terça-feira, 17 de julho de 2007

A experiência de morte de Vincent

Quando Vincent morreu, isto obviamente foi muito assustador para ele. Pode ser que ‘obviamente’ não seja exatamente o termo correto, já que nem tudo nesta vida, e mesmo na morte, faz necessariamente lógica e tenha algum sentido coerente que permita lhe classificar como óbvio ou, longe disso, lógico. Na experiência de morte, ou quase-morte, não há logicidade, não há muito nexo. Nexo, isto existe apenas em poucas coisas.

De qualquer forma, a experiência de morte de Vincent foi muito estranha. Enfim, corrija-se a partir daqui: na verdade, trata-se de uma experiência de quase-morte, já que Vincent conseguiu voltar para sua vida relativamente normal, e contou para poucos a sua passagem pelo outro lado da vida. Isto aconteceu num dia onze de novembro, fique registrado, dos seus parcos vinte e dois anos, numa época em que as pessoas já eram suficientemente individualistas, descrentes e desgarradas de crenças um tanto quanto medievais e baseadas em coisas místicas, para que sua quase-morte fosse encarada com considerável seriedade.

Tudo aconteceu depois que o jovem voltara de uma reunião com amigos da faculdade, tarde da noite, quando, de repente, ao passar por uma rua estreita, de volta para casa, fora atingido por algo que nunca ninguém viu o que pode ter sido, apesar de muito se suspeitar ter sido um carro. Como não se encontraram testemunhas e Vincent jamais soube explicar o que o atingira de forma tão intensa, a ponto de o fazer parar no hospital — como aconteceu depois daquela pancada—, convém a todos, quando contam esta história — e querem pular a parte da pancada por objeto, animal ou veículo não identificado — dizer que ele fora atingido por um carro.

Vincent caminhava distraído pela tal rua, quando fora atingido pelo carro hipotético. Acrescentemos: é bom que se diga, não estava drogado, nem mesmo um pouco alcoolizado. Enfim. O rapaz, não se sabe após quanto tempo depois de desacordado à beira da calçada, foi encontrado por uma família de três pessoas, que passava por aquela rua de carro (desta vez, um carro preto, compacto, modelo discreto, que combinava bastante com aquelas pessoas) e que, imediatamente, o levou para o hospital mais próximo.

Ao chegar no pronto-socorro, uma equipe da emergência veio ao encontro de Vincent, já na maca, na porta do hospital, e iniciou a checagem de dados vitais do jovem, levantando as pálpebras, apertando seus pulsos, observando-lhe a boca, tentando falar com ele, procurando no corpo sinais de agressão, cortes, alguma lesão grave, costelas quebradas e uma infinidade de coisas. Era certo, porém, que ainda respirava, que estava vivo, mas não se sabia a gravidade de seu estado. Foi então que, ainda no caminho para a sala de atendimento de emergência, uma enfermeira notou que atrás de sua cabeça havia uma alteração no tecido que revestia o crânio, algo como um ligeiro inchaço, seguido de corte aparentemente raso e sem sangramento, quase imperceptível, escondido sob as mechas de seu cabelo preto. Logo em seguida, Vincent teve uma parada respiratória, inexplicável como tudo aquilo, gerando grande preocupação entre a equipe que prontamente o atendia, e que até então, não conseguia compreender direito o que se passava, e como deveria atender aquele paciente.

Logo em seguida, o rapaz tivera, então, numa corrida pela sua própria vida, o tórax massageado fortemente e as veias penetradas por agulhas, injetando-lhe coisas, seguindo tais procedimentos por uma série de tubos, máquinas, especulações e cuidados, até que, enfim, conseguiu-se estabilizar seu estado, que não era simples e despertava preocupações. Vincent estava em coma e era necessário avisar seus familiares. Corria sério risco a sua vida. Seria muito lamentável morrer tão jovem, sem nunca ter realizado metade dos sonhos que compartilhava nas mesas de bar e nas livrarias da cidade.

A partir daí, começa a história mais estranha. Foram necessárias duas horas para que Vincent recobrasse alguma consciência, uma forma de cognição muito estranha, apesar de perfeitamente límpida e até coerente. Que seja descrito, então, a partir daqui, tudo o que ele viveu por momentos não muito rápidos, que se sucederam sem interrupções e estão gravados em sua mente — fato este, até hoje compartilhado com pouquíssimas pessoas.

Em um primeiro momento, Vincent, apesar de ligado aos aparelhos, não muito sedado, em coma, os dados vitais seriamente comprometidos, acorda aqui, neste espaço. A mente completamente sã, os reflexos vivos, ágeis, a respiração sem alterações, os olhos atentos, tentando, em sincronia com sua mente, compreender e registrar o que se passa e que lugar é aquele. A sua primeira constatação: trata-se de um ambiente retangular, o qual não se pode medir, porém não estreito — muito menos apertado ou claustrofóbico. O lugar é grande o suficiente para que não se enxergue muito bem o que há na outra extremidade do retângulo. Há de se convir que não há muita luz e que o vermelho escuro, mesclado ao negrume das paredes, não ajuda muito na visualização de qualquer coisa que se apresente a alguns metros dos olhos. Não faz frio, não há sequer uma brisa. Sente-se, ligeiramente, um conforto morno, agradável até. O rapaz percebe que se encontra vestido, mas não é possível dizer exatamente como. A visão que, posteriormente, Vincent guarda de si mesmo, é aquela em que se encontra de costas, vestido de jaqueta de couro marrom, uma calça jeans surrada qualquer e sapatos. Coisas aleatórias que nem mesmo saberia dizer se tratavam exatamente de posses suas.

Desde então, não há registros de emoções fortes, como medo, angústia ou pavor, o que permite ao jovem chegar até bem próximo da outra parede, o suficiente para enxergar o que existe lá do outro lado. Afirma-se, aqui, ‘chegar ao outro lado’, porque em nenhum momento foi possível, apesar da seqüência ter se dado sem interrupções, registrar Vincent caminhando até a outra extremidade do retângulo passo a passo, um pé atrás do outro. Há que se registrar, também, que, em nenhum momento, Vincent olhara para cima, a fim de descobrir o que, ou que mundo poderia haver sobre sua cabeça, se as paredes eram limitadas apenas até ali onde seus olhos podiam acompanhar, ou se acima tudo era escuro, avermelhado, ou mesmo infinito como céu.

Ele simplesmente estava na outra extremidade, próximo ao quadro grande, de molduras douradas, em detalhes de madeira, muito maiores que seu corpo, alcançando, facilmente, o dobro de sua estatura, ou até mais. Vincent se aproxima do quadro e se aproxima, também, da grande porta de formato quadrangular à sua direita, ao lado do quadro imenso que avistara agora há pouco. Esta experiência se dá de maneira absurdamente estranha, pois, enquanto anda, o rapaz enxerga, ao mesmo tempo, dois caminhos, como se pudesse enxergar para a frente e para o lado. E não só enxerga, como penetra, ao mesmo tempo, as duas direções. Ele enxerga e anda para frente, enxerga e anda para o lado, em um movimento muito assustador, mas que, naquele momento, não lhe provoca grandes indagações.

Vincent caminha. O movimento para frente é interrompido, continuando apenas o movimento para a direita, o qual, depois de dois ou três passos, o leva ao encontro de uma outra porta, onde tudo é muito escuro e silencioso, e apavorante, como quando se está na porta de um trem-fantasma e não se deseja entrar pelo túnel. Apesar da alusão um pouco infantil, o trem-fantasma é o que primeiramente vem à sua mente, quando Vincent tenta descrever aquela entrada. O rapaz sente muito medo, e é impelido por si mesmo para trás, de volta ao seu espaço marrom-avermelhado sem muita luz.

Quando caminha de volta, passando novamente pelo portal quadrangular, Vincent se depara com uma imagem, que até então não existia dentro do quadro de molduras espessas e douradas. O susto é tamanho, que o jovem sente uma leve pontada no coração, um frio que o toma de súbito e lhe faz comprimir as bochechas e apertar os olhos de aflição. A reação se dá mais pelo fato de encontrar algo que não havia antes ali, do que pela aparência da figura com a qual se depara. O homem que está lá retratado, não é pintado de forma muito parecida com a realidade.

Percebe-se o homem de baixíssima estatura. Não é possível lembrar direito se tinha cabelos ou não, velho, porém saudável, o rosto corado, bigodes brancos, um leve sorrido, mau e repugnante, selado em sua face, um ar de satisfação, que logo se explica pelas vestimentas pomposas e o cetro na mão: aquele homem é um imperador. O manto escorre pelo chão e os detalhes em veludo branco, marcado por insígnias de detalhe preto, que lhe identificam a dinastia, correm até a extremidade do quadro, limitadas apenas pelas molduras douradas, acima do chão, pouco além dos olhos espantados de Vincent.

Não é possível afirmar qual o tempo transcorrido entre o espanto inicial do rapaz e a contemplação estranha igualmente assustadora a que ele agora se dedica na tentativa de compreender cada detalhe da criatura bizarra, jamais vista anteriormente, instalada em frente aos seus olhos. Vincent registra tudo que pode. Algumas partes se tornam nebulosas, como o que se apresenta logo atrás do homem retratado, que por vezes, parece ser a sacada, talvez de um palácio, um palacete, em uma região não muito arborizada, porém gramada, fria, e por vezes não passa de superfície lustrada, espelhada, que reflete seus olhos espantados e seu movimento lento, quase imóvel.

O rapaz se afasta. Sente-se muito mal, neste espaço alheio a tudo, surgido do imenso nada, onde não se conta o tempo nem se pode chamar por ninguém, de coisas que aparecem, sem sentido, e o fitam de forma enigmática.

Vincent vê o holograma. Ele se situa abaixo da cintura do rei, abaixo do cetro, sob uma placa estranha que agora pode ser vista, e que antes, absoluta certeza, não se encontrava ali. A experiência é asquerosa, pois o holograma mostra que naquele espaço só há lugar para um imperador e um súdito. E é este súdito quem deve atender aos desejos do rei, e lhe atender os pedidos, que agora se concentram em um grande falo lustrado, da mesma cor que o resto do corpo do rei, ereto, entre as pernas daquele homem. A figura no quadro está imóvel, mas os olhos estão vivos e se comunicam diretamente com a mente de Vincent. Exigem dele que a vontade pervertida do rei seja atendida e as ordens sopram, dentro de sua mente, em tom altivo e ameaçador, que o holograma deve ser atendido e Vincent deve atender logo ao desejo do velho rei sem nome, antes que algo de ruim lhe aconteça, e não seja mais possível, nunca mais, voltar para o outro lado do retângulo, onde está toda a vida conhecida.

É neste momento que o rapaz percebe que o retângulo é o lugar onde se encontra o avesso do espaço em que as coisas existem. Ele contém o seu enjôo e o medo, aperta os olhos, tentando enxergar além do que existe a poucos metros ao seu redor. Resta apenas um dos lados dos triângulos para ser explorado, a parede à sua esquerda, para onde ele corre, sem olhar novamente para o holograma, e aporta, depois de passos largos, rápidos, numa corrida intensa, como quem foge de animal selvagem que o persegue, faminto, numa jornada decisiva.

Situa-se aí uma janela, de quarenta por quarenta centímetros. Não é preciso muito esforço para subir até ela e enxergar o que se encontra através de suas bordas, do outro lado, que apesar de muito nítido e bonito, não parece ser o lado para onde se deve seguir. Há, deste lado, grandes e imensas árvores de um verde muito claro, quase pálido, porém bonito, fosforescente às vezes, das quais não se pode enxergar nem as raízes, nem o topo, longilíneas, muito compridas e finas, ao lado de cipós, igualmente verdes, não muito pálidos, todos atingidos, numa cadência de freqüência precisa e inalterada, por ventos e gritos humanos, que surgem, sempre de uma mesma direção, e partem, em direção à outra, fortes e ríspidos. Gritos que não dizem nada e caminham junto com o vento, balançando as árvores dentro da janela.

Vincent coloca a cabeça para dentro deste lado, em que tudo é branco, árvores e ventos de grito. Procura por sua amiga Caliel, que ele sabe que inexplicavelmente está lá dentro. Ele não sabe o porquê, mas tem certeza, ela está lá. A cabeça da moça, como quem também está em outra janela, aparece e lhe abre um sorriso extenso, os olhos vivos, o semblante leve. Ela grita para o amigo: “Volte! Abra todas as minhas mensagens, precisarei, muitas vezes, conversar em silêncio com você!”. Ele obedece, tira a cabeça de fora da janela e quando toca os pés no chão, abre os olhos e ouve “Bom dia, Vincent, que bom que você acordou”. Alguns minutos depois aparecem no quarto o irmão, Denis, a namorada, Nadia, os pais, os amigos Sheila e Giovanni. Ele sorri cansado para todos. Precisa descobrir quem é a mulher chamada Caliel.

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