sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Sou amor, paixão e clichê

Antes eu tinha um nome, mas agora não me importo qual seja. Estou apaixonado. Estou apaixonado e sou um outro homem. Logo eu, que sempre fui contra clichês! E agora descubro que o amor é mesmo um grande deles, repetição, tautologia em forma de rede, que enlaça, deixa marcas, faz gozar, faz rir e provoca dor.


Neste momento eu sou amor,
e não ligo se puro clichê.
Eu repito, e me sinto feliz:
sou puro clichê, sou puro clichê!


Estou apaixonado, sou não sou correspondido. Sou apaixonado, correspondido, Julieta, sou apaixonado, sou não sou Aramis. Julieta ama a mim, que não tenho nome, Aramis não sabe da minha paixão, mas amor por mim também sente, eu sei.

Quando chega Julieta em minha casa, no meu portão, cresce em minha face um sorriso inevitável, meus poros dilatam, e minha pele se esquenta em arrepios, como se uma fragrância de amor e de desejo fosse capaz de, produzida, enlaçar nossas vidas e nossos olhares, em cada segundo antes da palavra. Antes mesmo da primeira palavra.

Ela me beija, e meu corpo responde, a cada toque, a cada gosto dos seus lábios, da ponta dos dedos, tua face quente, que roça o meu rosto e me diz que este segundo nosso é eterno. E que, quando você parte, mesmo que o amanhã me traga de volta, eu sinto dor, como quem perde um pedaço, e sente que o corpo lateja, inquieto, querendo seguir atrás, querendo a parte que falta, que pulsa.

Eu sou clichê. E eu te amo. E gosto quando nos sentamos lado a lado e, sem dizer nada, o seu braço me encosta de leve e devagar. E te quero a todo instante, e sou clichê. E de ti faço pequenos desenhos, enquanto passo o dia, pensando, e perco a concentração e rio entre goles de café. Você são músicas singelas, que ouço pra matar a saudade.

Eu sou clichê. E amo Aramis. E ele gosta de mim, mas não me tem amor. E tem amor. E ele tem a mim, e eu o tenho, do seu jeito. E, quando ele vai embora, eu olho dentro dos olhos, e digo até logo, e quero um beijo, e ele diz até logo. Somente até logo.

Meu braço não toca sua pele, e me envergonho quando se aproxima de mim, e me esforço pra sentir seu hálito, seu perfume, seu sorriso, seu ombros, suas mechas, e guardo tudo comigo. E ele me olha, me gosta, não me ama e não se apaixona. E eu sou clichê. E amo, desejo.

E sou clichê, e tenho vergonha, e certeza. Quando é de noite e quero o amor de Julieta, é de noite e a pele de Aramis. E quero a todos. E não sou a mim, pedaço e gozo, felicidade e desejo, e sou amor, sou amor.


O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.


Sou amor, desejo, e certeza. Sou a mim, sou nós, sou você. Sou amor, paixão, e clichê.




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Um comentário:

Jean Souza disse...

Meu muito obrigado a Fernando Pessoa.