sexta-feira, 9 de março de 2007

A pinta

Aqui no metrô ele é só uma pinta, uma pinta preta, redonda, abaixo do nariz, quase tocando seus lábios, sem pêlos, nem grande, nem pequena, mas suficiente pra que seja notado. Não chega a ser feia, a pinta, mas chama atenção. Ao primeiro olhar parece mais uma sujeira, mas não é sujeira. Será que ele pensa nos outros que pensam em sua pinta? Talvez não, o cara nasceu com aquilo, convive com a bolinha preta entre o nariz e o lábio superior desde que se entende por gente, não é possível que ligue pra isso. A gente é que liga pra essas coisas, principalmente quando entra no metrô. A não ser que ele tenha complexo, e ainda se lembre da época em que os colegas da escola o chamavam de melequinha, feijãozinho ou alguma coisa do tipo.

Se fosse num elevador, por exemplo, não seria possível ficar aqui especulando sobre a pinta dele. Elevador já é pequeno demais, se a gente olha pra cara da pessoa, logo logo o olhar dela cruza com o nosso. No metrô dá pra observar todos os detalhes, tem sempre mais lugar pra olhar. O teto, o chão, se bem que isso também dá pra fazer no elevador, mas tem milhares de ângulos pra onde dá pra lançar os olhos aqui no metrô. Dá pra olhar o próprio reflexo através da porta, que vira espelho com o negro dos túneis, o sapato dos outros, a mulher de vestido verde florido lá na outra ponta do vagão e o carinha que dorme no assento aqui ao lado ouvindo walkman no último. Elevadores não são assim. É, mas as viagens nos elevadores são tão curtinhas...

Ele passa a mão sobre o rosto. Sabia! Não falei que era complexado com esse negócio de pinta preta que parece mais uma sujeira? É assim. É igual àqueles dias em que você sabe que não penteou o cabelo direito e só se arrepende disso quando parece que a rua toda olha pra você. Aí você chega no trabalho e vai direto pro banheiro se arrumar. Deve ser uma aflição parecida. Parecida, mas não igual.

Esse garoto tem cara de que se chama Rubens. Sei lá, Rubens me parece nome de gente que leva uma pinta preta no rosto, chamando atenção de um monte de gente, o dia inteiro, como um carma. E isso só acaba quando ele chega em casa, ou então quando chega na escola, porque são lugares onde todo mundo já se acostumou com os defeitos e as peculiaridades de todo mundo. Aí ele não é só mais uma pinta, a Clarice não é mais a modelo fatal e o Cleberson não se reduz apenas a mau hálito. Ali o Rubens fala, conta piadas, critica o programa de TV do canal a cabo que assistiu na noite de ontem e talvez tenha até uma namorada, que não liga pra isso, porque as pessoas são muito mais que esses detalhes imbecis que a gente só nota quando está confinado em espaços retangulares como vagões de metrô.

É, tenho certeza, o Rubens não se reduz a uma simples pinta preta, redonda e sem pêlos.

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