sexta-feira, 9 de março de 2007

Os Núcleos

Aqui eles ainda têm ruas. A cada passo sentimos um cheiro diferente. São fortes, provocam enjôos nas primeiras horas. É por causa das flores e das árvores de alguns lugares onde se pode até ver terra e matos, onde vivem insetos. Tudo é realmente muito belo, mas desperta certo temor. As plantas que estamos acostumados a ver projetadas em nossas salas, por mais que se diga serem cópias fiéis das folhas e flores reais, por mais que possamos tocá-las e senti-las em nossas mãos, não se equiparam às que encontramos aqui. É algo que não conseguimos descrever com palavras.

As pessoas são diferentes, têm a pele mais escura, não receiam ao se expor ao sol pela manhã. Algumas delas chegam a fazê-lo por uma, duas horas. Eu não entendo muito bem essa gente, mas apóio a decisão dos governos em permitirem que elas se arrisquem levando esse tipo de vida, uma vida que um dia foi tão natural para os homens. Talvez eles estejam certos e nós sejamos os estranhos.

Ontem vi um cachorro de verdade. Uma pessoa do grupo teve fortes reações ao animal, foi rapidamente medicada, mas agora está bem. É por isso que antes de entrarmos, as Polícias de Fronteira nos fazem assinar alguns papéis, para que nos responsabilizemos por danos à nossa saúde, declarando que estamos cientes do risco que corremos ao entrar nessas cidades.

Eu só tinha visto um bicho destes no zoológico quando era pequeno, mesmo assim foi de longe. Era um bem maior, preto e branco. Lembro-me perfeitamente, tinha ido com a turma da escola, tiramos fotos. Mas este era pequenino, todo branco, com orelhas grandes. Vivia com um senhor, dentro da sua própria casa. Alguns da expedição não quiseram tocá-lo. Também hesitei por um momento, mas como já estava ali, não havia porque não experimentar.

Era quente e macio. Soltava pêlos. E fedia. Pra dizer a verdade, eu não sei exatamente se era um cheiro ruim; pelo menos para nós, ali, gerava não só um pequeno prazer, mas também provocava desconforto.

É muito boa a sensação de tocar um cão. Ele se alegra facilmente quando dizemos algo, quando chamamos pelo seu nome, o tocamos ou alisamos sua barriga. Lembram crianças pequenas. Os cães gostam quando lhes damos atenção. Balançam o rabo por causa disso. É engraçado. Realmente não parecem criaturas perigosas.

Meu pai sempre me falou dos Núcleos. Desde pequeno me contava histórias dessa gente marginal, sempre quis conhecer uma das cidades, mas na época em que viveu era proibido pisar em um lugar como esse. Acho que, no fundo, ele sonhava viver como uma dessas pessoas. Ao contrário da maioria, não incrustou em mim o preconceito que lá fora as pessoas fazem questão de alimentar. Tenho medo de descobrir que o verdadeiro lugar onde mora a ignorância seja entre os meus iguais. As pessoas realmente parecem mais felizes aqui.

Parte do grupo volta pra casa amanhã. Todos teremos de morar por um tempo numa zona entre o Núcleo D5, onde estamos agora, e a Cidade — quarentena exigida pela Polícia da Fronteira e os Pesquisadores-Setor 2. Depois disso podemos voltar pra casa. Nunca registraram problemas com pessoas que saíram de um Núcleo.

Amanhã faz cinco dias de expedição, depois disso ficaremos por mais dois dias. Faremos algo que muitos lá fora jamais ousariam fazer: pisaremos na água do mar.

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