segunda-feira, 31 de março de 2008

luz do sol

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Eles se beijaram devagar, muito devagar, lentamente, extremamente devagar. Devagar, assim, como é impossível descrever. Ele interrompeu, lambeu ainda devagar os seus lábios, e lambeu sua língua e tocou seu pescoço, e sua barba. Lambeu muito lentamente, mais uma vez, o seu corpo, assim, ainda desta forma que é impossível descrever. Muito lentamente. Segurou sua cabeça com as mãos firmes e pêlos, acariciou o seu cabelo, puxando alguns fios para trás. Os fios, ainda lentamente, voltavam para suas posições, levemente penteados para frente. Olharam-se nos olhos, sentiram-se os gostos molhados, um gosto de gente, um gosto de luz e paz, que entra pela janela. E são três horas da tarde e não existe mais nada além deles dois.
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Recado

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Você quer deixar um recado, mesmo que ele não seja tão importante, mesmo que, apesar da intenção, você não consiga deixá-lo poético. Não se envergonhe, não se acanhe. Por favor, não deixe de escrever. Escreva, mesmo que esteja com pressa e as letras saiam trocadas e algumas palavras não façam sentido. E lá fora estão todos estes prédios, o céu muito negro, nublado, e as janelas dos apartamentos todas fazendo um desenho com seus andares de quadrados apagados e acesos. Um pouco de uniformidade em seus desenhos, luzes brancas, luzes amarelas, luzes piscantes azuladas das salas em que se assiste televisão. Alguns assistem ao mesmo programa de tevê, outros assistem a um filme alugado, um devedê, um ou outro adormecido com a luz da tela, um som indefinido que interfere sobre os sonhos.

Alguém ali embaixo ouve música eletrônica num walkman. Sintetizadores.
O tempo tem passado tão rapidamente, você quer dizer, você quer escrever. Você esquece, por alguns instantes, qual era a parte mais importante do recado e então se recorda que não havia parte mais importante ou crucial. Queria apenas deixar a sua marca, mostrar que um dia existiu.
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domingo, 30 de março de 2008

Agora, um edifício

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Agora, neste momento, as pessoas vivem, a Terra gira. Esta mulher tem quarenta anos, chora copiosamente sob a luminária antiga da cozinha, chora copiosamente sobre a mesa, chora sobre os papéis, chora sobre as fotos. A vida é tão injusta, chora copiosamente, e soluça. Os cabelos revoltos, o rosto quente, a pressão alta. Veias pulsam. O rosto quente. Poderia se matar agora. Seria melhor morrer.

O café está pronto. Ela vai passar para a garrafa térmica e tomarão ainda quente, com pãezinhos e queijo. Ele está na sala. Em novembro, ela engravidará.

O jovem tem dezesseis anos, um prodígio, a família diz. Acredita em participação política. "Um fim à ilusão da democracia representativa! Às ruas já!" Passou a manhã folheando livros, revistas, jornais. Jogou fora, ao meio dia, um bando de poesias tolas, que andou escrevendo, no ano passado. Leu Trotsky, leu Hannah Arendt - um artigo escrito pelo pai. Masturba-se sob a água quente do banho. A água cai sobre o pescoço. Pensa em coisas bonitas.
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Agora

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Agora, neste momento, o mundo gira. Um homem pega a mão da mulher, no meio da calçada, diz-lhe coisas, ela sorri. Tem um vestido florido, amarelo, flores vermelhas, discretas, folhas verdes. Seguram-se as mãos. Ele tem uma sacola de mercado no braço direito. Do outro lado da calçada, duas amigas conversam. Uma delas usa botas de cano longo. Estão perfumadas.

A tevê passa um comercial de cerveja com mulheres seminuas.

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terça-feira, 4 de março de 2008

PLETORA

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Isabel amargou. Pensou num verbo decadente, alguma coisa idiota para dar conta de atitudes idiotas. Abriu o portão, puxou a alça de metal com força, marcando com um barulho estridente a certa raiva que sentia deste bando de gente. Isabel morreu antes mesmo de atravessar a rua, Isabel não existe, nem mesmo o seu vestido bonito que balança de leve com o vento, nem mesmo o seu cabelo longo, e preto. “Isabel é um PERSONAGEM”, enlouqueceu o artista. Coçou a cabeça, pensou consigo, escreveu, contou a sétima linha. Ponto.

Por estes dias escreveu o autor de Isabel um pedaço de coisa, um diálogo condensando experiências, um diálogo recorrente traçado com pessoas diferentes. Um dos interlocutores é sempre ele, fixo. Falou que nunca chorava e que era recorrente o seu desprezo por um excesso de sentimentalismo, um sintoma de fraqueza que acomete este monte de gente — o mesmo povo que Isabel odeia. Lembrou que havia, sim, o sentimentalismo que elogiava... (Que tolerava. Talvez esta fosse a palavra melhor...)

Por estes dias aconteceu mais um destes diálogos recorrentes de interlocutor fixo, que reproduz as mesmas palavras. Foi um insensível. Do outro lado havia uma pletora, um amontoado de sentimentos e dor. Havia um corpo, que chorava.

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