sábado, 24 de março de 2007

Segredos

Começou com esses hábitos por volta dos doze, treze anos. No início não tinha noção do que era considerado certo ou errado e por isso não demonstrava vergonha. Aos poucos percebeu comentários e atitudes dissimuladas. Com o tempo, aprendeu que devia ter cuidado antes de dizer e manifestar certas opiniões.

Utilizava sempre um relógio de pulseira vermelha, emborrachado, que apesar de ser vermelho não chamava muito a atenção de quem estivesse perto. Definitivamente era um vermelho discreto, um vermelho incomum. Ganhara do amigo de infância.

O hábito de usar relógios, ninguém nunca descobriu de onde viera. Havia começado assim, com aquele de pulseira vermelha recebido como presente do amigo, e várias vezes os dois compraram daqueles objetos, os colecionaram, buscaram modelos novos, os feitos de madeira ou mesmo os mais modernos, que também eram interessantes.

O tempo passou. O relógio de pulseira vermelha um dia envelheceu, mas ele o guardou para o resto da vida em uma caixa adornada de postais antigos, que encontrara na casa gigantesca, para a qual a família se mudara quando seus dois irmãos mais novos ainda nem eram nascidos.

Comprara outro, em formato hexagonal, os ponteiros negros, ligeiramente desenhados, em formato de espadas, os números igualmente marcados por contornos caprichados, obra meticulosa, sabe-se lá vindo de que pequena fábrica, situada do outro lado do oceano. Provavelmente havia sido feito logo no início do século XX, talvez ainda na última década do XIX. Pulseira negra, de couro macio, um tanto fosco, charmoso, encaixe perfeito no pulso. Comprara de um velho ucraniano, vendedor de quinquilharias que morava na entrada da cidade.

Por volta dos dezessete meteu-se na primeira briga motivada claramente pelo fato de admitir que gostava de relógios. Um rapaz desconhecido o ameaçara, e por não ser desses que pensam muito antes de defender a própria honra, não hesitara em partir pra briga. Um relógio novo arranhado, o braço do desconhecido quebrado, hematomas que insistiram em ficar presentes por mais de duas semanas, contudo, o orgulho mantido e a honra lavada.

O pai do amigo tivera de mudar de país. Triste e necessário, dessas coisas que acontecem durante a vida e que não se pode impedir que aconteçam. Ambos sentiram pesar, por tempos e tempos, até que a saudade tornou-se lembrança boa apenas. Conheceu outras pessoas que, como ele, podiam passar horas falando sobre os modelos, as marcas, curiosidades e prazeres sobre relógios, as peças antigas, o barulho singelo de um tique-taque rompendo o silêncio da madrugada, o cintilar de pêndulos, o vento que sopra entre um segundo e outro.

Aprendeu a driblar os inimigos, compreendeu sua incompreensão. Com os amigos reuniu-se pra gargalhar dos tolos, seguiu a vida, seguiu em frente. Manteve o primeiro relógio naquela caixa antiga, que desintegrava com o toque das mãos. E ao lado daquele, vários outros, cada um com um pouco de si, incrustando entre adornos, memórias e momentos que não voltariam mais.

Aos trinta e quatro conheceu Elisa, professora de francês, fascinante em sua simplicidade culta, elegante, atraente. Cultivaram por muitos anos paixões mútuas, um pelo outro, os dois pelos relógios. Por muitas vezes guardaram prazeres entre quatro paredes, a fim de que não fossem condenados pelos outros ao redor. Elisa tinha reputação a preservar e por isso, o prazer era sempre marcado por um pouco de tristeza. Talvez um pouco de culpa.

Por vários anos permaneceram juntos, por vezes uma vida de gueto, por vezes desafiando a todos, exibindo-se, embriagados, em noites frias de ventos que parecem cortar a pele. Foram felizes, e preocupados, e cautelosos.

Elisa transformou-se em amores, companhias, amizades, Paulo, Ângela, Audrey, Paulina e Gustavo. Todos apaixonados, seduzidos por relógios, por histórias. Condenados, desafiantes, pessoas que foram, e ficaram, e marcaram.

Poucas vezes sucumbiu à dúvida, manteve suas posições. Pensou nas perseguições, nos prazeres e nas pessoas. Pensou nesses hábitos estúpidos, coisas das quais nem se devesse falar, coisas que estavam aí pra serem vividas.

Pensou em como as pessoas eram estúpidas. Em como eram estúpidas.

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