terça-feira, 6 de novembro de 2007

A segunda lua

Acham que eu não me recordo, mas lembro claramente de muito do que se passou naquela época. O suficiente pra desconfiar de tudo isso, o suficiente para, qualquer dia, ir além do que a simples desconfiança tem me feito pensar por estes cantos, entre os milharais.

Tinha sete anos de idade. Lembro-me da verdadeira guerra civil que se instalara de forma absurdamente sem sentido, entre pessoas e pessoas que não consigo distinguir quem exatamente eram, o que exatamente queriam. Era uma guerra sem sentido, como já disse. Uma guerrilha. Um conflito muito pequeno. Desconfio muito se fora noticiado por algum jornaleco das imediações. Creio que jamais tenha alcançado ondas de rádio ou algum segundo no noticiário da tevê.

Acho que minha cidade desapareceu. A minha família era muito bem instruída, os meus vizinhos eram poderosos, éramos todos muito influentes, a nata, a elite, os que pensavam a vida, os que decidiam rumos. Pelo menos ali, em nosso mundo estranho, uma comunidade global, aquele universo muito rico, muito moderno, muito atual, mas sempre algo como construído entre-mundos. Como se habitássemos uma redoma de vidro, nos protegendo dos outros, dos crimes, do mundo lá fora. Meu mundo, um grande condomínio. Pensando bem, acho que nos procuram até hoje. Imagino nossas fotos nos jornais, nos livros de história, nos arquivos do mundo inteiro: “Uma cidade que desapareceu”.

O nome da minha irmã é Sara. Cinco anos mais nova que eu. Logicamente não se lembra de nada, mas, hoje, depois de tanto me ouvir falar, descrever cenas, perguntar-me sobre o que é isto que me aflige diariamente, essas memórias são suas também. Cada detalhe.

Se um dia eu morrer, ela terá consigo as minhas memórias. E talvez carregue consigo as minhas dúvidas. Talvez encontre as respostas. Talvez esqueça tudo, e siga vivendo esta vida, correndo entre os milharais, entre estas plantas, entre estas terras, e estas pessoas, e estas crateras, este mundo mais simples. Esta vidinha feliz que levamos.

É lógico que um dia eu vou morrer. Não sei se morro antes dela. Talvez sim.

Tenho medo de ficar louco. Eu me lembro claramente: os meus pais, os meus tios, meus vizinhos, a polícia, alguns desconhecidos e outros mais ou menos familiares, lutando. Contra eles, do outro lado, alguns inimigos. Todos armados, todos muito tensos, todos muito assustados, muito preocupados em preservar suas proles, lembro das armas, revólveres prateados, cápsulas, projéteis dourados caídos pelo chão, o cheiro da pólvora, barulhos cortantes no ouvido, os tiros, gritos abafados, a guerrilha silenciosa, passos abafados, corridas quase nas pontas dos pés, pessoas se escondendo entre muros, roupas rasgadas, deixadas em pregos e cacos nas paredes, braços rasgados em portões, calças manchadas, arrastadas em frestas, microações, calculadas, entre cigarros, por vezes, um quase silêncio. Lembro-me que chorava.

Durou três dias. É tudo que minha lembrança consegue guardar. Acho que fiquei em estado de choque, mas nunca tentaram me tratar. Olharam-me como se fosse adulto, ninguém nunca ligou direito pra mim. Vivemos razoavelmente felizes agora.

* * *


Sara: Estava procurando você.
Eu: ...
Sara: Pensando nos seus sonhos, mais uma vez?
Eu: Não são sonhos. Você sabe, não gosto que fale assim.
Sara: Desculpa, mas é muito difícil para mim, por favor, entenda...
Eu: Não quero me explicar pra você de novo.
Sara: ...
Eu: O que foi?
Sara: Jantar...
Eu: Não quero comer.
Sara: Você precisa. Amanhã é dia de aragem. Começa a mudança de culturas...

(...)

Sara: Um quarto do campo descansando, pra próxima estação...
Eu: Eu sei, você sabe que eu sei dessa baboseira muito melhor que você. Rotação, rotação, muda solo, muda solo. Parece que vocês se divertem mesmo, mudando umas sementes de lugar, 'arando solo!', celebrando a colheita! Sara, você não entende? O ser humano não precisa disso! Já vivemos fases muito melhores! Ninguém precisa sujar as mãos de terra, ou seja lá o que for, pra viver um dia após o outro! Eu não agüento, não posso viver neste lugar...
Sara: Eu sei. Sei que isso não te agrada. Mas nós gostamos disso aqui. Queria que você gostasse também.
Eu: Sabe, há muito tempo atrás, viveu um homem chamado Chuang Tzu. Um dia ele sonhou que era uma borboleta.

(...)

Eu: Mas quando acordou, descobriu que não tinha como ter certeza: ele não sabia se era um homem sonhando que era borboleta, ou se era borboleta sonhando que era homem.

(...)

Sara: E você acha que nós realmente vivemos na Lua?


* * *


Avista-se, ao fundo, o céu. Logo à frente, um espantalho.



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