segunda-feira, 23 de junho de 2008

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Acho que acordei quase saltando da cama. A essa hora do dia já não me lembro muito bem. Deixe-me tentar recordar, enquanto lembro do que aconteceu agora há pouco, enquanto digito desajeitado neste teclado, enquanto ouço a música que toca a alguns metros daqui, enquanto a água esquenta na cozinha, porque vou preparar uma daquelas comidas que ficam prontas rapidinho. Faz frio e ficar botando a mão na água nada agradável não faz bem o meu estilo. Além do mais, teria de lavar um monte de louças depois, etceteras e etceteras coisas que tomam muito do meu tempo. Não posso parar pra fazer isso.

Lembro-me. Acordei ouvindo uma música nada poética, mas que era engraçadinha e cumpria a sua função de me fazer despertar. No dia anterior tinha sido acometido por uma profunda sensação de não-consigo-fazer-nada-sério, então tudo que fiz, durante o dia, foi comer alguma coisa dentro do pão, beber um café, um chocolate quente, alguma outra coisa boa pra se mastigar, talvez um doce. Talvez. Minha memória anda péssima. Fico pensando, e isso é recorrente, sobre o meu futuro como profissional que depende da memória, basicamente, para sobreviver, e não consegue lembrar do que comeu na tarde de ontem, se comeu um pedaço de doce, se comeu salgado, amendoim, o que seja.

"Ser acometido por", "talvez", "e isso é recorrente". Três vícios de linguagem do meu próprio idioleto. Tento parar de usar estas expressões, mas limitado que insisto em ser, elas acabam voltando.

Escrevo estas linhas agora, um pouco desconcentrado. Na verdade, tenho um monte de trabalho pra fazer e enquanto não tomo meu café, fico aqui, usando as palavras, divagando coisas... algo que gosto tanto de fazer. Ouço uma música brasileira, não ligo muito para o cacófato. Hoje o dia foi legal e percebo novamente que não estou sendo muito coerente. Mas não ligo.

Engraçado que cheguei do trabalho e fui atraído por uma festa junina, todos aqueles doces dão deliciosos, todas as cores, o clima um tanto festivo, esse vento de inverno, tudo muito interessante, apesar da igreja ali, à minha frente.

E penso: vou dar uma volta por aqui, será que encontro algum garotinho católico interessante, em conflito com seus pecados, pronto pra cair nos meus braços, cair em meu peito, deitar na minha cama? Preciso mesmo de um garoto desses católicos, pronto pra se tornar um herege feliz. Venham, jovens rapazinhos de poucos pelos no rosto, deixem-me sentir seus cheiros, venham, venha, venha para os meus lençóis cor de xadrez. Vamos acordar sob esse céu de inverno, deixe-me sentir seu cheiro.

Que vermelhas estão as maçãs de amores. Ouço uma música brasileira. E agradeço os anônimos.

Hoje o dia foi um pouco tranquilo. Deu tudo certo, pela manhã, como eu planejava. Tivemos uma conversa boa, de negócios, de certa forma, decidimos coisas. Cumpri com meu compromisso. Uma reunião, que estava marcada para as onze horas. Acordei às sete e meia, levantei-me rapidamente ao som de uma música que não era poética. De madrugada fiz as contas do mês, luz, aluguel, telefone. Pela manhã, paguei minhas contas. Não lembro de ter tomado café. Sim, acho que tomei, com dois pedaços de pão, se não me engano. Foi isso. Não consegui comer tudo, joguei um pedaço da baguete francesa no lixo. Pela manhã eu não consigo muito mastigar.

Olhei-me no espelho, achei-me tão maduro, meus cabelos tão pretos, tão do tamanho que combina com minha blusa de frio. Acho que não gosto mais de raspar a cabeça, me sinto tão homem e tão menos garoto. De repente, quando olhei pro espelho, senti o tempo. E não me senti muito mal, sorri.

Meus dentes ficam cada vez mais brancos, acho isso tão engraçado. Meu cabelo está preto e combina com esta blusa. Comprei uma blusa aqui perto e ela é a minha roupa mais nova e preferida.

Hoje pela madrugada agradeci, mais uma vez, aos anônimos, que tanto me inspiram. Lembrei, mais uma vez, do meu cachorro. Sinto mais vontade de tomar um café. Ouço uma música brasileira.

Hoje, pela manhã, eu senti o tempo no espelho.
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