela entrada. O rapaz sente muito medo, e é impelido por si mesmo para trás, de volta ao seu espaço marrom-avermelhado sem muita luz.

Quando caminha de volta, passando novamente pelo portal quadrangular, Vincent se depara com uma imagem, que até então não existia dentro do quadro de molduras espessas e douradas. O susto é tamanho, que o jovem sente uma leve pontada no coração, um frio que o toma de súbito e lhe faz comprimir as bochechas e apertar os olhos de aflição. A reação se dá mais pelo fato de encontrar algo que não havia antes ali, do que pela aparência da figura com a qual se depara. O homem que está lá retratado, não é pintado de forma muito parecida com a realidade.

Percebe-se o homem de baixíssima estatura. Não é possível lembrar direito se tinha cabelos ou não, velho, porém saudável, o rosto corado, bigodes brancos, um leve sorrido, mau e repugnante, selado em sua face, um ar de satisfação, que logo se explica pelas vestimentas pomposas e o cetro na mão: aquele homem é um imperador. O manto escorre pelo chão e os detalhes em veludo branco, marcado por insígnias de detalhe preto, que lhe identificam a dinastia, correm até a extremidade do quadro, limitadas apenas pelas molduras douradas, acima do chão, pouco além dos olhos espantados de Vincent.

Não é possível afirmar qual o tempo transcorrido entre o espanto inicial do rapaz e a contemplação estranha igualmente assustadora a que ele agora se dedica na tentativa de compreender cada detalhe da criatura bizarra, jamais vista anteriormente, instalada em frente aos seus olhos. Vincent registra tudo que pode. Algumas partes se tornam nebulosas, como o que se apresenta logo atrás do homem retratado, que por vezes, parece ser a sacada, talvez de um palácio, um palacete, em uma região não muito arborizada, porém gramada, fria, e por vezes não passa de superfície lustrada, espelhada, que reflete seus olhos espantados e seu movimento lento, quase imóvel.

O rapaz se afasta. Sente-se muito mal, neste espaço alheio a tudo, surgido do imenso nada, onde não se conta o tempo nem se pode chamar por ninguém, de coisas que aparecem, sem sentido, e o fitam de forma enigmática.

Vincent vê o holograma. Ele se situa abaixo da cintura do rei, abaixo do cetro, sob uma placa estranha que agora pode ser vista, e que antes, absoluta certeza, não se encontrava ali. A experiência é asquerosa, pois o holograma mostra que naquele espaço só há lugar para um imperador e um súdito. E é este súdito quem deve atender aos desejos do rei, e lhe atender os pedidos, que agora se concentram em um grande falo lustrado, da mesma cor que o resto do corpo do rei, ereto, entre as pernas daquele homem. A figura no quadro está imóvel, mas os olhos estão vivos e se comunicam diretamente com a mente de Vincent. Exigem dele que a vontade pervertida do rei seja atendida e as ordens sopram, dentro de sua mente, em tom altivo e ameaçador, que o holograma deve ser atendido e Vincent deve atender logo ao desejo do velho rei sem nome, antes que algo de ruim lhe aconteça, e não seja mais possível, nunca mais, voltar para o outro lado do retângulo, onde está toda a vida conhecida.

É neste momento que o rapaz percebe que o retângulo é o lugar onde se encontra o avesso do espaço em que as coisas existem. Ele contém o seu enjôo e o medo, aperta os olhos, tentando enxergar além do que existe a poucos metros ao seu redor. Resta apenas um dos lados dos triângulos para ser explorado, a parede à sua esquerda, para onde ele corre, sem olhar novamente para o holograma, e aporta, depois de passos largos, rápidos, numa corrida intensa, como quem foge de animal selvagem que o persegue, faminto, numa jornada decisiva.

Situa-se aí uma janela, de quarenta por quarenta centímetros. Não é preciso muito esforço para subir até ela e enxergar o que se encontra através de suas bordas, do outro lado, que apesar de muito nítido e bonito, não parece ser o lado para onde se deve seguir. Há, deste lado, grandes e imensas árvores de um verde muito claro, quase pálido, porém bonito, fosforescente às vezes, das quais não se pode enxergar nem as raízes, nem o topo, longilíneas, muito compridas e finas, ao lado de cipós, igualmente verdes, não muito pálidos, todos atingidos, numa cadência de freqüência precisa e inalterada, por ventos e gritos humanos, que surgem, sempre de uma mesma direção, e partem, em direção à outra, fortes e ríspidos. Gritos que não dizem nada e caminham junto com o vento, balançando as árvores dentro da janela.

Vincent coloca a cabeça para dentro deste lado, em que tudo é branco, árvores e ventos de grito. Procura por sua amiga Caliel, que ele sabe que inexplicavelmente está lá dentro. Ele não sabe o porquê, mas tem certeza, ela está lá. A cabeça da moça, como quem também está em outra janela, aparece e lhe abre um sorriso extenso, os olhos vivos, o semblante leve. Ela grita para o amigo: “Volte! Abra todas as minhas mensagens, precisarei, muitas vezes, conversar em silêncio com você!”. Ele obedece, tira a cabeça de fora da janela e quando toca os pés no chão, abre os olhos e ouve “Bom dia, Vincent, que bom que você acordou”. Alguns minutos depois aparecem no quarto o irmão, Denis, a namorada, Nadia, os pais, os amigos Sheila e Giovanni. Ele sorri cansado para todos. Precisa descobrir quem é a mulher chamada Caliel.

domingo, 15 de julho de 2007

Inferência

Você é estas camisas, estes pares de sapato, estes cigarros, poucos salários mínimos. Cerveja na sexta-feira, no sábado, macarrão no domingo. Haverá dois filhos, um carro aos 34, um câncer de pulmão, mulher sempre ao lado, um Deus duvidoso no coração. Você é este homem médio, um tédio.

Observação: não haverá pontos discrepantes.


________

terça-feira, 10 de julho de 2007

Máxima (recorrente em mim)

Emulações fomentam o kitsch.

[quase inevitável]

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Foi feliz sem errar [Da Série: Foi Feliz Para Sempre]

O Arrualdo, apesar de ter este nome, que ninguém nunca soube de onde veio, foi um homem feliz: passou a vida sem nunca ter pisado num cocô de cachorro, sem nunca ter a camisa branca manchada em qualquer lugar na rua. Quando pequeno, foi tão popular, que o nome estranho não foi notado por ninguém mal intencionado. Quando cresceu, nunca faltou ao trabalho, nunca ficou doente sequer um dia para irritar o chefe, não fez questão de virar chefe, nunca errou uma vírgula sequer nos documentos que redigia. Nunca nem brigou com a mulher (uma vez que ela foi embora, foi por causa da sua perfeição - ela se sentia um pouco incomodada com toda aquela competência -, mas tudo se resolveu em brevíssimos três dias), tiveram dois filhos exemplares, perfeitos, que nunca foram parar na cadeia, nem bateram o carro, nem consumiram drogas. Foi um pai exemplar, foi um marido exemplar. Viveu sem errar, e foi feliz para sempre.

terça-feira, 12 de junho de 2007

"Threesome (a new one)" ou "Análise Combinatória: questões sexuais"

male female male
male shemale male
male male male

female male female
female shemale female
female female female

shemale male shemale
shemale female shemale
shemale shemale shemale

male female shemale

terça-feira, 5 de junho de 2007

Papel de parede

Não sei por que, mas resolvi, só agora, falar sobre isso. Não que eu esteja afirmando que você deva espalhar as coisas aos quatro ventos, mas é que chega uma hora em que a gente não consegue guardar segredo. As coisas têm sido muito boas para mim, tenho andado realmente feliz pela rua. É como se, ao final do dia, eu estivesse sempre destinada a receber o melhor dos presentes que alguém nesta vida poderia receber. Já tive medo de me entregar a fantasias, mas agora percebo que tudo tem sido perfeito mesmo. Por que não? É verdade que a gente deve desconfiar da felicidade, quando parece que ela realmente chegou (ou quando achamos que ela tenha chegado). Como dizem, quanto maior a altura, maior a queda. Eu sei. Eu sei também que esta é a felicidade sim, é a felicidade de verdade. Eu sinto.

Há anos, tenho que te contar. Eu sei que é absurdo, que parece ficção ou, como você costumava dizer, alguma coisa surreal: eu guardo uma pessoa dentro do meu quarto. Não em sentido metafórico, não se trata de expressão, gíria, nada. Eu tenho uma pessoa no meu quarto, há alguns anos. O nome dele é Jó, como o homem da Bíblia. Eu o encontrei um dia depois do meu aniversário de 27 anos, numa rua próxima à minha casa, enquanto caminhava de manhã. Foi muito bonito aquele dia, um dos mais lindos que carrego na lembrança. Nós caminhamos até a beira do lago, conversamos sobre música, filmes e sonhos, tocamos um a mão do outro, ficamos na ponta dos pés porque, você sabe, eu tenho mania de pedir que as pessoas que gosto façam isso quando eu me sinto bem. Eu me lembro do cheiro das flores, da sensação exata, do som, do farfalhar das folhas, do vento e da temperatura exata que pintava aquela cena da minha vida. A cena que ele também gravou na memória, e faz questão de me dizer sempre, principalmente depois das vezes em que fazemos amor.

Como me sinto ridícula escrevendo dessa forma pra você. Eu sei, eu sei que você deve estar rindo da minha cara, ao mesmo tempo em que se pergunta de que loucura eu estou falando, que brincadeira é essa que resolvi aprontar com você dessa vez, mas, por favor, entenda, é a mais pura verdade. Eu não brincaria assim com a minha felicidade e não voltaria a fazer contato com vocês assim, contando uma piada. É por isso que sempre pedi que não me visitassem. Coisa pequena, estúpida, mas significa muito pra mim. E pro Alexandre. Eu esqueci de dizer. O nome dele é Jó, mas ele prefere que eu o chame de Alexandre. Jó é melancólico, é um tanto triste e monossilábico, além do que é bíblico, e isso só estraga as coisas. Ele prefere Alexandre, que é mais altivo, mais viril e polissílabo. É grande, exige que a pessoa gaste tempo pra falar. Eu também prefiro assim, e estou apaixonada por ele. Muito, minha irmã, como nunca estive. Eu amo muito o Alexandre. Como nunca amei ninguém.

Quando cai a noite, nós nos deitamos apaixonados, e conversamos sobre o mundo lá fora. Eu falo sobre as coisas que vejo no meu caminho para o trabalho, das conversas que ouço enquanto atendo às pessoas, conto sobre os muros da cidade, que agora andam grafitados, falo sobre as cores que resolveram colocar nos cruzamentos com as ciclovias, falo das crianças, que agora brincam confinadas dentro de uma quadra com grades perto da nossa casa, falo sobre as pessoas na feira, sobre as vendedoras uniformizadas nas lojas, sobre os carros, que correm estressados cada vez mais a cada dia, falo sobre as meninas que pintam o cabelo de vermelho e loiro, sobre a cor do céu, que a cada dia, apesar de parecida, nunca é a mesma. Falo sobre o céu, que nunca é o mesmo, a cada dia um céu diferente.

Ontem o céu era de um laranja cor de fogo, meio avermelhado, meio rosa, era um céu redondo, quente, muito quente, muito laranja, com riscos azuis, e brancos, e avermelhados. O céu que eu gosto de olhar quando lembro de dias de praia, de quando éramos pequenas e passávamos os domingos em companhia dos nossos primos.

O Alexandre não vê o céu. No início, eu me sentia desconfortável em ter que aceitá-lo assim. Não que as coisas tenham piorado, mas trata-se de um troca, um pacto em que eu o amparo em seus desejos, e ele me ampara, me dando amor em troca, me dando a si mesmo, se entregando para mim. Aconteceu tudo tão naturalmente, tão delicadamente que, de repente, eu me peguei assim, tendo alguém tão somente para mim, e apenas para mim. Eu tenho este mundo que é meu e gosto de viver assim. As pessoas fazem escolhas, e este foi o caminho que eu escolhi. Acredite, estou muito feliz. É uma questão de tempo pra que eu volte a visitar vocês. Eu não me importo se tenho que abdicar de coisas que o mundo, este aí fora, nos reserva, eu não me importo se tenho que viver este outro mundo aqui dentro, de duas pessoas felizes sós. Eu não me importo.

Sabe, quando eu te encontrar e contar pessoalmente, você vai achar tudo muito estranho no início, depois você vai achar engraçado, talvez anômico, talvez errado. Mas nós sabemos o que estamos fazendo. Somos felizes assim.

O Alexandre foi, aos poucos, se retraindo. Ele não gosta muito das pessoas, faz pouco tempo, parou de falar ao telefone. A família dele não compreende. Eu penso em nós dois... Nós não precisamos de muito, sabe? Nós, nós estamos bem assim. Eu me sinto responsável por quem ele é, porque sou eu quem o informa sobre tudo o que acontece fora do nosso mundo de dois. Sou eu o filtro que ele precisa pra enfrentar alguns pensamentos ruins. Mas fico feliz, muito feliz por fazer bem a ele. Apesar de não sermos casados na igreja, no papel, ele é o meu marido. Eu até uso uma aliança. Você vai ver. Da próxima vez, enviarei fotos!

Até pouco tempo atrás ele era uma pessoa muito comunicativa, trabalhava como executivo numa grande empresa aqui da nossa cidade, sempre foi bem sucedido, de família boa, muito rica. Aos poucos ele foi sendo tomado por um sentimento muito grande de insatisfação com o mundo, uma desilusão muito grande, que eu entendo, que você também entenderia se o ouvisse dizendo, mas que o tomou por completo.

O mundo faz isso com a gente, minha irmã, você sabe disso. Cada pessoa reage de uma forma e esta foi a forma como ele reagiu. Quando eu o conheci ele estava a ponto de desistir de tudo. Felizmente nós nos encontramos. Era uma época em que eu também andava sem rumo por esta cidade, sem planos, sem emoções, sem amigos, vivendo apenas de trabalho, de salas frias, de pessoas desconhecidas. Viver assim foi o modo como encontramos nossa segurança. Eu sei que um dia você vai entender. Prometo, mandarei mais notícias, mandarei fotos. Você verá como nossa casa é bonita, do jeito que sempre sonhei. Temos um jardim de margaridas e gerânios, na sala pendurei o quadro que você me deu quando saí de casa. Nosso quarto tem um cheiro bom, é forrado por um papel de parede lilás, cheio de flores pequenas, rosadas, quase imperceptíveis. É tudo muito confortável, quente, muito calmo e sereno. Pela manhã, eu preparo café, nós comemos bolo de laranja e geléia na cama. Nós cantarolamos e inventamos histórias engraçadas. Ele sorri quando eu acordo e olho dentro dos seus olhos. Se eu pudesse, passaria dias dentro do meu quarto. Tenho vivido dias muito felizes.

Gostaria de me estender, já escrevo ansiosa pensando na próxima carta. Por favor, peço perdão a todos, peço que me compreendam. Estou feliz assim. Mande beijos a todos em casa, à mãe, ao Manoel, ao Ricardo, à Ângela e à Ludmila. Diga ao Beto e à Letícia que amo muito os dois. Todo o amor do mundo pra você, um beijo imenso, especial pra você e pra mãe. Diga a todos que estou feliz, que os amo muito. Te amo muito, muito, muito. Até logo,

Madeleine.


_______________________________________