quinta-feira, 3 de abril de 2008

Sobre amar as pessoas, atravessar ruas e arrumar gavetas

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Estava pensando hoje, enquanto atravessava a rua, sobre como o passado e as coisas da infância influenciam a nossa vida. Enquanto estava aberto o sinal para pedestres, pensei na minha professora da quarta-série, na professora da primeira série, na minha mãe e em todas as crianças de que eu nunca ouvi falar, mas sei que existem por aí afora, chorando em alguma casa miserável, rejeitando legume na cozinha iluminada e limpa de algum condomínio, algumas crianças que existem por aí, e que daqui a pouco serão adultas.

Lembrei - e sempre lembro disso - das palavras da minha mãe, de quando eu tinha uns oito, nove anos, que se repetiram várias vezes, enquanto eu consolidava as minhas amizades (por mais que elas fossem durar apenas algumas semanas, meses ou poucos anos, até que minha família se mudasse novamente de casa, de bairro, de cidade...). Palavras que, com o tempo, acho que deixaram de ser repetidas, porque a minha mãe, creio eu, então percebera que eu não precisava mais ouvi-las. Minha mãe sempre repetiu, em sua sabedoria não acadêmica, as diferenças entre o que era ser amigo, um colega ou apenas um conhecido. Ela conceituava as coisas de forma extremamente ingênua, mas dotada de uma força impressionante, que me intronizou os costumes e ponderou todo o resto de relações com as pessoas que se travaram até aqui. Dizia ela que um amigo era aquele por quem você arriscaria sua vida, aquele que poderia contar contigo a qualquer momento, aquele que você saberia o quanto gostava (muito, de verdade).

E maior rigor ainda vinha quando ela falava de amor! Porque o amor é uma coisa por demais intensa. Amor é gostar muito, muito, muito, muito, muito de alguém! Amar é gostar muito, muito, muito, muito etceteras muito de alguma pessoa! E mal sabe ela o quanto isso me complicou a vida. E me ajudou na vida, e tem um peso tão grande — que é quase diário — sobre as coisas que eu penso, as coisas que eu faço, sobre as pessoas com quem eu me relaciono e as minhas relações com elas.

É muito difícil descrever o amor, é muito difícil decidir o momento em que, na minha matemática subjetiva, eu concluo, e penso: eu amo esta pessoa, eu amo este objeto. É estranho, mas nós, pessoas, podemos amar objetos; sim, isso é muito estranho. E são pouquíssimos, foram pouquíssimos e tão poucos os momentos em que eu decidi que amava alguém (não, eu nunca amei mais os objetos que as pessoas; pelo contrário, nem sei se eu amo algum objeto...), que isso me assustou, paralelamente, em todos os momentos em que eu decidia se amava ou não. E isso ainda me assusta. Eu não sei se amo. Amar é uma utopia! É muito difícil!


Virou um tabu. Alguns amigos sabem, virou o meu tabu pessoal de repente admitir o amor por alguém, e tabu maior ainda dizer que amo! Pronunciar o meu amor! Puxa, como é difícil!, como é difícil proferir as palavras, como é difícil ousar dizer que gosta tanto, dizer que gosta muito, de maneira tão intensa, que não se sabe descrever direito o que se sente; que se sabe que se sente uma coisa muito boa, que se sabe que se quer passar o dia ao lado daquela pessoa, amada, que se sabe que faria o sofrível para vê-la bem, vê-la feliz, vê-la sorrindo. Eu não consigo dizer...

O conceito de amor da minha mãe era uma tortura, sempre foi difícil, me assustava (de verdade!). Ela dizia: "Se você ama uma pessoa, você morreria por ela!". E em relação a este amor, eu acho que fui covarde. Foi sempre tão difícil imaginar-me morrendo por alguém! Foi sempre tão difícil. E este conceito de amor, este tipo ideal da minha mãe, muitas vezes é o que corrói as minhas divagações — e não o amor um tanto banal que as pessoas andam proferindo por aí, boca pra fora; ou ainda o amor mediano dos que param apenas rapidamente para pensar no que seria este misterioso sentimento. Não. O amor conceitual que me marcou a minha vida, e que permanece é o da minha mãe. Forte filosofia de Marta! E eu acho que, antes de tudo, quando ela me dizia isto, deveria ter em mente o seu próprio amor, de mãe. E eu não duvido muito que ela morreria por um de seus filhos, como milhões de mães por aí afora... Tenho que conversar com ela sobre isso, qualquer dia. Mal ela sabe o quanto isso pauta as minhas relações, minhas divagações. E se traduzem, parcamente, aqui, nestas divagantes linhas, nestas linhas divagadoras.

Eu lembro que fui uma criança que ouvia os adultos. Curioso, porque me parecem dotadas de uma rebeldia as criancinhas de hoje! Uma rebeldia que as impele a não ouvir o que os adultos têm a dizer. Mas sou mesmo levado a crer, num segundo momento, que essa aparente rebeldia é só o reflexo de uma insanidade que povoa assustadoramente a mente de uma infinidade de adultos, que povoam estas ruas, com suas mãos que descem sem piedade sobre as cabeças de seus filhos, espancando; os gritos que doem nos ouvidos e confundem as mentes tão pequenininhas, que não entendem o porquê de tantas broncas, que não entendem o porquê de tanta, mas tanta violência. Não fica difícil imaginar mentezinhas rebeldezinhas, em resposta à violência que as insiste em fomentar.


Eu fui uma criança que ouvia os adultos! Lembro da professora da primeira série, que uma vez disse: "Sejam organizados! Sejam organizados, porque, sendo assim, dobrando as suas roupas na gaveta do quarto, e guardando sempre as mesmas peças nos mesmos lugares, organizadamente, vocês serão tão organizados que acharão uma camisa, uma cueca, mesmo se estiverem no escuro!, mesmo se faltar luz! Mesmo se faltar luz, vocês encontrarão o que procurarem!". Fui uma criança impressionável: eu me impressionava, vizualizando estas situações.

Fui uma criança razoavelmente organizada, um adolescente mais ou menos organizado. Sou um adulto pretensamente organizado, um indivíduo pretensamente disciplinado. Mas funcionou. A organização, quando foi realmente precisa, me estruturou as palavras, me estruturou as rotinas, me estruturou os caminhos e as gavetas do quarto. Hoje, eu nem tenho gavetas. Tenho outros caminhos, mas as minhas roupas continuam ali, dobradas. De vez em quando tudo isso se transforma num caos, mas a tendência deste pequeno universo é que tudo volte ao seu lugar, lembrando sempre da organização benfeitora (e mágica!) das coisas que conseguimos encontrar, mesmo quando está escuro! Nada parecido com toc, ou outra síndrome contemporânea que um monte de gente insiste em repetir que tem. Agora organização virou doença...

Acho que o resultado disso foi, hoje, uma mente um tanto matematizada, um pouco apaixonada por matrizes, por quadros esquemáticos, por linhas definidoras de projetos, por linhas de pesquisa, por traços organizadores de metas, organizações e esquemas necessários para a vida de qualquer um. Ou um “qualquer um” que eu devo, no fundo, ter em mente como sendo “eu mesmo”. Um espírito de quem se programa e precisa de linhas pra se orientar, pra enxergar uma reta, uma meta, um destino.

Linhas que atravessam as ruas.

Minha professora de quarta-série, eu tenho esta professora na mente. Creio que não tenha sido ela, mas hoje me lembrei dela. Vou deixar que sua figura sintetize, então, todas as professoras, todas as mães ou, sei lá, todas as boas vozes, de homens ou mulheres, que eu optei por ouvir até aqui; vou deixar que sintetize, na sua figura, as palavras desta outra pessoa, que uma vez me ensinou a atravessar as ruas.

Dizia esta voz: "Toda vez que for atravessar uma rua, atravesse em linha reta. Sendo assim, você não perde tempo (porque de uma calçada à outra, qualquer tracejado que não seja uma reta demandará mais tempo para que se a atravesse!) e evita que um carro te atropele. Se você quer chegar a um ponto do outro lado da rua que não está logo à sua frente, atravesse primeiro em linha reta. Quando estiver do outro lado, é só caminhar calmamente em direção a seu destino, sem perder tempo, sem risco de ser atingido por um carro, sem risco...".

São coisas que me marcam tão fortemente. Repito comigo que é o verdadeiro sentido do "introjetar", do "inculcar" sociológico...

Penso estas coisas quando atravesso a rua. Terminei meu trajeto, atravessei calmamente sobre as linhas da faixa de pedestres. Mas antes, não resisti, e ainda pensei comigo: Aquela mulher atravessou errado! Atravessou a rua na diagonal!

*dedicado à minha mãe

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5 comentários:

Pitango disse...

Em algumas passagens, tive uma súbita identificação com alguns momentos e traços da infância. Mas, sobretudo, da forma que "aprendi" o amor. Talvez não tenha sido tão forte a influência materna - essa foi maior no sentido de ser educado e respeitar as pessoas - e sim a própria experiência que me fez desacreditar nas palavras "Eu te amo" na forma como elas são proferidas usualmente, por aí. E nas poucas vezes que bateu alguma ponta de certeza em pronunciá-las, veio um engasgo e uma força a parecer que estava levantando pesos. Hoje em dia, as falo sem receios para uma única pessoa - minha mãe. E para alguns amigos que já são daqueles por quem arriscaria a vida. Aos outros, quem sabe, um dia...

Abraço,
Pitango.

http://lenfantdeboheme.blogspot.com/

°°°F disse...

Meu caro amigo.
Como eu gostei do texto.
Nossa. Já li vários textos no Epitélios (comentei algumas), mas posso dizer que este é meu favorito.

"E este conceito de amor, este tipo ideal da minha mãe, muitas vezes é o que corrói as minhas divagações — e não o amor um tanto banal que as pessoas andam proferindo por aí, boca pra fora; ou ainda o amor mediano dos que param apenas rapidamente para pensar no que seria este misterioso sentimento. Não. O amor conceitual que me marcou a minha vida, e que permanece é o da minha mãe. Forte filosofia de Marta! E eu acho que, antes de tudo, quando ela me dizia isto, deveria ter em mente o seu próprio amor, de mãe. E eu não duvido muito que ela morreria por um de seus filhos, como milhões de mães por aí afora..."

Preciso.
Adorei.

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Curiosidade:
Por acaso estava ouvindo Regina Spektor enquanto lia.
Por ordem, ouvi Fidelity (aquele sonzinho todo alegre, e logo me veio a imagem de você atravessando a rua). A propósito, a letra da música casa com o texto lindamente. =)
Depois, vieram Chimo Limo e That Time. A melodia acompanhou perfeitamente...nossa!
Mas quando fui conferir a letra na internet(pois não conhecia), vi que não segue a "fidelidade".
°°°

Anônimo disse...

Engraçado como os sentimentos são parecidos, ao ler o texto a gente se identifica lembra das própias saudades . muito legal..
quando tiver um tempinho vem conhecer meu trabalho tbm.
perversuscontus.

Heder disse...

:)

Pedro (Esteves) disse...

Ótimo, só isso a dizer. (e esse "ótimo", na escrita, equivale às balançadas de cabeça e olhares distantes/reflexivos durante uma conversa ao vivo)