sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Urug!

Era um palerma. Por algum motivo, resolveu botar a cara na varanda e ficar ali, como se nada estivesse acontecendo do outro lado da rua. Sua varanda dava de frente praquela uma, da construção antiga, erguida na década de 1940, um sobradinho ainda bem conservado. À sua frente, no sobrado, eram três ou quatro homens os que espancavam impiedosamente os outros que ali habitavam. Não se ouviam muitas vozes, apenas os baques dos socos e pontapés.

"Por que olha?", alguém do outro lado perguntou.
Ele, como quem se julga o dono da razão, nada respondeu, olhando soberbo para aquela situação. Não era indiferente, não compartilhava de compaixão para com os seus vizinhos da frente, que apanhavam, não tinha vontade de chamar a polícia, queria só mesmo observar aquele espetáculo.

Alguém começou a atirar os corpos lá de cima. E eles caíam pesados sobre o chão, batiam na terra, em sacos, em coisas, alguns quebravam as pernas, outros davam mais sorte, pouco se machucavam, nenhum deles morreria da queda. Na verdade, talvez um ou dois.

Alguém o puxou pela gola, acabando com sua diversão, antes mesmo que pudesse voltar para dentro de casa, antes mesmo que pudesse chamar a mulher, que já o havia alertado, chamando-o para deitar-se na cama, esquecer tudo aquilo, deixar do outro lado o problema, do qual não queria saber, denunciar, ver e etcetera.

Levou um soco absurdo na cara, logo ao lado do olho esquerdo, o que lhe deixou tonto, completamente tonto e quase em trauma, como criança de onze anos que cai no chão da praça de cabeça, rachando um pedaço, desmaiando por alguns minutos. Achou que iria, mas não desmaiou no primeiro soco, como acontece nos filmes. Seu carrasco, de braços pesados dentro da camisa branca, rasgada, fitou-lhe de perto, sorriu, debochando. Tascou-lhe outro golpe, agora no meio da cara, sobre os lábios e nariz, com a mão espalmada, num tapa - um choque de frente com uma parede.

Desta vez o sangue escorreu. E antes que suas mãos de palerma, sem reflexo, esboçassem alguma reação ao carrasco, foi jogado lá de cima, assim como os outros. E teve sorte de chegar inteiro ao chão, levantando num segundo, resolvendo correr para longe, sem mesmo limpar-se da terra, do sangue e poeira, que grudaram na roupa após o estabacar-se no solo.

Quando se recuperou, assim, o suficiente para correr, os corpos faziam um zunido, de objeto que se aproxima do chão. E quase foi atingido por um dos homens lançados, já imaginava aquela barriga, forte, coberta por tecido branco, listrado, batendo sobre sua cabeça, fazendo um estrago complet,o em ambos, hemorragias internas, costelas quebradas, uma vértebra, dois tombos, duas mortes instantâneas, aleijamentos, coisas do tipo.

Não haveria tempo para se despedir da mulher, apenas olhou de volta para a janela do quarto, e para a varanda, onde nunca devia ter aparecido naquela noite, mancou da perta direita - percebeu - e partiu em desespero para o meio das árvores, onde estaria mais seguro, longe das mãos ferozes, cretinas, inimigas, que ainda massacravam a infinidade de homens, que daquele sobrado antigo pareciam brotar. Bando de ladrões! Bando de criminosos!, bando de..., de homens que brotam do chão, ó, Deus, o porquê desses homens chineses, desses homens... irlandeses?, sabe-se lá que língua que falam, que ódio os maltrata, onde fui me meter?

Correu para os campos. Não estava cansado e jamais ousava voltar. Segurou a mão de uma criança, que o conduziu até o fim do gramado, sem trocarem uma palavra. Tirou ali o paletó, seguiu apenas de camisa e gravata, estava suado, as mangas arregaçadas, os sapatos sujos e sua mente uma bagunça. Avistou um bar, que não lhe era estranho, e resolveu entrar, pedir uma água, mesmo que não tivesse dinheiro entraria, não pediria socorro. Apenas uma água, talvez um pedaço de pão. O sangue secara sobre a pele, sentia o cheiro forte, o gosto intenso e forte de sangue. Sentia o gosto.

Abriu a porta com calma, ali dentro era mais bonito que por fora. Avistou uma, duas, três, quatro pessoas. Todas inindentificáveis. Apenas uma mulher, entre os homens. Assim como os outros, igualmente estranha, vestida de coisas metálicas. Ouviram passos e ele entrou em desespero. Sim, eram eles, e massacrariam de novo quem estivesse no caminho, principalmente você, pedaço de lixo, vamos terminar o que começamos!

Urug!, gritou o velho que acompanhava a moça. E deu-lhe um microchip, colocou-lhe na palma da mão. Ele assentiu. Rapidamente a micropeça se abriu, aumentando e aumentando, atingindo muitas vezes mais o seu tamanho original, transformando-se em uma caixa, que lhe tomou a cabeça, a envolveu completamente, justamente no momento em que os irlandeses chegavam. E, inexplicavelmente, transformou-se num foguete, agora maior que seu corpo, tomando propulsão, levando a ele, o velho e a mulher, rompendo o teto do recinto, aumentando cada vez mais e mais, voando tão rápido, sumindo no céu.

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