domingo, 15 de abril de 2007

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O desejo do outro nem é assim tão difícil.
O difícil é ser recíproco.

sexta-feira, 13 de abril de 2007

Considerações sobre a existência do pré-vômito

Trata-se de um pensamento recorrente: eu sempre me pego esperando um vômito que nunca vem. Um vômito de verdade, coisa que vem de dentro mesmo, gosma, resto de comida, comida processada, gosto de ácido clorídrico e o que mais tiver nesses sucos digestivos da vida.

Principalmente quando bebo cerveja, ou alguma outra coisa alcoólica. Não, pensando bem, acho aqui comigo que é basicamente quando tomo cerveja, e não precisa ser muita coisa não, umas quatro latinhas e já entro no processo do pré-vômito. Não é um vômito do tipo “ó, como estou bêbado, como estou enjoado, acho que vou vomitar!”, é um vômito sem enjôo, é, tipo, um vômito que vem “do nada”, saca?

Talvez seja só maluquice minha, vômito que vem do nada...

Ah, que “só eu”, o quê!, aposto que isso é super comum, só que nunca parei pra falar com as pessoas sobre isso. Vai ver que todo mundo sempre tem um vômito iminente...

Então, esse lance da cerveja é assim: eu bebo, e parece que a cerveja fica me estufando, tipo, como se tivesse um gás, mas o gás não sai, e eu fico super cheio, como se tivesse comido pra caramba, como se tivesse me empanturrado, sei lá, de feijoada. Caraca, feijoada, nada a ver, mas tudo bem, é isso, eu fico cheio. Então, eu fico cheio.

Até aí tudo bem. Acontece que eu, quando bebo, fico mais alegre e, como não costumo beber sozinho, as pessoas ao redor ficam sempre mais alegres (pelo menos, na maioria das vezes, estejam elas me acompanhando na bebida ou não) e eu, assim, tenho vontade de rir, e não só vontade, como realmente caio na gargalhada.

É aí que mora o perigo: na risada de alegria mora o pré-vômito assustador. Tá certo que eu nunca cheguei a vomitar durante esse processo, mas temo que um dia aconteça...

Acontece assim: eu começo a rir, começo a puxar ar, começa a me faltar ar (porque estou estufado — lembra da sensação de feijoada?), o meu diafragma balança, a cerveja me estufou e estou aqui sem ar, aí parece que não vou agüentar, e alguma coisa vai sair pela minha boca, me desestufando, me aliviando fisiologicamente, mas me deixando em grandes apuros ao redor das outras pessoas, esteja onde estivermos. Tipo: quanto mais público o lugar, pior, pois será o meu vômito no chão alheio que banhará o chão, e serei eu o centro vomitador das atenções.

Mas isso nunca aconteceu, sempre me controlei, sou um garoto que sabe controlar seus movimentos do tipo pré-vômito. Até hoje sempre deu certo (mas nada sob controle suficiente pra que eu deixe de me preocupar).

Entretanto, que fique claro, o pré-vômito independe de eu estar alcoolizado ou não. Ele nasce nos momentos mais inoportunos, às vezes durante e após refeições, às vezes no meio da tarde, ou provocado por qualquer coisa que eu não me lembre agora. Sempre vem a sensação de “não vou agüentar!, algo insiste em ser expelido de dentro do meu corpo, um vômito super a jato, alguma coisa incontrolável” (alguma coisa que só a sensação de pré-vômito sabe condensar em si o significado, a angústia e adrenalina!).

Imagino-me vomitando na sala de aula, o professor parando as explicações, não sabendo se ajuda ou se mantém o estado de espanto, se se aproxima daquela criatura (eu), se afasta o pé pra que não respingue no seu sapato nenhum pouquinho do que foi o meu almoço, enfim, coisas do tipo. Imagino-me vomitando na fila do banco, no chão branco e limpo e arcondicionarizado da agência asséptica, vomitando no meio da rua, descendo as escadas rolantes, vomitando em cima de algum cachorro, por aí, por essas ruas sujas que a gente pisa todo dia, no restaurante da universidade.

É uma sensação recorrente, que não chega a atrapalhar o meu dia a dia.

Teve só uma vez, em que eu tinha acordado antes das cinco da manhã, como era de costume, isso há cerca de um ano e meio atrás: eu tinha entrado no ônibus pra ir pra faculdade, resolvi ouvir um som no walkman e acabei dormindo pesadão, com som que não faço idéia no ouvido, passeando pelas ruas de bairros, bairros e infinitos bairros.

Só percebi quando estava acordando, com um pequeno-micro-pré-(ou, de fato)-vômito não só me saindo pela garganta, como também me afogando, por dois ou três segundos que pareciam um tempo por demais duradouro. Me afoguei, e fiquei ainda mais confuso porque o som estava alto (é curioso porque a dedicação da minha audição à decodificação do som realmente interfere no funcionamento dos meus outros sentidos — e isso é comum quando ouço som muito alto: eu não consigo sentir cheiro das coisas ou fazer coisas que dependam de outros sentidos — eu simplesmente não conseguia pensar durante aqueles dois ou três segundos!). Puxei o ar, engoli o ácido clorídrico gosto de danone que obstruía os caminhos do meu esôfago, tirei o fone num impulso um tanto atrasado, recuperei o ar, sobrevivi.

Não foi um pré-vômito, foi um vômito de fato, só que, sei lá, regurgitado (?), reengolido. Enfim, foi um caso. Quase morri de vômito. Mas acho que este ainda não conta, o que vale mesmo é o pré-vômito que eu controlo rotineiramente, e continuo controlando vitoriosamente.

terça-feira, 3 de abril de 2007

Ode ao espírito de uma rave

É introspectivo, psicodélico, individualista!
É introspectivo, psicodélico, individualista!
É introspectivo, psicodélico, individualista!

tunt, tunt, tunt, tunt, tunt, tunt, tunt,
tunt, tunt, tunt, tunt, tunt, tunt, tunt,

tunt. tunt.
tunt. tunt.

É introspectivo, psicodélico, individualista!
É introspectivo, psicodélico, individualista!
É introtun, psico-tun, indi-tunt, tunt, tunt, tunt, tunt, tunt.

vidualista!

É introspectivo, psicodélico, individualista!

segunda-feira, 2 de abril de 2007

To the left

Resolvi prestar homenagem à minha mão direita. Mais que isso, um favor ao meu corpo. Andei pensando em como minha mão direita, desde que nasci, trabalha muito mais que a sua vizinha esquerda, querida mãozinha. Lembrei que havia uma época, lá pelos meus quatorze anos, em que eu treinava pra ser ambidestro, e até obtinha êxito, tentava poupar a mão direita, fazendo com que alguns neurônios a mais fossem estimulados pelos exercícios dedicados. Por falta de disciplina, acabei esquecendo daquele objetivo tão singelo e sincero.

Pobre mãozinha, faz quase tudo o que se tem pra fazer quando o assunto é usar apenas uma das mãos. Pobre mão direita...

Curioso: há algumas coisas que, apesar de destro, eu só consigo fazer direito usando a mão esquerda. Telefone, por exemplo: só me concentro ao telefone se estiver segurando o aparelho colado ao ouvido esquerdo, do contrário, a ligação é sempre muito incômoda. Copo: adoro pegar copo com a mão esquerda (neste caso não é como na questão do telefone - eu consigo me concentrar, caso tenha que pegar o copo com a mão direita). Mas eu prefiro usar o copo na mão esquerda. Ela se torna um poderoso suporte. Eu costumo conversar com as pessoas, refletir, assistir à televisão, dar risada, pensar sobre o mundo, e esquecer o copo ali, na mão esquerda, ereta, imóvel, disciplinada. Não raro me pego com ela - e o copo - no ar, aí lembro de abaixar, e repousar o copo e a mão em algum lugar mais confortável que o ar.
Coisas da minha mão esquerda.

Mas é sério: se a esquerda fica para 5, ou 10 e até no máximo 15% da população, coitadas das mãos direitas! Como as direitas trabalham muito mais! As mãos direitas operam neste mundo, majoritariamente, mais que oitenta por cento do trabalho uni-mão (trabalho desempenhado apenas por uma das mãos).

A esquerda está condenada à porcentagem menor? Pobre esquerda.

Depois de bastante refletir, está decidido: a partir de hoje, não adianta, mão esquerda!, você dividirá trabalho com a sua amiga (e não rival) mão direita! Se preciso escovar os dentes, você colaborará; se preciso levar as sacolas, você as levará (se for uma apenas, você a leva; se forem várias, você leva as mais pesadas). Nada de injustiça, chegou a hora de compensar todo o trabalho que a sua amiga (e não rival) mão direita andou fazendo até o dia de hoje, neste corpo. Continue com os copos, continue com os telefones, mas trabalhe mais, divida mais as tarefas quando não puder fazê-las totalmente sozinhas! Divida trabalho, poupe a sua amiga (e não rival) e permita que ela tenha vida saudável, sem uma vida sobrecarregada e de esforço contínuo e, por vezes repetitivo.

Esquerda, faça sua revolução!