quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

A vassoura

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"Cinco reais, cinco reais! Você vai me pagar os cinco reais, você vai pagar o programa!", gritava a puta pro cara sarado, sem camisa, bermuda branca florida, que já estava fora do carro. Carro vermelho, cor da paixão. Ela gritava, pedindo o pagamento que restava do programa, ali, embaixo da árvore, cerca de duas da manhã, e ele, um tanto quanto dopado, um pouco confuso, falando baixo, tentando acalmá-la, dizendo que ia pagar, ia pagar.


Que esperasse um pouco. Tentava segurar seu braço, fazer com que silenciasse. Parecia que tinha vontade de discutir a relação. “Calma aí, pára de escândalo, vem aqui pra perto de mim, me ouve direito, espera, deixa isso pra lá”, parecia pensar.

A puta era um traveco, diga-se de passagem, mas isso não importava nem um pouco pro carinha, macho, peito desnudo, a tiracolo a camisa do Vasco. Um grande show.

A trava gritava, "quero meu dinheiro, você vai pagar ou eu vou quebrar seu carro!", tinha um dos peitos de fora, andava de um lado pro outro, com a teta ao léu, ao vento, peito bonito, muito igual a peito de mulher, uma delícia. Ele, muito confuso, sabe-se lá por que motivo, ainda pedindo que se acalmasse. Um absurdo que não tivesse ali os cinco reais pra acabar com aquela baboseira toda, a puta a voltar pro seu serviço, ele voltar pra sua casa, possivelmente mulher, filhos e cachorro.

“Eu fiz o programa, tá aqui a prova!, estou toda gozada!, fiz o meu trabalho, agora você vai ter que pagar!”

“Me dá a minha camisa!”

“Po-lí-cia!!! Po-lí-cia!!! Eu tô sendo roubada! 'Me dá a minha camisa' que nada, eu vou é levar ela comigo, pra provar que ela tá aqui, cheia de porra, que eu fiz o meu trabalho e que você não tá me pagando”, gritava, fazendo a Lewinsky.

Ele, ainda atônito.

“Vamos para o caixa eletrônico, lá eu te pago!”

“EEEEEEEEEEEu, não entro nesse carro de novo, nem morta! (...) Você quer ir no caixa eletrônico com ele, Fulana? Se você quiser ir com ele, pode ir, porque EU não vou!”

“Peraí, vamo resolver isso direito!”

“Não quero saber, eu vou quebrar o seu carro. Pode me pagando... UM, DOIS, TRÊS!" PAF! PAF! PAF! “Tô quebrando o seu carro!, não vai me pagar não? Não quero nem saber!” PAF! PAF! PAF! — E batia o traveco contra o carro vermelho com uma vassoura, surgida SABE-SE LÁ DE ONDE!, com toda a força no carro do rapaz, que não reagia, temendo confusão pior.

Perguntava ele: “Você sabe quem eu sou? Peraí, eu não vou te dar calote! Você sabe quem eu sou?”

“EEEEu não quero saber quem você é, não quero saber se você é POLÍCIA, se você é MATADOR, se é DONO DA BOCA-DE-FUMO, EU-QUE-RO-O-MEU-DI-NHEI-RO!”. PAF!

Tudo indica que a vassoura tenha saído de trás de uma árvore. Talvez seja a arma secreta das travas, que fique ali durante o dia todo, sem que ninguém perceba, durante o movimento frenético da rua, dos carros, dos transeuntes, e que, à noite, fique ali, à espreita, à espera de um calote, de um caloteiro, de um carro vermelho e vidros para onde possa ser lançada, com toda a força, quebrando partes, arranhando outras, provocando um estrago na lataria, cobrando boquetes, e coisas e dinheiros e cinco reais.

Saiu correndo, chacoalhando a camisa do Vasco, desfilando no meio da rua, o prédio todo olhando e o casal, lá embaixo, alheio a tudo, tentando resolver seu problema, varando os minutos preciosos da madrugada, poéticos até, à luz da lua, à luz dos postes, à luz das lâmpadas da igreja ali na esquina, à luz dos bares, dos carros.

Como explicaria os danos no carro à mulher?, como se explicaria caso alguém descobrisse alguma coisa? Não podia deixar que as coisas chegassem à delegacia. Não!

Saiu atrás dela, apertando o passo, curiosamente evitando correr. E ela, lá na frente, levando a camisa, rebolando, gritando, a essa altura nem mais preocupada com cinco reais, despreocupada, feliz.

“Cadê a minha carteira, a chave do meu carro?”, gritou ele, no meio da confusão.

Ela, já virando a esquina, desaparecendo. A vassoura ali, jogada no asfalto, enquanto ambos se resolviam lá pelos hotéis baratos da cidade, o carro vermelho parado sob a árvore, os vidros ainda abertos, a rua com um ar agitado, apesar de vazia. O silêncio quebrado pelos carros distantes e pela expectativa do desfecho da história. Um minuto, dois, três, cinco, uns dez, e volta o rapaz inquieto, sem a trava, sem a camisa do Vasco, escoltado por um policial montado numa moto azul, silenciosa.

“Vamos para a delegacia, eu te acompanho, entra no seu carro. (...) Por que você foi sair com traveco, cara?”, perguntou o polícia, um tanto solidário, um tanto entediado com mais uma história da noite.

“Eu, eu não saí, rapaz”, tentou por um segundo e meio desmentir alguma coisa, desistindo logo na primeira frase, percebendo que ali não dava mais pra inventar alguma coisa, percebendo que a merda tava feita mesmo, vamos pra delegacia...

Não sobrou nenhuma trava, nenhum carro na esquina, nada, nenhum burburinho de gente. Mas só por alguns instantes mesmo, quinze minutos no máximo. Tempo pra se pensar nos perigos da noite, mas pra se pensar bem rapidinho e voltar logo pra ativa, a noite não pára, tem cliente vindo ali. Outras travas embaixo da árvore, se agachando pra fazer xixi, o dia amanhecendo e a vassoura ainda abandonada, jogada, ninguém preocupado em devolvê-la a seu lugar, quem sabe atrás de uma das árvores, quem sabe um canto, uma brecha na parede, quem sabe algum lugar, algum lugarzinho, coitada da vassoura, arma útil pra espantar caloteiros, agora ali no chão, humilhada, o cabo clássico de vassoura, sujo, das mãos suadas, da sujeira que se desprende da rua, a lata com letras azuis, as fibras na ponta perfeitas, pronta pra limpar qualquer sujeira, qualquer poeira, qualquer pedaço de lixo jogado ao chão, qualquer coisa, pronta pra ser útil...

Já faz dois dias. A vassoura atravessou a rua. Ninguém a devolveu a seu lugar. Está lá, jogada, as pontas estraçalhadas, abandonada, molhada pela lama.

Já faz dois dias. Já faz dois dias...


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