sexta-feira, 13 de abril de 2007

Considerações sobre a existência do pré-vômito

Trata-se de um pensamento recorrente: eu sempre me pego esperando um vômito que nunca vem. Um vômito de verdade, coisa que vem de dentro mesmo, gosma, resto de comida, comida processada, gosto de ácido clorídrico e o que mais tiver nesses sucos digestivos da vida.

Principalmente quando bebo cerveja, ou alguma outra coisa alcoólica. Não, pensando bem, acho aqui comigo que é basicamente quando tomo cerveja, e não precisa ser muita coisa não, umas quatro latinhas e já entro no processo do pré-vômito. Não é um vômito do tipo “ó, como estou bêbado, como estou enjoado, acho que vou vomitar!”, é um vômito sem enjôo, é, tipo, um vômito que vem “do nada”, saca?

Talvez seja só maluquice minha, vômito que vem do nada...

Ah, que “só eu”, o quê!, aposto que isso é super comum, só que nunca parei pra falar com as pessoas sobre isso. Vai ver que todo mundo sempre tem um vômito iminente...

Então, esse lance da cerveja é assim: eu bebo, e parece que a cerveja fica me estufando, tipo, como se tivesse um gás, mas o gás não sai, e eu fico super cheio, como se tivesse comido pra caramba, como se tivesse me empanturrado, sei lá, de feijoada. Caraca, feijoada, nada a ver, mas tudo bem, é isso, eu fico cheio. Então, eu fico cheio.

Até aí tudo bem. Acontece que eu, quando bebo, fico mais alegre e, como não costumo beber sozinho, as pessoas ao redor ficam sempre mais alegres (pelo menos, na maioria das vezes, estejam elas me acompanhando na bebida ou não) e eu, assim, tenho vontade de rir, e não só vontade, como realmente caio na gargalhada.

É aí que mora o perigo: na risada de alegria mora o pré-vômito assustador. Tá certo que eu nunca cheguei a vomitar durante esse processo, mas temo que um dia aconteça...

Acontece assim: eu começo a rir, começo a puxar ar, começa a me faltar ar (porque estou estufado — lembra da sensação de feijoada?), o meu diafragma balança, a cerveja me estufou e estou aqui sem ar, aí parece que não vou agüentar, e alguma coisa vai sair pela minha boca, me desestufando, me aliviando fisiologicamente, mas me deixando em grandes apuros ao redor das outras pessoas, esteja onde estivermos. Tipo: quanto mais público o lugar, pior, pois será o meu vômito no chão alheio que banhará o chão, e serei eu o centro vomitador das atenções.

Mas isso nunca aconteceu, sempre me controlei, sou um garoto que sabe controlar seus movimentos do tipo pré-vômito. Até hoje sempre deu certo (mas nada sob controle suficiente pra que eu deixe de me preocupar).

Entretanto, que fique claro, o pré-vômito independe de eu estar alcoolizado ou não. Ele nasce nos momentos mais inoportunos, às vezes durante e após refeições, às vezes no meio da tarde, ou provocado por qualquer coisa que eu não me lembre agora. Sempre vem a sensação de “não vou agüentar!, algo insiste em ser expelido de dentro do meu corpo, um vômito super a jato, alguma coisa incontrolável” (alguma coisa que só a sensação de pré-vômito sabe condensar em si o significado, a angústia e adrenalina!).

Imagino-me vomitando na sala de aula, o professor parando as explicações, não sabendo se ajuda ou se mantém o estado de espanto, se se aproxima daquela criatura (eu), se afasta o pé pra que não respingue no seu sapato nenhum pouquinho do que foi o meu almoço, enfim, coisas do tipo. Imagino-me vomitando na fila do banco, no chão branco e limpo e arcondicionarizado da agência asséptica, vomitando no meio da rua, descendo as escadas rolantes, vomitando em cima de algum cachorro, por aí, por essas ruas sujas que a gente pisa todo dia, no restaurante da universidade.

É uma sensação recorrente, que não chega a atrapalhar o meu dia a dia.

Teve só uma vez, em que eu tinha acordado antes das cinco da manhã, como era de costume, isso há cerca de um ano e meio atrás: eu tinha entrado no ônibus pra ir pra faculdade, resolvi ouvir um som no walkman e acabei dormindo pesadão, com som que não faço idéia no ouvido, passeando pelas ruas de bairros, bairros e infinitos bairros.

Só percebi quando estava acordando, com um pequeno-micro-pré-(ou, de fato)-vômito não só me saindo pela garganta, como também me afogando, por dois ou três segundos que pareciam um tempo por demais duradouro. Me afoguei, e fiquei ainda mais confuso porque o som estava alto (é curioso porque a dedicação da minha audição à decodificação do som realmente interfere no funcionamento dos meus outros sentidos — e isso é comum quando ouço som muito alto: eu não consigo sentir cheiro das coisas ou fazer coisas que dependam de outros sentidos — eu simplesmente não conseguia pensar durante aqueles dois ou três segundos!). Puxei o ar, engoli o ácido clorídrico gosto de danone que obstruía os caminhos do meu esôfago, tirei o fone num impulso um tanto atrasado, recuperei o ar, sobrevivi.

Não foi um pré-vômito, foi um vômito de fato, só que, sei lá, regurgitado (?), reengolido. Enfim, foi um caso. Quase morri de vômito. Mas acho que este ainda não conta, o que vale mesmo é o pré-vômito que eu controlo rotineiramente, e continuo controlando vitoriosamente.

Um comentário:

Pitanga disse...

Vc é um menino mt criativo, sabia?
Mas no fundo eu vivo tendo pensamentos loucos que ninguém mais, a princípio, tem (como seu pré-vômito) mas que no fundo a maioria das pessoas deve ter, como vc mesmo falou.
So que normalmente eu esqueço eles :(

Bjãão :¨¨