terça-feira, 15 de janeiro de 2008

E o meio...

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Nos próximos dois minutos meu passatempo será brincar de ver quem tem cara de europeu. Este tem cara comprida, branca, pálida, duas pequenas bolsas inchadas sob os olhos, aparência cansada, um tanto apática. Europeu. Esta, magra, cabelos curtos, escorridos, mechas assimétricas, quase tocando os ombros, séria, roupas-tom-de-reunião, não usa sutiã, os seios pequeninos, empinados, um pouco de soberba no ar que expira quando atende o telefone. Européia. Este não, este não, esta não, esta não.

Penso: a Europa da minha mente deve se resumir aos personagens de Londres-Paris, alguns desses que povoam algum canto do meu imaginário, acho que também um pouco de países do Leste, mas nada que tenha aparecido na minha brincadeira agora.

Hoje eu quero ver TUDO, meus olhos passeiam quase pornográficos, indiscretos, por todas as peles, por todos os traços, por todas as roupas, por todos os tons. Quero enxergar cada pedaço.

Outro dia, saía da Tijuca e meus pulmões pareciam que iam se enchendo de alguns suspiros felizes, de prazer mesmo, a cada olhar que fitava, a cada andar que passava, a cada conversa incompleta, cada pessoa, cada vestido, calça, criança, cada corpo-transeunte, gente levando seu cão.

O dia, neste segundo, está agitadíssimo. Exatamente neste segundo.

Passa, aqui do meu lado, um navio imenso, LOG-IN AMAZÔNIA, azul, laranja e branco. Agora, contra o sol, apenas uma sombra negra. Os brilhos machucam meus olhos, já disse, não gosto de luz. Todas as pessoas iluminadas, os feixes dourados as tocam, conversam excitadas, falam alto, atendem telefones, silenciam, tomam café. A barca chacoalha muito mais que o habitual. Acaba de cair uma chuva imensa, telhados arrancados, carros arranhados, trânsito parado, agitou o mar. As pessoas ainda agitadas.

Parece que ficou do outro lado da baía, a chuva. A terra se aproxima.

Eu poderia escrever o dia inteiro sobre isso, eu vou escrever a cada dia sobre estas marcas, cada dia é tão diferente, cada caminho meu é tão igual. Cada dia é tão diferente, cada caminho não é tão igual. Os caminhos não são os mesmos, não existe rotina. Chego em Niterói.

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