quinta-feira, 15 de março de 2007

Cavalos-marinhos

Ponte Rio-Niterói. Do Rio pra Niterói. Cinco horas da tarde, o sol terrível. Nesses primeiros meses do ano parece que tudo fica mais intenso. O calor, mais forte, as pessoas chatas, mais chatas, as insuportáveis, mais insuportáveis, os cheiros ruins, piores ainda.

O ônibus está lotado, não, ele não está apenas cheio, está lotado mesmo. Não dá pra mover um pé. Dizem que esses ônibus com aparelhos de ar-condicionado são melhores, mas no fundo eles acabam sendo câmaras de extermínio coletivo que matam aos poucos, a cada dia um pouquinho. Tornam debilitada alguma parte do seu cérebro.

Há caixas de som espalhadas pelo teto. O rádio está ligado numa dessas rádios de MPB. Isso irrita um pouco mais, pois não dá pra distinguir muito bem os sons. As pessoas falam alto demais.

Ali no meio, Ricardo. Pelo menos está sentado. Grande vantagem quando se trata de um ônibus lotado, cheio de gente suada, querendo aumentar os centímetros de espaço próprio ao seu redor. Não liga pra elas. Não vê a senhora que se espreita, tentando mostrar que carrega bolsas pesadas, e que ele bem poderia carregar no colo pelos próximos quinze minutos, não vê o rapaz de boné, que quase lhe come com os olhos, imaginando coisas que as pessoas acabam imaginando quando se está tão próximo assim dos outros, não vê os aviões que pousam no aeroporto ali ao lado, não vê os carros, nem a água.

A única coisa que Ricardo consegue enxergar são dois cavalos-marinhos. Dois cavalos-marinhos azuis. São três ou quatro tonalidades de azul atraente. Até há pouco escondiam-se na nuca da garota no banco da frente, mas o calor a levara a prender os cabelos, felizmente. Era a melhor visão do dia, dois cavalos-marinhos azuis, graciosos, de olhos bem pretinhos, sem essa parte branca que as pessoas possuem. Ricardo não sabia se olhos de cavalos-marinhos reais eram exatamente assim, foi um pensamento que o acometera logo no início, mas que passara muito rápido, como um flash.

Seus pêlos eram claros e bem fininhos, desciam o pescoço transformando-se em penugem, de fios tão curtinhos que, quase não se podia ver. Ela passava as mãos em volta do pescoço, abanava, olhava para o mar, sem notar a presença de Ricardo ali.

Ele querendo muito puxar assunto, ela sem saber da sua existência. Não tinha como falar alguma coisa. Porra, se ao menos estivesse do lado dela, seria mais fácil. Esses papos de ônibus costumam render tanto, como é que ia deixar escapar aqueles cavalos-marinhos? Ia fazer o quê? Perguntar as horas? Seria patético. Tinha mesmo que ter sentado ao lado dela...

Pensou, apertou as sobrancelhas, mas logo parou de se culpar, porque não havia como imaginar que fosse encontrar um gata daquelas naquele dia e naquela porcaria de ônibus também. Ele não costumava pegar a ponte naquele horário, não tinha como saber se ela estaria ali amanhã. Ou melhor, era só arriscar... Poderia voltar no dia seguinte, subir no primeiro ponto e esperar que ela aparecesse em algum lugar. Não... Era um pensamento estúpido demais por dois cavalos-marinhos azuis.

Pelo menos da culpa por não ter se sentado ao lado dela, ele tinha rapidamente se livrado, afinal, se estivesse ao seu lado, não veria a tatuagem, e não se apaixonaria pela sua nuca. Seria tudo diferente. Talvez ela tivesse alguma outra tatuagem no pulso, algo que o atraísse igualmente.

Agora o ônibus passava pelo vão central. Todos em seus lugares, imóveis. O sol, a música, os barcos, tão lânguidos, tudo tão pesado, e Ricardo, que fantasiava. Mordeu os lábios com força, esticou as duas mãos, segurando firme no ferro do banco da frente, como quem se agarra temendo a velocidade de um veículo que corre muito. Esperava que, por algum momento, ela se afastasse, para se ajeitar, ou então, por causa de algum solavanco do ônibus e, pelo menos por um ou dois segundos, os dedos tocariam os azuis de sua pele.

Mas isso também não aconteceu.

A essa altura, estava excitado, ajeitava a mochila no colo, respirava um pouco mais fundo, soltava o ar com força, passava as mãos pelo cabelo, e depois as passava pela face, revelando um doce, mas contido, desespero.

O rapaz em pé, ao lado, notava que o outro ali, sentado, observava a moça e os cavalos-marinhos. Observava o observar do outro e isso também o agradava. Tinha um sorriso no rosto, meio perverso, meio alegre. Se excitava com a excitação do outro, que ajeitava a mochila.

Tudo o que a mulher queria era que alguém segurasse suas malditas bolsas, mas ninguém lhe dava atenção. Será que pensavam que elas estavam leves? Elas não estavam! Que gente mais mal educada, individualista, que povo desgraçado. Com ela não era assim, sempre segurava as bolsas e as mochilas de quem estivesse em pé ao seu lado.

Os cavalos-marinhos começavam a suar. Aliás, o calor aumentava. Alguma coisa acontecera logo à frente, que fizera com que o trânsito se tornasse mais lento. O ônibus parou por exatamente quatro minutos, o suficiente pra que as reclamações despontassem aqui e ali. Primeiro um senhor que lia jornal, depois um militar, que viajava em pé, em seguida a mulher das bolsas, que já estava furiosa mesmo, e logo o ônibus inteiro, num grande alvoroço de vozes das quais não se podia mais distinguir umas das outras. Foi o abandono repentino da quase inércia dos corpos a causa do aumento de calor.

Não era nada para Ricardo. O rapaz ainda estudava alguma maneira de tocar os cavalos, e não só eles, mas todo o resto. Pensou em jogar uma caneta por debaixo do banco e pedir pra que ela a procurasse entre seus pés. Não era má idéia, não haveria como levantar suspeitas.

O ônibus voltou a andar, rápido até demais para que ele pudesse fazer as coisas com calma. Não ia dar tempo. E se ela resolvesse descer logo no primeiro ponto depois da ponte? Quem sabe fosse melhor assim? Ele desceria também, falaria com ela sobre os cavalos-marinhos, sobre como estava apaixonado por eles, por sua nuca, pelos azuis, perguntaria seu nome e em seguida trocariam beijos, muitos beijos.

De repente, desconcentrou-se, passou então a sentir o calor do ônibus, as costas estavam praticamente encharcadas. Foi então que os sons chegaram ao seu ouvido: a mulher, o senhor do jornal, as buzinas, a voz do Djavan nas caixas de som e até uma criancinha, que chorava. Da onde tinha saído a porra daquela criança? Chacoalhou a cabeça de leve, piscou os olhos repetidas vezes, olhou para os lados. Encontrou o olhar do carinha de boné, que o tempo todo, viajara ali ao lado, vigiando-o. Encararam-se por uma fração de segundos, os olhos de um bem no fundo dos olhos do outro. Olhar estranho, mas não lhe deu atenção.

Passaram da ponte, algumas pessoas desceram. Uma massa de ar se deslocou com as pessoas lá pra fora, que alívio! Deu pra sentir o ar que vinha da rua, mais quente ainda. A mulher das bolsas correu pra pegar um lugar, empurrou — com gentileza — uma jovem em trajes esportivos, que se preparava pra sentar ali. O barulho não acabava, parecia um pacto: quando um terminava, o outro tinha que começar a falar, pra quem quer que fosse, pro vizinho de banco, pra pessoa ao lado, pra berrar no celular ou xingar o motorista.

Cavalos-marinhos. O que são essas criaturas? Peixes, moluscos? Cavalos-marinhos são tão azuis. É tão relaxante e tão quente. Os cavalos-marinhos dançam nas penugens daquela nuca. Cavalos-marinhos são atraentes.

Apenas o rapaz de boné viu quando Ricardo pousou as mãos nos ombros de Isabela e encostou seus lábios delicadamente nos azuis dos cavalos-marinhos.

Ela ainda estremeceu, quando sentiu o úmido e quente em sua pele, mas as mãos macias de Ricardo a puxaram, impedindo que levantasse. Ele ainda teve tempo de contornar os cavalos com a língua, a moça soltou um som abafado, depois conseguiu gritar mais alto. Ricardo olhou para o rapaz de boné, seu cúmplice. Isabela ainda agarrou seu agressor pela mochila, quando este levantou desesperado.

O alvoroço no ônibus era igualmente animal, alguém ali na frente discutia por causa de uma cotovelada. Ricardo tropeçou, pisou no pé de alguém, de alguém e de alguém, a jovem atlética conseguiu pegar o lugar que ele deixara vazio. Dali era possível enxergar duas coisinhas azuis, cobertas pelo cabelo desgrenhado de Isabela, que chorava.

Certas tardes são assim. Deve ter sido mesmo o calor.

2 comentários:

Giuliana disse...

Jean, muito legais os seus textos. Infelizmente, não pude ler todos com calma, mas aqueles pelos quais passei os olhos, bem, esses estavam realmente muito bons. Certamente, as palavras fluem de você.

Já conhecia seu talento em escritos acadêmicos e jornalísticos, foi uma grata surpresa vê-lo em contos também.

Virei leitora assídua, pode ter certeza.

Beijos e muito sucesso!

Jean Souza disse...

Brigado, Giu, você é sempre ótima!

Se leitora, fico felicíssimo!

bjo!