terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Centrífuga

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Meu nome é Jean. Há alguns meses adotei meu nome e primeiro sobrenome para ser reconhecido nas mensagens eletrônicas, nos meus escritos amadores, nos meus escritos profissionais, como jornalista. Desde a adolescência, eu sempre guardei uma certa frustração com meu nome, pelo fato de, na França, de onde ele vem, ter-se Jean como primeiro substantivo de um nome composto. Eu sempre quis me chamar Jean-Luc, assim, com hífen, sempre achei tão sonoro, tão elegante. Mas tenho me acostumado com Jean Souza. É um nome pequeno, fácil de guardar e falar, creio.

Passeando pelo latim, pelo grego e pelo hebraico, diz-se que João, de onde provém a forma francesa do meu nome, significa "Deus é misericordioso", "Deus é bondoso". Algo do tipo. Poderia ser motivo pra que eu, ateu convicto, não ficasse satisfeito, mas, enfim, gosto de Jean. Gosto bastante de ser chamado assim. Algumas pessoas me chamam je-an, assim, como se escreve, algumas jan. Algumas me chamam de apelidos carinhosos, como jão-jão, ou g-ã, com suas variadas grafias e formas de entonação, quando pronunciadas. Alguns pronunciam djin.

Quando eu era pequeno, costumava discutir - e minha mãe também brigava com as pessoas - porque me chamavam de gi-an, forma que realmente nunca me agradou e que, felizmente, nunca pegou. Talvez porque eu tenha me mudado da cidade onde passei a infância. Quando eu era pequeno, minha mãe repetia que filho dela não teria apelido. E realmente nunca tive um apelido, mas a verdade é que também não tentaram me botar algum. Tenho mesmo só esses que as pessoas próximas usam pra falar comigo. Idioleto de cada um. Atitudes que muito me agradam. Formas evidentes de afeto e apreço.

São duas e cinco da madrugada. Hoje é uma terça-feira, dia trinta de dezembro de dois mil e oito. Falta pouquíssimo pra chegarmos no próximo ano. Dois mil e nove. Dois mil e nove anos de contagem a partir da existência de Jesus Cristo, aquele, filho de Deus, o misericordioso, bondoso.

Permitam-me as seguintes observações. O ato falho, por duas vezes me fez corrigir passagens acima, no texto: em vez de misericordioso, regidia misterioso, adjetivo que, acredito, é de muito maior pertinência que o primeiro. Bem, não quero falar de deus. Segunda observação: eu teria uma segunda observação pra escrever aqui, mas acabei me perdendo no pensamento.

Enfim, são duas horas e dez minutos agora, a noite está agradável, um pouco quente, mas não insuportável, as ruas estão quase silenciosas e os barulhos que predominam ao meu redor são os de meu ventilador, das teclas que uso pra digitar estas palavras, e da minha máquina de lavar roupas, que fica na área de serviço, ao lado de meu quarto. No próximo ano, completarei vinte e cinco anos de existência, penso agora.

Acabo de gastar cerca de duas horas em uma imbricada e complicada disputa com o meu varal. Ele fica na área de serviço, estava quebrado, torto, e eu precisava compreender um pouco da sua complexa engenharia, pra poder encaixar roldanas e barbantes em lugares corretos, de forma que pudéssemos, aqui em casa, continuar a estender as roupas sem que elas ficassem, ao final do dia, uma parte molhada, uma parte seca.

Até os dezenove, vinte anos, mais ou menos, eu morei em casas. Sempre tivemos grandes varais, sempre tive quintais e até cachorros. De tempos pra cá, moro em apartamentos. Os varais são curtos, ficam em pequenas áreas de serviço, e seguem a lógica da verticalidade dos prédios (daí as roldanas, que estendem minhas roupas até muito próximo do teto). Lembro-me dos varais de arame e cordinhas coloridas de nailon, nos meus quintais. Lembro inclusive dos pedaços de bambu, que a gente colocava no centro dos fios esticados, para levantá-los ao encontro do vento. Depois que pegavam muito sol e chuva, ficavam um tanto apodrecidos, então trocávamos por outros.

Eu gosto de apartamentos. Deve ser por isso que digo casa, em vez de apartamento, quando me refiro ao lugar onde moro. Casa tem mais proximidade da idéia de lar que apartamento. Eu gosto até mesmo do meu varal, o qual agora está funcionando melhor, apesar de não estar da mesma forma que era quando eu vim para cá. Qualquer dia eu volto a mexer nele. Passei quase duas horas desatando nós complicados com a ajuda dos dentes, em pé sobre uma cadeira colocada sobre uma mesinha de metal, pois cá não temos escada, e as roldanas do varal, como disse, ficam próximas do teto.

Eu tenho vinte e quatro anos, moro no centro de uma cidade chamada Niterói, fundada há quatrocentos e trinta e cinco anos. Durante este ano eu tive relações sexuais com oito pessoas diferentes - o que não me agrada muito, pois preferiria ter feito sexo com uma pessoa só. Eu sou do tipo que pouco se apaixona e acho curioso como muitas pessoas que conheço passam por isso com tanta facilidade. Algumas dizem estarem apaixonadas a cada semana.

Acho que me apaixonei apenas duas vezes na vida. Uma, há dois anos atrás, outra, há poucos meses. Nenhuma delas correspondida. Entretanto, nada que tenha me provocado traumas.

Algumas pessoas se apaixonaram por mim, nos últimos anos, mas não foram as pessoas por quem me apaixonei. A vida é assim. E alguns, como eu, seguem tentando encontrar alguma situação onde a paixão envolva dois seres ao mesmo tempo. Ou três. Ou quatro. Eu não descarto a possibilidade de me apaixonar por mais de uma pessoa ao mesmo tempo e todos nos apaixonarmos simultanemante. Eu gostaria, mas as probabilidades não me ajudam muito. Vide o insucesso nas relações a dois.

Acho que estou me apaixonando. Cheguei à conclusão mais cedo, por volta de oito horas da noite. Seria minha terceira paixão em vinte e quatro anos de vida. Não sei se seria correspondido. Seria mágico.

Neste momento, acaba de cessar um dos sons que me acompanhavam. A máquina acaba de lavar algumas peças de roupas e algumas toalhas.

No outro apartamento em que eu morava, não havia máquina. Eu lavava as roupas a mão e costumava fazer isto por volta de quatro horas da manhã, horário em que costumo fazer coisas como lavar louça, varrer o chão, ou escrever muitas páginas sobre os assuntos mais diversos. Lembro que lavava roupas no horário em que meu vizinho costumava chegar em casa. Então, entre o vão que separava nossas varandas, a gente trocava duas ou três palavras, ele comia, bebia alguma coisa, tomava banho, escovava os dentes, e eu terminava de lavar um tênis, uma meia ou uma calça...

Um dia este vizinho veio até minha casa. Alguém pedira pra ele trocar a lâmpada, não entendi muito bem o porquê. Era uma noite quente como esta, ele chegou com cheiro de sabonete, a pele úmida, e subiu numa mesa (parecida com esta que usei agora à noite) para trocar a lâmpada.
O simples ato de olhar para ele era algo que me dava prazer. Eu me ofereci pra segurar a mesinha, dizendo ser necessário para manter o equilíbrio e, por alguns momentos, estive muito próximo de seu umbigo, de onde se ramificavam pequenos e finos pelos. Então eu quase toquei sua pele. E senti seu cheiro mais de perto.

Quando eu vim pra cá, lembro que fiquei encantado com a máquina-de-lavar! Bastava apenas jogar a roupa ali dentro, colocar o sabão em pó, o amaciante ou mesmo o alvejante em seus respectivos lugares, e apertar alguns botões, esperando, depois, as roupas sairem quase secas. Eu passava alguns minutos olhando o balé dos jatos de água, e gastava reflexões no movimento da centrífuga, que gira as roupas com imensa velocidade e as pressiona contra a parede, em forma de cilindro, fazendo com que quase toda a água seja eliminada, deixando as peças prontas pra serem penduradas no varal.



quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Arquivo

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Tudo deveria ser registrado.

Naquele instante, sorriu para si e, olhando para a câmera, afirmou: "Estou me apaixonando. Neste. Exato. Momento".

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sábado, 22 de novembro de 2008

Intimidade

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Minha saliva, misturada à tua.

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terça-feira, 11 de novembro de 2008

Derramado

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Tinha quase certeza que deixaria o leite transbordar, quando coloquei pra ferver, inda pouco, lá na cozinha. Lembrei dele no fogo quando ouvi o chiado do líquido apagando a chama, sujando o fogão.

Leites derramados são como erros recorrentes. A gente sabe que vão acontecer.

Não que eu os cometa. Não, não sou desse tipo.

domingo, 26 de outubro de 2008

Não-paixão

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Receio-me de falar sobre assuntos sexuais. Ainda são muito íntimos. Por vezes se estabelece aqui um conflito entre o receio e a compulsão pelo diga-compartilhe-externe-fale. Se você lê estas palavras, significa que, hoje, ganhou esta disputa a compulsão. E já sei que se trata de vitória efêmera. Eu diria, parcial. A compusão não vai me permitir entrar em detalhes, apenas fará seu papel de vávula-de-escape-faça-confissões. E isso, creio, basta. Age como fumar um cigarro, ou tomar uma dose de vodca. Não vou dizer ter a mesma força que gozar, no sexo, porque é justamente isto, aqui, o problema. (E realmente não tem a mesma força que um gozo).

Entre as quatro paredes do meu quente, aconhegante, quarto, costumo repetir duas coisas para mim: tenho um coração de pedra; não consigo gostar das pessoas (ressalte-se: sexualmente falando). E me sinto um pouco canalha, porque mesmo não gostando deste, ou daquele corpo, eu os uso. Faço uso destes corpos, forçando um manejo asséptico, íntimo mas com seus limites. Desenvolvo as minhas retóricas, me justifico, afirmo, sem qualquer cinismo: eu quero seu corpo, não quero seu gosto, não quero suas palavras, sua rotina, sua história, seu passado. Não quero fazer parte do seu futuro. Quero apenas - e mesmo assim, porque sou fraco - seu toque cheio de desejo em mim, quero saciar minha vontade animal.

Outras duas questões: vontade animal que ultrapassa a razão; o desejo do outro, que é sempre maior que o meu. Eu não os engano, eles sabem. Sou sempre sincero. E, por isso, sinto-me um canalha. Entretanto, um canalha justo, um canalha que não mente. Não há brechas para contestações.

Afirmo: são estas as minhas condições. Queres assim? Ambos temos a perder, ambos temos a ganhar. Queres viver este momento? Esta noite? Esta lua? Aproveita. Aproveitemos. Amanhã, não quero saber o seu nome. Não quero vínculos. Não quero amizades. Isto me cansa. Suma. E isto, não porque me sacia apenas o encontro de uma noite, mas porque não me apaixono naquele instante. Tenho sido exigente por demais comigo e não sei, por enquanto, agir de outra forma: eu quero o amor à primeira vista, a paixão ao primeiro limiar do encostar entre as peles. E isto é dificil.

Outro dia ouvi de um rapaz: Quero dormir com mil mulheres! Coloquei-me na posição dele. Imaginei-me passando pelo milésimo corpo, a milésima mulher ou o milésimo homem, o milésimo corpo, o milésimo sexo um tanto breve, mil tentativas de encontrar o humano que valha a pena. Que valha a cama. Que valha o beijo. Que valha a noite. Enojei-me.

Sei que enoja-me a quantidade porque biologizo o sexo. Vivemos, há muito, em tempos de cólera. Cada corpo é um risco, cada corpo, uma dúvida. Sou da geração do sexo de borracha. Há sempre uma barreira entre mim e o outro. Geração do sexo artificializado, racional, preventivo. Semisexo. Quase-sexo.

Nós somos humanos. Isto significa, também, que somos animais. E, por muitas vezes, o sexo de borracha se esvai, fica de lado, na carteira. Somos humanos. E isto significa arriscarmos nossos desejos, arriscarmos nossas artérias, nosso sangue, nossos fluxos, nossas veias, dermes, nossos músculos, interstícios, nossas vitalidades, nossas respirações. A vida é um risco, um jogo chato. Um jogo emocionante e entediante.

Eu biologizo o sexo, concluo, ao final de cada gozo, no início de cada beijo. Os beijos têm sido ruins, admito. E volto à reflexão sobre os mil corpos. Talvez eu me divertiria muito com eles, fossem outros os tempos, fossem outras as pestes. Minha rejeição, distantíssima de qualquer moralidade, insiste em demonizar o risco, o contato com mil desconhecidos, mil corpos novos, mil novas floras e funcionamentos orgânicos singulares, o milésimo gosto de saliva, a milésima colônia bacteriana em seu intestino. A milésima intimidade sem entrega.

Eu não me apaixono. O problema está em minhas disposições e em quem - que corpo e campo semântico - cruza meu caminho. Esta é uma combinação difícil, deveras difícil, pelo menos para mim. Esta matemática-estatística complicada: corpo/campo semântico gostar de corpo/campo semântico alheio; corpo/campo semântico alheio gostar do corpo/campo semântico meu.

A ironia desta breve vida nos coloca combinações incríveis entre campos semânticos ao longo dos anos. Junções que desprezam completamente os corpos - e, por este motivos, surgem muitas das nossas amizades. A ironia desta breve vida nos coloca combinações incríveis entre corpos, toques fenomenais, mas é tão vazio o diálogo que se segue nas relações desprovidas de interesse além-corpo, tão vazio e desprovido de interseção entre laços de significados que nos definem, que chega uma hora em que o corpo a corpo nos cansa.

Sexo por sexo nem sempre tem graça. Penso agora, isto pelo menos para mim (e sei que para muitos). Mas há sempre aqueles para quem o sexo deve ser, obrigatoriamente, desprovido de palavras, desprovido de afeto, desprovido de amanhã. É isto o que nos falta: afeto. Para os corpos que deixei, eu vos peço: mil perdões! E o que me resta, no meio disso, é apaixonar-me.
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segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Marrocos [2]

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São intensíssimos nossos olhares e atenciosos os nossos ouvidos. Confessamos, às vezes sentimos um pouco de inveja do amor.
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Marrocos

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Durante aqueles verões, esperamos fragilizados, sensíveis ao toque, sensíveis à pele, semeando esperanças em desconhecidos, nas ruas, nas lojas. Sentamo-nos em bancos de praças, por vezes esperando o amor para a vida nos esbarrar. Tocar-nos o braço.

Esquecemo-nos de ter coragem e, por tantas vezes, permanecemos calados, quando a vontade de falar, dirigir-lhes palavras, era o que nos corroía por dentro. Era o que deveríamos ter feito. Mas deixamos nos corroer a vontade. Perdemos para nós mesmos, setindo pesares, contorcendo-nos um pouco constrangidos, sozinhos, solitários, no meio da noite. O colchão vazio. A cama incompleta.

Outro dia, entre as pessoas, me choquei com um rapaz. Um golpe forte, que nos deixou chateados. Nós dois em seus olhos eu vi, no instante que durou um sopro. Creio ter sido meu pedido mais singelo de desculpas. O mais curioso, por se tratar de um choque entre dois e ele também dever desculpas a mim. Não lembro se me pediu.

Eu lhe pedi desculpas, mas acariciei-lhe o queixo, olhando-lhe nos olhos, em compaixão um pouco engraçada, porque sabia que nele doía, mas não doía em mim. Ele fez que sim com o rosto. Aceitou minha mão. No fundo, eu sei o porquê de ter lhe tocado a face. E guardo nos meus dedos o toque no jovem estranho. Era uma noite paulistana.

Aqui pelo mundo, continuamos embriagados pelo que está por vir, percorrendo caminhos de água, de asfaltos, de gramas e desertos. Todos em busca do mesmo ponto final. São apenas caminhos diferentes, que vez em quando se cruzam. E as esquinas são coisas tão felizes!

Aqui pelo mundo, continua nossa esperança. Embora quase tranquilos, continuam nossos verões.

*Para Luna Pitanga.
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segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Não

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Chorar demanda um apocalípse em mim.
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Uma vez

Por uma vez apenas, que reverberou por uma semana.
Intensamente.

Dias depois, ainda reverbera.
De forma menos intensa. Melhor assim.

Eu disse: seria melhor não ter me beijado.
Foi o melhor beijo. O seu.

Meu coração acelerado sobre seu peito,
sobre minha cama.

Seu cheiro sobre meu travesseiro,
Seu cigarro, é este que como agora.

É madrugada e sujo os meus pulmões.
Permito-me ser estúpido.

domingo, 5 de outubro de 2008

letraporosaltopogo

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É caos já faz semanas.
Procrastina fala arrastado.

Gosta de homens dourados cor de sol.

Ouve ELEC-TRO.

Tem sono. Os dias passam.

A letra é pogo.
O salto é poro.
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sábado, 4 de outubro de 2008

Salto Contingente

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Um salto contingente é um pulo selvagem, alegre, com sorriso nos dentes, do alto de um precipício, sentindo o vento no rosto, os braços abertos, a borda do mundo ao fundo, contornando o globo. As nuvens de perto e, no horizonte, o azul.

Um salto contingente é um salto em direção ao inesperado, feliz, um pouco apreeensivo, mas de adrenalina, contente com o que há no instante seguinte, no próximo segundo. Um salto em direção ao novo, ao devir, ao ser humano inesperado, à música que se ouve pela primeira vez. Um novo corpo, nova voz. Um novo caminho político. O novo. O imprevisto, contudo, bom.

Levanto o braço e de punho cerrado, e firme, vejo o salto contingente que se renova. Eu vejo. Eu sou o salto.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Canção para o nosso flerte [ou Eu gosto de ver o seu corpo]

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Com óculos,
sem óculos.
Vendo a lua.
vendo o sol.
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sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Caçada

Encontro pessoas e seus corpos e encontro mentes e gozos,
Uniões, mas o que resta é egoísmo,
um ego, um ego-ísmo do qual não me livro,
E acho muito, muito necessário.

Ando, busco e continuo insatisfeito.
São corpos morenos e brancos, e jovens e corpos.
Minha cama e eu guardamos pouco de seus cheiros, de suas lembranças.
Não sinto muito seus gostos.

No fim, o que resta é mim.

Guardo as vozes de poucos, e sigo.
A cada dia, a cada semana, a cada segundo,
desejo mais um.

E me canso.

domingo, 24 de agosto de 2008

9:27 - 23:58

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Foram os dias mais lindos do inverno, foram os ventos e folhas mais belos, os passarinhos e os cães encolhidos, o frio, que não era tão intenso, mas obrigava a sair de casa com roupas fofas e tecidos aconchegantes. Abraços apertados e macios, quando se contraem os corpos, em meio às jaquetas, e roupas de lã, e panos, e luvas e calças.

Saiu de casa pela manhã, trazendo cinco pãezinhos de sal, um pote de manteiga e um pouco de chocolate. Não sabia bem por que o corpo resolvera acordar tão cedo naquele dia. Um sábado. Sentiu a brisa fria na pele, olhou para os vira-latas filhos da rua, simpáticos, de rabo abanando, afagou um dos filhotinhos, Branquinho, deu-lhe um pedaço de pão, que, como quem faz pirraça e apenas finge estar com fome, recusou. O mais velho logo tratou de pegar o miolo do chão, levando pra caixa de papelão, ali no cantinho da banca de jornal. Sorriu para eles, abriu o portão de casa.

As horas passam um pouco depressa nas primeiras horas do dia. Quando se deu conta do relógio na parede, já passava das onze. Levantou da cama, comeu um pouco do almoço de ontem, deixou a louça na pia, preparou um café, que tomou com um pouco de leite, enquanto lia jornal. Começou pela seção de quadrinhos, sem culpa, leu duas linhas da seção de esportes, três páginas sobre a cidade, prendeu-se à uma crítica de cinema, levantou para abrir a janela, tomou um copo d' água, subiu as escadas, fez uma ligação telefônica. Lembrou-se de que havia prometido levar uma garrafa de vinho, lembrou-se que havia esquecido de comprar. Era quase meio dia e o bazar fecharia em quinze minutos.

Desceu depressa até a garagem, aprontou-se e não demorou muito tempo para voltar, garantindo, então, que a promessa seria cumprida. Ela preferia tinto, suave, ele, tinto e seco. Como seria muito bom agradar a ambos, comprou uma garrafa para cada um. Também levaria mais chocolate, porque os três eram muito bons em acabar com qualquer caixa de doces, principalmente quando ficavam em casa, principalmente quando eram mais felizes.

Resolveu arrumar um pouco a bagunça do quarto. Escorregou no tapete do corredor e riu, imaginando que tombo feio por pouco não teria levado. Mudou a peça de lugar e riu mais uma vez sobre a cara de espanto que havia feito. Ririam bastante sobre isso logo mais, à noite. E ela falaria sobre uma vez em que viajou para uma colônia de férias e teve que voltar mais cedo pra casa, com o braço quebrado e um hematoma na perna esquerda. O outro riria dos dois, os chamaria de destrambelhados, "nunca quebrei nada, nunca fui de cair assim, como vocês, seus desastrados".

Leu ainda a primeira página da edição do dia, que trazia notícias sobre futebol, corrupção e fofocas. Cochilou ouvindo uma música dos Beatles. Não tinha muita fome, mas comeu alguns pedaços de pizza, que havia deixado no forno, durante a madrugada. Tomou mais um pouco de café e dançou na cozinha, ouvindo músicas latinas, coreografando o vento, dançando animado entre as cadeiras, batendo palmas. Chegou a escolher alguns filmes na estante, separou três na mesa da sala, que ali ficariam o resto do dia, porque era mesmo um desatento. De qualquer forma, não fariam falta. Rafael e Larissa tinham outros filmes bons pra assistir em casa. A esta hora, ainda dormiam e não ouviam o som que as crianças faziam, no meio da rua, nem a furadeira do vizinho, que reformava a sala de casa, barulhento e impertinente.

Resolveu que não tomaria banho. Às vezes gostava de sentir mesmo o gosto, o cheiro natural das pessoas. Um pouquinho de suor, a pele úmida secaria por dentro do moleton, e o seu cheiro seria confundido com os de ervas, de que estes perfumes e sabonetes e desodorantes são feitos. Escovou os dentes, calçou um tênis, vestiu um outro casaco, pegou os vinhos, os chocolates, uma revista sobre turismo, que mostraria à Larissa e ao Rafael, trancou a porta e pedalou atento às flores, às casas antigas sempre tão boas de se olhar os detalhes. O céu e o mar estavam prateados, quase como que um só. Alguns pássaros pretos manchavam bonitos as nuvens. Os jardins estavam tão coloridos.

Pedalar na contramão é mais interessante porque as pessoas vêm ao encontro de você. Principalmente quando os carros estão parados, no sinal, é possível compartilhar um pouco de cada história, de cada vida tão anônima dentro de cada um daqueles carros. O primeiro carro, um Ford, azul, onde conversa, sorridente, um casal de meia idade. Riem das brincadeiras do neto, que ainda há pouco começou a falar. Ela, professora universitária, ele, dentista. Casaram-se muito novos, vinte e cinco anos ao lado um do outro. Logo atrás, um Wolksvagen, vermelho, Felipe, vinte e cinco anos, bonito, recém-formado em economia, recém-aprovado no concurso público para a prefeitura da cidade. Dirige agora para o jogo de futebol, que religiosamente participa com os amigos, a poucos metros dali. Não pensa em nada. Absolutamente nada. Apenas espera o sinal abrir. Coça involuntariamente a cabeça, devagar, mecanicamente. Espera o sinal. O terceiro carro, outro Ford, preto, buzina para os dois à frente, meio segundo depois de o verde abrir o sinal. Passam a rua da igreja do bairro, uma padaria, um supermercado, um estacionamento e uma quadra só de comércio.

Francisco tinha o chaveiro que a Larissa havia lhe dado em seu último aniversário. Era amarelo, em forma de um patinho, um tanto ridículo, mas ele não ligava. Principalmente porque compartilhavam da mesma brincadeira. O dela era um jacaré, todo verde, e o do Rafael, um elefante. Um mais infantil que o outro. Junto com o chaveiro, ganhara também, a chave da casa. Entrou sorrateiramente, desfilando de meia pela sala. Ouviu a TV do quarto ligada, deixou as coisas em cima do sofá, caminhou em direção ao quarto. Meio dia e trinta e cinco. Larissa já estava acordada. Abriu a porta de leve, fitou-a com um sorriso contente, deu-lhe um beijo e deitou-se ao lado de Rafael, lhe abraçando pelas costas. Cochichou-lhe alguma coisa no ouvido, que o outro não compreendeu, mas retribuiu, acordando. Rafael virou-se de frente para ele, passando a mão em seu rosto, e só olhou, não dizendo nada. Larissa juntou-se aos dois, e ali ficaram deitados, e passaram o resto do dia.

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quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Diário do Intangível - Inscrição XII

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Vaguei numa noite dessas completamente sem rumo, completamente sem direção, sem coisas coerentes na minha cabeça, perdendo o controle, coisa que nunca fiz. Sou um homem relativamente sensato - sempre digo a mim mesmo -, sou um homem completamente racional. Eu achava que alguns sentimentos eram nada mais que reproduções idiotas de fantasias... não sei, cinematográficas, românticas, shakesperianas, folhetinescas, coisas de personagens - e eu sou gente real. Dou minhas risadas agora.

Seguro este copo e penso no vazio das últimas noites e não de uma delas apenas.

Tenho vivido um pouco mecânico, eu sei, espero que isso passe. E enquanto não passa eu penso no vazio. Penso nos meus sonhos, nos meus pesadelos, na minha rotina dos últimos dias, que se tornou patética; penso na inércia a que me entreguei e fico contente, porque sou... posso ser um ser inerte, quero ser um ser inerte, quero ser um homem vazio. Posso ser, quero sentir mesmo tudo isso, posso sentir... Eu gosto, neste exato instante, de ser um homem sem movimento. É a minha relação de intimidade com o tempo. Eu não ligo, Tempo. Eu posso esperar. E penso, neste segundo.

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sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Urug!

Era um palerma. Por algum motivo, resolveu botar a cara na varanda e ficar ali, como se nada estivesse acontecendo do outro lado da rua. Sua varanda dava de frente praquela uma, da construção antiga, erguida na década de 1940, um sobradinho ainda bem conservado. À sua frente, no sobrado, eram três ou quatro homens os que espancavam impiedosamente os outros que ali habitavam. Não se ouviam muitas vozes, apenas os baques dos socos e pontapés.

"Por que olha?", alguém do outro lado perguntou.
Ele, como quem se julga o dono da razão, nada respondeu, olhando soberbo para aquela situação. Não era indiferente, não compartilhava de compaixão para com os seus vizinhos da frente, que apanhavam, não tinha vontade de chamar a polícia, queria só mesmo observar aquele espetáculo.

Alguém começou a atirar os corpos lá de cima. E eles caíam pesados sobre o chão, batiam na terra, em sacos, em coisas, alguns quebravam as pernas, outros davam mais sorte, pouco se machucavam, nenhum deles morreria da queda. Na verdade, talvez um ou dois.

Alguém o puxou pela gola, acabando com sua diversão, antes mesmo que pudesse voltar para dentro de casa, antes mesmo que pudesse chamar a mulher, que já o havia alertado, chamando-o para deitar-se na cama, esquecer tudo aquilo, deixar do outro lado o problema, do qual não queria saber, denunciar, ver e etcetera.

Levou um soco absurdo na cara, logo ao lado do olho esquerdo, o que lhe deixou tonto, completamente tonto e quase em trauma, como criança de onze anos que cai no chão da praça de cabeça, rachando um pedaço, desmaiando por alguns minutos. Achou que iria, mas não desmaiou no primeiro soco, como acontece nos filmes. Seu carrasco, de braços pesados dentro da camisa branca, rasgada, fitou-lhe de perto, sorriu, debochando. Tascou-lhe outro golpe, agora no meio da cara, sobre os lábios e nariz, com a mão espalmada, num tapa - um choque de frente com uma parede.

Desta vez o sangue escorreu. E antes que suas mãos de palerma, sem reflexo, esboçassem alguma reação ao carrasco, foi jogado lá de cima, assim como os outros. E teve sorte de chegar inteiro ao chão, levantando num segundo, resolvendo correr para longe, sem mesmo limpar-se da terra, do sangue e poeira, que grudaram na roupa após o estabacar-se no solo.

Quando se recuperou, assim, o suficiente para correr, os corpos faziam um zunido, de objeto que se aproxima do chão. E quase foi atingido por um dos homens lançados, já imaginava aquela barriga, forte, coberta por tecido branco, listrado, batendo sobre sua cabeça, fazendo um estrago complet,o em ambos, hemorragias internas, costelas quebradas, uma vértebra, dois tombos, duas mortes instantâneas, aleijamentos, coisas do tipo.

Não haveria tempo para se despedir da mulher, apenas olhou de volta para a janela do quarto, e para a varanda, onde nunca devia ter aparecido naquela noite, mancou da perta direita - percebeu - e partiu em desespero para o meio das árvores, onde estaria mais seguro, longe das mãos ferozes, cretinas, inimigas, que ainda massacravam a infinidade de homens, que daquele sobrado antigo pareciam brotar. Bando de ladrões! Bando de criminosos!, bando de..., de homens que brotam do chão, ó, Deus, o porquê desses homens chineses, desses homens... irlandeses?, sabe-se lá que língua que falam, que ódio os maltrata, onde fui me meter?

Correu para os campos. Não estava cansado e jamais ousava voltar. Segurou a mão de uma criança, que o conduziu até o fim do gramado, sem trocarem uma palavra. Tirou ali o paletó, seguiu apenas de camisa e gravata, estava suado, as mangas arregaçadas, os sapatos sujos e sua mente uma bagunça. Avistou um bar, que não lhe era estranho, e resolveu entrar, pedir uma água, mesmo que não tivesse dinheiro entraria, não pediria socorro. Apenas uma água, talvez um pedaço de pão. O sangue secara sobre a pele, sentia o cheiro forte, o gosto intenso e forte de sangue. Sentia o gosto.

Abriu a porta com calma, ali dentro era mais bonito que por fora. Avistou uma, duas, três, quatro pessoas. Todas inindentificáveis. Apenas uma mulher, entre os homens. Assim como os outros, igualmente estranha, vestida de coisas metálicas. Ouviram passos e ele entrou em desespero. Sim, eram eles, e massacrariam de novo quem estivesse no caminho, principalmente você, pedaço de lixo, vamos terminar o que começamos!

Urug!, gritou o velho que acompanhava a moça. E deu-lhe um microchip, colocou-lhe na palma da mão. Ele assentiu. Rapidamente a micropeça se abriu, aumentando e aumentando, atingindo muitas vezes mais o seu tamanho original, transformando-se em uma caixa, que lhe tomou a cabeça, a envolveu completamente, justamente no momento em que os irlandeses chegavam. E, inexplicavelmente, transformou-se num foguete, agora maior que seu corpo, tomando propulsão, levando a ele, o velho e a mulher, rompendo o teto do recinto, aumentando cada vez mais e mais, voando tão rápido, sumindo no céu.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Stalker

Deve ter uns trinta e dois anos este homem que sempre vejo e desejo em meu caminho. Temos horários parecidos, por isto nos encontramos sempre, ali ou acolá. Na verdade ele não deve saber da minha existência, já que sou eu quem o deseja e não ele a mim - imagino. Talvez já tenha me visto, penso. O que teria pensado a respeito?, me pergunto. Talvez não tenha pensado nada, quem disse que é preciso elaborar algum pensamento sobre tudo aquilo que passa pelo nosso olhar? Faço perguntas bobas...

Seus cabelos são quase encaracolados e me lembram estátuas gregas.

Tenho mania de imaginar figuras helenísticas, sempre fui apaixonado por estes corpos, estes cabelos, estes semblantes e estes narizes. Seu nariz é helenístico, assim como o corpo, que se esconde por baixo das roupas formais, do qual vejo tão pouco: apenas as mãos, além do pescoço e da sua cabeça com detalhes tão simétricos. Seus olhos são castanhos e parecem sempre levemente marejados, parece concentrado, parece um homem calmo, uma vez ouvi sua voz. Falava ao telefone.

Imagino que tenha um filho de três ou quatro anos e uma esposa um pouco mais jovem, inteligente, de cabelos longos e são bem sucedidos e vivem tão bem. Imagino seu abraço tão calmo, imagino seu corpo quase helenístico por baixo das roupas cinzas e sóbrias, quero imaginar seu sorriso, mas guardo apenas, quase que única possível, a face de poucas expressões, eu diria até triste, eu diria, melhor, um rosto de rotina.

Eu quero beijar a sua boca, que é muito quente, segurar o seu rosto devagar e beijá-lo devagar e olhar de perto os seus olhos e encontrá-lo mais uma vez, e depois outra e depois outra e depois outra, como sempre fazemos, sem ainda nos tocarmos.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Tenho medo de perder a memória.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Noite fria

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Basta o seu próprio corpo. A isso se chama somatizar. Algo terrível. Prefiro a palavra angústia. E toda a angústia que condensa em si. Sua pronúncia. Como são intensos os sentimentos ruins. A angústia!

Imaginei que fumar vinte cigarros resolveria o problema.

Sim, resolveram.
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terça-feira, 1 de julho de 2008

Ciborgue

Acordei tentando discernir o quanto de mim ainda era máquina. Ou se eu era realmente um ser humano. Meus braços doíam, o direito mais que o esquerdo. Logo, presumi que era o meu lado direito o lado que ainda era animal. Tentei concluir que era humano dos membros superiores pra cima - não era possível que meu cérebro fosse artificial! Eu não estaria tendo estes questionamentos. Ou estaria?

Meu braço direito doía absurdamente, mas percebi, num outro segundo, que dormira sobre ele, apoiando-lhe, assim, todo o peso do meu corpo. Logo deixaria de sentir - a dor. Meu pescoço doía. Acho que teria um torcicolo. Torcicolos são horríveis. Eu odeio ter de limitar meus movimentos, principalmente pela manhã, quando já sofro de mau humor crônico. Pra mim isso já bastaria.

Lembrei que eu sofria de mau humor. Então, concluí que eu ainda era um ser humano.
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sexta-feira, 27 de junho de 2008

Segunda-feira

Meus cabelos esvoaçantes, meus cabelos esvoaçantes!

Estou rindo aqui, sozinha. Engraçado que só consigo pensar nos meus cabelos esvoaçantes, esvoaçantes, gigantes que estão... Já faz um tempo que decidi usar assim. Acho que uns seis, sete meses, resolvi mudar. Deu certo. Me sinto tão, tão selvagem, sabe? Meus cabelos andam tão desgrenhados, mas na medida!, ai, como eu fico feliz! Hahahaha!

Mas é verdade. Se o seu cabelo não vai bem, não tem como a vida seguir direito. É relação de causa e efeito: insatisfeita com o cabelo, insatisfeita com a vi-da! Eu, hein... Roberto que o diga! Coitado, me aguentou várias vezes reclamando da juba, que não me agradava de dia, me agradava à tarde, que eu prendia à noite, tingia no dia seguinte... Um drama só. Más!! como estou bem com ele hoje! Com eles, meu cabelo e meu marido.

Amanhã é segunda-feira, o dia "dos outros".

É in-crí-vel!, gente, como é incrível a mente do ser humano, não é mesmo? Sim, porque de repente, tudo eram mil maravilhas: resolvi o problema do meu cabelo, resolvi a minha vida, eu e o Roberto resolvemos nossa vida sexual, um arraso. Não durou uma semana. E a culpa é minha, eu sei, meu marido é o melhor homem do mundo, pacieente que só. Difícil encontrar igual.

Eu é que sou essa teia de complicações. Anos! Anos de terapia e quem disse que eu me resolvo? Às vezes eu acho mesmo que o meu caso é preocupante. Muito séria essa minha insatisfação com a vida. Se fosse só o meu cabelo... Antes fosse! Se meu problema fosse só meu cabelo, a cor do meu cabelo, comprimento, liso, esvoaçante... Eu-sou-com-pli-ca-da! Céus!

Acho que foi num sábado, foi tudo tão engraçado, tão corrido, tão no meio dos nossos lençóis, os dois embrigados, mas muito sóbrios!, eu, andando pela casa, esvoaçante, depois do sexo, o Roberto com uma taça de vinho, eu resolvi abrir uma champanhe, a gente derrubando bebida pelo carpete, gargalhando, uvas em cima da cama, morangos, ele tão feliz...

Foi aí que, num momento, eu me dei conta, já estava decidindo por ambos, ele rindo da minha cara, eu falando muito sério, entre um gole e outro, apertando com os dedos as bochechas dele, não deixando o Roberto falar, ele sentado na borda da cama, eu em pé, entre suas pernas...

Os beijos dele são cada vez melhores, tão quentes, tão doces, eu conheço a sua boca, eu sei a sua textura, eu sei cada detalhe. O seu peito, sua pele, suas mãos, suas coxas. É só dele a voz que me acalma, que me cala, me excita. Como eu te amo...

Às segundas-feiras nós somos livres. Eu quero que ele procure outros braços, que se desfaça da minha loucura, que encontre alguma outra por aí, alguém pra uma noite, alguém que não fale, que não tenha neuroses, alguma sem nome, sem endereço, que não fale, não fale, não tenha problemas. Alguma outra, que apenas trepe, pra fuder a noite inteira, um beijo sem muito sentimento e nada mais.

Às segundas-feiras, posso me atirar aos pés de um falo desconhecido, entre quatro paredes, num quarto de hotel. Às segundas-feiras eu saio do trabalho, e me sinto mais puta, eu posso dar pro desconhecido ao lado, no bar, posso dar pra quem eu quiser, pra quem me deseja, pra quem eu desejo. Posso me roçar na pica de um cara qualquer, beijar outra boca, encostar minha pele em seu rosto, sua barba, num quarto de hotel, numa esquina, num táxi.

Estou usando meu vestido branco de folhas verdes, meu salto faz barulho a cada passo pelo corredor da casa. Meus cabelos estão esvoaçantes, sinto o meu corpo tão intenso, sinto meu corpo quente, vivo, sinto por dentro, em movimento. Me dá um arrepio na nuca, aperto o seio com a mão, fecho os olhos, soluço de prazer, levo a outra mão entre as pernas, aperto firme, com muita força. Encosto e escorrego pela parede, solto um gemido, meus olhos viram, estou gozan... estou...

Aãhn, meus braços fraquejam, meus dedos tremem, minha boca tão quente.

tendência.

suaescrita mais atual!1
O TEXTO SAIU INCOMPLET

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zero centímetros

Ouço acordeões, pianos e sinos.
Ouço canções por estas ruas.
Seu braço agora encosta levemente no meu.
Sua perna toca a minha.
Estamos lado a lado.

Você se afasta um pouco,
involuntariamente.
Seu braço novamente me toca,
e isso é quase suficiente.

QUERO LAMBER O SEU ROSTO.

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quarta-feira, 25 de junho de 2008

Sobre minhas incursões em busca de um garoto católico [ou Weblog, parte 2: atualizações]

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Acabei um dos trabalhos que estavam pendentes há muitos, muitos dias, creio que meses. Curioso como tudo o que eu precisava era de um pouco de calma e algumas poucas horas.Acabei o que tinha de fazer em cerca de três horas. Menos um peso.

Hoje comprei um panetone. Gosto muito, muito mesmo de panetone. Não gosto muito das frutinhas, mas como. Acho que gostaria muito mais se o panetone não tivesse frutas. Acho que já até vi uma vez, mas creio que só produzem isso no natal, e ainda estamos em junho. Curioso também como esse universo tão sacro fica impregnado em tanta coisa: panetone vira sinônimo de natal, que, por si só, já se explica como data religiosa. Não me importa, eu gosto mesmo é de panetone. Ainda tem metade e está dentro da minha mochila, que está em cima da minha cama, que está desarrumada, da seguinte forma: algumas roupas de frio sobre o travesseiro, um casaco um pouco afastado dessas peças, algumas folhas em branco, um livro sobre mídia, um aparelho que reproduz músicas e que resolvi chamá-lo dessa forma aqui, duas notas de dez reais e uma de vinte, uma outra blusa, uma cueca branca (eu só tenho duas cuecas que não são brancas), a minha mochila com panetone dentro e dois lençóis dobrados.

Como havia acabado meu trabalho e me sentira bem leve, esquentei um café que havia feito na madrugada de ontem, tomei uma caneca, fui até a varanda, dei um pulo enquanto passava pelo corredor, troquei de roupa, porque a que eu usava era um pouco larga demais, peguei a chave e resolvi dar mais um passeio até o segundo dia de festa junina da igreja que fica na minha esquina e acho que é uma das principais de Niterói. Eu moro em Niterói.

A minha rua virou um mijódromo. Os católicos - digo, as pessoas que estão na festa - vêm até a minha calçada para urinar atrás dos carros e atrás das árvores. Geralmente são apenas as travestis que fazem isso, mas hoje os homens pais de famílias também se juntaram a elas. Desviei de um deles, porque não queria pisar no rastro de xixi e porque também ele não fazia meu tipo.

Cheguei meio abobalhado na festa. É sempre um pouco engraçado andar sem rumo entre pessoas com rumo. Atravessei por entre elas (mais cedo a festa estava mais cheia, porém, tinha que terminar meu trabalho), olhei as coisas, senti alguns cheiros, não sentia fome, porque havia comido muita sopa e ainda um pedacinho de pão, poucos minutos antes. Por isso mesmo acho que até me senti um pouco enjoado ao atravessar a fumaça dos espetinhos de queijo, de carne de frango, vermelha, coração.

Quando vi, estava no final da fileira de barracas. Dei-me conta, então, de que usualmente eu ando muito, muito, muito rápido, sempre, e acabo andando com tanta rapidez, como se estivesse com pressa, mesmo quando não estou, como acontecia naquele momento. Lembrei-em que nos raros momentos em que consigo ir à praia, costumo me pegar, assim, andando ligeiro, como se tivesse pressa.

Havia uma cantoria, falavam em Jesus. E um casalzinho se atracava, aos beijos, apoiado numa imensa venda de bebidas. Resolvi tomar um quentão, essa bebida com gengibre, quente, que seria muito interessante de tomar, naquele momento. E me dei conta de que não vendiam quentão. Apenas cervejas e batidas e coisas frias. Onde está o quentão? Como podem, coisas frias, neste frio?!

Cresci no interior de São Paulo. E lá, nesta época, a gente bebia quentão e comia batata doce assada na fogueira. Bem, na verdade eu era pequeno, não bebia, podia ficar só com a batata doce. Mas lembro que havia gengibre. E essa bebida, fervendo, em panelas gigantescas. A gente passava a mão por cima do vapor, e esfregava, pra espantar o frio de poucos graus.

Vejo uns senhores de casaquinhos e óculos de aros grossos e logo penso: padres. A música estava sem graça. Acho que eu mudara de humor de repente. Passei por alguns adolescentes, muitos deles com o mesmo objetivo que o meu (ou quase isso). Pensei em fumar um cigarro e ficar ali por mais um tempo observando todas as pessoas. Quando se tem um cigarro na mão é mais fácil justificar o estar parado, contemplando o que quer que seja que esteja à sua frente. Antes de tudo, você está fumando. Porra. Estou parado fumando.

Acho fumar tão anti-cristão. E beber também. Nossa, como sou conservador! Acho que seria um ótimo religioso. Fumar em frente à igreja? Destruir seu próprio corpo é destruir também o corpo de Jesus Cristo! Somos todos um corpo só!

Eu tenho mesmo este costume de andar por demais apressado. Foi tudo muito rápido. Quando vi, já estava aqui, de volta. Minha cama ainda espera mais um.

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segunda-feira, 23 de junho de 2008

Weblog

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Acho que acordei quase saltando da cama. A essa hora do dia já não me lembro muito bem. Deixe-me tentar recordar, enquanto lembro do que aconteceu agora há pouco, enquanto digito desajeitado neste teclado, enquanto ouço a música que toca a alguns metros daqui, enquanto a água esquenta na cozinha, porque vou preparar uma daquelas comidas que ficam prontas rapidinho. Faz frio e ficar botando a mão na água nada agradável não faz bem o meu estilo. Além do mais, teria de lavar um monte de louças depois, etceteras e etceteras coisas que tomam muito do meu tempo. Não posso parar pra fazer isso.

Lembro-me. Acordei ouvindo uma música nada poética, mas que era engraçadinha e cumpria a sua função de me fazer despertar. No dia anterior tinha sido acometido por uma profunda sensação de não-consigo-fazer-nada-sério, então tudo que fiz, durante o dia, foi comer alguma coisa dentro do pão, beber um café, um chocolate quente, alguma outra coisa boa pra se mastigar, talvez um doce. Talvez. Minha memória anda péssima. Fico pensando, e isso é recorrente, sobre o meu futuro como profissional que depende da memória, basicamente, para sobreviver, e não consegue lembrar do que comeu na tarde de ontem, se comeu um pedaço de doce, se comeu salgado, amendoim, o que seja.

"Ser acometido por", "talvez", "e isso é recorrente". Três vícios de linguagem do meu próprio idioleto. Tento parar de usar estas expressões, mas limitado que insisto em ser, elas acabam voltando.

Escrevo estas linhas agora, um pouco desconcentrado. Na verdade, tenho um monte de trabalho pra fazer e enquanto não tomo meu café, fico aqui, usando as palavras, divagando coisas... algo que gosto tanto de fazer. Ouço uma música brasileira, não ligo muito para o cacófato. Hoje o dia foi legal e percebo novamente que não estou sendo muito coerente. Mas não ligo.

Engraçado que cheguei do trabalho e fui atraído por uma festa junina, todos aqueles doces dão deliciosos, todas as cores, o clima um tanto festivo, esse vento de inverno, tudo muito interessante, apesar da igreja ali, à minha frente.

E penso: vou dar uma volta por aqui, será que encontro algum garotinho católico interessante, em conflito com seus pecados, pronto pra cair nos meus braços, cair em meu peito, deitar na minha cama? Preciso mesmo de um garoto desses católicos, pronto pra se tornar um herege feliz. Venham, jovens rapazinhos de poucos pelos no rosto, deixem-me sentir seus cheiros, venham, venha, venha para os meus lençóis cor de xadrez. Vamos acordar sob esse céu de inverno, deixe-me sentir seu cheiro.

Que vermelhas estão as maçãs de amores. Ouço uma música brasileira. E agradeço os anônimos.

Hoje o dia foi um pouco tranquilo. Deu tudo certo, pela manhã, como eu planejava. Tivemos uma conversa boa, de negócios, de certa forma, decidimos coisas. Cumpri com meu compromisso. Uma reunião, que estava marcada para as onze horas. Acordei às sete e meia, levantei-me rapidamente ao som de uma música que não era poética. De madrugada fiz as contas do mês, luz, aluguel, telefone. Pela manhã, paguei minhas contas. Não lembro de ter tomado café. Sim, acho que tomei, com dois pedaços de pão, se não me engano. Foi isso. Não consegui comer tudo, joguei um pedaço da baguete francesa no lixo. Pela manhã eu não consigo muito mastigar.

Olhei-me no espelho, achei-me tão maduro, meus cabelos tão pretos, tão do tamanho que combina com minha blusa de frio. Acho que não gosto mais de raspar a cabeça, me sinto tão homem e tão menos garoto. De repente, quando olhei pro espelho, senti o tempo. E não me senti muito mal, sorri.

Meus dentes ficam cada vez mais brancos, acho isso tão engraçado. Meu cabelo está preto e combina com esta blusa. Comprei uma blusa aqui perto e ela é a minha roupa mais nova e preferida.

Hoje pela madrugada agradeci, mais uma vez, aos anônimos, que tanto me inspiram. Lembrei, mais uma vez, do meu cachorro. Sinto mais vontade de tomar um café. Ouço uma música brasileira.

Hoje, pela manhã, eu senti o tempo no espelho.
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quinta-feira, 3 de abril de 2008

Sobre amar as pessoas, atravessar ruas e arrumar gavetas

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Estava pensando hoje, enquanto atravessava a rua, sobre como o passado e as coisas da infância influenciam a nossa vida. Enquanto estava aberto o sinal para pedestres, pensei na minha professora da quarta-série, na professora da primeira série, na minha mãe e em todas as crianças de que eu nunca ouvi falar, mas sei que existem por aí afora, chorando em alguma casa miserável, rejeitando legume na cozinha iluminada e limpa de algum condomínio, algumas crianças que existem por aí, e que daqui a pouco serão adultas.

Lembrei - e sempre lembro disso - das palavras da minha mãe, de quando eu tinha uns oito, nove anos, que se repetiram várias vezes, enquanto eu consolidava as minhas amizades (por mais que elas fossem durar apenas algumas semanas, meses ou poucos anos, até que minha família se mudasse novamente de casa, de bairro, de cidade...). Palavras que, com o tempo, acho que deixaram de ser repetidas, porque a minha mãe, creio eu, então percebera que eu não precisava mais ouvi-las. Minha mãe sempre repetiu, em sua sabedoria não acadêmica, as diferenças entre o que era ser amigo, um colega ou apenas um conhecido. Ela conceituava as coisas de forma extremamente ingênua, mas dotada de uma força impressionante, que me intronizou os costumes e ponderou todo o resto de relações com as pessoas que se travaram até aqui. Dizia ela que um amigo era aquele por quem você arriscaria sua vida, aquele que poderia contar contigo a qualquer momento, aquele que você saberia o quanto gostava (muito, de verdade).

E maior rigor ainda vinha quando ela falava de amor! Porque o amor é uma coisa por demais intensa. Amor é gostar muito, muito, muito, muito, muito de alguém! Amar é gostar muito, muito, muito, muito etceteras muito de alguma pessoa! E mal sabe ela o quanto isso me complicou a vida. E me ajudou na vida, e tem um peso tão grande — que é quase diário — sobre as coisas que eu penso, as coisas que eu faço, sobre as pessoas com quem eu me relaciono e as minhas relações com elas.

É muito difícil descrever o amor, é muito difícil decidir o momento em que, na minha matemática subjetiva, eu concluo, e penso: eu amo esta pessoa, eu amo este objeto. É estranho, mas nós, pessoas, podemos amar objetos; sim, isso é muito estranho. E são pouquíssimos, foram pouquíssimos e tão poucos os momentos em que eu decidi que amava alguém (não, eu nunca amei mais os objetos que as pessoas; pelo contrário, nem sei se eu amo algum objeto...), que isso me assustou, paralelamente, em todos os momentos em que eu decidia se amava ou não. E isso ainda me assusta. Eu não sei se amo. Amar é uma utopia! É muito difícil!


Virou um tabu. Alguns amigos sabem, virou o meu tabu pessoal de repente admitir o amor por alguém, e tabu maior ainda dizer que amo! Pronunciar o meu amor! Puxa, como é difícil!, como é difícil proferir as palavras, como é difícil ousar dizer que gosta tanto, dizer que gosta muito, de maneira tão intensa, que não se sabe descrever direito o que se sente; que se sabe que se sente uma coisa muito boa, que se sabe que se quer passar o dia ao lado daquela pessoa, amada, que se sabe que faria o sofrível para vê-la bem, vê-la feliz, vê-la sorrindo. Eu não consigo dizer...

O conceito de amor da minha mãe era uma tortura, sempre foi difícil, me assustava (de verdade!). Ela dizia: "Se você ama uma pessoa, você morreria por ela!". E em relação a este amor, eu acho que fui covarde. Foi sempre tão difícil imaginar-me morrendo por alguém! Foi sempre tão difícil. E este conceito de amor, este tipo ideal da minha mãe, muitas vezes é o que corrói as minhas divagações — e não o amor um tanto banal que as pessoas andam proferindo por aí, boca pra fora; ou ainda o amor mediano dos que param apenas rapidamente para pensar no que seria este misterioso sentimento. Não. O amor conceitual que me marcou a minha vida, e que permanece é o da minha mãe. Forte filosofia de Marta! E eu acho que, antes de tudo, quando ela me dizia isto, deveria ter em mente o seu próprio amor, de mãe. E eu não duvido muito que ela morreria por um de seus filhos, como milhões de mães por aí afora... Tenho que conversar com ela sobre isso, qualquer dia. Mal ela sabe o quanto isso pauta as minhas relações, minhas divagações. E se traduzem, parcamente, aqui, nestas divagantes linhas, nestas linhas divagadoras.

Eu lembro que fui uma criança que ouvia os adultos. Curioso, porque me parecem dotadas de uma rebeldia as criancinhas de hoje! Uma rebeldia que as impele a não ouvir o que os adultos têm a dizer. Mas sou mesmo levado a crer, num segundo momento, que essa aparente rebeldia é só o reflexo de uma insanidade que povoa assustadoramente a mente de uma infinidade de adultos, que povoam estas ruas, com suas mãos que descem sem piedade sobre as cabeças de seus filhos, espancando; os gritos que doem nos ouvidos e confundem as mentes tão pequenininhas, que não entendem o porquê de tantas broncas, que não entendem o porquê de tanta, mas tanta violência. Não fica difícil imaginar mentezinhas rebeldezinhas, em resposta à violência que as insiste em fomentar.


Eu fui uma criança que ouvia os adultos! Lembro da professora da primeira série, que uma vez disse: "Sejam organizados! Sejam organizados, porque, sendo assim, dobrando as suas roupas na gaveta do quarto, e guardando sempre as mesmas peças nos mesmos lugares, organizadamente, vocês serão tão organizados que acharão uma camisa, uma cueca, mesmo se estiverem no escuro!, mesmo se faltar luz! Mesmo se faltar luz, vocês encontrarão o que procurarem!". Fui uma criança impressionável: eu me impressionava, vizualizando estas situações.

Fui uma criança razoavelmente organizada, um adolescente mais ou menos organizado. Sou um adulto pretensamente organizado, um indivíduo pretensamente disciplinado. Mas funcionou. A organização, quando foi realmente precisa, me estruturou as palavras, me estruturou as rotinas, me estruturou os caminhos e as gavetas do quarto. Hoje, eu nem tenho gavetas. Tenho outros caminhos, mas as minhas roupas continuam ali, dobradas. De vez em quando tudo isso se transforma num caos, mas a tendência deste pequeno universo é que tudo volte ao seu lugar, lembrando sempre da organização benfeitora (e mágica!) das coisas que conseguimos encontrar, mesmo quando está escuro! Nada parecido com toc, ou outra síndrome contemporânea que um monte de gente insiste em repetir que tem. Agora organização virou doença...

Acho que o resultado disso foi, hoje, uma mente um tanto matematizada, um pouco apaixonada por matrizes, por quadros esquemáticos, por linhas definidoras de projetos, por linhas de pesquisa, por traços organizadores de metas, organizações e esquemas necessários para a vida de qualquer um. Ou um “qualquer um” que eu devo, no fundo, ter em mente como sendo “eu mesmo”. Um espírito de quem se programa e precisa de linhas pra se orientar, pra enxergar uma reta, uma meta, um destino.

Linhas que atravessam as ruas.

Minha professora de quarta-série, eu tenho esta professora na mente. Creio que não tenha sido ela, mas hoje me lembrei dela. Vou deixar que sua figura sintetize, então, todas as professoras, todas as mães ou, sei lá, todas as boas vozes, de homens ou mulheres, que eu optei por ouvir até aqui; vou deixar que sintetize, na sua figura, as palavras desta outra pessoa, que uma vez me ensinou a atravessar as ruas.

Dizia esta voz: "Toda vez que for atravessar uma rua, atravesse em linha reta. Sendo assim, você não perde tempo (porque de uma calçada à outra, qualquer tracejado que não seja uma reta demandará mais tempo para que se a atravesse!) e evita que um carro te atropele. Se você quer chegar a um ponto do outro lado da rua que não está logo à sua frente, atravesse primeiro em linha reta. Quando estiver do outro lado, é só caminhar calmamente em direção a seu destino, sem perder tempo, sem risco de ser atingido por um carro, sem risco...".

São coisas que me marcam tão fortemente. Repito comigo que é o verdadeiro sentido do "introjetar", do "inculcar" sociológico...

Penso estas coisas quando atravesso a rua. Terminei meu trajeto, atravessei calmamente sobre as linhas da faixa de pedestres. Mas antes, não resisti, e ainda pensei comigo: Aquela mulher atravessou errado! Atravessou a rua na diagonal!

*dedicado à minha mãe

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quarta-feira, 2 de abril de 2008

objetivo

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ser otimista, sempre!, acima de tudo!
respeitar as pessoas,
tolerar as pessoas,
tolerar os erros e até sorrir, em retribuição

não brigar com o vizinho.
ter paciência com o cachorro.
dar bom dia para a caixa do mercado,

ouvir música e andar de bicicleta.
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terça-feira, 1 de abril de 2008

routine

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Tirar todos estes papéis de cima da cama, estas bandejas, jogar tudo no chão. Harper's Bazar, London Paris, New York. furs and fabrics and E. Barrington's New Novel

ouve alguma música antes de dormir. ouve Jorge Drexler, então.
lê um blog sobre cibercultura.

não arruma nada não. quando acordar, daqui a pouco, você pensa e resolve o que botar na mochila.

Boa noite, então!
Boa noite!
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Agora: releitura colorida

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Agora, neste momento, todas as cores do mundo circundam este casal, todas as cores do mundo se vão e fica apenas um intenso vermelho e depois um roxo e depois um amarelo e depois um azul. O homem pega a mão da mulher, no meio da calçada, diz-lhe coisas e ela sorri. O mundo é povoado pelo verde. Verde claro, verde-limão-fluorescente. E não o mundo inteiro, mas apenas o chão do mundo! Apenas o verde brilhante sob os pés de todas as pessoas. E todas as pessoas felizes e todas as pessoas que amam. E se amam.

Tem um vestido florido a mulher, como todas as mulheres do mundo, todas as mulheres que são um jardim e são flores e têm vestidos de flores. Ele tem uma sacola de mercado no braço direito, uma sacola branca, tão cheia de luz, tão cheia de cor e arco-íris, tão cheia de nuvem!

Do outro lado da calçada, duas amigas conversam. Seus olhos brilham. Uma delas usa botas de cano longo. E conversam e riem. E são cores, cada uma a cor que lhes sai de dentro, e duas cores de amigas se misturam debaixo das árvores. Estão perfumadas. E, ó!, o perfume é tão doce, tão intenso, tão delicado, tão agudo, tão cheio de capim e de bambus e florezinhas azuis em rodapés de muralhas, encostas de alcazares nos mais altos dos montes de Espanha! E belos, e suaves!, e cheios!, e cores!

A tevê passa um comercial de cerveja com mulheres nuas.
E homens também.
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segunda-feira, 31 de março de 2008

luz do sol

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Eles se beijaram devagar, muito devagar, lentamente, extremamente devagar. Devagar, assim, como é impossível descrever. Ele interrompeu, lambeu ainda devagar os seus lábios, e lambeu sua língua e tocou seu pescoço, e sua barba. Lambeu muito lentamente, mais uma vez, o seu corpo, assim, ainda desta forma que é impossível descrever. Muito lentamente. Segurou sua cabeça com as mãos firmes e pêlos, acariciou o seu cabelo, puxando alguns fios para trás. Os fios, ainda lentamente, voltavam para suas posições, levemente penteados para frente. Olharam-se nos olhos, sentiram-se os gostos molhados, um gosto de gente, um gosto de luz e paz, que entra pela janela. E são três horas da tarde e não existe mais nada além deles dois.
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Recado

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Você quer deixar um recado, mesmo que ele não seja tão importante, mesmo que, apesar da intenção, você não consiga deixá-lo poético. Não se envergonhe, não se acanhe. Por favor, não deixe de escrever. Escreva, mesmo que esteja com pressa e as letras saiam trocadas e algumas palavras não façam sentido. E lá fora estão todos estes prédios, o céu muito negro, nublado, e as janelas dos apartamentos todas fazendo um desenho com seus andares de quadrados apagados e acesos. Um pouco de uniformidade em seus desenhos, luzes brancas, luzes amarelas, luzes piscantes azuladas das salas em que se assiste televisão. Alguns assistem ao mesmo programa de tevê, outros assistem a um filme alugado, um devedê, um ou outro adormecido com a luz da tela, um som indefinido que interfere sobre os sonhos.

Alguém ali embaixo ouve música eletrônica num walkman. Sintetizadores.
O tempo tem passado tão rapidamente, você quer dizer, você quer escrever. Você esquece, por alguns instantes, qual era a parte mais importante do recado e então se recorda que não havia parte mais importante ou crucial. Queria apenas deixar a sua marca, mostrar que um dia existiu.
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domingo, 30 de março de 2008

Agora, um edifício

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Agora, neste momento, as pessoas vivem, a Terra gira. Esta mulher tem quarenta anos, chora copiosamente sob a luminária antiga da cozinha, chora copiosamente sobre a mesa, chora sobre os papéis, chora sobre as fotos. A vida é tão injusta, chora copiosamente, e soluça. Os cabelos revoltos, o rosto quente, a pressão alta. Veias pulsam. O rosto quente. Poderia se matar agora. Seria melhor morrer.

O café está pronto. Ela vai passar para a garrafa térmica e tomarão ainda quente, com pãezinhos e queijo. Ele está na sala. Em novembro, ela engravidará.

O jovem tem dezesseis anos, um prodígio, a família diz. Acredita em participação política. "Um fim à ilusão da democracia representativa! Às ruas já!" Passou a manhã folheando livros, revistas, jornais. Jogou fora, ao meio dia, um bando de poesias tolas, que andou escrevendo, no ano passado. Leu Trotsky, leu Hannah Arendt - um artigo escrito pelo pai. Masturba-se sob a água quente do banho. A água cai sobre o pescoço. Pensa em coisas bonitas.
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Agora

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Agora, neste momento, o mundo gira. Um homem pega a mão da mulher, no meio da calçada, diz-lhe coisas, ela sorri. Tem um vestido florido, amarelo, flores vermelhas, discretas, folhas verdes. Seguram-se as mãos. Ele tem uma sacola de mercado no braço direito. Do outro lado da calçada, duas amigas conversam. Uma delas usa botas de cano longo. Estão perfumadas.

A tevê passa um comercial de cerveja com mulheres seminuas.

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terça-feira, 4 de março de 2008

PLETORA

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Isabel amargou. Pensou num verbo decadente, alguma coisa idiota para dar conta de atitudes idiotas. Abriu o portão, puxou a alça de metal com força, marcando com um barulho estridente a certa raiva que sentia deste bando de gente. Isabel morreu antes mesmo de atravessar a rua, Isabel não existe, nem mesmo o seu vestido bonito que balança de leve com o vento, nem mesmo o seu cabelo longo, e preto. “Isabel é um PERSONAGEM”, enlouqueceu o artista. Coçou a cabeça, pensou consigo, escreveu, contou a sétima linha. Ponto.

Por estes dias escreveu o autor de Isabel um pedaço de coisa, um diálogo condensando experiências, um diálogo recorrente traçado com pessoas diferentes. Um dos interlocutores é sempre ele, fixo. Falou que nunca chorava e que era recorrente o seu desprezo por um excesso de sentimentalismo, um sintoma de fraqueza que acomete este monte de gente — o mesmo povo que Isabel odeia. Lembrou que havia, sim, o sentimentalismo que elogiava... (Que tolerava. Talvez esta fosse a palavra melhor...)

Por estes dias aconteceu mais um destes diálogos recorrentes de interlocutor fixo, que reproduz as mesmas palavras. Foi um insensível. Do outro lado havia uma pletora, um amontoado de sentimentos e dor. Havia um corpo, que chorava.

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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

A vassoura

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"Cinco reais, cinco reais! Você vai me pagar os cinco reais, você vai pagar o programa!", gritava a puta pro cara sarado, sem camisa, bermuda branca florida, que já estava fora do carro. Carro vermelho, cor da paixão. Ela gritava, pedindo o pagamento que restava do programa, ali, embaixo da árvore, cerca de duas da manhã, e ele, um tanto quanto dopado, um pouco confuso, falando baixo, tentando acalmá-la, dizendo que ia pagar, ia pagar.


Que esperasse um pouco. Tentava segurar seu braço, fazer com que silenciasse. Parecia que tinha vontade de discutir a relação. “Calma aí, pára de escândalo, vem aqui pra perto de mim, me ouve direito, espera, deixa isso pra lá”, parecia pensar.

A puta era um traveco, diga-se de passagem, mas isso não importava nem um pouco pro carinha, macho, peito desnudo, a tiracolo a camisa do Vasco. Um grande show.

A trava gritava, "quero meu dinheiro, você vai pagar ou eu vou quebrar seu carro!", tinha um dos peitos de fora, andava de um lado pro outro, com a teta ao léu, ao vento, peito bonito, muito igual a peito de mulher, uma delícia. Ele, muito confuso, sabe-se lá por que motivo, ainda pedindo que se acalmasse. Um absurdo que não tivesse ali os cinco reais pra acabar com aquela baboseira toda, a puta a voltar pro seu serviço, ele voltar pra sua casa, possivelmente mulher, filhos e cachorro.

“Eu fiz o programa, tá aqui a prova!, estou toda gozada!, fiz o meu trabalho, agora você vai ter que pagar!”

“Me dá a minha camisa!”

“Po-lí-cia!!! Po-lí-cia!!! Eu tô sendo roubada! 'Me dá a minha camisa' que nada, eu vou é levar ela comigo, pra provar que ela tá aqui, cheia de porra, que eu fiz o meu trabalho e que você não tá me pagando”, gritava, fazendo a Lewinsky.

Ele, ainda atônito.

“Vamos para o caixa eletrônico, lá eu te pago!”

“EEEEEEEEEEEu, não entro nesse carro de novo, nem morta! (...) Você quer ir no caixa eletrônico com ele, Fulana? Se você quiser ir com ele, pode ir, porque EU não vou!”

“Peraí, vamo resolver isso direito!”

“Não quero saber, eu vou quebrar o seu carro. Pode me pagando... UM, DOIS, TRÊS!" PAF! PAF! PAF! “Tô quebrando o seu carro!, não vai me pagar não? Não quero nem saber!” PAF! PAF! PAF! — E batia o traveco contra o carro vermelho com uma vassoura, surgida SABE-SE LÁ DE ONDE!, com toda a força no carro do rapaz, que não reagia, temendo confusão pior.

Perguntava ele: “Você sabe quem eu sou? Peraí, eu não vou te dar calote! Você sabe quem eu sou?”

“EEEEu não quero saber quem você é, não quero saber se você é POLÍCIA, se você é MATADOR, se é DONO DA BOCA-DE-FUMO, EU-QUE-RO-O-MEU-DI-NHEI-RO!”. PAF!

Tudo indica que a vassoura tenha saído de trás de uma árvore. Talvez seja a arma secreta das travas, que fique ali durante o dia todo, sem que ninguém perceba, durante o movimento frenético da rua, dos carros, dos transeuntes, e que, à noite, fique ali, à espreita, à espera de um calote, de um caloteiro, de um carro vermelho e vidros para onde possa ser lançada, com toda a força, quebrando partes, arranhando outras, provocando um estrago na lataria, cobrando boquetes, e coisas e dinheiros e cinco reais.

Saiu correndo, chacoalhando a camisa do Vasco, desfilando no meio da rua, o prédio todo olhando e o casal, lá embaixo, alheio a tudo, tentando resolver seu problema, varando os minutos preciosos da madrugada, poéticos até, à luz da lua, à luz dos postes, à luz das lâmpadas da igreja ali na esquina, à luz dos bares, dos carros.

Como explicaria os danos no carro à mulher?, como se explicaria caso alguém descobrisse alguma coisa? Não podia deixar que as coisas chegassem à delegacia. Não!

Saiu atrás dela, apertando o passo, curiosamente evitando correr. E ela, lá na frente, levando a camisa, rebolando, gritando, a essa altura nem mais preocupada com cinco reais, despreocupada, feliz.

“Cadê a minha carteira, a chave do meu carro?”, gritou ele, no meio da confusão.

Ela, já virando a esquina, desaparecendo. A vassoura ali, jogada no asfalto, enquanto ambos se resolviam lá pelos hotéis baratos da cidade, o carro vermelho parado sob a árvore, os vidros ainda abertos, a rua com um ar agitado, apesar de vazia. O silêncio quebrado pelos carros distantes e pela expectativa do desfecho da história. Um minuto, dois, três, cinco, uns dez, e volta o rapaz inquieto, sem a trava, sem a camisa do Vasco, escoltado por um policial montado numa moto azul, silenciosa.

“Vamos para a delegacia, eu te acompanho, entra no seu carro. (...) Por que você foi sair com traveco, cara?”, perguntou o polícia, um tanto solidário, um tanto entediado com mais uma história da noite.

“Eu, eu não saí, rapaz”, tentou por um segundo e meio desmentir alguma coisa, desistindo logo na primeira frase, percebendo que ali não dava mais pra inventar alguma coisa, percebendo que a merda tava feita mesmo, vamos pra delegacia...

Não sobrou nenhuma trava, nenhum carro na esquina, nada, nenhum burburinho de gente. Mas só por alguns instantes mesmo, quinze minutos no máximo. Tempo pra se pensar nos perigos da noite, mas pra se pensar bem rapidinho e voltar logo pra ativa, a noite não pára, tem cliente vindo ali. Outras travas embaixo da árvore, se agachando pra fazer xixi, o dia amanhecendo e a vassoura ainda abandonada, jogada, ninguém preocupado em devolvê-la a seu lugar, quem sabe atrás de uma das árvores, quem sabe um canto, uma brecha na parede, quem sabe algum lugar, algum lugarzinho, coitada da vassoura, arma útil pra espantar caloteiros, agora ali no chão, humilhada, o cabo clássico de vassoura, sujo, das mãos suadas, da sujeira que se desprende da rua, a lata com letras azuis, as fibras na ponta perfeitas, pronta pra limpar qualquer sujeira, qualquer poeira, qualquer pedaço de lixo jogado ao chão, qualquer coisa, pronta pra ser útil...

Já faz dois dias. A vassoura atravessou a rua. Ninguém a devolveu a seu lugar. Está lá, jogada, as pontas estraçalhadas, abandonada, molhada pela lama.

Já faz dois dias. Já faz dois dias...


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segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Eu sou um gato

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O menino saiu de casa à noite, apressado e alegre. Olhava para o céu, sentia o vento no rosto, os cabelos despenteados, andar aguçado, quase saltitante, um sorriso bobo que lhe pontuava a face, gargalhando baixinho com o farfalhar de coisas que lhe passavam pela mente, como que fazendo cosquinhas, deixando-o mais serelepe, mais serelepe...

Ainda olhou para trás, viu a sua casa e a do vizinho, antes de passar por uma brecha na cerca de tábuas finas e frouxas, que separava o terreno baldio do parque que chegara à cidade. O cercado alto, as tábuas velhas e úmidas, pintadas de branco. Desviou de algumas pontas de pregos, de latas vazias, de pedras, fuçou uma caixinha de música enferrujada, jogada num canto do terreno. A bailarina desfigurada, ainda de saia rodada rosa, o corpinho todo respingado de lama, que se formou por ali, com a água da chuva. Fitou o brinquedo por um tempo, lançando-o em seguida para longe, orgulhoso do arremesso. A noite quente, o céu tão cor de morango...

Viu a roda gigante, tão gigante, olhou as maçãs, de amores, não tinha um trocado sequer, mas deu de ombros, não queria mesmo doce algum, tinha gastado tudo logo cedo, quando saíra de casa, o boné virado para trás, o shortinho azul que ganhara do avô, um bolso furado, um monte de pratinhas nas mãos. Lembrou-se, gargalhando, de como derrubara todas as moedinhas na esquina da rua, assustado, abaixando-se pra pegar cada uma rapidinho, antes que um carro passasse, encobrisse algum centavo de areia e desfizesse os seus planos de doces, pirulitos e avelãs. Nem sabia o que era avelã, mas eram tão gostosas aquelas coisas feitas disso, que só podiam ser boas e muito legais deviam ser as árvores onde nasciam avelãs, e muito satisfeitas as pessoas que tinham pés de avelã em seus quintais...

“Eu queria... Ter um pé de avelã”, pensou. Ai, que vida tão engraçada!, conversou ligeiramente consigo, sem saber exatamente o que pensava. Desconcentrou-se, perdeu-se nos pensamentos das pratinhas, voltou os olhos para o alto, tão veloz a montanha-russa, tão altos os gritos vindos lá de cima, tudo tão rápido, tão luminoso, tão iluminado, tantas luzes vermelhas, amarelas, roxas, verdes e azuis.

Era só um enfeite: linha de fita cassete amarela, pregada na ponta de uma caneta. Divertiu-se sabe-se lá por quanto tempo bailando a pecinha (que de onde saíra?) contra o vento, contra a brisa, contra o mundo, chacoalhando, fazendo vuuuu, imitando vento com um biquinho, fazendo vuush!, imitando aviões. Olhou pra um senhor muito alto, de terno e chapéu, usava por baixo do paletó marrom uma peça xadrez, mas tão bonita, mas tão bonita, que quando fosse grande queria ter uma igual. Uma igualzinha!

Pôs-se de volta, no caminho, atravessou rápido por entre as pessoas, fez careta pra crianças chatas que passaram perto da barraca de refrigerantes. Deu língua para suas costas, nem queria mesmo que elas o vissem ali. Sentiu vontade de bolo de chocolate, igual ao que a mãe fazia de vez em quando, e servia à tarde, no café, pouco antes do pai chegar.

Passou por debaixo da cerca novamente, olhou para um lado, olhou para o outro. Viu a sua casa ali na frente. Viu na esquina a casa toda branca dos vizinhos (que vendiam drogas!). Passou por ela rapidinho, sem olhar por entre os portões.

"Passei a noite inteira vagando", pensou consigo. "Minha mãe podia ter chamado a polícia!"

Sentou-se à beira de uma árvore, riscou com um caco de vidro no tronco fino algumas palavras que lhe martelavam a cabeça (ocupado X livre, shobi, itinerante). Sabe-se lá o que seriam estas coisas! Ao menos se livrara delas!

Correu sorrateiro pelo quintal, entrou no quarto pulando pela janela, caindo direto sobre a cama fofa, os lençóis tão coloridos, a lua, lá no céu, tão, mas tão, tão brilhante!

As cortinas de tecido branco, muito finas, velejaram por um instante, subiram até o teto, voltaram, fazendo um vento bom.

"Eu sou um gato!", disse, em voz alta, orgulhoso.

E adormeceu.

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sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

camada

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E deixo, a cada instante,
pequenos pedaços da minha pele, por aí.
Sou pólen.

E deixo, a cada instante,
pequenos pedaços de mim.
Epitélios.

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terça-feira, 15 de janeiro de 2008

não-flerte

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Fixo-me neste ponto: sua boca, seus olhos, seu nariz.
Fixo-me neste ponto.

Fixo-me neste ponto: sua boca pequena, seus olhos pretos, seu grande nariz.
Fixo-me neste ponto, que criei.

Não quero que você me olhe,
Isto não é um flerte,
não quero que você me veja.

Se olha em minha direção,
Desconversam ligeiros meus olhos,
encontro uma nova rota,
não quero, ali.

Fixo-me neste ponto: entre suas pernas. E vejo.
Fixo-me neste ponto, e páro, e quero.

Fixo-me neste ponto, teu corpo.

Não quero que você me veja.
Isto é um não-flerte.

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E o meio...

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Nos próximos dois minutos meu passatempo será brincar de ver quem tem cara de europeu. Este tem cara comprida, branca, pálida, duas pequenas bolsas inchadas sob os olhos, aparência cansada, um tanto apática. Europeu. Esta, magra, cabelos curtos, escorridos, mechas assimétricas, quase tocando os ombros, séria, roupas-tom-de-reunião, não usa sutiã, os seios pequeninos, empinados, um pouco de soberba no ar que expira quando atende o telefone. Européia. Este não, este não, esta não, esta não.

Penso: a Europa da minha mente deve se resumir aos personagens de Londres-Paris, alguns desses que povoam algum canto do meu imaginário, acho que também um pouco de países do Leste, mas nada que tenha aparecido na minha brincadeira agora.

Hoje eu quero ver TUDO, meus olhos passeiam quase pornográficos, indiscretos, por todas as peles, por todos os traços, por todas as roupas, por todos os tons. Quero enxergar cada pedaço.

Outro dia, saía da Tijuca e meus pulmões pareciam que iam se enchendo de alguns suspiros felizes, de prazer mesmo, a cada olhar que fitava, a cada andar que passava, a cada conversa incompleta, cada pessoa, cada vestido, calça, criança, cada corpo-transeunte, gente levando seu cão.

O dia, neste segundo, está agitadíssimo. Exatamente neste segundo.

Passa, aqui do meu lado, um navio imenso, LOG-IN AMAZÔNIA, azul, laranja e branco. Agora, contra o sol, apenas uma sombra negra. Os brilhos machucam meus olhos, já disse, não gosto de luz. Todas as pessoas iluminadas, os feixes dourados as tocam, conversam excitadas, falam alto, atendem telefones, silenciam, tomam café. A barca chacoalha muito mais que o habitual. Acaba de cair uma chuva imensa, telhados arrancados, carros arranhados, trânsito parado, agitou o mar. As pessoas ainda agitadas.

Parece que ficou do outro lado da baía, a chuva. A terra se aproxima.

Eu poderia escrever o dia inteiro sobre isso, eu vou escrever a cada dia sobre estas marcas, cada dia é tão diferente, cada caminho meu é tão igual. Cada dia é tão diferente, cada caminho não é tão igual. Os caminhos não são os mesmos, não existe rotina. Chego em Niterói.

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distância

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estou a 20 centímetros,
mas não posso te beijar,

a 20 centímetros da sua boca,
mas não posso te beijar,

estou a 20 centímetros,
estou a 20 centímetros

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Rio de Janeiro II

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Pra você, que grita e trabalha no trem,
que vente gilete, pente, bala, chiclete,
canetabic, lápis, chocolate, biscoito,
livro de receitas, agulha, amolador,

Pra você, que entra no ônibus,
vende água enquanto fecha o sinal,
pede "motô, abre aí, na moral",
recita estratégia da venda,
amendoim, adesivo, pastilhas,

Pra você, camelô, sob o sol, sob a chuva,
Pra você, na praia, água de coco, refrigerante,
biscoitoglobo, picolé, cuscuz, bronzeador,

Pra você, sem plano de saúde,
sem dentista, sem férias,
sem décimo terceiro, sem garantias,

Pra você, vítima do subemprego,
o voto, o candidato,
a assembléia, o decreto,
pra você, o mínimo de Estado,

O mínimo.

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domingo, 13 de janeiro de 2008

Jornada para dois

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O rapaz tem seus dezesseis anos, segue descalço, camisa que um dia foi branca, estampada por jogadores de beisebol, uniformizados, em jogo. Tem um grande rasgo no alto do ombro esquerdo, onde a pele é mais tostada, exposta, no meio do rasgo. O pedaço que falta balança agora com o vento, agarrado a uma cerca de arame farpado, alguns quilômetros para trás. Segue calado. Os olhos atentos, os ouvidos concentrados, à espera de movimentos incertos, poder-se-ia dizer, quase um animal, farejando perigo, caminhando sem fazer barulho, desconfiado. Ao seu lado, pesado e reinante em seus pelos, o rotweiller fiel, atento, colado ao dono, não se distanciando mais que alguns centímetros das pernas daquele humano. Sabe que é ele quem protege o garoto, sabe que é mais forte, mais ágil, mais rápido, mais instinto.

Não há muita água limpa por aqui, as casas estão em ruínas, o vento sopra, cortando a pele, uiva por entre as paredes de casas erguidas pela metade, que um dia abrigariam pessoas, algumas fazendo por merecer, outras, apenas seguindo o rastro, sendo levadas nas bordas de destinos traçados pelos homens que mandam aqui. A terra é vermelha, típica deste punhado de planícies, chegando ao sul do país. Aqui ainda é Brasil.

Não há dono ou cão obediente nesta amizade. Vigiam um ao outro apenas como amigos que são, e nada mais. Caminham apenas amigos, um ao lado do outro. E se gostam.

Surge este homem encapuzado, armado com facas e metralhadora, vindo de trás de um dos barris, mais um dos inúmeros barris deixados por aqui. Barris verdes e vermelhos, inicialmente distribuídos de acordo com o seus setores, mas agora espalhados, nessa desordem, confundindo-se com o resto de lixo que por aqui ainda se encontra. Lixo metálico, de aço, que brilha e cega quando reflete a luz do sol, e brilha intensamente por entre ferros opacos, por entre tijolos e pedaços de pau.

Não demoram mais que trinta segundos para que o homem os espreite, opte pelo silêncio das armas brancas, pule, com dois impulsos em direção ao rapaz, atacando-o pelas costas, e o cão, como quem entende que o silêncio é a melhor arma, o ataque em dentadas abafadas, primeiro sobre a mão, que logo deixa cair sua faca, depois a outra mão, arrancando alguns dedos, enfim o pescoço, o tórax e as pernas, enquanto o garoto o ajuda, e defendem-se, sincronizados. O homem se rende, algumas dentadas no rosto, já desfigurado, morre em silêncio. Seus olhos denotam vergonha, segundo antes de ser cravado pelo próprio pedaço de lâmina, que escolhera para os inimigos.

O rapaz prefere ficar com as armas brancas. As de fogo são pesadas, atrapalham o combate, falham durante o confronto direto, não servem pra nada depois que acabam munições, são assustadoras, mesmo quando se está acostumado com toda a carnificina, que impera desde as fronteiras do Vale até estes limites de São Vicente e o que um dia se acostumou chamar de Paranaguá, ou alcunha parecida. Vasculha as vestes do inimigo. Nenhuma identificação, algumas gomas para distrair no caminho, ração para um dia meio, para si e para o cão, água de beber pendurada no peito. Dentro de uma das botas, um revólver de baixo calibre. Resolve levar este consigo. Prefere continuar descalço, leva a metralhadora e as munições embaixo do braço, a fim de jogar no meio do primeiro rio que encontrarem logo à frente.

Estão feridos. Ele beija o cão, afaga a cabeça do bicho, que responde com um atrito sobre a pele. Ele abraça o animal, respira fundo, e levanta vagarosamente, tentando encontrar mais alguém, atrás dos tijolos acinzentados calados, suas testemunhas.

[29.11.2007]

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