sábado, 8 de dezembro de 2007

Diário do Intangível - inscrição IX

Eu sei que não me surpreenderia se começasse a sentir o que sinto neste momento. São nove e alguma coisa da manhã. A luz entra por uma fresta da porta de vidro do meu quarto, que dá pra varanda. Gosto da luz que entra de manhã, gosto do dia me despertando, gosto de acordar cedo, ouvir os passarinhos que moram na árvore em frente à minha janela.

Hoje bateu uma preguiça, misturada a essa tristeza...
Não sei exatamente se tristeza ou se saudade. Mas qual saudade que não tem sua tristeza, não é? Mente quem diz que saudade é uma coisa boa. Porra, tô mal pra caramba. De repente deu isso. Eu sei que é por causa do Gustavo, não por causa desses caras que passaram por aqui durante esses tempos.

Outro dia parei pra pensar e vi que não foi um caso bobo, foi sério esse lance. E, assim, de um dia pro outro, tudo acaba, cara..., acho que ambos fomos muito idiotas por ter deixado a relação acabar. Foram três meses apenas, mas três meses que pareceram três anos, ou muito mais do que isso. Foi muito especial, sincero. Vivemos muito bem enquanto durou. Agora já se vão mais uns, não sei, quatro, cinco meses desde que ele resolveu sair, segurando aquela mala cheia de roupas, cheia de coisas que eram nossas. E nós, contentes, sorrindo, como se separação realmente fosse a coisa certa. Em alguns momentos não é.

As pessoas têm sonhos, mas acho que não tomamos a decisão correta. O Gustavo se foi, mas não devia, tinha de estar comigo, aqui, agora, nesta cama, acordando, cantando as coisas malucas que inventava durante o dia, falando sobre ralis, sobre viagens sem dinheiro no bolso pela costa da América do Sul, afagando meus cabelos com a mão macia, beijando minha cabeça e, num salto, levantando pra abrir a geladeira, gritando palavras de ordem, "acorda, preguiçoso!", "levanta da cama!", puxando lençóis, jogando almofadas no chão, me irritando.

Ele se foi, eu acho.

Tenho uma ereção contínua, infinita.

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Um comentário:

gueko disse...

jamais nenhum diário foi tão sincero, tão simples, tão complexo como qualquer forma de possível registro ou tentativa de tradução de uma "vida" só poderia ser.

o personagem, autor, realmente parece ter ganho vida própria vivenciado e sonhando contextos e quadros tão pertinentes ao nosso contemporâneo.