segunda-feira, 19 de novembro de 2007

sem título, 1

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de dia tem feito sol

de noite tem feito chuva



de dia eu vejo navios, que aportam.



quando é tarde, eles já partem

vermelhos e negros e grandes.

em cascos e metais,
formas de aço,
assustadores, em negros, em azul.




às quatro da tarde,

entra pela janela uma luz amarela,
lânguida, suave,

que me acalma,
me excita, me deixa feliz.

e me convida: sinta esta vida!
e me convida pra tomar um café.


e quando me banho e sinto esta luz,

que do sol entra pela fresta dos prédios,

e toca minha pele esquecida,
desnuda e tocada, pela fresta,
este feixe de luz.



minha pele,

por baixo dos panos,
por baixo dos prédios,
da civilização.




quando é de noite, eu vivo, sozinho,

falo com almas, converso, de longe,
falamo-nos distantes, por entre fios,



entre cabos, e telas e mídias e meios.




quando é de noite, eu vivo,

e vivo em cores,
e sonhos,
e sons.




quando é manhã e eu canso,

me deito, e ouço pássaros,
e fujo do sol.


quando madruga, e me escondo das luzes,
navios aportam, e apitam, e encantam.
em cascos de ferro, de negro e azul.

e quando durmo, eu sonho com eles,
enormes, gigantes, em águas e medo.
e tenho medo,

das águas, dos homens.



e então me deito,

navios.
meus leitos.



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2 comentários:

Blaxxx disse...

Muito bom.
Se não leu leia.
Se leu, leia denovo ao som de Wanderlust (a versão de 7:25), Björk.

Lembro bem quando Jean me apresentou essa música (no lançamento do CD Volta). Ele havia citado que os sons do início lembravam apito de Navio.

E a intro dessa música é o tempo certo de leitura deste belo texto.
°°°=D

Jean Souza disse...

ah, obrigado, meu caríssimo amigo!
o interessante é que eu vivo muito próximo a um porto. não é incomum ouvir apitos de embarcações de madrugada, ou durante o dia.

de madrugada, acho que eles são mais sublimes.

a monstruosidade dos navios, principalmente quando embarcado passo a poucos metros deles, me assusta, me comove, me deixa extasiado. isso me inspira muito.

e eu gosto muito disso.

beijos!