quarta-feira, 28 de novembro de 2007

About this moment

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C'mon! Let's fuck!





NOW!


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quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Começa um tempo fatídico [o verbo]

Mas amar é bom.

Por algumas coisas.
E me envergonho.

E talvez por vocês.
Por você, por você, por você.
Porque agora, sei que amo.

Amar.
Resolvo usar o verbo.
Resolvo quebrar o tabu.


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O verbo [começa um tempo fatídico]

Resolvo quebrar o tabu.
Resolvo usar o verbo.
Amar.

Porque agora, sei que amo.
Por você, por você, por você.
E talvez por vocês.

E me envergonho,
por algumas coisas.

Mas amar é bom.


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terça-feira, 20 de novembro de 2007

sem título, 2

- vômito que escorre pelo chão do ônibus

- perdigotos que saem da boca do homem no banco de trás e grudam no pescoço [dele mesmo]

- pessoas que tossem e você houve [sic] o catarro em movimento nas gargantas delas

- mulher com vagina fedendo

- homem suado com odor insuportável

- homem com uma ferida na cabeça e a impressão de que todas as bactérias, todos os germes, vinham contra o vento, diretamente à sua [narrador] boca. levantou-se do lugar onde estava. não havia mais lugar no ônibus. ficou em pé mesmo. ninguém entendeu.





[anotações em pequeno pedaço de papel, tempo não preciso, provavelmente entre 1998 e 2003]


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segunda-feira, 19 de novembro de 2007

sem título, 1

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de dia tem feito sol

de noite tem feito chuva



de dia eu vejo navios, que aportam.



quando é tarde, eles já partem

vermelhos e negros e grandes.

em cascos e metais,
formas de aço,
assustadores, em negros, em azul.




às quatro da tarde,

entra pela janela uma luz amarela,
lânguida, suave,

que me acalma,
me excita, me deixa feliz.

e me convida: sinta esta vida!
e me convida pra tomar um café.


e quando me banho e sinto esta luz,

que do sol entra pela fresta dos prédios,

e toca minha pele esquecida,
desnuda e tocada, pela fresta,
este feixe de luz.



minha pele,

por baixo dos panos,
por baixo dos prédios,
da civilização.




quando é de noite, eu vivo, sozinho,

falo com almas, converso, de longe,
falamo-nos distantes, por entre fios,



entre cabos, e telas e mídias e meios.




quando é de noite, eu vivo,

e vivo em cores,
e sonhos,
e sons.




quando é manhã e eu canso,

me deito, e ouço pássaros,
e fujo do sol.


quando madruga, e me escondo das luzes,
navios aportam, e apitam, e encantam.
em cascos de ferro, de negro e azul.

e quando durmo, eu sonho com eles,
enormes, gigantes, em águas e medo.
e tenho medo,

das águas, dos homens.



e então me deito,

navios.
meus leitos.



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sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Para eles

- Pensando em algum famoso?
- Porra, direto! Antes eu achava mó tosco, mas agora eu nem ligo. Eu já ****** pro Sufjan Stevens, pro Jake Gyllenhaal, pro Jude Law. (...) Até pro Ciclope, dos X-Men! Isso na época em que ele ainda era só desenho, hein!, hahahaha!



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Com oito dedos sobre uma linha, sem que todos eles sejam utilizados

March! [ou 1,2,3; 1,2,3; 1,2,3; 1,2]

abandonem suas calças!
abandonem suas saias!
venham, comecem, neste instante!

caminhemos em direção ao hí-bri-do!
caminhemos em direção à in-de-fi-ni-ção!
sejamos o duplo, o triplo e o muito!

caminhemos em direção ao novo,
sejamos felizes, beijem-se!, abracem-se!
caminhem, caminhem, pessoas!, há-só-es-ta-vi-da!

felizes, caminhem, pessoas,
caminhem, sejamos o muito!

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Confessa

Minhas palavras estão secas.
Estão secas ainda.
Duras, diretas, como eu.

É necessário regá-las.
Penso: talvez.

Alguma palavra mais mole, alguma frase mais solta,
alguns adjetivos tolos, alguns artigos a mais.
A, as, umas, umas coisas com vírgulas,
algumas frases mais longas, coisas desnecessárias.

Alguma coisa que não sou eu, penso, eu, agora.

Quero dizer all is full of love.
Is all around you.
All is full of love.
E ainda sou isto. E gosto.


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quinta-feira, 15 de novembro de 2007

discriminação cíclica

Discriminação cíclica: é o que nos cerca hoje.
Obrigado, queridos, por não perceberem.
Isso só agrava, cada vez mais, a nossa vida.
Assistam ao filme Crash, de Paul Haggis.
E compreendam.

Ou olhem ao nosso redor.


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Rio de Janeiro

São duas grandes esferas, dois estados de espírito, duas grandes cidades, uma, em constante festa, outra, em constante guerra. Alternando entre uma e outra, muitos humanos, passeando, cortando as linhas que as dividem e que, por vezes, chegam a fazer com que a cidade da festa seja ao mesmo tempo a cidade da guerra, fazendo desta cidade uma festa-caos, onde se vive, se sobrevive, se chora, se dança, se anda com medo e se fala com erre arrastado, o esse chiado.

São belas estas formas, mas tão belas estas formas, que mesmo as rotinas não impedem que se olhe pro mesmo canto, pra mesma montanha, as águas, um dia atrás do outro, sem que se cansem os olhos e se abram sorrisos agradecendo o que quer que seja, a deus, à natureza, ao acaso, pelas formas que aqui se formam, pelos sóis que aqui se nascem, que aqui se põem.

São sons e batuques e fanques, o charme que só aqui se vê, das mulheres de cabelos que voam e saias de cores vivas que bailam, de passos apressados e cheiros de perfumes que ficam quando passam, e misturam na brisa, na maresia, no sal, no sol, na calçada que ferve, nos contrastes de preto e branco de ondas, de praias, de rios de janeiro e outros.

São festas caóticas e caos e muito caos e medo e dores. E dinheiro, por que se briga, por que se mata, se fere, se corre, se esgota cada dia o homem nos ônibus, nas ruas, no escuro, nos becos, nas margens de toda esta cidade, como no resto do mundo. Aqui é o mundo, o pior dele. Subemprego, mãos estendidas nas ruas, esmolas, assaltos, furtos, polícias-ladrões e milícias, as drogas, as armas, guerrilhas e balas que se perdem em corpos, em nada alheios a tudo isso que passa.

E rápido, a vida nesta festa-caos. E porque, mesmo assim, a gente fica, como quem gosta da morte e do risco.


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quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Flint

Registra. Registra e pontua o (este) momento. Complica de propósito, finge que faz arte. Não era, não era pra vírgula. Desobedece. Volta pro ponto. Finge que sabe o dáda, que sabe o dáda, que faz com que tenha sentido. O nada, e tem.

Porque esta é a nossa vida, uns mapas, umas distâncias, umas estradas, vozes, sons, sonhos, palavras, cheiros, o céu, gosto de chocolate, pequenas coisas. Pianos, letrinhas de livros, estrofes de poemas, papéis rabiscados sobre a mesa. Algumas lágrimas.


Ouço agora uma música boa. E daqui, te mando um beijo.


* dedicado à Pâmela e Lenice


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terça-feira, 6 de novembro de 2007

A segunda lua

Acham que eu não me recordo, mas lembro claramente de muito do que se passou naquela época. O suficiente pra desconfiar de tudo isso, o suficiente para, qualquer dia, ir além do que a simples desconfiança tem me feito pensar por estes cantos, entre os milharais.

Tinha sete anos de idade. Lembro-me da verdadeira guerra civil que se instalara de forma absurdamente sem sentido, entre pessoas e pessoas que não consigo distinguir quem exatamente eram, o que exatamente queriam. Era uma guerra sem sentido, como já disse. Uma guerrilha. Um conflito muito pequeno. Desconfio muito se fora noticiado por algum jornaleco das imediações. Creio que jamais tenha alcançado ondas de rádio ou algum segundo no noticiário da tevê.

Acho que minha cidade desapareceu. A minha família era muito bem instruída, os meus vizinhos eram poderosos, éramos todos muito influentes, a nata, a elite, os que pensavam a vida, os que decidiam rumos. Pelo menos ali, em nosso mundo estranho, uma comunidade global, aquele universo muito rico, muito moderno, muito atual, mas sempre algo como construído entre-mundos. Como se habitássemos uma redoma de vidro, nos protegendo dos outros, dos crimes, do mundo lá fora. Meu mundo, um grande condomínio. Pensando bem, acho que nos procuram até hoje. Imagino nossas fotos nos jornais, nos livros de história, nos arquivos do mundo inteiro: “Uma cidade que desapareceu”.

O nome da minha irmã é Sara. Cinco anos mais nova que eu. Logicamente não se lembra de nada, mas, hoje, depois de tanto me ouvir falar, descrever cenas, perguntar-me sobre o que é isto que me aflige diariamente, essas memórias são suas também. Cada detalhe.

Se um dia eu morrer, ela terá consigo as minhas memórias. E talvez carregue consigo as minhas dúvidas. Talvez encontre as respostas. Talvez esqueça tudo, e siga vivendo esta vida, correndo entre os milharais, entre estas plantas, entre estas terras, e estas pessoas, e estas crateras, este mundo mais simples. Esta vidinha feliz que levamos.

É lógico que um dia eu vou morrer. Não sei se morro antes dela. Talvez sim.

Tenho medo de ficar louco. Eu me lembro claramente: os meus pais, os meus tios, meus vizinhos, a polícia, alguns desconhecidos e outros mais ou menos familiares, lutando. Contra eles, do outro lado, alguns inimigos. Todos armados, todos muito tensos, todos muito assustados, muito preocupados em preservar suas proles, lembro das armas, revólveres prateados, cápsulas, projéteis dourados caídos pelo chão, o cheiro da pólvora, barulhos cortantes no ouvido, os tiros, gritos abafados, a guerrilha silenciosa, passos abafados, corridas quase nas pontas dos pés, pessoas se escondendo entre muros, roupas rasgadas, deixadas em pregos e cacos nas paredes, braços rasgados em portões, calças manchadas, arrastadas em frestas, microações, calculadas, entre cigarros, por vezes, um quase silêncio. Lembro-me que chorava.

Durou três dias. É tudo que minha lembrança consegue guardar. Acho que fiquei em estado de choque, mas nunca tentaram me tratar. Olharam-me como se fosse adulto, ninguém nunca ligou direito pra mim. Vivemos razoavelmente felizes agora.

* * *


Sara: Estava procurando você.
Eu: ...
Sara: Pensando nos seus sonhos, mais uma vez?
Eu: Não são sonhos. Você sabe, não gosto que fale assim.
Sara: Desculpa, mas é muito difícil para mim, por favor, entenda...
Eu: Não quero me explicar pra você de novo.
Sara: ...
Eu: O que foi?
Sara: Jantar...
Eu: Não quero comer.
Sara: Você precisa. Amanhã é dia de aragem. Começa a mudança de culturas...

(...)

Sara: Um quarto do campo descansando, pra próxima estação...
Eu: Eu sei, você sabe que eu sei dessa baboseira muito melhor que você. Rotação, rotação, muda solo, muda solo. Parece que vocês se divertem mesmo, mudando umas sementes de lugar, 'arando solo!', celebrando a colheita! Sara, você não entende? O ser humano não precisa disso! Já vivemos fases muito melhores! Ninguém precisa sujar as mãos de terra, ou seja lá o que for, pra viver um dia após o outro! Eu não agüento, não posso viver neste lugar...
Sara: Eu sei. Sei que isso não te agrada. Mas nós gostamos disso aqui. Queria que você gostasse também.
Eu: Sabe, há muito tempo atrás, viveu um homem chamado Chuang Tzu. Um dia ele sonhou que era uma borboleta.

(...)

Eu: Mas quando acordou, descobriu que não tinha como ter certeza: ele não sabia se era um homem sonhando que era borboleta, ou se era borboleta sonhando que era homem.

(...)

Sara: E você acha que nós realmente vivemos na Lua?


* * *


Avista-se, ao fundo, o céu. Logo à frente, um espantalho.



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sexta-feira, 2 de novembro de 2007

O metrô

Foram seis ou sete viagens. Não me lembro, por motivos óbvios: pelo sangue, pelos gritos, pelo desespero, pelo coração que palpita intensamente quando lembro. Creio que tenham sido seis viagens e meia, não me lembro exatamente quem conduzindo que quantidade.

Começou com meu pai. Fazia tempo que não o via, estava mais magro, mais moço, mais bonito, porém mais sério. Não nos falamos. Nós nunca gostamos de conversar mesmo. Fiquei observando ao longe, gosto de observar, principalmente quando estamos em plataformas novas, onde as pessoas e os hábitos são novos, os passos ainda não são marcados pelo hábito, cada um procura a posição que mais lhe agrada, e vai repeti-la ad infinitum, até que um dia alguma coisa mude sua rotina.

Estou em pé, não como nada, não bebo nada, não fumo, não falo, nem gesticulo. Apenas transpiro calmamente, estou apoiado na parede, olho para frente, observo.

Meu pai é o condutor, tem protetores-fones no seu ouvido, usa um par de óculos de lentes azuis e grandes. Ele olha para mim como quem acena e diz até logo, as pessoas entram apressadas, as portas apitam, esperam dois segundos, fecham, a plataforma range, os vagões se movem, os trilhos eletrizam, meu pai à frente leva todos os seres aos seus destinos. E partem, digo adeus internamente, amo vocês, pessoas que não sei quem são.

A viagem se repete, e repete, e repete. Não são longos os intervalos entre uma e outra. O fato é que eu pareço adormecer, e me dar conta de que a vida existe somente e justamente quando o trem aporta à minha frente, e ouço os trilhos, ouço as vozes, vejo os passos, as mãos e as salivas, os pescoços, os pelos, unhas, cabelos, dentes e carros.

É a última vez que vejo meu pai antes do acidente de dimensões que desconheço. Quando ele volta, depois de minutos dos quais não sei a amplitude, a gravidade e o que seja, tem o braço enfaixado, preso fortemente, rente ao peito, seus olhos não são de alegria, sua boca não pensa em palavras. Apenas anda, se afasta, não me olha.

Me desespero, pois as pessoas entram por esta porta, em fila, amontoadas, atenho-me à mulher levemente gorda, de rosa, os sapatos altos, ridiculamente rosas, e barulhentos, empurrada pelos que atrás aparecem, alguns parecem cair por baixo do trem, mas quando parte este novo carro, vejo que todos partiram, e nada de mal acontecera, apesar do braço ferido de meu pai. E aceno, internamente, agora preocupado, adeus pessoas, até uma outra hora, quando voltarem por este caminho.

Adormeço, como automático. E acordo de súbito, com a chegada do novo carro, na verdade o mesmo, mas cada viagem é uma experiência nova, para mim é como se tudo fosse novo. Não acredito em ciclos, acredito em retas, em rios que nunca são os mesmos, em pontos que nunca são os mesmos. E homens que nunca são os mesmos, apesar de serem os mesmos rio e homem que se banham por estes relógios, pendurados por estas grandes paredes, ornadas por rostos, que olham e calam, e espelhos que refletem o que desejamos de nós mesmos.

Tenho certeza que já se passaram horas, mas eu não ligo, e permaneço imóvel, ancorado sobre meus pés de cimento, pregados ao chão, esperando cada viagem, atento a cada janela, recluso em meus pensamentos, por muitas vezes vazios, por muitas vezes intensos, e pesados, e fatigantes.

Eu vejo a minha mãe agora. E tenho receio, e lembro do pai, que ferira o braço, e nunca mais voltara, e partira de olhos tristes, e partira, concentrado na dor. Internamente eu grito, mãe, não faça, não parta!, não conduza este trem!, deixe para outros, volte para casa! E ela, igualmente, protetor nos ouvidos, óculos de lentes azuis e grandes, à frente de todos os vagões, dá o sinal para que vocês, passageiros, se preparem, e ultrapassem a faixa que antecede cada carro, e passem por sobre o vão, e se acomodem, e dêem lugares reservados para aqueles que envelheceram, para aqueles que vão nascer. E cedam seus lugares para etcetera, e reclinem-se, encostem, e conversem, flertem, façam o que quiserem, e pensem.

E parte este carro. A mãe olha para mim, e me beija de longe, eu sinto, e apitam os trilhos, e mudam os ponteiros, mais uma viagem. Boa viagem.

Eu sinto o silêncio, eu o como, acho doce, e fofo, aconchegante, e gosto.

Aproximam-se outras pessoas, alguns rostos familiares, outros nunca vistos mais magros, mais gordos, mais amarelos ou azuis. Também anseio por este trem. Tenho saudade da mãe, principalmente depois do que sucedera com o pai, e eu nunca recebera notícias do que tenha acontecido.

Aproximam-se rostos, e vozes, e ponteiros. Faíscam de repente estes trilhos, e zunem ao longe, cada vez mais fortes, até que surgem luzes dos faróis. E vejo ao longe a mãe, logo no primeiro carro, heróica, a condutora, que traz a todos e leva a todos para suas casas, trabalhos, encontros, ensaios de peça de teatro às quinze horas da tarde, entrevistas de emprego, e médicos, e visitas. Ela me fita, e nada diz, e logo estará de volta, após outra viagem, e outra e outra.

Eu fico satisfeito por poucos instantes, pois desde que o pai partiu, os embarques têm sido cada vez mais conturbados, as pessoas mais amontoadas, as viagens mais perigosas, o vão entre o trem e a plataforma cada vez menos estreito, cada vez mais abismo, cada vez mais risco de choque, risco de morte, risco de choque. Cuidado.

Avisto esta mulher de rosa. Isto prova que já se passaram dias desta minha atividade prazerosa e angustiante, que é ficar aqui, esperando trens, preso à parede, esperando os carros, os ponteiros e as pessoas. Qual a minha função aqui?, pergunto-me por um instante. E me questiono sobre destinos, sobre fatalismos, e teleologias, e thelos.

Acalmem-se, pessoas!, tenham cautela com o vão!, não corram, por favor, não morram, não tenham tanta pressa!, eu grito silencioso. Cuidado, mãe!

Mais uma nova viagem. Ninguém me ouve, nenhuma dessas pessoas me ouve, e começam a cair neste abismo, e se empurram, e se matam, e morrem, algumas eu não consigo ver. Algumas adentram os vagões, e comemoram. E não vejo minha mãe, e preocupo, e choro, e me ergo nas pontas dos pés, e olho por entre as pessoas. E desespero.

E lembro do pai, assim que vejo os olhos da mãe saírem por entre os rostos desesperados, contra o fluxo, que segue, em desespero, na direção do túnel que as leva. E procuro coisas boas. Minha mãe está sangrando. Perdeu um dos dedos do pé. Deixa rastro de sangue, que sai da multidão, que sai da plataforma, que sai de dentro do fluxo, que sai daquelas pessoas.

Eu não quero ferir o meu braço, aleijar-me, andar com quatro dedos, estou aqui, pregado na parede.

De súbito, surge uma criança, contra o fluxo, segura um dedo nas mãos. Corre, seguindo o rastro, tudo ficará bem. Eu me acalmo. E partem, e seguem.

Fica o silêncio. E não quero ser, não eu, o próximo condutor. Desprendo-me. Corro por entre o escuro dos túneis.