domingo, 24 de agosto de 2008

9:27 - 23:58

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Foram os dias mais lindos do inverno, foram os ventos e folhas mais belos, os passarinhos e os cães encolhidos, o frio, que não era tão intenso, mas obrigava a sair de casa com roupas fofas e tecidos aconchegantes. Abraços apertados e macios, quando se contraem os corpos, em meio às jaquetas, e roupas de lã, e panos, e luvas e calças.

Saiu de casa pela manhã, trazendo cinco pãezinhos de sal, um pote de manteiga e um pouco de chocolate. Não sabia bem por que o corpo resolvera acordar tão cedo naquele dia. Um sábado. Sentiu a brisa fria na pele, olhou para os vira-latas filhos da rua, simpáticos, de rabo abanando, afagou um dos filhotinhos, Branquinho, deu-lhe um pedaço de pão, que, como quem faz pirraça e apenas finge estar com fome, recusou. O mais velho logo tratou de pegar o miolo do chão, levando pra caixa de papelão, ali no cantinho da banca de jornal. Sorriu para eles, abriu o portão de casa.

As horas passam um pouco depressa nas primeiras horas do dia. Quando se deu conta do relógio na parede, já passava das onze. Levantou da cama, comeu um pouco do almoço de ontem, deixou a louça na pia, preparou um café, que tomou com um pouco de leite, enquanto lia jornal. Começou pela seção de quadrinhos, sem culpa, leu duas linhas da seção de esportes, três páginas sobre a cidade, prendeu-se à uma crítica de cinema, levantou para abrir a janela, tomou um copo d' água, subiu as escadas, fez uma ligação telefônica. Lembrou-se de que havia prometido levar uma garrafa de vinho, lembrou-se que havia esquecido de comprar. Era quase meio dia e o bazar fecharia em quinze minutos.

Desceu depressa até a garagem, aprontou-se e não demorou muito tempo para voltar, garantindo, então, que a promessa seria cumprida. Ela preferia tinto, suave, ele, tinto e seco. Como seria muito bom agradar a ambos, comprou uma garrafa para cada um. Também levaria mais chocolate, porque os três eram muito bons em acabar com qualquer caixa de doces, principalmente quando ficavam em casa, principalmente quando eram mais felizes.

Resolveu arrumar um pouco a bagunça do quarto. Escorregou no tapete do corredor e riu, imaginando que tombo feio por pouco não teria levado. Mudou a peça de lugar e riu mais uma vez sobre a cara de espanto que havia feito. Ririam bastante sobre isso logo mais, à noite. E ela falaria sobre uma vez em que viajou para uma colônia de férias e teve que voltar mais cedo pra casa, com o braço quebrado e um hematoma na perna esquerda. O outro riria dos dois, os chamaria de destrambelhados, "nunca quebrei nada, nunca fui de cair assim, como vocês, seus desastrados".

Leu ainda a primeira página da edição do dia, que trazia notícias sobre futebol, corrupção e fofocas. Cochilou ouvindo uma música dos Beatles. Não tinha muita fome, mas comeu alguns pedaços de pizza, que havia deixado no forno, durante a madrugada. Tomou mais um pouco de café e dançou na cozinha, ouvindo músicas latinas, coreografando o vento, dançando animado entre as cadeiras, batendo palmas. Chegou a escolher alguns filmes na estante, separou três na mesa da sala, que ali ficariam o resto do dia, porque era mesmo um desatento. De qualquer forma, não fariam falta. Rafael e Larissa tinham outros filmes bons pra assistir em casa. A esta hora, ainda dormiam e não ouviam o som que as crianças faziam, no meio da rua, nem a furadeira do vizinho, que reformava a sala de casa, barulhento e impertinente.

Resolveu que não tomaria banho. Às vezes gostava de sentir mesmo o gosto, o cheiro natural das pessoas. Um pouquinho de suor, a pele úmida secaria por dentro do moleton, e o seu cheiro seria confundido com os de ervas, de que estes perfumes e sabonetes e desodorantes são feitos. Escovou os dentes, calçou um tênis, vestiu um outro casaco, pegou os vinhos, os chocolates, uma revista sobre turismo, que mostraria à Larissa e ao Rafael, trancou a porta e pedalou atento às flores, às casas antigas sempre tão boas de se olhar os detalhes. O céu e o mar estavam prateados, quase como que um só. Alguns pássaros pretos manchavam bonitos as nuvens. Os jardins estavam tão coloridos.

Pedalar na contramão é mais interessante porque as pessoas vêm ao encontro de você. Principalmente quando os carros estão parados, no sinal, é possível compartilhar um pouco de cada história, de cada vida tão anônima dentro de cada um daqueles carros. O primeiro carro, um Ford, azul, onde conversa, sorridente, um casal de meia idade. Riem das brincadeiras do neto, que ainda há pouco começou a falar. Ela, professora universitária, ele, dentista. Casaram-se muito novos, vinte e cinco anos ao lado um do outro. Logo atrás, um Wolksvagen, vermelho, Felipe, vinte e cinco anos, bonito, recém-formado em economia, recém-aprovado no concurso público para a prefeitura da cidade. Dirige agora para o jogo de futebol, que religiosamente participa com os amigos, a poucos metros dali. Não pensa em nada. Absolutamente nada. Apenas espera o sinal abrir. Coça involuntariamente a cabeça, devagar, mecanicamente. Espera o sinal. O terceiro carro, outro Ford, preto, buzina para os dois à frente, meio segundo depois de o verde abrir o sinal. Passam a rua da igreja do bairro, uma padaria, um supermercado, um estacionamento e uma quadra só de comércio.

Francisco tinha o chaveiro que a Larissa havia lhe dado em seu último aniversário. Era amarelo, em forma de um patinho, um tanto ridículo, mas ele não ligava. Principalmente porque compartilhavam da mesma brincadeira. O dela era um jacaré, todo verde, e o do Rafael, um elefante. Um mais infantil que o outro. Junto com o chaveiro, ganhara também, a chave da casa. Entrou sorrateiramente, desfilando de meia pela sala. Ouviu a TV do quarto ligada, deixou as coisas em cima do sofá, caminhou em direção ao quarto. Meio dia e trinta e cinco. Larissa já estava acordada. Abriu a porta de leve, fitou-a com um sorriso contente, deu-lhe um beijo e deitou-se ao lado de Rafael, lhe abraçando pelas costas. Cochichou-lhe alguma coisa no ouvido, que o outro não compreendeu, mas retribuiu, acordando. Rafael virou-se de frente para ele, passando a mão em seu rosto, e só olhou, não dizendo nada. Larissa juntou-se aos dois, e ali ficaram deitados, e passaram o resto do dia.

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