terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Centrífuga

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Meu nome é Jean. Há alguns meses adotei meu nome e primeiro sobrenome para ser reconhecido nas mensagens eletrônicas, nos meus escritos amadores, nos meus escritos profissionais, como jornalista. Desde a adolescência, eu sempre guardei uma certa frustração com meu nome, pelo fato de, na França, de onde ele vem, ter-se Jean como primeiro substantivo de um nome composto. Eu sempre quis me chamar Jean-Luc, assim, com hífen, sempre achei tão sonoro, tão elegante. Mas tenho me acostumado com Jean Souza. É um nome pequeno, fácil de guardar e falar, creio.

Passeando pelo latim, pelo grego e pelo hebraico, diz-se que João, de onde provém a forma francesa do meu nome, significa "Deus é misericordioso", "Deus é bondoso". Algo do tipo. Poderia ser motivo pra que eu, ateu convicto, não ficasse satisfeito, mas, enfim, gosto de Jean. Gosto bastante de ser chamado assim. Algumas pessoas me chamam je-an, assim, como se escreve, algumas jan. Algumas me chamam de apelidos carinhosos, como jão-jão, ou g-ã, com suas variadas grafias e formas de entonação, quando pronunciadas. Alguns pronunciam djin.

Quando eu era pequeno, costumava discutir - e minha mãe também brigava com as pessoas - porque me chamavam de gi-an, forma que realmente nunca me agradou e que, felizmente, nunca pegou. Talvez porque eu tenha me mudado da cidade onde passei a infância. Quando eu era pequeno, minha mãe repetia que filho dela não teria apelido. E realmente nunca tive um apelido, mas a verdade é que também não tentaram me botar algum. Tenho mesmo só esses que as pessoas próximas usam pra falar comigo. Idioleto de cada um. Atitudes que muito me agradam. Formas evidentes de afeto e apreço.

São duas e cinco da madrugada. Hoje é uma terça-feira, dia trinta de dezembro de dois mil e oito. Falta pouquíssimo pra chegarmos no próximo ano. Dois mil e nove. Dois mil e nove anos de contagem a partir da existência de Jesus Cristo, aquele, filho de Deus, o misericordioso, bondoso.

Permitam-me as seguintes observações. O ato falho, por duas vezes me fez corrigir passagens acima, no texto: em vez de misericordioso, regidia misterioso, adjetivo que, acredito, é de muito maior pertinência que o primeiro. Bem, não quero falar de deus. Segunda observação: eu teria uma segunda observação pra escrever aqui, mas acabei me perdendo no pensamento.

Enfim, são duas horas e dez minutos agora, a noite está agradável, um pouco quente, mas não insuportável, as ruas estão quase silenciosas e os barulhos que predominam ao meu redor são os de meu ventilador, das teclas que uso pra digitar estas palavras, e da minha máquina de lavar roupas, que fica na área de serviço, ao lado de meu quarto. No próximo ano, completarei vinte e cinco anos de existência, penso agora.

Acabo de gastar cerca de duas horas em uma imbricada e complicada disputa com o meu varal. Ele fica na área de serviço, estava quebrado, torto, e eu precisava compreender um pouco da sua complexa engenharia, pra poder encaixar roldanas e barbantes em lugares corretos, de forma que pudéssemos, aqui em casa, continuar a estender as roupas sem que elas ficassem, ao final do dia, uma parte molhada, uma parte seca.

Até os dezenove, vinte anos, mais ou menos, eu morei em casas. Sempre tivemos grandes varais, sempre tive quintais e até cachorros. De tempos pra cá, moro em apartamentos. Os varais são curtos, ficam em pequenas áreas de serviço, e seguem a lógica da verticalidade dos prédios (daí as roldanas, que estendem minhas roupas até muito próximo do teto). Lembro-me dos varais de arame e cordinhas coloridas de nailon, nos meus quintais. Lembro inclusive dos pedaços de bambu, que a gente colocava no centro dos fios esticados, para levantá-los ao encontro do vento. Depois que pegavam muito sol e chuva, ficavam um tanto apodrecidos, então trocávamos por outros.

Eu gosto de apartamentos. Deve ser por isso que digo casa, em vez de apartamento, quando me refiro ao lugar onde moro. Casa tem mais proximidade da idéia de lar que apartamento. Eu gosto até mesmo do meu varal, o qual agora está funcionando melhor, apesar de não estar da mesma forma que era quando eu vim para cá. Qualquer dia eu volto a mexer nele. Passei quase duas horas desatando nós complicados com a ajuda dos dentes, em pé sobre uma cadeira colocada sobre uma mesinha de metal, pois cá não temos escada, e as roldanas do varal, como disse, ficam próximas do teto.

Eu tenho vinte e quatro anos, moro no centro de uma cidade chamada Niterói, fundada há quatrocentos e trinta e cinco anos. Durante este ano eu tive relações sexuais com oito pessoas diferentes - o que não me agrada muito, pois preferiria ter feito sexo com uma pessoa só. Eu sou do tipo que pouco se apaixona e acho curioso como muitas pessoas que conheço passam por isso com tanta facilidade. Algumas dizem estarem apaixonadas a cada semana.

Acho que me apaixonei apenas duas vezes na vida. Uma, há dois anos atrás, outra, há poucos meses. Nenhuma delas correspondida. Entretanto, nada que tenha me provocado traumas.

Algumas pessoas se apaixonaram por mim, nos últimos anos, mas não foram as pessoas por quem me apaixonei. A vida é assim. E alguns, como eu, seguem tentando encontrar alguma situação onde a paixão envolva dois seres ao mesmo tempo. Ou três. Ou quatro. Eu não descarto a possibilidade de me apaixonar por mais de uma pessoa ao mesmo tempo e todos nos apaixonarmos simultanemante. Eu gostaria, mas as probabilidades não me ajudam muito. Vide o insucesso nas relações a dois.

Acho que estou me apaixonando. Cheguei à conclusão mais cedo, por volta de oito horas da noite. Seria minha terceira paixão em vinte e quatro anos de vida. Não sei se seria correspondido. Seria mágico.

Neste momento, acaba de cessar um dos sons que me acompanhavam. A máquina acaba de lavar algumas peças de roupas e algumas toalhas.

No outro apartamento em que eu morava, não havia máquina. Eu lavava as roupas a mão e costumava fazer isto por volta de quatro horas da manhã, horário em que costumo fazer coisas como lavar louça, varrer o chão, ou escrever muitas páginas sobre os assuntos mais diversos. Lembro que lavava roupas no horário em que meu vizinho costumava chegar em casa. Então, entre o vão que separava nossas varandas, a gente trocava duas ou três palavras, ele comia, bebia alguma coisa, tomava banho, escovava os dentes, e eu terminava de lavar um tênis, uma meia ou uma calça...

Um dia este vizinho veio até minha casa. Alguém pedira pra ele trocar a lâmpada, não entendi muito bem o porquê. Era uma noite quente como esta, ele chegou com cheiro de sabonete, a pele úmida, e subiu numa mesa (parecida com esta que usei agora à noite) para trocar a lâmpada.
O simples ato de olhar para ele era algo que me dava prazer. Eu me ofereci pra segurar a mesinha, dizendo ser necessário para manter o equilíbrio e, por alguns momentos, estive muito próximo de seu umbigo, de onde se ramificavam pequenos e finos pelos. Então eu quase toquei sua pele. E senti seu cheiro mais de perto.

Quando eu vim pra cá, lembro que fiquei encantado com a máquina-de-lavar! Bastava apenas jogar a roupa ali dentro, colocar o sabão em pó, o amaciante ou mesmo o alvejante em seus respectivos lugares, e apertar alguns botões, esperando, depois, as roupas sairem quase secas. Eu passava alguns minutos olhando o balé dos jatos de água, e gastava reflexões no movimento da centrífuga, que gira as roupas com imensa velocidade e as pressiona contra a parede, em forma de cilindro, fazendo com que quase toda a água seja eliminada, deixando as peças prontas pra serem penduradas no varal.



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