domingo, 30 de março de 2008

Agora, um edifício

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Agora, neste momento, as pessoas vivem, a Terra gira. Esta mulher tem quarenta anos, chora copiosamente sob a luminária antiga da cozinha, chora copiosamente sobre a mesa, chora sobre os papéis, chora sobre as fotos. A vida é tão injusta, chora copiosamente, e soluça. Os cabelos revoltos, o rosto quente, a pressão alta. Veias pulsam. O rosto quente. Poderia se matar agora. Seria melhor morrer.

O café está pronto. Ela vai passar para a garrafa térmica e tomarão ainda quente, com pãezinhos e queijo. Ele está na sala. Em novembro, ela engravidará.

O jovem tem dezesseis anos, um prodígio, a família diz. Acredita em participação política. "Um fim à ilusão da democracia representativa! Às ruas já!" Passou a manhã folheando livros, revistas, jornais. Jogou fora, ao meio dia, um bando de poesias tolas, que andou escrevendo, no ano passado. Leu Trotsky, leu Hannah Arendt - um artigo escrito pelo pai. Masturba-se sob a água quente do banho. A água cai sobre o pescoço. Pensa em coisas bonitas.
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