sexta-feira, 9 de março de 2007

Chiclete

Aulas de manhã. Sempre odiei acordar cedo. Cinco minutos na sala e eu já olhando pro relógio. Eu costumo ter a impressão de que o tempo passa mais rápido durante as manhãs, mas dessa vez cada segundo parece uma eternidade. Cochilo por umas duas ou três vezes em menos de dez minutos, ouço apenas flashes da aula...

Platão afirmava que a arte era a imitação da imitação, tinha um modelo metafísico que criticava a tentativa de imitação do mundo sensível. Arte não tem valor porque se pretende cópia do mundo real.

A voz do professor vai sumindo. Sinto-me embriagado, meus olhos pesam. São mais fortes do que eu. Durmo profundamente, mão apoiando o queixo. Tenho quase a sensação de estar na minha própria cama. Não gosto muito quando isso acontece porque acabo tendo aquelas ereções matutinas, excitações da natureza masculina...

Na Alegoria da Caverna as pessoas não conseguem ver o mundo como ele realmente é, enxergam apenas representações da realidade.

Eu sonhei com o meu quarto. Numa seqüência rapidíssima a minha mãe me chamava pra almoçar, eu olhava pela janela, via um navio vermelho e imenso, pegava um revólver e atirava no meu próprio pé.

Dei um pulo da cadeira, como naquelas vezes em que a gente sonha que está caindo num buraco e acorda de sobressalto, quase sentindo o impacto da queda. Acho que foi isso o que me ajudou a despertar. Consegui perder o sono. Não sei por quanto tempo tinha dormido dessa vez. Não importa, ninguém tá ligando pra isso mesmo...

Estico os braços, me despreguiço, jogo a cabeça pra trás. Sinto um cheiro agradável. Respiro fundo, tento senti-lo novamente. Não sei o que é. Me lembra um cheiro de flor e álcool. Um cheiro agudo, fino, me lembra cheiro de metais e natureza. Não consigo sintetizar a fragrância. É curioso. E agradável.

O vento entra pela janela e cada vez que entra na sala traz a mim o cheiro agudo. Está na cadeira logo atrás da minha. Concentro-me na fragrância, apenas nela. Lentificado. O ritmo das coisas vai se alterando. Estou entorpecido. Minha excitação continua. Porra...

O cheiro se torna mais intenso, aproxima-se da minha nuca. Acho que fui percebido. Respiração quente. O hálito agradável passa pelo meu pescoço e toca minha boca.

Prefiro não saber quem é.

Aproxima-se um pouco mais da minha nuca. Chego um pouco mais pra trás, quase deixando meu pescoço tocar sua boca. Respiro fundo. É ambíguo, não sei se ritmo de respiração ou se sopros leves, de propósito, no meu pescoço. Contraio os dedos das mãos, cruzo as pernas com bastante força e relaxo.

Lentamente, sua boca começa a se movimentar. Ouço cada movimento, detalhadamente, cada abrir, cada fechar. O cheiro de antes fica em segundo plano. Masca chiclete. Menta, daquelas embalagens azuis. Sinto sua boca, ouço sua língua, ouço sua saliva, fecho os olhos, respiro fundo, ouço o descolar úmido dos lábios, ouço o som molhado. Masca chiclete. Respira perto da minha orelha, respiro em compasso com seus lábios. Desejo sua boca. Quero sentir seu gosto. Contraio meus lábios, movimentos em compasso. Som de saliva. Pára por alguns instantes como se me provocasse, respiro fundo, passo a mão sobre a cabeça, percebe meu desespero, assopra minha nuca. Som de chiclete, ouço sua saliva, seus lábios, sua boca, seus dentes, sinto o cheiro molhado. Contraio os as pernas. Cheiro de metal.

Altero minha respiração, quero tocar seus lábios com as minhas mãos, sentir sua boca com minha língua. Contraio minhas pernas.

A aula acaba. Fecho os olhos. Prefiro não saber quem você é.

2 comentários:

Rafael disse...

Instigante, excitante....
Definições pobre para um texto rico!
Parabéns!

Jean Souza disse...

Brigado, Rafael!

Um adjetivo e já agrada. Nada de "definições pobres", ok?

Até!