sábado, 31 de março de 2007

Homem

Ápice, dorso, face inferior, raiz.
O homem tem gosto, é sexo, e falo.

sexta-feira, 30 de março de 2007

Internet

Clica,
Clica,
Clica,
Ô, vício!

Não tem mais o que fazer, não?
Tá branco, a pele, parece uma larva,
Não toma mais sol,
Não vai mais à praia.

O mouse,
A tela,
O site,
A janela.


Olha lá fora,
a janela,
Idiota.

O calo,
Na mão,
Microfone,

O w.

O w.
O w.
O w.
Pateta.

Não cansa, o dedo,
O olho,
O corpo?

Não cansa, a mente,
O braço,
O corpo?


Olha:
levanta.
respira.
A rua.

Saia,
Da frente,
Do meio,
Do nada.


Clica, aperta,
Desliga,
Não volta.



Não volta agora.
Não pode: a caixa de e-mail.

Seqüela,
Sucumbe,
Viaja,
À noite.





E se alguém me mandar alguma mensagem?

Indústria

Nesse ritmo,

industrial.
Vai,
produz assim,
Mesmo que não consiga cem por cento.

Produza,
Oproudaz
Aorudaz,a
Aogora,

Agora, agora.

Prossegue,
segue,
Não pensa,
Produza,

Produza,
Monde, t,e

Monte,
defeito de fábrica.


Direito, diretio do de se
Deireioteo
Dirieoto
Direito
Direito do consumidor.


Consolida.
Consolida, Leis do Trabalho
Leis,
Leis do trabalho

Rporuaz
Porouda
Proudz
Pouruz
Prduz
Proudz
Prourd
Prou

Defeito de fábrica.


Profuz,
Pordufz
Produz.


Profusão.
De palavras.


Produz,
Prossegue,

Prossegue,
Não brinca.

Produz,
As férias,

As férias? O caralho.


Produz,
As horas,
Resulta.


Produz, Prossegue.
Capita, capitalista.

Pornografia

Pele, atrito, forte e suave. Seu ritmo. Não, o meu. O seu, o seu. Pára, saliva, corta essa onda, mostra, mostra pra eles, mostra, eu sei que você gosta. Gosto de saliva, gosto de beijo quente, beijo. Cala, cala a boca. Desconcentra. Pisca, aperta os olhos, não quer, não quero voltar a mim. Volta a si. Não, não agora. Música alta. Desconcentra, luz apagada, prefere assim. Atrito. Atrito, forte, a pele, o pelo. Explora, cada parte, com calma, tem a noite toda. A rua, os outros, o toque. Xinga, as paredes, a cama e o teto. A água, o cheiro, o cheiro e o cheiro. Bate, morde e geme. Suga, gosto de boca. Eu vejo este teu pescoço. Vê, sente. Com calma. Assim, com calma, abaixa a música, entra no lençol, não fala nada. Pouco de álcool, sílabas tortas. Lambe, gosto de saliva. Lambe, lambe a minha boca. Deita, macio da cama. Lençóis brancos, macio, suave, geme. Xinga, xinga, desconcentra, bebe, o álcool, dá risada. Espera. Espera, beija. Aperta o meu rosto sua mão quente. Aperta. A pele, o ato. Continua.

Vazio

O poeta queria escrever sobre o vazio.
Não conseguiu.


Achou que poderia escrever, então, sobre o cheio.
Mas estava vazio de idéias.

Cheio

Talvez não seja tão fácil falar assim sobre o cheio, disse o poeta (pseudo, a essa altura).


Esvazia o copo. Vodka. Limão.

arte

a arte é isso, e aquilo.
é o momento, o micro, o ínfimo, o nano.
o nano, e o vitual também.

é este instante,
o fazer neste segundo,
a ação sem explicação.
é isso a coisa sem razão?

é a existência,
o fazer arte-vida,
vida-arte.

mescla de prosa e verso, arte sem forma. (contradição neste instante, a partir daqui). (esta arte era pra uma pessoa apenas, mas se expandiu, e ficou pra todos).

arte é existência, e a música que se ouve quando se olha pra dentro de cada pessoa ao lado, pra este, este, este, este, esta, esta, esta, esta, esta, esta, esta. arte. as pessoas hoje estavam tão iguais, não num sentido ruim, num sentido bom, como se estivessem em harmonia, dentro de suas reflexões.

arte é este instante. é o olhar dentro dos poros.

quinta-feira, 29 de março de 2007

Transtorno

Sim, é possível que um carro te atropele e você morra, logo assim que sair do restaurante, exatos dezesseis minutos depois de você marcar a data do casamento, beijar sua noiva na testa e dizer que a ama, mas que tem de voltar ao trabalho, já que ainda faltam dois meses pra que seu período de férias tenha início e vocês possam ir para aquela casa de praia que a vizinha de anos da casa dos seus pais, e que pra você é como parte da família, fez questão de ceder para vocês, noivos mais felizes do mundo.

É possível que você sente no banco da praça, que parece até limpo o suficiente pra não sujar sua calça, mas acabe pegando uma doença de pele, porque uma velha moradora de rua, cheia de verminoses, fungos e sarnas acabara de se levantar, depois de dormir ali pelas últimas três horas e vinte e nove minutos. Esta senhora vive há quarenta e dois anos no centro da cidade, foi abandonada pela família, passou a ter transtornos mentais, alimenta-se de restos que encontra nas lixeiras. Há pouco, enquanto dormia no banco da praça, sonhava com um copo de geléia, não sabia exatamente do que era, se de amora, de morango ou uva, mas era uma geléia boa, o gosto de coisa boa, comprada em supermercado. A história da velha não vem ao caso. É possível que você não consiga se livrar da doença de pele por um bom tempo, é possível que ela dure quatro meses, que os médicos lhe receitem as pomadas erradas, e que sua bunda coce demais e te deixe irritado durante o dia. É possível mesmo que, no trabalho, afirmem que você passou a ser uma pessoa mal humorada, mas você então preferiria continuar como um mal humorado do que como alguém que pegou doença de pele da velha da praça, achando que foi a areia da praia no final de semana.

É possível que você pegue AIDS. Imagine se acontece como naquela série de TV, em que o cara foi contaminado porque assassinava uma mulher infectada e, durante o ato, uma gota de sangue foi lançada pra dentro do seu olho e só aquela gota, aquela gotinha fez com que ele fosse infectado também. Imagine. Não que você tenha necessariamente que matar uma pessoa, mas, e se tivesse? Você não mataria se fosse por legítima defesa? Se tivesse que matar com algum objeto cortante, tipo faca? Correria o risco de ser atingido por uma gota de sangue. É certo que, nesse caso o azar seria triplo, já que você estaria sendo assaltado, ou sendo vítima, sei lá, de qualquer coisa que exigisse legítima defesa; segundo, que teria que matar a pessoa e, terceiro, que esta seria uma pessoa com AIDS. Ou melhor: seria quádruplo o seu azar, já que você seria infectado.

Poderia ser de outra maneira: você talvez confiasse muito, mas muito mesmo na sua mulher e, por mais que vocês trocassem juras de amor, conversassem abertamente sobre todos os problemas e vivessem por quase uma década juntos, você desconhecesse que ela sofria de dupla personalidade, e que esta outra personalidade dela estava disposta a transar bonito com qualquer cara que encontrasse por aí, nas noites de sábado. Ou de terça-feira. Talvez fosse uma outra personalidade que não transasse com qualquer cara por aí, mas que tivesse um fetiche especial por açougueiros, e que além disso não se importava a mínima em usar camisinha, mas que só se preocupava em sentir o cheiro de carne e sangue, enquanto envolta em braços fortes, com cheiros de suor recém saídos de um dia inteiro de trabalho, em meio a ossos, gorduras e carnes frescas, lavando de sangue o balcão. Talvez um desses açougueiros, numa noite, mas numa única noite, resolvera entrar no puteiro, pagar por uma trepada e nessa única vez fosse infectado por uma prostituta ninfeta, de peitos pequenos e cabelos ruivos que, indiretamente, seria a causa, também, da sua contaminação pelo vírus.

É possível que você fique preso no elevador, durante um apagão de duas horas, justamente num dia em que voltava do trabalho porque estava com uma tremenda caganeira, e que além de ficar preso no elevador, o sujasse inteirinho de merda, e depois de vômito, porque na quarta cagada o cheiro começara a te enojar, te enjoar e te deixar quase louco, mas não só louco, como quase morto de vergonha. É possível que a partir desse dia todos os vizinhos soubessem quem era você, o que tinha acontecido, e que, a partir daí você não tivesse mais paz, até que resolvesse mudar de condomínio, mesmo gostando muito daquele, que ficava perto da área de reserva ambiental da cidade.

É super possível que um bêbado cuspa na tua cara num dia destes aí, ou então que você engula sem querer aquela moeda holandesa da coleção do seu primo e que morra engasgado de maneira tão estúpida, mas tão estúpida, que os seus amigos sentiriam tristeza e raiva de você no dia do seu enterro. É possível que um avião caia em frente à sua casa, que você receba uma fortuna de indenização, porque teria de passar quatro meses fora do bairro, a fim de que os estragos fossem todos reparados, mas que você, depois de viajar pra fora do país usando todo o dinheiro vindo da companhia aérea, percebesse que a melhor coisa a fazer era mesmo ter investido em títulos, pois a ameaça de desemprego não era apenas sensação, era real e iminente.

É possível que você se apaixone pela pessoa errada e fique em depressão por quase dois anos, até que ganhe um cachorro do seu padrinho, e esqueça aquela praga que tanto te fez chorar. É possível que, num dia de lua cheia, enquanto olhava o céu, deitado na piscina de plástico no quintal de casa, você tenha uma idéia revolucionária, capaz de mudar a ciência, o país e os destinos do mundo, e que seu nome figure por muitos e muitos anos nos arquivos das bibliotecas virtuais, na internet, nas ruas e nos nomes de pessoas que foram assim nomeadas para homenagear o gênio que você foi.

É possível que um monte de coisa ruim aconteça. Que coisas boas aconteçam também. Eu até acho que sim, mas não acho tanto. É possível que eu deixe essa chácara, e volte pra cidade, deixe o cheiro de terra, a horta e os peixes, mas não sei não, tenho que ponderar as coisas. É possível que eu não me adapte novamente ao ritmo dos carros, das pessoas e dos aviões. É possível que eu fique um pouco paranóico, e não consiga conversar com as pessoas, que preste mais atenção em suas salivas, e tome cuidado pra não ser atingido por elas, enquanto converso na padaria de manhã, e que elas me achem completamente louco, por pensar na minha saúde, na delas, e no bem estar das nações. É possível que eu nunca seja compreendido, porque as pessoas não gostam de parar e refletir sobre as coisas boas que a vida tem a nos oferecer. Que merda.

domingo, 25 de março de 2007

Margem

Você é margem,
Você é margem.
Quem é você, você que é margem?
Reconhece a si mesmo como tal?

Margem, margem que não é o centro, que está no fim, periferia, ponta do raio.
A margem não é o centro, não é o senso, não é o senso.
Margem: "maneira não estatal de pensar".
Ou ainda: ciência, arte, filosofia.
A margem, o ser maginal fascinante.

Quem é você, você que é margem?
Escolheu este caminho ou foi aí colocado pelo destino que não existe?
Quem é você, ó, ser marginal?
Margem: a margem, que não é centro, que é minórica, que é bela, e nova.
E nova.
Inova, Margem!

Margem que desafia, marginal que canta, que grita.
Margem que não é centro, que inova, que inova.

Margem, a margem que briga por vez, e voz.
Periferia, a margem que não é núcleo,
e por isso, inova.

sábado, 24 de março de 2007

Segredos

Começou com esses hábitos por volta dos doze, treze anos. No início não tinha noção do que era considerado certo ou errado e por isso não demonstrava vergonha. Aos poucos percebeu comentários e atitudes dissimuladas. Com o tempo, aprendeu que devia ter cuidado antes de dizer e manifestar certas opiniões.

Utilizava sempre um relógio de pulseira vermelha, emborrachado, que apesar de ser vermelho não chamava muito a atenção de quem estivesse perto. Definitivamente era um vermelho discreto, um vermelho incomum. Ganhara do amigo de infância.

O hábito de usar relógios, ninguém nunca descobriu de onde viera. Havia começado assim, com aquele de pulseira vermelha recebido como presente do amigo, e várias vezes os dois compraram daqueles objetos, os colecionaram, buscaram modelos novos, os feitos de madeira ou mesmo os mais modernos, que também eram interessantes.

O tempo passou. O relógio de pulseira vermelha um dia envelheceu, mas ele o guardou para o resto da vida em uma caixa adornada de postais antigos, que encontrara na casa gigantesca, para a qual a família se mudara quando seus dois irmãos mais novos ainda nem eram nascidos.

Comprara outro, em formato hexagonal, os ponteiros negros, ligeiramente desenhados, em formato de espadas, os números igualmente marcados por contornos caprichados, obra meticulosa, sabe-se lá vindo de que pequena fábrica, situada do outro lado do oceano. Provavelmente havia sido feito logo no início do século XX, talvez ainda na última década do XIX. Pulseira negra, de couro macio, um tanto fosco, charmoso, encaixe perfeito no pulso. Comprara de um velho ucraniano, vendedor de quinquilharias que morava na entrada da cidade.

Por volta dos dezessete meteu-se na primeira briga motivada claramente pelo fato de admitir que gostava de relógios. Um rapaz desconhecido o ameaçara, e por não ser desses que pensam muito antes de defender a própria honra, não hesitara em partir pra briga. Um relógio novo arranhado, o braço do desconhecido quebrado, hematomas que insistiram em ficar presentes por mais de duas semanas, contudo, o orgulho mantido e a honra lavada.

O pai do amigo tivera de mudar de país. Triste e necessário, dessas coisas que acontecem durante a vida e que não se pode impedir que aconteçam. Ambos sentiram pesar, por tempos e tempos, até que a saudade tornou-se lembrança boa apenas. Conheceu outras pessoas que, como ele, podiam passar horas falando sobre os modelos, as marcas, curiosidades e prazeres sobre relógios, as peças antigas, o barulho singelo de um tique-taque rompendo o silêncio da madrugada, o cintilar de pêndulos, o vento que sopra entre um segundo e outro.

Aprendeu a driblar os inimigos, compreendeu sua incompreensão. Com os amigos reuniu-se pra gargalhar dos tolos, seguiu a vida, seguiu em frente. Manteve o primeiro relógio naquela caixa antiga, que desintegrava com o toque das mãos. E ao lado daquele, vários outros, cada um com um pouco de si, incrustando entre adornos, memórias e momentos que não voltariam mais.

Aos trinta e quatro conheceu Elisa, professora de francês, fascinante em sua simplicidade culta, elegante, atraente. Cultivaram por muitos anos paixões mútuas, um pelo outro, os dois pelos relógios. Por muitas vezes guardaram prazeres entre quatro paredes, a fim de que não fossem condenados pelos outros ao redor. Elisa tinha reputação a preservar e por isso, o prazer era sempre marcado por um pouco de tristeza. Talvez um pouco de culpa.

Por vários anos permaneceram juntos, por vezes uma vida de gueto, por vezes desafiando a todos, exibindo-se, embriagados, em noites frias de ventos que parecem cortar a pele. Foram felizes, e preocupados, e cautelosos.

Elisa transformou-se em amores, companhias, amizades, Paulo, Ângela, Audrey, Paulina e Gustavo. Todos apaixonados, seduzidos por relógios, por histórias. Condenados, desafiantes, pessoas que foram, e ficaram, e marcaram.

Poucas vezes sucumbiu à dúvida, manteve suas posições. Pensou nas perseguições, nos prazeres e nas pessoas. Pensou nesses hábitos estúpidos, coisas das quais nem se devesse falar, coisas que estavam aí pra serem vividas.

Pensou em como as pessoas eram estúpidas. Em como eram estúpidas.

quinta-feira, 22 de março de 2007

Diário de campo

Imagino este ethos como uma cebola, cheia de camadas, cheia de círculos internos, que se protegem, que não se tocam. A extremidade de um círculo tocando a extremidade do outro, partes que não se conhecem.

Não sei, talvez pensando assim, eu descubra o segredo desse povo. E chore a cada descoberta.

quarta-feira, 21 de março de 2007

Sem título

Ela tinha um cabelo lindo. (Elatinha, cacofonia do cacete...)
Ela tem este rosto angelical. (É, lá tem, lá tem...)
Cabelos que tocam delicadamente a brisa que sopra da janela. (Sopra da, para ou pela janela? Não, porque a janela não faz soprar vento nenhum, o vento vem lá de fora, passa pela janela. Passa pela... passapêla...)


(Muito ruim)
Papel = bolinha de papel.
Fecha a porta, sai pra ver as pessoas lá fora...

sexta-feira, 16 de março de 2007

Emergente

— Moleeeque!!!! Ai, menino, não faz xixi aí não! Não tá vendo que aqui vende coisa de comer? Ai, que horror, por isso que fica tudo fedendo aqui. Sai daqui, por favor..., você não tem mãe não? Vem cá, onde você mora? Ai, meu Deus, todo sujo... Isso é hora de criança ir pra escola, você tá em qual série? (...) Nossa, tô achando lindo, muito debochado você, nossa, parabéns! Garoto, não senta aqui não, assim você espanta freguês. Sai daí, anda, eu vou chamar meu marido, hein. Não, melhor, eu vou chamar a polícia. Ai, meu Deus, por que isso comigo, Senhor? Por quê? (...) Ai, garoto, cê me faz até insultar o Senhor Jesus Cristo, perdão Senhor. Um dia eu saio desse lugar, lugar imundo de gente sem educação. Que merda... Que você quer? Toma essa maçã, toma esse dinheiro aqui, vai embora. Que você quer, hein, garoto? Como é que você chama, o gato comeu tua língua?

— Ah, vaisefudê!

— (...) Geraaaaaaaaaldo!!!

quinta-feira, 15 de março de 2007

Cavalos-marinhos

Ponte Rio-Niterói. Do Rio pra Niterói. Cinco horas da tarde, o sol terrível. Nesses primeiros meses do ano parece que tudo fica mais intenso. O calor, mais forte, as pessoas chatas, mais chatas, as insuportáveis, mais insuportáveis, os cheiros ruins, piores ainda.

O ônibus está lotado, não, ele não está apenas cheio, está lotado mesmo. Não dá pra mover um pé. Dizem que esses ônibus com aparelhos de ar-condicionado são melhores, mas no fundo eles acabam sendo câmaras de extermínio coletivo que matam aos poucos, a cada dia um pouquinho. Tornam debilitada alguma parte do seu cérebro.

Há caixas de som espalhadas pelo teto. O rádio está ligado numa dessas rádios de MPB. Isso irrita um pouco mais, pois não dá pra distinguir muito bem os sons. As pessoas falam alto demais.

Ali no meio, Ricardo. Pelo menos está sentado. Grande vantagem quando se trata de um ônibus lotado, cheio de gente suada, querendo aumentar os centímetros de espaço próprio ao seu redor. Não liga pra elas. Não vê a senhora que se espreita, tentando mostrar que carrega bolsas pesadas, e que ele bem poderia carregar no colo pelos próximos quinze minutos, não vê o rapaz de boné, que quase lhe come com os olhos, imaginando coisas que as pessoas acabam imaginando quando se está tão próximo assim dos outros, não vê os aviões que pousam no aeroporto ali ao lado, não vê os carros, nem a água.

A única coisa que Ricardo consegue enxergar são dois cavalos-marinhos. Dois cavalos-marinhos azuis. São três ou quatro tonalidades de azul atraente. Até há pouco escondiam-se na nuca da garota no banco da frente, mas o calor a levara a prender os cabelos, felizmente. Era a melhor visão do dia, dois cavalos-marinhos azuis, graciosos, de olhos bem pretinhos, sem essa parte branca que as pessoas possuem. Ricardo não sabia se olhos de cavalos-marinhos reais eram exatamente assim, foi um pensamento que o acometera logo no início, mas que passara muito rápido, como um flash.

Seus pêlos eram claros e bem fininhos, desciam o pescoço transformando-se em penugem, de fios tão curtinhos que, quase não se podia ver. Ela passava as mãos em volta do pescoço, abanava, olhava para o mar, sem notar a presença de Ricardo ali.

Ele querendo muito puxar assunto, ela sem saber da sua existência. Não tinha como falar alguma coisa. Porra, se ao menos estivesse do lado dela, seria mais fácil. Esses papos de ônibus costumam render tanto, como é que ia deixar escapar aqueles cavalos-marinhos? Ia fazer o quê? Perguntar as horas? Seria patético. Tinha mesmo que ter sentado ao lado dela...

Pensou, apertou as sobrancelhas, mas logo parou de se culpar, porque não havia como imaginar que fosse encontrar um gata daquelas naquele dia e naquela porcaria de ônibus também. Ele não costumava pegar a ponte naquele horário, não tinha como saber se ela estaria ali amanhã. Ou melhor, era só arriscar... Poderia voltar no dia seguinte, subir no primeiro ponto e esperar que ela aparecesse em algum lugar. Não... Era um pensamento estúpido demais por dois cavalos-marinhos azuis.

Pelo menos da culpa por não ter se sentado ao lado dela, ele tinha rapidamente se livrado, afinal, se estivesse ao seu lado, não veria a tatuagem, e não se apaixonaria pela sua nuca. Seria tudo diferente. Talvez ela tivesse alguma outra tatuagem no pulso, algo que o atraísse igualmente.

Agora o ônibus passava pelo vão central. Todos em seus lugares, imóveis. O sol, a música, os barcos, tão lânguidos, tudo tão pesado, e Ricardo, que fantasiava. Mordeu os lábios com força, esticou as duas mãos, segurando firme no ferro do banco da frente, como quem se agarra temendo a velocidade de um veículo que corre muito. Esperava que, por algum momento, ela se afastasse, para se ajeitar, ou então, por causa de algum solavanco do ônibus e, pelo menos por um ou dois segundos, os dedos tocariam os azuis de sua pele.

Mas isso também não aconteceu.

A essa altura, estava excitado, ajeitava a mochila no colo, respirava um pouco mais fundo, soltava o ar com força, passava as mãos pelo cabelo, e depois as passava pela face, revelando um doce, mas contido, desespero.

O rapaz em pé, ao lado, notava que o outro ali, sentado, observava a moça e os cavalos-marinhos. Observava o observar do outro e isso também o agradava. Tinha um sorriso no rosto, meio perverso, meio alegre. Se excitava com a excitação do outro, que ajeitava a mochila.

Tudo o que a mulher queria era que alguém segurasse suas malditas bolsas, mas ninguém lhe dava atenção. Será que pensavam que elas estavam leves? Elas não estavam! Que gente mais mal educada, individualista, que povo desgraçado. Com ela não era assim, sempre segurava as bolsas e as mochilas de quem estivesse em pé ao seu lado.

Os cavalos-marinhos começavam a suar. Aliás, o calor aumentava. Alguma coisa acontecera logo à frente, que fizera com que o trânsito se tornasse mais lento. O ônibus parou por exatamente quatro minutos, o suficiente pra que as reclamações despontassem aqui e ali. Primeiro um senhor que lia jornal, depois um militar, que viajava em pé, em seguida a mulher das bolsas, que já estava furiosa mesmo, e logo o ônibus inteiro, num grande alvoroço de vozes das quais não se podia mais distinguir umas das outras. Foi o abandono repentino da quase inércia dos corpos a causa do aumento de calor.

Não era nada para Ricardo. O rapaz ainda estudava alguma maneira de tocar os cavalos, e não só eles, mas todo o resto. Pensou em jogar uma caneta por debaixo do banco e pedir pra que ela a procurasse entre seus pés. Não era má idéia, não haveria como levantar suspeitas.

O ônibus voltou a andar, rápido até demais para que ele pudesse fazer as coisas com calma. Não ia dar tempo. E se ela resolvesse descer logo no primeiro ponto depois da ponte? Quem sabe fosse melhor assim? Ele desceria também, falaria com ela sobre os cavalos-marinhos, sobre como estava apaixonado por eles, por sua nuca, pelos azuis, perguntaria seu nome e em seguida trocariam beijos, muitos beijos.

De repente, desconcentrou-se, passou então a sentir o calor do ônibus, as costas estavam praticamente encharcadas. Foi então que os sons chegaram ao seu ouvido: a mulher, o senhor do jornal, as buzinas, a voz do Djavan nas caixas de som e até uma criancinha, que chorava. Da onde tinha saído a porra daquela criança? Chacoalhou a cabeça de leve, piscou os olhos repetidas vezes, olhou para os lados. Encontrou o olhar do carinha de boné, que o tempo todo, viajara ali ao lado, vigiando-o. Encararam-se por uma fração de segundos, os olhos de um bem no fundo dos olhos do outro. Olhar estranho, mas não lhe deu atenção.

Passaram da ponte, algumas pessoas desceram. Uma massa de ar se deslocou com as pessoas lá pra fora, que alívio! Deu pra sentir o ar que vinha da rua, mais quente ainda. A mulher das bolsas correu pra pegar um lugar, empurrou — com gentileza — uma jovem em trajes esportivos, que se preparava pra sentar ali. O barulho não acabava, parecia um pacto: quando um terminava, o outro tinha que começar a falar, pra quem quer que fosse, pro vizinho de banco, pra pessoa ao lado, pra berrar no celular ou xingar o motorista.

Cavalos-marinhos. O que são essas criaturas? Peixes, moluscos? Cavalos-marinhos são tão azuis. É tão relaxante e tão quente. Os cavalos-marinhos dançam nas penugens daquela nuca. Cavalos-marinhos são atraentes.

Apenas o rapaz de boné viu quando Ricardo pousou as mãos nos ombros de Isabela e encostou seus lábios delicadamente nos azuis dos cavalos-marinhos.

Ela ainda estremeceu, quando sentiu o úmido e quente em sua pele, mas as mãos macias de Ricardo a puxaram, impedindo que levantasse. Ele ainda teve tempo de contornar os cavalos com a língua, a moça soltou um som abafado, depois conseguiu gritar mais alto. Ricardo olhou para o rapaz de boné, seu cúmplice. Isabela ainda agarrou seu agressor pela mochila, quando este levantou desesperado.

O alvoroço no ônibus era igualmente animal, alguém ali na frente discutia por causa de uma cotovelada. Ricardo tropeçou, pisou no pé de alguém, de alguém e de alguém, a jovem atlética conseguiu pegar o lugar que ele deixara vazio. Dali era possível enxergar duas coisinhas azuis, cobertas pelo cabelo desgrenhado de Isabela, que chorava.

Certas tardes são assim. Deve ter sido mesmo o calor.

Verbete

Cautela: substantivo feminino, origem no pragmatismo.
Cautela: é sempre bom pensar no pior.

quarta-feira, 14 de março de 2007

Um drama

— Ai, Suzanaa, ele é tão bonitinho!!! Pena que tem cabelo grande, que drogaaa!!! Ai, miga, eu tento, mas não consigo parar de pensar nele, eu até já tentei sair com o Jefferson... e com o Felipe daquela vez, lembra?, mas o que eu quero mesmo é o traste, aquela praga do Patrício. Isso é nome italiano, não é? Ah, sei lá, mas quando eu falo Patrício, toda vez que eu falo esse nome eu lembro daquelas aulas sobre Esparta e Atenas do professor Joel! Tipo assim: nada a ver! Hahahahahahaa!!!! Mas é sério, tô malzona por causa disso. Sabe, eu acho até que ele gosta um pouquinho de mim também. Lembra daquela vez que ele pegou meu caderno emprestado? Então... Ai, que fôfooo!! Que tudo ele! Ai. O Patrício é mó gatinho, mais bonito até que o seu primo... aquele mais velho. Se ele me pedisse pra ficar, eu ficava. Na hora. Nem pensava. (...) Mas só se tivesse cabelo curto, bem curtinho, tipo assim, igual do teu irmão. Nossa, passo mal! Caraca. Quê? Eu já. Já imaginei ele de cabelo curto umas mil vezes! Até fiz montagem no meu PC! Depois te mando. Ou melhor: depois te mostro aqui em casa, sei lá o que você pode fazer com a foto, hahahahahahahaa!!!! (...) PATRÍCIÔÔÔ!!!! CORTA ESSA PORRA DE CABÊ!!LO!!!!!! (hahahaha!) Hahahahaha!!!!, Ai, tô lôca! Quê?, não, minha mãe saiu... peraí, acho que ela tá chegando agora. Chegou. Amiga, tenho que desligar, te amo tá?, me liga, beijo!

terça-feira, 13 de março de 2007

segunda-feira, 12 de março de 2007

Dadaísmo

O dadaísta parou o que estava fazendo para se dedicar à escrita fortuita. Estava lavando a louça do almoço. Coisa banal, dessas que se fazem no meio da tarde de sol. Tomou um gole de café, ouviu bela música francesa, teve inspiração. Pensou, pensou em coisa boa e em coisa triste. (Algumas coisas boas são tristes, refletiu. Refletiu pouquinho, não quis prosseguir. Talvez estivesse errado.)

O dadaísta refletiu e lembrou que usa a palavra ‘talvez’ muitas vezes. Pensou: tenho que evitar, assim como uso vírgulas demais, assim como procrastino demais com essa vida, assim como me desorganizo demais.

Voltou ao seu objetivo, que era escrever sobre o nada: ‘dada’, corruptela de ‘nada’. Talvez corruptela, porque o dadaísta não tem memória boa o suficiente pra dizer que sim, com certeza corrpuptela.

Escreveu errado. Corruptela. Quis deixar o erro. Porque estava escrevendo sobre o nada. Porque o nada pode sempre virar alguma coisa, porque o nada pode ser complexo. Porque resolveu parar, e voltar ao sabão e espumas.

sexta-feira, 9 de março de 2007

Puta

Risco. Risco no sangue, na rua, risca, ultrapassa a lâmina. Fala alto, mexe com gente na rua. Profissão: batom, prazer, instinto, o cheiro. Profissão: dinheiro, rua, cheiro de esgoto. Profissão: humilhação, dinheiro, fetiche. Profissão: profissão.

Corre, brinca no asfalto, riso sincero, forçado, sincero o risco. Áspera, olha, polícia. Olha, viatura que passa. Homem que xinga, bebe cerveja, cigarro, passa o tempo.

Fumaça, passatempo.

Mulher, ou de corpo híbrido. Vem o grito "puta" da rua.
Anda, corre no salto, age no assalto, mora no asfalto. Puta, profissão, puta, o sexo, o sexo.

Fração de tempo, este preço, o dobro, o triplo, o tempo. Cheira, engole, o falo, a fala. Excita, repulsa, o híbrido, o misto. Pára, o carro que vem. Um homem, dois homens, o preço.

Segue, não sabe se volta.

Mesa

Estão ali: mulheres em poses sensuais, olhando pra ele, em trajes vermelhos, em trajes pequenos, em trajes de couro, em cintas, em fetiches. Algumas sem trajes, algumas não olham. Algumas têm os lábios entreabertos como quem está prestes a fazer convite ("deite na cama comigo, venha, não fale nada"), algumas olham descaradamente, mostram a língua, lábios molhados. Algumas não dizem, apenas dominam.

Vira a página, propaganda de cigarro. Joga a revista pra perto do copo de uísque. Ficam ali, pousando ao lado de um relatório sobre o Banco Central.

Diálogo

Ela nunca percebeu, mas os momentos nunca foram diálogos.
Ela chega, fala, fala, fala, fala.
Ele olha, finge que escuta, balbucia um som de "concordo", ahã, uhum, sei...

Ela pensa que conversa, ele finge que escuta, ambos têm companhia, num diálogo de pessoa só. Ela não sabe, mas sempre foi um monólogo.

A pinta

Aqui no metrô ele é só uma pinta, uma pinta preta, redonda, abaixo do nariz, quase tocando seus lábios, sem pêlos, nem grande, nem pequena, mas suficiente pra que seja notado. Não chega a ser feia, a pinta, mas chama atenção. Ao primeiro olhar parece mais uma sujeira, mas não é sujeira. Será que ele pensa nos outros que pensam em sua pinta? Talvez não, o cara nasceu com aquilo, convive com a bolinha preta entre o nariz e o lábio superior desde que se entende por gente, não é possível que ligue pra isso. A gente é que liga pra essas coisas, principalmente quando entra no metrô. A não ser que ele tenha complexo, e ainda se lembre da época em que os colegas da escola o chamavam de melequinha, feijãozinho ou alguma coisa do tipo.

Se fosse num elevador, por exemplo, não seria possível ficar aqui especulando sobre a pinta dele. Elevador já é pequeno demais, se a gente olha pra cara da pessoa, logo logo o olhar dela cruza com o nosso. No metrô dá pra observar todos os detalhes, tem sempre mais lugar pra olhar. O teto, o chão, se bem que isso também dá pra fazer no elevador, mas tem milhares de ângulos pra onde dá pra lançar os olhos aqui no metrô. Dá pra olhar o próprio reflexo através da porta, que vira espelho com o negro dos túneis, o sapato dos outros, a mulher de vestido verde florido lá na outra ponta do vagão e o carinha que dorme no assento aqui ao lado ouvindo walkman no último. Elevadores não são assim. É, mas as viagens nos elevadores são tão curtinhas...

Ele passa a mão sobre o rosto. Sabia! Não falei que era complexado com esse negócio de pinta preta que parece mais uma sujeira? É assim. É igual àqueles dias em que você sabe que não penteou o cabelo direito e só se arrepende disso quando parece que a rua toda olha pra você. Aí você chega no trabalho e vai direto pro banheiro se arrumar. Deve ser uma aflição parecida. Parecida, mas não igual.

Esse garoto tem cara de que se chama Rubens. Sei lá, Rubens me parece nome de gente que leva uma pinta preta no rosto, chamando atenção de um monte de gente, o dia inteiro, como um carma. E isso só acaba quando ele chega em casa, ou então quando chega na escola, porque são lugares onde todo mundo já se acostumou com os defeitos e as peculiaridades de todo mundo. Aí ele não é só mais uma pinta, a Clarice não é mais a modelo fatal e o Cleberson não se reduz apenas a mau hálito. Ali o Rubens fala, conta piadas, critica o programa de TV do canal a cabo que assistiu na noite de ontem e talvez tenha até uma namorada, que não liga pra isso, porque as pessoas são muito mais que esses detalhes imbecis que a gente só nota quando está confinado em espaços retangulares como vagões de metrô.

É, tenho certeza, o Rubens não se reduz a uma simples pinta preta, redonda e sem pêlos.

texto curto aleatório

escreve porque a música inspira
escreve porque o corpo pede
escreve porque não entende o ímpeto
cria poema onde não tem vontade
foge da rima, lembra de idéias

parte pra segunda estrofe.
mesmo sem desejá-la.
cria tópico,
movimenta comunidade

misto de poesia fake e tecnologia
navega em ondas compartilhadas
brinca na ambigüidade

suspira, olha pro lado,
estala os dedos,
olha pra tela
chega ao fim com um ponto final.

Encontro

Anabela diz:
- Você vem sempre aqui?

Ana Maria responde:
- Sim, sempre. E você?

- Primeira vez.
- Ok, posso te ensinar o caminho.
- Muito obrigada, ela responde.

E iniciam uma tórrida paixão, que durará duas semanas.

O tubo

Podia ser qualquer outra coisa, mas era um tubo metálico. Um desses tubos em que se entra e se vive por um tempo.

Sobe, procura espaço, acomoda-se, olha pela janela, deixa as pessoas para trás. Concentra-se no que está ali dentro, ouve conversas, observa tipos. Abre um livro, passa duas linhas, interrompe, olha para frente. É observado, tenta retribuir um sorriso, desiste no primeiro segundo, abaixa a cabeça, guarda as folhas na sacola.

Ameaça comer uma fruta, ameaça um fone de ouvido. Muitas coisas. Prefere ouvir a massa, micromassa de desconhecidos à sua volta. Roupas coloridas, tons escuros, homens de terno, mulheres de saia jeans. Estudantes. Este aqui, mecânico, aquele ali, porteiro. Esta, desempregada, acolá, um ladrão.

Estação 1. Sobem, descem, saldo quase idêntico. Positivo, negativo, não importa. Pessoas. Crianças, mulher de noventa anos, estudantes, muitos estudantes. Narrativa rápida. Ajeita as coisas, procura a carteira, sete minutos, barulho de tubo, avança e pára. Abrem as portas, escadas, passos apressados. Pessoas se vão.

Os Núcleos

Aqui eles ainda têm ruas. A cada passo sentimos um cheiro diferente. São fortes, provocam enjôos nas primeiras horas. É por causa das flores e das árvores de alguns lugares onde se pode até ver terra e matos, onde vivem insetos. Tudo é realmente muito belo, mas desperta certo temor. As plantas que estamos acostumados a ver projetadas em nossas salas, por mais que se diga serem cópias fiéis das folhas e flores reais, por mais que possamos tocá-las e senti-las em nossas mãos, não se equiparam às que encontramos aqui. É algo que não conseguimos descrever com palavras.

As pessoas são diferentes, têm a pele mais escura, não receiam ao se expor ao sol pela manhã. Algumas delas chegam a fazê-lo por uma, duas horas. Eu não entendo muito bem essa gente, mas apóio a decisão dos governos em permitirem que elas se arrisquem levando esse tipo de vida, uma vida que um dia foi tão natural para os homens. Talvez eles estejam certos e nós sejamos os estranhos.

Ontem vi um cachorro de verdade. Uma pessoa do grupo teve fortes reações ao animal, foi rapidamente medicada, mas agora está bem. É por isso que antes de entrarmos, as Polícias de Fronteira nos fazem assinar alguns papéis, para que nos responsabilizemos por danos à nossa saúde, declarando que estamos cientes do risco que corremos ao entrar nessas cidades.

Eu só tinha visto um bicho destes no zoológico quando era pequeno, mesmo assim foi de longe. Era um bem maior, preto e branco. Lembro-me perfeitamente, tinha ido com a turma da escola, tiramos fotos. Mas este era pequenino, todo branco, com orelhas grandes. Vivia com um senhor, dentro da sua própria casa. Alguns da expedição não quiseram tocá-lo. Também hesitei por um momento, mas como já estava ali, não havia porque não experimentar.

Era quente e macio. Soltava pêlos. E fedia. Pra dizer a verdade, eu não sei exatamente se era um cheiro ruim; pelo menos para nós, ali, gerava não só um pequeno prazer, mas também provocava desconforto.

É muito boa a sensação de tocar um cão. Ele se alegra facilmente quando dizemos algo, quando chamamos pelo seu nome, o tocamos ou alisamos sua barriga. Lembram crianças pequenas. Os cães gostam quando lhes damos atenção. Balançam o rabo por causa disso. É engraçado. Realmente não parecem criaturas perigosas.

Meu pai sempre me falou dos Núcleos. Desde pequeno me contava histórias dessa gente marginal, sempre quis conhecer uma das cidades, mas na época em que viveu era proibido pisar em um lugar como esse. Acho que, no fundo, ele sonhava viver como uma dessas pessoas. Ao contrário da maioria, não incrustou em mim o preconceito que lá fora as pessoas fazem questão de alimentar. Tenho medo de descobrir que o verdadeiro lugar onde mora a ignorância seja entre os meus iguais. As pessoas realmente parecem mais felizes aqui.

Parte do grupo volta pra casa amanhã. Todos teremos de morar por um tempo numa zona entre o Núcleo D5, onde estamos agora, e a Cidade — quarentena exigida pela Polícia da Fronteira e os Pesquisadores-Setor 2. Depois disso podemos voltar pra casa. Nunca registraram problemas com pessoas que saíram de um Núcleo.

Amanhã faz cinco dias de expedição, depois disso ficaremos por mais dois dias. Faremos algo que muitos lá fora jamais ousariam fazer: pisaremos na água do mar.

Devagar

Lugar sujo. Parece que hoje todas as pessoas resolveram ser desinteressantes. Nem o álcool ajuda. Música irritante. Fumaça de cigarro nos meus olhos, que ardência terrível. Vejo tudo embaçado, tropeço no pé de alguém, peço desculpas a qualquer um. Banheiro imundo. Uma moeda de cinqüenta centavos dentro do vaso. Papel higiênico no chão. Uma poça d’água transborda, corre para o bar.

Travestis, lésbicas, gays, clubbers. Um senhor barrigudo; óculos de aros pretos e grossos. Cheiro de perfume e cigarro. Uma loira dorme em pé, apoiada no telefone público.

Línguas, abraços, movimentos sincrônicos. Sexo e quase-sexo.

Que música é essa?
Me jogo no pufe cor-de-rosa...

Chiclete

Aulas de manhã. Sempre odiei acordar cedo. Cinco minutos na sala e eu já olhando pro relógio. Eu costumo ter a impressão de que o tempo passa mais rápido durante as manhãs, mas dessa vez cada segundo parece uma eternidade. Cochilo por umas duas ou três vezes em menos de dez minutos, ouço apenas flashes da aula...

Platão afirmava que a arte era a imitação da imitação, tinha um modelo metafísico que criticava a tentativa de imitação do mundo sensível. Arte não tem valor porque se pretende cópia do mundo real.

A voz do professor vai sumindo. Sinto-me embriagado, meus olhos pesam. São mais fortes do que eu. Durmo profundamente, mão apoiando o queixo. Tenho quase a sensação de estar na minha própria cama. Não gosto muito quando isso acontece porque acabo tendo aquelas ereções matutinas, excitações da natureza masculina...

Na Alegoria da Caverna as pessoas não conseguem ver o mundo como ele realmente é, enxergam apenas representações da realidade.

Eu sonhei com o meu quarto. Numa seqüência rapidíssima a minha mãe me chamava pra almoçar, eu olhava pela janela, via um navio vermelho e imenso, pegava um revólver e atirava no meu próprio pé.

Dei um pulo da cadeira, como naquelas vezes em que a gente sonha que está caindo num buraco e acorda de sobressalto, quase sentindo o impacto da queda. Acho que foi isso o que me ajudou a despertar. Consegui perder o sono. Não sei por quanto tempo tinha dormido dessa vez. Não importa, ninguém tá ligando pra isso mesmo...

Estico os braços, me despreguiço, jogo a cabeça pra trás. Sinto um cheiro agradável. Respiro fundo, tento senti-lo novamente. Não sei o que é. Me lembra um cheiro de flor e álcool. Um cheiro agudo, fino, me lembra cheiro de metais e natureza. Não consigo sintetizar a fragrância. É curioso. E agradável.

O vento entra pela janela e cada vez que entra na sala traz a mim o cheiro agudo. Está na cadeira logo atrás da minha. Concentro-me na fragrância, apenas nela. Lentificado. O ritmo das coisas vai se alterando. Estou entorpecido. Minha excitação continua. Porra...

O cheiro se torna mais intenso, aproxima-se da minha nuca. Acho que fui percebido. Respiração quente. O hálito agradável passa pelo meu pescoço e toca minha boca.

Prefiro não saber quem é.

Aproxima-se um pouco mais da minha nuca. Chego um pouco mais pra trás, quase deixando meu pescoço tocar sua boca. Respiro fundo. É ambíguo, não sei se ritmo de respiração ou se sopros leves, de propósito, no meu pescoço. Contraio os dedos das mãos, cruzo as pernas com bastante força e relaxo.

Lentamente, sua boca começa a se movimentar. Ouço cada movimento, detalhadamente, cada abrir, cada fechar. O cheiro de antes fica em segundo plano. Masca chiclete. Menta, daquelas embalagens azuis. Sinto sua boca, ouço sua língua, ouço sua saliva, fecho os olhos, respiro fundo, ouço o descolar úmido dos lábios, ouço o som molhado. Masca chiclete. Respira perto da minha orelha, respiro em compasso com seus lábios. Desejo sua boca. Quero sentir seu gosto. Contraio meus lábios, movimentos em compasso. Som de saliva. Pára por alguns instantes como se me provocasse, respiro fundo, passo a mão sobre a cabeça, percebe meu desespero, assopra minha nuca. Som de chiclete, ouço sua saliva, seus lábios, sua boca, seus dentes, sinto o cheiro molhado. Contraio os as pernas. Cheiro de metal.

Altero minha respiração, quero tocar seus lábios com as minhas mãos, sentir sua boca com minha língua. Contraio minhas pernas.

A aula acaba. Fecho os olhos. Prefiro não saber quem você é.

Labirinto

Talvez tudo não passasse de fantasias criadas pelo homem em busca de conforto para questionamentos impossíveis de serem respondidos. Por muito tempo eu quis acreditar que o espírito não era nada mais que a esperança humana de viver melhor algum dia, de fugir das evidências de que a vida era uma só. Não seria justo simplesmente acabarmos, virarmos pó.

Meus questionamentos sempre me machucaram, mas ao mesmo tempo em que desejava fechar os olhos eu enlouquecia com as inquietações provocadas por inevitáveis indagações. E se essa forma imaterial criada para tornar real nossa esperança não existisse? Do que valeriam os sofrimentos terrenos se não houvesse uma segunda chance?

Toda a complexidade da existência insiste em se revelar cada vez mais, e minha impotência perante sua grandeza me causa mais frustrações. Tenho medo, pois o que antes era revolta torna-se, agora, ódio fulminante a cada segundo. Assusto-me com toda a ira que insiste em derrotar os poucos esforços para não recomeçar tudo o que já passei. Tenho medo, porque mesmo tendo ultrapassado os limites, ainda são obscuros os caminhos que levam às respostas, se é que elas algum dia existirão.

Uma angústia profunda me rasga por dentro, choro copiosamente, estou sangrando, corro por horas, grito o mais alto que posso, mas não me ouvem, estou exausta e não me canso. Tenho tempo, sei que não adianta, mas é necessária a ilusão das minhas atitudes inúteis para que eu sobreviva. Não consigo entender minhas experiências, sou acometida por sensações extremamente prazerosas e nauseantes ao mesmo tempo. Nem mesmo tenho certeza das coisas que se passaram. Sinto cada vez mais raiva.

Tudo continua como antes. As mesmas incertezas, as mesmas versões para o que não se pode provar, os mesmos conflitos. Ouço explicações tão vagas como as que sempre ouvi. Por mais que as coisas sejam agradáveis vejo injustiça e sofrimento. As cores... Minha cabeça roda, meus olhos pesam. Não me acostumo.

Sou coberta por arrependimentos. Tantas limitações. Tantos pensamentos primitivos em vão... Quantas vezes não permiti que meus anseios me guiassem, que meus desejos mais ousados se manifestassem, fazendo que ficassem reprimidos, com medo do que pudessem provocar a mim mesma. Absurdos! Quantos arrependimentos por não ter vivido a minha vida, por não ter sido eu mesma para que as regras não fossem quebradas. É tarde.

Não quero me arrepender novamente. Grito cada vez mais alto, quero contar-lhes a verdade, procuro saídas, mas é igualmente em vão. Sinto saudade da minha família, dos meus amigos, do cheiro da minha casa, da minha cama macia. Meus filhos... Não sei quanto tempo já se passou. Podem ter se passado segundos ou séculos. Será que ainda lembram de mim?

Ando incessantemente à procura de rostos conhecidos. Não sei se conseguirei suportar a dor que me aflige em cada momento em que penso nas pessoas que tanto amei, e que de repente deixaram de existir, assim como deixei de existir para elas. Meus filhos. Meu marido...
Como eu desejo que tudo não passe de um terrível pesadelo. Aperto os olhos com força, mas só consigo chorar. Lágrimas que me queimam, me ferem como lâminas afiadas. Momentos insuportáveis, minha dor é imensa, por favor, deixem-me acordar.

sem rumo

Pegou o primeiro ônibus que apareceu. Estava desnorteado. Não sabia a quem recorrer, não tinha um número de telefone pra ligar. Pagou com qualquer dinheiro, nem esperou pelo troco. Sentou-se junto a uma janela e ali ficou, sem pensar em nada. Simplesmente vegetou por alguns instantes. Morreu para si e para o mundo. Não conseguia chorar. Nada. Não era nada.

Caiu em sono profundo.Teve pesadelos. Acordou com alguém cutucando seu ombro, dizendo que ali era o ponto final.

interlúdio. in the bus

Acordei. Já se tinham passado umas duas horas. Dormira com o chiclete na boca.
Odeio isso.
O livro permanecia aberto em meu colo. Não conseguia sair da mesma página desde que entrara no ônibus.
Estiquei os braços, respirei fundo como quem vai conseguir ficar atento pelo resto da viagem.

Quando me vi, já estava acordando novamente.
Meia hora tinha se passado.
O livro na mesma página.
E o chiclete na boca.

Da contingencialidade mundana

De repente parar e observar a vida: engraçado. Vemos o quanto ela se afasta de qualquer idéia de destino (no sentido mais angustiante do termo, aquele que nos coloca como títeres, sujeitos a fatalismos, inevitáveis como tragédias gregas), vemos o quanto a vida é contingente, o quanto é repleta de infinitos “não-ser”, “não-estar”.

Vidas absurdas, resultados das equações de infinitos acasos, processos binários lançados ao ar a cada segundo; escolhas, respostas, omissões...

E lá se foram caminhos que optamos por não seguir... Divagações... Momentos suspensos no tempo. Aí nos permitimos refletir acerca dos acasos que nos rodeiam. Mas num segundo eles se desfazem, os pés novamente tocam o chão, é hora de voltar aos automatismos (ainda não vitoriosos!).

A vida. Não o “ser” assim, mas o fato de ela “estar” assim; é ainda essa consciência o que nos possibilita cogitar novos horizontes. As divagações se fazem necessárias para que enfrentemos e brinquemos com as contingências. Acasos, Probabilidades, Contingencialidades.