terça-feira, 4 de março de 2008

PLETORA

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Isabel amargou. Pensou num verbo decadente, alguma coisa idiota para dar conta de atitudes idiotas. Abriu o portão, puxou a alça de metal com força, marcando com um barulho estridente a certa raiva que sentia deste bando de gente. Isabel morreu antes mesmo de atravessar a rua, Isabel não existe, nem mesmo o seu vestido bonito que balança de leve com o vento, nem mesmo o seu cabelo longo, e preto. “Isabel é um PERSONAGEM”, enlouqueceu o artista. Coçou a cabeça, pensou consigo, escreveu, contou a sétima linha. Ponto.

Por estes dias escreveu o autor de Isabel um pedaço de coisa, um diálogo condensando experiências, um diálogo recorrente traçado com pessoas diferentes. Um dos interlocutores é sempre ele, fixo. Falou que nunca chorava e que era recorrente o seu desprezo por um excesso de sentimentalismo, um sintoma de fraqueza que acomete este monte de gente — o mesmo povo que Isabel odeia. Lembrou que havia, sim, o sentimentalismo que elogiava... (Que tolerava. Talvez esta fosse a palavra melhor...)

Por estes dias aconteceu mais um destes diálogos recorrentes de interlocutor fixo, que reproduz as mesmas palavras. Foi um insensível. Do outro lado havia uma pletora, um amontoado de sentimentos e dor. Havia um corpo, que chorava.

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Um comentário:

brisson disse...

já é a segunda vez que prosuro significado de termos médicos e o google me remete a este blog!!!Caraca Jean, vc não quer fazer medicina não?hehehe!!Abraço cara!