domingo, 13 de janeiro de 2008

Jornada para dois

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O rapaz tem seus dezesseis anos, segue descalço, camisa que um dia foi branca, estampada por jogadores de beisebol, uniformizados, em jogo. Tem um grande rasgo no alto do ombro esquerdo, onde a pele é mais tostada, exposta, no meio do rasgo. O pedaço que falta balança agora com o vento, agarrado a uma cerca de arame farpado, alguns quilômetros para trás. Segue calado. Os olhos atentos, os ouvidos concentrados, à espera de movimentos incertos, poder-se-ia dizer, quase um animal, farejando perigo, caminhando sem fazer barulho, desconfiado. Ao seu lado, pesado e reinante em seus pelos, o rotweiller fiel, atento, colado ao dono, não se distanciando mais que alguns centímetros das pernas daquele humano. Sabe que é ele quem protege o garoto, sabe que é mais forte, mais ágil, mais rápido, mais instinto.

Não há muita água limpa por aqui, as casas estão em ruínas, o vento sopra, cortando a pele, uiva por entre as paredes de casas erguidas pela metade, que um dia abrigariam pessoas, algumas fazendo por merecer, outras, apenas seguindo o rastro, sendo levadas nas bordas de destinos traçados pelos homens que mandam aqui. A terra é vermelha, típica deste punhado de planícies, chegando ao sul do país. Aqui ainda é Brasil.

Não há dono ou cão obediente nesta amizade. Vigiam um ao outro apenas como amigos que são, e nada mais. Caminham apenas amigos, um ao lado do outro. E se gostam.

Surge este homem encapuzado, armado com facas e metralhadora, vindo de trás de um dos barris, mais um dos inúmeros barris deixados por aqui. Barris verdes e vermelhos, inicialmente distribuídos de acordo com o seus setores, mas agora espalhados, nessa desordem, confundindo-se com o resto de lixo que por aqui ainda se encontra. Lixo metálico, de aço, que brilha e cega quando reflete a luz do sol, e brilha intensamente por entre ferros opacos, por entre tijolos e pedaços de pau.

Não demoram mais que trinta segundos para que o homem os espreite, opte pelo silêncio das armas brancas, pule, com dois impulsos em direção ao rapaz, atacando-o pelas costas, e o cão, como quem entende que o silêncio é a melhor arma, o ataque em dentadas abafadas, primeiro sobre a mão, que logo deixa cair sua faca, depois a outra mão, arrancando alguns dedos, enfim o pescoço, o tórax e as pernas, enquanto o garoto o ajuda, e defendem-se, sincronizados. O homem se rende, algumas dentadas no rosto, já desfigurado, morre em silêncio. Seus olhos denotam vergonha, segundo antes de ser cravado pelo próprio pedaço de lâmina, que escolhera para os inimigos.

O rapaz prefere ficar com as armas brancas. As de fogo são pesadas, atrapalham o combate, falham durante o confronto direto, não servem pra nada depois que acabam munições, são assustadoras, mesmo quando se está acostumado com toda a carnificina, que impera desde as fronteiras do Vale até estes limites de São Vicente e o que um dia se acostumou chamar de Paranaguá, ou alcunha parecida. Vasculha as vestes do inimigo. Nenhuma identificação, algumas gomas para distrair no caminho, ração para um dia meio, para si e para o cão, água de beber pendurada no peito. Dentro de uma das botas, um revólver de baixo calibre. Resolve levar este consigo. Prefere continuar descalço, leva a metralhadora e as munições embaixo do braço, a fim de jogar no meio do primeiro rio que encontrarem logo à frente.

Estão feridos. Ele beija o cão, afaga a cabeça do bicho, que responde com um atrito sobre a pele. Ele abraça o animal, respira fundo, e levanta vagarosamente, tentando encontrar mais alguém, atrás dos tijolos acinzentados calados, suas testemunhas.

[29.11.2007]

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