terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Diário do Intangível - inscrição IV

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Conheci este rapaz num café, um lugar muito bom pra se conhecer alguém. Eu nunca entro ali, sempre passo correndo, mas, eis que, naquela segunda, resolvo parar e tomar um capuccino. O relógio marcava sete, este horário em que as pessoas ainda estão voltando desesperadas pra casa. Me senti feliz, porque tinha, então, caminhado contra o fluxo, e resolvido apreciar a calma. E tomar um café. Deixe-me não pensar em nada...

Eu já sabia que não resistiria e logo pediria um dos chocolates exibidos na vitrine, quando me deparo com este moço, de olhos tão negros e semblante levemente iluminado, em frente a mim. Não sei há quanto tempo estava ali. Nossas mesas, uma de frente pra outra. Parecia esperar alguém. Olhei-o tão intensamente que fiquei constrangido. Cumprimentei rapidamente, voltando os olhos pro meu pouquinho de café, que ainda pintava o ar, com cheiro morno de calma.

Apaixonei-me. Precisava olhá-lo novamente, contemplar mais uma vez o seu rosto de homem bom, os olhos negros, o nariz pequeno, a boca fina, a barba crescente, o pescoço macio. Os dedos impacientes tamborilando sobre a mesa. Certamente espera alguém. Impaciente, atenho-me ao reflexo dos seus dedos, sobre a mesa de madeira, será que ele percebe?

Devagar, inclino o pescoço sobre meu ombro esquerdo, levo a mão à cabeça, ajeito o cabelo, levanto os olhos e lá estão os dele, de novo, dentro dos meus. Fico sem graça e sorrio compreensivo, que pena que te fizeram esperar. Ele retribui com outro olhar, obrigado, desconhecido. Entendemo-nos. E volto, impaciente, ao meu café.

Veste uma camisa azul marinho, não muito escura, faz um contraste bonito com a pele clara, os braços cobertos por pelos finos e curtos, sob esta luz. Olha para o relógio. Certamente está aqui há muito mais tempo que eu e, mesmo assim, ainda não pediu nada, nem uma água, nada. Espera, sem muito se alterar. Apenas os dedos afagam, sem som, a superfície da mesa, ora descompassados, ora em sintonia. Aposto que repete o movimento com um dos pés, contra o chão, mesmo mantendo essa cara de céu tranqüilo, esse sorriso de compreendo o mundo.

Gostaria de ouvir sua voz. Apaixonei-me, quero ouvir sua voz dizendo eu te amo para mim.

Peço chocolates. Ele me fita, eu percebo, no canto dos olhos, e, mesmo assim, recuso-me a olhar em sua direção, não quero me fazer inconveniente, mas já não curto a minha adorável solidão, aquela que existia minutos antes, quando eu resolvera ultrapassar aquela porta, deixando a multidão apressada lá fora. Já não estou só.

E antes que deixemos de ser dois, antes que sejamos três, ou ele resolva ir embora, surpreendo-me, a mim, num impulso mais forte que a razão. Ele afasta a cadeira, recolhe o casaco, prepara-se para levantar. Antes que se levante, estendo a mão. Ofereço um chocolate, fazendo-me solidário. Ele compreende, aceita: "Alguns encontros não acontecem", sorri.

Aceno com a cabeça, concordo, não digo uma palavra, sorrio feliz.

Ele se levanta, puxa a cadeira à minha frente, me encara com olhar profundo, e me fita, como quem tem pressa pra dizer um milhão de coisas.

"Obrigado pelo chocolate...
Se importa se eu me sentar?"

"Não, por favor!
(...) Quer tomar um café?"

"Sim, te acompanho".

Ajeita-se à mesa, arruma a cadeira. Sinto seu cheiro. Seu joelho encosta no meu.

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