terça-feira, 5 de junho de 2007

Papel de parede

Não sei por que, mas resolvi, só agora, falar sobre isso. Não que eu esteja afirmando que você deva espalhar as coisas aos quatro ventos, mas é que chega uma hora em que a gente não consegue guardar segredo. As coisas têm sido muito boas para mim, tenho andado realmente feliz pela rua. É como se, ao final do dia, eu estivesse sempre destinada a receber o melhor dos presentes que alguém nesta vida poderia receber. Já tive medo de me entregar a fantasias, mas agora percebo que tudo tem sido perfeito mesmo. Por que não? É verdade que a gente deve desconfiar da felicidade, quando parece que ela realmente chegou (ou quando achamos que ela tenha chegado). Como dizem, quanto maior a altura, maior a queda. Eu sei. Eu sei também que esta é a felicidade sim, é a felicidade de verdade. Eu sinto.

Há anos, tenho que te contar. Eu sei que é absurdo, que parece ficção ou, como você costumava dizer, alguma coisa surreal: eu guardo uma pessoa dentro do meu quarto. Não em sentido metafórico, não se trata de expressão, gíria, nada. Eu tenho uma pessoa no meu quarto, há alguns anos. O nome dele é Jó, como o homem da Bíblia. Eu o encontrei um dia depois do meu aniversário de 27 anos, numa rua próxima à minha casa, enquanto caminhava de manhã. Foi muito bonito aquele dia, um dos mais lindos que carrego na lembrança. Nós caminhamos até a beira do lago, conversamos sobre música, filmes e sonhos, tocamos um a mão do outro, ficamos na ponta dos pés porque, você sabe, eu tenho mania de pedir que as pessoas que gosto façam isso quando eu me sinto bem. Eu me lembro do cheiro das flores, da sensação exata, do som, do farfalhar das folhas, do vento e da temperatura exata que pintava aquela cena da minha vida. A cena que ele também gravou na memória, e faz questão de me dizer sempre, principalmente depois das vezes em que fazemos amor.

Como me sinto ridícula escrevendo dessa forma pra você. Eu sei, eu sei que você deve estar rindo da minha cara, ao mesmo tempo em que se pergunta de que loucura eu estou falando, que brincadeira é essa que resolvi aprontar com você dessa vez, mas, por favor, entenda, é a mais pura verdade. Eu não brincaria assim com a minha felicidade e não voltaria a fazer contato com vocês assim, contando uma piada. É por isso que sempre pedi que não me visitassem. Coisa pequena, estúpida, mas significa muito pra mim. E pro Alexandre. Eu esqueci de dizer. O nome dele é Jó, mas ele prefere que eu o chame de Alexandre. Jó é melancólico, é um tanto triste e monossilábico, além do que é bíblico, e isso só estraga as coisas. Ele prefere Alexandre, que é mais altivo, mais viril e polissílabo. É grande, exige que a pessoa gaste tempo pra falar. Eu também prefiro assim, e estou apaixonada por ele. Muito, minha irmã, como nunca estive. Eu amo muito o Alexandre. Como nunca amei ninguém.

Quando cai a noite, nós nos deitamos apaixonados, e conversamos sobre o mundo lá fora. Eu falo sobre as coisas que vejo no meu caminho para o trabalho, das conversas que ouço enquanto atendo às pessoas, conto sobre os muros da cidade, que agora andam grafitados, falo sobre as cores que resolveram colocar nos cruzamentos com as ciclovias, falo das crianças, que agora brincam confinadas dentro de uma quadra com grades perto da nossa casa, falo sobre as pessoas na feira, sobre as vendedoras uniformizadas nas lojas, sobre os carros, que correm estressados cada vez mais a cada dia, falo sobre as meninas que pintam o cabelo de vermelho e loiro, sobre a cor do céu, que a cada dia, apesar de parecida, nunca é a mesma. Falo sobre o céu, que nunca é o mesmo, a cada dia um céu diferente.

Ontem o céu era de um laranja cor de fogo, meio avermelhado, meio rosa, era um céu redondo, quente, muito quente, muito laranja, com riscos azuis, e brancos, e avermelhados. O céu que eu gosto de olhar quando lembro de dias de praia, de quando éramos pequenas e passávamos os domingos em companhia dos nossos primos.

O Alexandre não vê o céu. No início, eu me sentia desconfortável em ter que aceitá-lo assim. Não que as coisas tenham piorado, mas trata-se de um troca, um pacto em que eu o amparo em seus desejos, e ele me ampara, me dando amor em troca, me dando a si mesmo, se entregando para mim. Aconteceu tudo tão naturalmente, tão delicadamente que, de repente, eu me peguei assim, tendo alguém tão somente para mim, e apenas para mim. Eu tenho este mundo que é meu e gosto de viver assim. As pessoas fazem escolhas, e este foi o caminho que eu escolhi. Acredite, estou muito feliz. É uma questão de tempo pra que eu volte a visitar vocês. Eu não me importo se tenho que abdicar de coisas que o mundo, este aí fora, nos reserva, eu não me importo se tenho que viver este outro mundo aqui dentro, de duas pessoas felizes sós. Eu não me importo.

Sabe, quando eu te encontrar e contar pessoalmente, você vai achar tudo muito estranho no início, depois você vai achar engraçado, talvez anômico, talvez errado. Mas nós sabemos o que estamos fazendo. Somos felizes assim.

O Alexandre foi, aos poucos, se retraindo. Ele não gosta muito das pessoas, faz pouco tempo, parou de falar ao telefone. A família dele não compreende. Eu penso em nós dois... Nós não precisamos de muito, sabe? Nós, nós estamos bem assim. Eu me sinto responsável por quem ele é, porque sou eu quem o informa sobre tudo o que acontece fora do nosso mundo de dois. Sou eu o filtro que ele precisa pra enfrentar alguns pensamentos ruins. Mas fico feliz, muito feliz por fazer bem a ele. Apesar de não sermos casados na igreja, no papel, ele é o meu marido. Eu até uso uma aliança. Você vai ver. Da próxima vez, enviarei fotos!

Até pouco tempo atrás ele era uma pessoa muito comunicativa, trabalhava como executivo numa grande empresa aqui da nossa cidade, sempre foi bem sucedido, de família boa, muito rica. Aos poucos ele foi sendo tomado por um sentimento muito grande de insatisfação com o mundo, uma desilusão muito grande, que eu entendo, que você também entenderia se o ouvisse dizendo, mas que o tomou por completo.

O mundo faz isso com a gente, minha irmã, você sabe disso. Cada pessoa reage de uma forma e esta foi a forma como ele reagiu. Quando eu o conheci ele estava a ponto de desistir de tudo. Felizmente nós nos encontramos. Era uma época em que eu também andava sem rumo por esta cidade, sem planos, sem emoções, sem amigos, vivendo apenas de trabalho, de salas frias, de pessoas desconhecidas. Viver assim foi o modo como encontramos nossa segurança. Eu sei que um dia você vai entender. Prometo, mandarei mais notícias, mandarei fotos. Você verá como nossa casa é bonita, do jeito que sempre sonhei. Temos um jardim de margaridas e gerânios, na sala pendurei o quadro que você me deu quando saí de casa. Nosso quarto tem um cheiro bom, é forrado por um papel de parede lilás, cheio de flores pequenas, rosadas, quase imperceptíveis. É tudo muito confortável, quente, muito calmo e sereno. Pela manhã, eu preparo café, nós comemos bolo de laranja e geléia na cama. Nós cantarolamos e inventamos histórias engraçadas. Ele sorri quando eu acordo e olho dentro dos seus olhos. Se eu pudesse, passaria dias dentro do meu quarto. Tenho vivido dias muito felizes.

Gostaria de me estender, já escrevo ansiosa pensando na próxima carta. Por favor, peço perdão a todos, peço que me compreendam. Estou feliz assim. Mande beijos a todos em casa, à mãe, ao Manoel, ao Ricardo, à Ângela e à Ludmila. Diga ao Beto e à Letícia que amo muito os dois. Todo o amor do mundo pra você, um beijo imenso, especial pra você e pra mãe. Diga a todos que estou feliz, que os amo muito. Te amo muito, muito, muito. Até logo,

Madeleine.


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5 comentários:

Ruy disse...

Meu caro Jota Jão-Jão:

Masbah!, tchê!, te sabia ser um bueno escriba, mas cada vez que te leio mais te acho um cara supimpa! Continue escrevendo, Jão-Jão.

Abrç,
Ruy, o herético de Jacacity. Ex-iconoclasta do Ingá.

Jean Souza disse...

Ô, Ruy! Brigadíssimo pelo comentário! Vocês não têm idéia de como eu fico contente quando pessoas que admiro tanto, como você, a Cláudia e outros amigos lêem as coisas que eu escrevo por aqui!

Grande abraço!!!

Jean.

Vivian disse...

Rapaz, não sei por que ainda não tinha comentado. Achei esse texto dez, pô!

Vivian, sempre sucinta. :D

Jean Souza disse...

ê, brigado!!!

bjos

T disse...

Que impressionante.