segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Caral

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Caral era um homem triste, que cheirava a sabonete de shopping e a cigarro barato, desses com cheiros estranhos, que dão forte dor de cabeça na gente.

Caral era um homem sujo, que usava jeans muito velho e surrado, de manchas pretas abaixo do joelho, e por vezes andava descalço, mas também tinha uma bota marrom, muito desgastada, que usava sem meias mesmo, apenas para não queimar o pé em dias muito quentes.

Ou pra entrar no shopping.

Caral era um homem que frequentava o shopping da cidade apenas para usar o sabonete do banheiro. E usar o banheiro também.

A cada semana, trocavam as cores e os perfumes dos sabonetes, que eram azuis, amarelos ou verdes. Sempre estas cores, e estas cores apenas. Amarelo cheirava a anis, verde sabor de eucalipto. E azul era um mistério elegante, talvez tivesse cheiro de coisas vindas da Índia, cheiro de coisas azuis, que sua ignorância desconhecia. Talvez flores. Talvez alguma erva selvagem que crescesse em matas perigosas, como algumas da televisão. Florestas destas onde homens se escondem, nas guerras.

Caral era um homem triste, que, entretanto, gostava do sabonete do shopping.

Muitas vezes espalhava sabão pelos braços e roupas, sem enxaguar, pra que os cheiros permanecessem nas horas em que vagasse sem rumo, embaixo do sol, ou sob alguma marquise movimentada.

Tinha cheiro de cigarros também. E se questionava, várias vezes, se sabonetes eram mesmo sabonetes, ou se eram coisas usadas para fazer detergente de lavar louças. Ou se eram coisas usadas para fazer xampus, já que xampus tinham realmente um pouco daqueles aromas.

E sentia-se satisfeito quando banhava os braços nas pias bonitas e brancas - automáticas.

Tinha cheiro de sabonete azul, na maioria das vezes. E de cigarro barato. E era um homem infeliz.

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