quinta-feira, 29 de março de 2007

Transtorno

Sim, é possível que um carro te atropele e você morra, logo assim que sair do restaurante, exatos dezesseis minutos depois de você marcar a data do casamento, beijar sua noiva na testa e dizer que a ama, mas que tem de voltar ao trabalho, já que ainda faltam dois meses pra que seu período de férias tenha início e vocês possam ir para aquela casa de praia que a vizinha de anos da casa dos seus pais, e que pra você é como parte da família, fez questão de ceder para vocês, noivos mais felizes do mundo.

É possível que você sente no banco da praça, que parece até limpo o suficiente pra não sujar sua calça, mas acabe pegando uma doença de pele, porque uma velha moradora de rua, cheia de verminoses, fungos e sarnas acabara de se levantar, depois de dormir ali pelas últimas três horas e vinte e nove minutos. Esta senhora vive há quarenta e dois anos no centro da cidade, foi abandonada pela família, passou a ter transtornos mentais, alimenta-se de restos que encontra nas lixeiras. Há pouco, enquanto dormia no banco da praça, sonhava com um copo de geléia, não sabia exatamente do que era, se de amora, de morango ou uva, mas era uma geléia boa, o gosto de coisa boa, comprada em supermercado. A história da velha não vem ao caso. É possível que você não consiga se livrar da doença de pele por um bom tempo, é possível que ela dure quatro meses, que os médicos lhe receitem as pomadas erradas, e que sua bunda coce demais e te deixe irritado durante o dia. É possível mesmo que, no trabalho, afirmem que você passou a ser uma pessoa mal humorada, mas você então preferiria continuar como um mal humorado do que como alguém que pegou doença de pele da velha da praça, achando que foi a areia da praia no final de semana.

É possível que você pegue AIDS. Imagine se acontece como naquela série de TV, em que o cara foi contaminado porque assassinava uma mulher infectada e, durante o ato, uma gota de sangue foi lançada pra dentro do seu olho e só aquela gota, aquela gotinha fez com que ele fosse infectado também. Imagine. Não que você tenha necessariamente que matar uma pessoa, mas, e se tivesse? Você não mataria se fosse por legítima defesa? Se tivesse que matar com algum objeto cortante, tipo faca? Correria o risco de ser atingido por uma gota de sangue. É certo que, nesse caso o azar seria triplo, já que você estaria sendo assaltado, ou sendo vítima, sei lá, de qualquer coisa que exigisse legítima defesa; segundo, que teria que matar a pessoa e, terceiro, que esta seria uma pessoa com AIDS. Ou melhor: seria quádruplo o seu azar, já que você seria infectado.

Poderia ser de outra maneira: você talvez confiasse muito, mas muito mesmo na sua mulher e, por mais que vocês trocassem juras de amor, conversassem abertamente sobre todos os problemas e vivessem por quase uma década juntos, você desconhecesse que ela sofria de dupla personalidade, e que esta outra personalidade dela estava disposta a transar bonito com qualquer cara que encontrasse por aí, nas noites de sábado. Ou de terça-feira. Talvez fosse uma outra personalidade que não transasse com qualquer cara por aí, mas que tivesse um fetiche especial por açougueiros, e que além disso não se importava a mínima em usar camisinha, mas que só se preocupava em sentir o cheiro de carne e sangue, enquanto envolta em braços fortes, com cheiros de suor recém saídos de um dia inteiro de trabalho, em meio a ossos, gorduras e carnes frescas, lavando de sangue o balcão. Talvez um desses açougueiros, numa noite, mas numa única noite, resolvera entrar no puteiro, pagar por uma trepada e nessa única vez fosse infectado por uma prostituta ninfeta, de peitos pequenos e cabelos ruivos que, indiretamente, seria a causa, também, da sua contaminação pelo vírus.

É possível que você fique preso no elevador, durante um apagão de duas horas, justamente num dia em que voltava do trabalho porque estava com uma tremenda caganeira, e que além de ficar preso no elevador, o sujasse inteirinho de merda, e depois de vômito, porque na quarta cagada o cheiro começara a te enojar, te enjoar e te deixar quase louco, mas não só louco, como quase morto de vergonha. É possível que a partir desse dia todos os vizinhos soubessem quem era você, o que tinha acontecido, e que, a partir daí você não tivesse mais paz, até que resolvesse mudar de condomínio, mesmo gostando muito daquele, que ficava perto da área de reserva ambiental da cidade.

É super possível que um bêbado cuspa na tua cara num dia destes aí, ou então que você engula sem querer aquela moeda holandesa da coleção do seu primo e que morra engasgado de maneira tão estúpida, mas tão estúpida, que os seus amigos sentiriam tristeza e raiva de você no dia do seu enterro. É possível que um avião caia em frente à sua casa, que você receba uma fortuna de indenização, porque teria de passar quatro meses fora do bairro, a fim de que os estragos fossem todos reparados, mas que você, depois de viajar pra fora do país usando todo o dinheiro vindo da companhia aérea, percebesse que a melhor coisa a fazer era mesmo ter investido em títulos, pois a ameaça de desemprego não era apenas sensação, era real e iminente.

É possível que você se apaixone pela pessoa errada e fique em depressão por quase dois anos, até que ganhe um cachorro do seu padrinho, e esqueça aquela praga que tanto te fez chorar. É possível que, num dia de lua cheia, enquanto olhava o céu, deitado na piscina de plástico no quintal de casa, você tenha uma idéia revolucionária, capaz de mudar a ciência, o país e os destinos do mundo, e que seu nome figure por muitos e muitos anos nos arquivos das bibliotecas virtuais, na internet, nas ruas e nos nomes de pessoas que foram assim nomeadas para homenagear o gênio que você foi.

É possível que um monte de coisa ruim aconteça. Que coisas boas aconteçam também. Eu até acho que sim, mas não acho tanto. É possível que eu deixe essa chácara, e volte pra cidade, deixe o cheiro de terra, a horta e os peixes, mas não sei não, tenho que ponderar as coisas. É possível que eu não me adapte novamente ao ritmo dos carros, das pessoas e dos aviões. É possível que eu fique um pouco paranóico, e não consiga conversar com as pessoas, que preste mais atenção em suas salivas, e tome cuidado pra não ser atingido por elas, enquanto converso na padaria de manhã, e que elas me achem completamente louco, por pensar na minha saúde, na delas, e no bem estar das nações. É possível que eu nunca seja compreendido, porque as pessoas não gostam de parar e refletir sobre as coisas boas que a vida tem a nos oferecer. Que merda.

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