quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Para Andreas

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No início você era eu, mas em pouco tempo, deixou de ser, ultrapassando-me, ainda mantendo, entretanto, algum laço de personalidade. É inevitável: enquanto você existir, será um pedaço de mim.

E eu torço mesmo para que deixemos de ser parecidos, cada vez mais. Acho mais interessante assim. Não deve fazer um mês que você deixou de ser eu. E ainda não sei exatamente quem você é, apesar de tudo. Ok, isso não é tão difícil de entender assim.

Sei que você é alguém interessante, bem sucedido, aparentemente de poucos amigos (ou nenhum?), vejo que anda observando as coisas e pessoas por aí, entedia-se com certa facilidade - me parece -, alguém de muitas paixões, poucos amores, talvez nenhum. Ainda.

Vejo que está se envolvendo em algo que o assusta, vejo que a vida aponta para um novo caminho, menos previsível, mais inconstante, incerto, marcado por dores, mas, igualmente, cheio de prazeres.

Apareça mais.

Jean Souza, 26/12/2007 (06:42 AM), Rio de Janeiro, Brasil.

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quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Diário do Intangível - inscrição X

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Coisas idiotas do meu trabalho:

1) casalzinho de modelos apresentando programa de esportes, falando como se fossem dois robozinhos;
2) alguns dos meus convidados, que insistem em falar as mesmas coisas, como se tudo fosse muito novo;
3) eu.

Ok, não estou num bom dia...


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terça-feira, 18 de dezembro de 2007

sem título, 3

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Que fazer, Humano, agora que alcançou a humanidade? Que fazer, Humano, agora que abandonou a sua condição de animal e tem poder de escolha sobre sua própria natureza?


Que fazer, Humano? Gerar pessoas, fazê-las nascer neste mundo difícil, sem piedade, cheio de horrores, de dor e desprazeres?

Que fazer, Humano, agora que você já nasceu? Por que atender ao egoísmo da tua alma e criar um novo ser, moldá-lo à sua vontade, moldá-lo de acordo com teu ego?

Que fazer, Humano?
Voltar à sua condição animal?

Ou pensar?

Que fazer, Humano?

Não tenha filhos.


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sábado, 8 de dezembro de 2007

Diário do Intangível - inscrição IX

Eu sei que não me surpreenderia se começasse a sentir o que sinto neste momento. São nove e alguma coisa da manhã. A luz entra por uma fresta da porta de vidro do meu quarto, que dá pra varanda. Gosto da luz que entra de manhã, gosto do dia me despertando, gosto de acordar cedo, ouvir os passarinhos que moram na árvore em frente à minha janela.

Hoje bateu uma preguiça, misturada a essa tristeza...
Não sei exatamente se tristeza ou se saudade. Mas qual saudade que não tem sua tristeza, não é? Mente quem diz que saudade é uma coisa boa. Porra, tô mal pra caramba. De repente deu isso. Eu sei que é por causa do Gustavo, não por causa desses caras que passaram por aqui durante esses tempos.

Outro dia parei pra pensar e vi que não foi um caso bobo, foi sério esse lance. E, assim, de um dia pro outro, tudo acaba, cara..., acho que ambos fomos muito idiotas por ter deixado a relação acabar. Foram três meses apenas, mas três meses que pareceram três anos, ou muito mais do que isso. Foi muito especial, sincero. Vivemos muito bem enquanto durou. Agora já se vão mais uns, não sei, quatro, cinco meses desde que ele resolveu sair, segurando aquela mala cheia de roupas, cheia de coisas que eram nossas. E nós, contentes, sorrindo, como se separação realmente fosse a coisa certa. Em alguns momentos não é.

As pessoas têm sonhos, mas acho que não tomamos a decisão correta. O Gustavo se foi, mas não devia, tinha de estar comigo, aqui, agora, nesta cama, acordando, cantando as coisas malucas que inventava durante o dia, falando sobre ralis, sobre viagens sem dinheiro no bolso pela costa da América do Sul, afagando meus cabelos com a mão macia, beijando minha cabeça e, num salto, levantando pra abrir a geladeira, gritando palavras de ordem, "acorda, preguiçoso!", "levanta da cama!", puxando lençóis, jogando almofadas no chão, me irritando.

Ele se foi, eu acho.

Tenho uma ereção contínua, infinita.

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sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Diário do Intangível - inscrição VIII

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Vou apresentar um programa novo. Estamos em fase de finalização. Sabe, tenho ficado muito satisfeito com a produtora, com os programas, com as matérias e os convidados. Tudo muito bem feito, muito bem pesquisado, bem produzido, bem acabado. Gosto da minha imagem no vídeo, tenho atraído audiência, a resposta do público tem sido positiva. Estou contente.

Acho que fico mais contente ainda por ter sucesso fazendo o que faço, podendo andar pela rua, sem um monte de gente me perseguindo, falando asneira, dizendo qualquer coisa saída de uma cabeça vazia. Segmentação tem destas vantagens. Estou lá no canal trezentos e sei lá quanto, aparentemente esquecido, mas pago as minhas contas, viajo, tenho minha vida, saio, curto algumas pessoas.

Não gosto de dizer que sou feliz, mas acho que sou. Eu sei que a sociologia odeia o conceito, mas tem vezes em que me acho o próprio 'homem médio', resultado de alguma estatística bonitinha, capaz de precisar exatamente nossos medos, desejos, sei lá, renda, padrão de consumo, até o quanto de vezes que a gente tende a chorar, que hábito de leitura vai adotar, quantos minutos vai gastar pra foder alguém na cama...

Só falando besteira...
Não, eu não me considero homem médio. Eu não acredito em homem médio. Não acredito nem em estatística.

Eu sou um homem feliz, mas falta alguma coisa nesta minha vida. Falta conflito!

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quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Diário do Intangível - inscrição VII

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Hoje, sábado. Duas coisas que preciso dizer. Uma: pela primeira vez, em cinco anos, falei com a minha vizinha. Valquíria o nome dela. Já tinha visto antes, na correspondência, cruzamos algumas vezes na portaria, mas, hoje me dei conta, nos falamos pela primeira vez dentro de cinco longos (pelo menos pra mim) anos. Tá certo que eu posso contar as poucas vezes que nos vimos durante este tempo, mas, fico surpreso, nos falamos pela primeira vez só agora.

Valquíria, vinte e oito anos, americana, do Minnesota, dupla cidadania por causa da mãe, portuguesa, que se casou com o pai, americano. Formada em engenharia, trabalha numa empresa que fica a cinco quarteirões da minha, namora um cara chamado John, ou Johnny, alguma coisa assim, que é mais velho que ela. Conheceram-se na empresa e ano que vem passam as férias em Bariloche, lugar que eu odeio e não quero falar sobre agora.

Acho que Valquíria é uma pessoa feliz. Sabemos bastante um do outro. Obrigado, senhores exatos quarenta e seis minutos presos no elevador...

Pelo menos ela guardava lanche na bolsa. Pão com queijo e tomates. É verdade, eu nem tinha fome, mas comer ajuda.

Segunda coisa. Estou saindo com este cara, Toshio, um japonês. Segunda vez que saio com um cara oriental. O primeiro foi na adolescência, Willian, estudava comigo, último ano do colégio. Toshio, um espetáculo. Alto, ombros largos, voz grave, traços fortes, aparência meio agressiva. Acho que algumas pessoas têm medo dele. Economista. Nos conhecemos no cinema, durante um filme do Cuarón.

Penso agora: nos falamos na fila, mas nos conhecemos mesmo na sala de exibição. Então... nos conhecemos durante, hehe...

E, na verdade, não estou mais saindo. Saímos por três dias só. Ele viajou, vai pra São Paulo. Depois fica seis meses em Osaka.

Toshio tinha gosto de hortelã. Mas era bom.

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Diário do Intangível - inscrição VI

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Hoje não consigo pensar em nada interessante. Não dormi muito bem, dormi pouco e preocupado com coisas do meu trabalho. Tenho precisado de idéias novas, faz um calor absurdo aqui. As ruas e as peles das pessoas fervem sob este céu fudido, esburacado, poluído. Não tenho nada de interessante pra fazer. Faz um tempo que não nos vemos. Gustavo. Voltamos outro dia ao Café Paris. Que coisa engraçada.

Já deve ter alguns meses...


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terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Diário do Intangível - inscrição V

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Logo que acordamos, ele canta baixinho no meu ouvido. Nunca eleva sua voz. Uma vez me disse que não conseguiria, não insisti em saber por quê. Também tenho as minhas manias, todo mundo tem as suas, convivemos bem assim.

Eu sei que não vem ao caso, mas queria dizer, meu pai viaja esta semana pra Alemanha. Lugar magnífico! Sinto saudades de viajar...


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Diário do Intangível - inscrição IV

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Conheci este rapaz num café, um lugar muito bom pra se conhecer alguém. Eu nunca entro ali, sempre passo correndo, mas, eis que, naquela segunda, resolvo parar e tomar um capuccino. O relógio marcava sete, este horário em que as pessoas ainda estão voltando desesperadas pra casa. Me senti feliz, porque tinha, então, caminhado contra o fluxo, e resolvido apreciar a calma. E tomar um café. Deixe-me não pensar em nada...

Eu já sabia que não resistiria e logo pediria um dos chocolates exibidos na vitrine, quando me deparo com este moço, de olhos tão negros e semblante levemente iluminado, em frente a mim. Não sei há quanto tempo estava ali. Nossas mesas, uma de frente pra outra. Parecia esperar alguém. Olhei-o tão intensamente que fiquei constrangido. Cumprimentei rapidamente, voltando os olhos pro meu pouquinho de café, que ainda pintava o ar, com cheiro morno de calma.

Apaixonei-me. Precisava olhá-lo novamente, contemplar mais uma vez o seu rosto de homem bom, os olhos negros, o nariz pequeno, a boca fina, a barba crescente, o pescoço macio. Os dedos impacientes tamborilando sobre a mesa. Certamente espera alguém. Impaciente, atenho-me ao reflexo dos seus dedos, sobre a mesa de madeira, será que ele percebe?

Devagar, inclino o pescoço sobre meu ombro esquerdo, levo a mão à cabeça, ajeito o cabelo, levanto os olhos e lá estão os dele, de novo, dentro dos meus. Fico sem graça e sorrio compreensivo, que pena que te fizeram esperar. Ele retribui com outro olhar, obrigado, desconhecido. Entendemo-nos. E volto, impaciente, ao meu café.

Veste uma camisa azul marinho, não muito escura, faz um contraste bonito com a pele clara, os braços cobertos por pelos finos e curtos, sob esta luz. Olha para o relógio. Certamente está aqui há muito mais tempo que eu e, mesmo assim, ainda não pediu nada, nem uma água, nada. Espera, sem muito se alterar. Apenas os dedos afagam, sem som, a superfície da mesa, ora descompassados, ora em sintonia. Aposto que repete o movimento com um dos pés, contra o chão, mesmo mantendo essa cara de céu tranqüilo, esse sorriso de compreendo o mundo.

Gostaria de ouvir sua voz. Apaixonei-me, quero ouvir sua voz dizendo eu te amo para mim.

Peço chocolates. Ele me fita, eu percebo, no canto dos olhos, e, mesmo assim, recuso-me a olhar em sua direção, não quero me fazer inconveniente, mas já não curto a minha adorável solidão, aquela que existia minutos antes, quando eu resolvera ultrapassar aquela porta, deixando a multidão apressada lá fora. Já não estou só.

E antes que deixemos de ser dois, antes que sejamos três, ou ele resolva ir embora, surpreendo-me, a mim, num impulso mais forte que a razão. Ele afasta a cadeira, recolhe o casaco, prepara-se para levantar. Antes que se levante, estendo a mão. Ofereço um chocolate, fazendo-me solidário. Ele compreende, aceita: "Alguns encontros não acontecem", sorri.

Aceno com a cabeça, concordo, não digo uma palavra, sorrio feliz.

Ele se levanta, puxa a cadeira à minha frente, me encara com olhar profundo, e me fita, como quem tem pressa pra dizer um milhão de coisas.

"Obrigado pelo chocolate...
Se importa se eu me sentar?"

"Não, por favor!
(...) Quer tomar um café?"

"Sim, te acompanho".

Ajeita-se à mesa, arruma a cadeira. Sinto seu cheiro. Seu joelho encosta no meu.

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Diário do Intangível - inscrição III

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Estou em casa. Depois dos embarques, desembarques, da estrada na mata...


Não sei como vim parar aqui. O importante é que sempre volto, sempre chego são. Até hoje não morri, apesar de tudo, apesar de toda essa cidade caótica, de toda essa desigualdade que cresce a cada dia, exponencialmente...

Estou em casa. Aqui é um lugar seguro.

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segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Diário do Intangível - inscrição II

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De vez em quando isso acontece. Não me recordo de nada pela manhã. Também, quando é de manhã, sinto frio, mesmo que lá fora faça calor.


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domingo, 2 de dezembro de 2007

Diário do Intangível - inscrição I

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Por hoje, naveguei durante horas, pela noite, enquanto muitos dormiam. Não estava só, viajávamos, juntos, vários passageiros, mulheres de tailleur, homens em ternos carregando malas, todos, assim como eu, relativamente serenos, mas apressados em chegar aos nossos destinos.

Foram três portos, em intervalos curtos de tempo, o mar não estava agitado, mas sentimos a apreensão das tripulações, por vários momentos, o que nos deixava intrigados.

Aportamos, por fim, num porto distante, que nos fazia, após o desembarque, cruzar por alguns quilômetros de mata densa, passando por uma estrada asfaltada, ali construída, bem conservada, suficientemente iluminada, mais segura que a instabilidade do mar. Tínhamos, agora, os pés no chão.

Saímos divididos em vários grupos. Alguns pegavam táxis caros, outros esperavam parentes, outros, como eu, não sabiam o que fazer.


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