sexta-feira, 2 de novembro de 2007

O metrô

Foram seis ou sete viagens. Não me lembro, por motivos óbvios: pelo sangue, pelos gritos, pelo desespero, pelo coração que palpita intensamente quando lembro. Creio que tenham sido seis viagens e meia, não me lembro exatamente quem conduzindo que quantidade.

Começou com meu pai. Fazia tempo que não o via, estava mais magro, mais moço, mais bonito, porém mais sério. Não nos falamos. Nós nunca gostamos de conversar mesmo. Fiquei observando ao longe, gosto de observar, principalmente quando estamos em plataformas novas, onde as pessoas e os hábitos são novos, os passos ainda não são marcados pelo hábito, cada um procura a posição que mais lhe agrada, e vai repeti-la ad infinitum, até que um dia alguma coisa mude sua rotina.

Estou em pé, não como nada, não bebo nada, não fumo, não falo, nem gesticulo. Apenas transpiro calmamente, estou apoiado na parede, olho para frente, observo.

Meu pai é o condutor, tem protetores-fones no seu ouvido, usa um par de óculos de lentes azuis e grandes. Ele olha para mim como quem acena e diz até logo, as pessoas entram apressadas, as portas apitam, esperam dois segundos, fecham, a plataforma range, os vagões se movem, os trilhos eletrizam, meu pai à frente leva todos os seres aos seus destinos. E partem, digo adeus internamente, amo vocês, pessoas que não sei quem são.

A viagem se repete, e repete, e repete. Não são longos os intervalos entre uma e outra. O fato é que eu pareço adormecer, e me dar conta de que a vida existe somente e justamente quando o trem aporta à minha frente, e ouço os trilhos, ouço as vozes, vejo os passos, as mãos e as salivas, os pescoços, os pelos, unhas, cabelos, dentes e carros.

É a última vez que vejo meu pai antes do acidente de dimensões que desconheço. Quando ele volta, depois de minutos dos quais não sei a amplitude, a gravidade e o que seja, tem o braço enfaixado, preso fortemente, rente ao peito, seus olhos não são de alegria, sua boca não pensa em palavras. Apenas anda, se afasta, não me olha.

Me desespero, pois as pessoas entram por esta porta, em fila, amontoadas, atenho-me à mulher levemente gorda, de rosa, os sapatos altos, ridiculamente rosas, e barulhentos, empurrada pelos que atrás aparecem, alguns parecem cair por baixo do trem, mas quando parte este novo carro, vejo que todos partiram, e nada de mal acontecera, apesar do braço ferido de meu pai. E aceno, internamente, agora preocupado, adeus pessoas, até uma outra hora, quando voltarem por este caminho.

Adormeço, como automático. E acordo de súbito, com a chegada do novo carro, na verdade o mesmo, mas cada viagem é uma experiência nova, para mim é como se tudo fosse novo. Não acredito em ciclos, acredito em retas, em rios que nunca são os mesmos, em pontos que nunca são os mesmos. E homens que nunca são os mesmos, apesar de serem os mesmos rio e homem que se banham por estes relógios, pendurados por estas grandes paredes, ornadas por rostos, que olham e calam, e espelhos que refletem o que desejamos de nós mesmos.

Tenho certeza que já se passaram horas, mas eu não ligo, e permaneço imóvel, ancorado sobre meus pés de cimento, pregados ao chão, esperando cada viagem, atento a cada janela, recluso em meus pensamentos, por muitas vezes vazios, por muitas vezes intensos, e pesados, e fatigantes.

Eu vejo a minha mãe agora. E tenho receio, e lembro do pai, que ferira o braço, e nunca mais voltara, e partira de olhos tristes, e partira, concentrado na dor. Internamente eu grito, mãe, não faça, não parta!, não conduza este trem!, deixe para outros, volte para casa! E ela, igualmente, protetor nos ouvidos, óculos de lentes azuis e grandes, à frente de todos os vagões, dá o sinal para que vocês, passageiros, se preparem, e ultrapassem a faixa que antecede cada carro, e passem por sobre o vão, e se acomodem, e dêem lugares reservados para aqueles que envelheceram, para aqueles que vão nascer. E cedam seus lugares para etcetera, e reclinem-se, encostem, e conversem, flertem, façam o que quiserem, e pensem.

E parte este carro. A mãe olha para mim, e me beija de longe, eu sinto, e apitam os trilhos, e mudam os ponteiros, mais uma viagem. Boa viagem.

Eu sinto o silêncio, eu o como, acho doce, e fofo, aconchegante, e gosto.

Aproximam-se outras pessoas, alguns rostos familiares, outros nunca vistos mais magros, mais gordos, mais amarelos ou azuis. Também anseio por este trem. Tenho saudade da mãe, principalmente depois do que sucedera com o pai, e eu nunca recebera notícias do que tenha acontecido.

Aproximam-se rostos, e vozes, e ponteiros. Faíscam de repente estes trilhos, e zunem ao longe, cada vez mais fortes, até que surgem luzes dos faróis. E vejo ao longe a mãe, logo no primeiro carro, heróica, a condutora, que traz a todos e leva a todos para suas casas, trabalhos, encontros, ensaios de peça de teatro às quinze horas da tarde, entrevistas de emprego, e médicos, e visitas. Ela me fita, e nada diz, e logo estará de volta, após outra viagem, e outra e outra.

Eu fico satisfeito por poucos instantes, pois desde que o pai partiu, os embarques têm sido cada vez mais conturbados, as pessoas mais amontoadas, as viagens mais perigosas, o vão entre o trem e a plataforma cada vez menos estreito, cada vez mais abismo, cada vez mais risco de choque, risco de morte, risco de choque. Cuidado.

Avisto esta mulher de rosa. Isto prova que já se passaram dias desta minha atividade prazerosa e angustiante, que é ficar aqui, esperando trens, preso à parede, esperando os carros, os ponteiros e as pessoas. Qual a minha função aqui?, pergunto-me por um instante. E me questiono sobre destinos, sobre fatalismos, e teleologias, e thelos.

Acalmem-se, pessoas!, tenham cautela com o vão!, não corram, por favor, não morram, não tenham tanta pressa!, eu grito silencioso. Cuidado, mãe!

Mais uma nova viagem. Ninguém me ouve, nenhuma dessas pessoas me ouve, e começam a cair neste abismo, e se empurram, e se matam, e morrem, algumas eu não consigo ver. Algumas adentram os vagões, e comemoram. E não vejo minha mãe, e preocupo, e choro, e me ergo nas pontas dos pés, e olho por entre as pessoas. E desespero.

E lembro do pai, assim que vejo os olhos da mãe saírem por entre os rostos desesperados, contra o fluxo, que segue, em desespero, na direção do túnel que as leva. E procuro coisas boas. Minha mãe está sangrando. Perdeu um dos dedos do pé. Deixa rastro de sangue, que sai da multidão, que sai da plataforma, que sai de dentro do fluxo, que sai daquelas pessoas.

Eu não quero ferir o meu braço, aleijar-me, andar com quatro dedos, estou aqui, pregado na parede.

De súbito, surge uma criança, contra o fluxo, segura um dedo nas mãos. Corre, seguindo o rastro, tudo ficará bem. Eu me acalmo. E partem, e seguem.

Fica o silêncio. E não quero ser, não eu, o próximo condutor. Desprendo-me. Corro por entre o escuro dos túneis.

2 comentários:

Blaxxx disse...

Interromperam minha leitura.
Não posso retoma-la de onde parei.
Como um trem que fecha as portas e se despede da estação.
Do começo, até o a composição seguinte.
°°°

Blaxxx disse...

Gin sabe que o metrô é uma das muitas tangentes das nossas vidas.
Não sei se devo me apropriar do espaço para expor ambições, anseios e histórias pessoais relacionadas ao trem subterrâneo. Mas adoro o cheiro, os sons, o balanço suave, as catracas, o pão de queijo vendido na estação final da linha 1 sentido Zona Norte...Tudo.

Depois de um mês volto a ler este, que é um dos muitos textos que eu guardo com um incrível carinho, apesar de não tê-lo como o favorito escrito pelo amigo escritor.
Para ouvir (baixinho) enquanto lê:
Sigur Rós – Sé Lest
°°°=D