segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Eu sou um gato

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O menino saiu de casa à noite, apressado e alegre. Olhava para o céu, sentia o vento no rosto, os cabelos despenteados, andar aguçado, quase saltitante, um sorriso bobo que lhe pontuava a face, gargalhando baixinho com o farfalhar de coisas que lhe passavam pela mente, como que fazendo cosquinhas, deixando-o mais serelepe, mais serelepe...

Ainda olhou para trás, viu a sua casa e a do vizinho, antes de passar por uma brecha na cerca de tábuas finas e frouxas, que separava o terreno baldio do parque que chegara à cidade. O cercado alto, as tábuas velhas e úmidas, pintadas de branco. Desviou de algumas pontas de pregos, de latas vazias, de pedras, fuçou uma caixinha de música enferrujada, jogada num canto do terreno. A bailarina desfigurada, ainda de saia rodada rosa, o corpinho todo respingado de lama, que se formou por ali, com a água da chuva. Fitou o brinquedo por um tempo, lançando-o em seguida para longe, orgulhoso do arremesso. A noite quente, o céu tão cor de morango...

Viu a roda gigante, tão gigante, olhou as maçãs, de amores, não tinha um trocado sequer, mas deu de ombros, não queria mesmo doce algum, tinha gastado tudo logo cedo, quando saíra de casa, o boné virado para trás, o shortinho azul que ganhara do avô, um bolso furado, um monte de pratinhas nas mãos. Lembrou-se, gargalhando, de como derrubara todas as moedinhas na esquina da rua, assustado, abaixando-se pra pegar cada uma rapidinho, antes que um carro passasse, encobrisse algum centavo de areia e desfizesse os seus planos de doces, pirulitos e avelãs. Nem sabia o que era avelã, mas eram tão gostosas aquelas coisas feitas disso, que só podiam ser boas e muito legais deviam ser as árvores onde nasciam avelãs, e muito satisfeitas as pessoas que tinham pés de avelã em seus quintais...

“Eu queria... Ter um pé de avelã”, pensou. Ai, que vida tão engraçada!, conversou ligeiramente consigo, sem saber exatamente o que pensava. Desconcentrou-se, perdeu-se nos pensamentos das pratinhas, voltou os olhos para o alto, tão veloz a montanha-russa, tão altos os gritos vindos lá de cima, tudo tão rápido, tão luminoso, tão iluminado, tantas luzes vermelhas, amarelas, roxas, verdes e azuis.

Era só um enfeite: linha de fita cassete amarela, pregada na ponta de uma caneta. Divertiu-se sabe-se lá por quanto tempo bailando a pecinha (que de onde saíra?) contra o vento, contra a brisa, contra o mundo, chacoalhando, fazendo vuuuu, imitando vento com um biquinho, fazendo vuush!, imitando aviões. Olhou pra um senhor muito alto, de terno e chapéu, usava por baixo do paletó marrom uma peça xadrez, mas tão bonita, mas tão bonita, que quando fosse grande queria ter uma igual. Uma igualzinha!

Pôs-se de volta, no caminho, atravessou rápido por entre as pessoas, fez careta pra crianças chatas que passaram perto da barraca de refrigerantes. Deu língua para suas costas, nem queria mesmo que elas o vissem ali. Sentiu vontade de bolo de chocolate, igual ao que a mãe fazia de vez em quando, e servia à tarde, no café, pouco antes do pai chegar.

Passou por debaixo da cerca novamente, olhou para um lado, olhou para o outro. Viu a sua casa ali na frente. Viu na esquina a casa toda branca dos vizinhos (que vendiam drogas!). Passou por ela rapidinho, sem olhar por entre os portões.

"Passei a noite inteira vagando", pensou consigo. "Minha mãe podia ter chamado a polícia!"

Sentou-se à beira de uma árvore, riscou com um caco de vidro no tronco fino algumas palavras que lhe martelavam a cabeça (ocupado X livre, shobi, itinerante). Sabe-se lá o que seriam estas coisas! Ao menos se livrara delas!

Correu sorrateiro pelo quintal, entrou no quarto pulando pela janela, caindo direto sobre a cama fofa, os lençóis tão coloridos, a lua, lá no céu, tão, mas tão, tão brilhante!

As cortinas de tecido branco, muito finas, velejaram por um instante, subiram até o teto, voltaram, fazendo um vento bom.

"Eu sou um gato!", disse, em voz alta, orgulhoso.

E adormeceu.

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