quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Chá / Desvio


Pelas calçadas, eu sigo. Desviando dos pombos, das pessoas que andam devagar, das gotas dos aparelhos de ar-condicionado, dos vendedores ambulantes, das pessoas que distribuem papéis, das bancas de jornal, dos espirros, dos perdigotos, das fumaças dos vendedores que fazem churrasquinho, de alguns buracos, poças d’água, dos atrasos, dos pensamentos. E de mim.

Eu desvio.

É importante ressaltar: os pombos têm papel essencial nos desvios de minhas trajetórias. Patéticas. Quando parados, escolho um dos lados, e sigo. Quando vão pra direita, eu vou pra esquerda. Quando pra esquerda, eu na direita. E, patético, sigo, quando os pombos, nojentos e pretos com peninhas que brilham esverdeadas ou azuis, caminham pela direita e, num drible, me encontram, num susto, na esquerda, quase tropeçando, tentando, nunca – eu disse: nunca – fazer o seu caminho.

Não, eu não posso dividir o mesmo espaço que um pombo. Eu não respiro perto de pombo.

Também não respiro perto de pessoas que espirram.

Também, por algumas vezes, mudo de caminho (algumas vezes de calçada), quando encontro um pombo ou uma pessoa espirrando.

Ora, vejam só: cá me encontro, colocando pessoas e pombos na mesma categoria de seres abomináveis, aos quais tenho repulsa e não ouso cruzar seus caminhos, dividir o mesmo metro quadrado e faixa preta de pedras portuguesas na calçada. (Ou qualquer outra medida que sirva de parâmetro identificatório de proximidade física com tais criaturas).

Duas considerações: 1. Defensores de animais me odeiam, porque odeio pombos; 2. Defensores de animais não me odeiam, porque pombos e pessoas, para mim, podem ser colocados na mesma categoria de “seres” – apesar de abomináveis (nesta ocasião). Uma terceira consideração: não tem ninguém dando a mínima.

*

Chá de camomila.

A camomila era adorada pelos egípcios como uma flor sagrada. É milenarmente conhecida por suas virtudes.

“O chá de camomila possui um sabor naturalmente adocicado e um perfume acolhedor. Ideal para um momento de descanso”.

É o que diz a caixinha.

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