quarta-feira, 29 de setembro de 2010

LOL [ou "Registro idiota"]

Eu adoro falar LOL, mesmo sem intenção de dizer Laughing Out Loud
Essa palavra enche a boca!

LOL

Flerte compulsivo: um conceito

Flerte compulsivo: Trata-se da prática singela e prazerosa de mergulhar em flertes ininterruptos, na praça, na praia, no ônibus, no restaurante, na internet, na livraria. Cada um com seu grau de possibilidades.

Pode ser que o flerte contínuo, com sujeitos diferentes, tenha sua base nos seguintes princípios: 1) o ineditismo de cada encontro permite a tautologia das práticas mais eficientes de cada um; 2) a tautologia pode vir a se manifestar, ainda, no discurso.

Desenvolvendo: 1) sua melhor cantada barata — entretanto, certeira — pode ser usada repetidas vezes ao longo do dia, pois será inédita para cada um dos interlocutores-flertados; 2) aquela história que você adora contar, mas as pessoas próximas já não querem mais ouvir, segue o mesmo rumo: pode contar de novo e mais uma vez, e mais uma vez, sem tirar, nem por. E olha o espaço para o trocadilho aí!

Um terceiro princípio: o prazer intrínseco ao flerte! Ah, o flerte! Os diálogos! Os elogios tangenciados, os olhares lânguidos, o passeio da língua pelos lábios, o quase toque, uma expressão jocosa aqui, um outro elogiar ali. Uma frase que se pesca e se conduz como um laço solto ao vento, tocando suave a pele, dançando, sedutor. E um passeio de preliminares verbais, que conduzem ao aproximar dos corpos, ao caminho para o passo seguinte, além-flerte. O prazer!

* * *

Outro dia, conversando com um americano, falamos sobre bossa nova. Ele disse que adorava e ouvia algumas canções. Pôs, então, pra tocar, Jabuticaba, da Bebel Gilberto, coincidentemente, uma das minhas músicas favoritas, assim como a fruta.

— E você já comeu jabuticaba?
— I have only seen it. Not tasted it. Like so many men.


quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Frase de efeito

Vou contar até dez, pra ver se acontece alguma surpresa.

domingo, 5 de setembro de 2010

Incontrolável

Imagino se alguém não me fita, neste momento, com um binóculo, a alguns metros de distância, pela janela. Veria, este voyeur, minha figura sem camisa, de calça jeans, à frente do computador, fumando cigarro Marlboro, tomando Coca-Cola quente com gosto de remédio, após uns 400 ml de capuccino comprado no shopping. À minha esquerda, um mural azul, com os seguintes pertences dispostos assimetrica e sobrepostamente: fatura de cartão de crédito; bilhete onde anoto quantias que os amigos me devem; uma foto de Sufjan Stevens e outra fatura de cartão de crédito; um flyer com programação da Orquestra Sinfônica Petrobras (que não vou assistir, mas está aí com um objetivo calculado); foto de ex-namorado, neste momento coberta pelo flyer, mas que, habitualmente, se encontra visível; um lembrete de que preciso tirar segunda via de um documento; guardanapo de uma creperia que visitei outro dia, em Copacabana (pois guardo o guardanapo de cada lugar, sempre que o visito pela primeira vez); canhotos de cheque (não lembro a compra, talvez das lentes de contato, que neste instante me incomodam um pouco); cartão de um site de fotografias, que me registrou junto de amigos outro dia no Circo Voador (era show do Mombojó e até hoje nenhum de nós copiou as fotos do site, pois eles exigem que façamos cadastro para fazer o download, e todos ficamos com preguiça); um bilhete de Mega-Sena, que devo ter usado pra aposta de mês atrás; outro canhoto de cheque; um lembrete de livro importante para concurso público; outro papel, onde anoto o telefone de uma amiga que cursou Ciência Sociais comigo na UFF (precisava do telefone dela pra pegar recomendação de diarista, para faxinas aqui no apartamento); e cinco outros papeis dobrados, com as faces escritas voltadas para dentro (provavelmente com anotações de contas ou outros compromissos que não são legais de ficarem expostos às visitas, mas que estão ali pendurados porque são importantes para que eu lembre de sua existência).

Meu pretenso voyeur avistaria, ainda, colado na porta, outro mural, este verde, com fotos minha, do Pato Fu, de Sufjan Stevens, de Niterói e com a logomarca de um projeto de música eletrônica, que criei com amigos, chamado Threesome.

Lá de longe, este meu observador não ouviria o que ouço agora. Bebel Gilberto.

***

Há alguns dias eu e um amigo estávamos saindo pelas escadarias do metrô na Cinelândia (a escada que fica exatamente em frente à Biblioteca Nacional) quando, de repente, notamos que um homem nos fotografava, de dentro de um carro preto, com uma câmera notavelmente profissional e com zoom de alta precisão. O avistamos, eu olhei o fotógrafo nos olhos, ele ainda nos fotografou mais uma vez. Estávamos tão próximos, que ouvia-se o clac da câmera nos registrando.

Antes mesmo que pudéssemos abrir a boca para, no mínimo, perguntar do que se tratava, o vidro do carro subiu e o automóvel arrancou. A mim e ao amigo nos restou apenas nos entreolharmos e nos questionarmos para onde raios iriam nossas imagens.

***

Tempo presente: contemporaneidade. La comunicación es efímera.

Twitter. Em grande parte do tempo, escrevo mensagens curtas. Muitas vezes, registro monossílabos que denotam meu estado de espírito. Pouco precisos, entretanto, carregados de sentido para mim, às vezes para outros que comigo convivem. Talvez pouco comuniquem, embora comuniquem.

A memória é uma incógnita. Meus monossílabos são chilreios que se perdem num arquivo estranho de se garimpar e incerto quanto à sua perenidade.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

baby,

quero chorar de felicidade,
chorar sem saber muito o motivo.
chorar, em noite silenciosa em Niterói,

chorar ouvindo Gal Costa, baby.

eu sou louco.
quero chorar ouvindo Gal Costa,
quero chorar e apertar os olhos,

ouvir da minha maneira míope o Mundo.

chorar, sem saber o motivo,
sorrir, chorar, sentir torpor de sono,

quero resistir às horas,
insistir na vigília da vida,
insistir na vida,

nos outros.

eu quero música!
quero chorar de alegria!

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

unexpected magic from life

Stranger: i'm chating here cause im bored. why are you?
Me: me too. waiting to be surprised
Stranger: oh yeah?
Me: maybe this
Stranger: what kind of surprise?
Me: waiting unexpected magic from life
Stranger: whats unexpected magic from life?
Me: i dont know
Me: the magic will tell me when it arrives

sábado, 28 de agosto de 2010

Verbete: Marketing Pessoal

Um pouco de pretensão também é bom.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Verão [Ou "Pequena Bossanova Mediterrânea"]

baby, go outside

feel the sun for me
let it touch your face
feel embraced

look at the sky and feel yourself kissed

'cause I'm here,
kissing you

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Amor em cada flerte

Talvez eu não admita, mas o amor está em cada flerte. Um amor potente. Um amor latente.
Talvez eu não admita, mas a cada lance em que se busca o corpo, está o amor.

Existe um movimento interno, que independe de mim. É uma busca pelo amor, inconsciente, por vezes explícita, por vezes disfarçada de luxúria, mas sobretudo, um movimento incessante, em busca de amor.

domingo, 22 de agosto de 2010

Ah, o sábado!

Eu estava prestes a dizer: "Ah, o sábado! Nada como poder deitar e tirar um cochilo às quatro horas da tarde!"

Mas só no sábado?

O que fizemos conosco, Humanidade?


sábado, 21 de agosto de 2010

Sufjan Stevens

Quero Sufjan Stevens DENTRO da minha boca,
Quero Sufjan Stevens AGORA!
Sentir seu gosto. Sua pele.

Quero Sufjan Stevens DENTRO da minha boca, AGORA!
Não vês que preciso de ti, AGORA, ó, Sufjan?

Quero minha boca preenchida,
preenchida!

Entra em minha boca, Sufjan Stevens!

Quero me sentir sufocado,
Com você dentro de mim.
Quero engolir-te.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

turismo sexual [prólogo]


rascunho preliminar: 30 dias, 10 países, 20 namorados [exagero]

esboço mais sensato: 30 dias, 5 países, 5 namoradinhos [viabilidade]

configuração: paris, barcelona, roma, istambul e atenas [capitais; adjacências]

resultados: satisfação sensorial, idiomas praticados (risos), culturas à flor da pele e, por fim, bronzeado de barco!

observação: Mar Mediterrâneo.

[continua...]

vibe


eu to na vibe sambinha hétero com calor na lapa tipo brazooka com camisa listrada e chapeuzinho na cabeça de malandro e choppzinho e clima de rio de janeiro e dança com mão na cintura coladinho e fala baixo no ouvidinho e toca o lábio da morena no pescoço e dança mais um pouquinho agarradinho e fica embriagadinho e leva pra casa e leva pra cama suadinho com cheiro de perfuminho e deita coladinho

quarta-feira, 21 de julho de 2010

20 de julho de 2010


Registro, aqui, que o dia de hoje foi patológico.

Patologia construída, pois o que é patológico aí fora, não é patológico aqui dentro.


segunda-feira, 19 de julho de 2010

Epitélios saem com bucha - parte 1


Epitélios se vão com buchas, banhos, beijos e atritos sexuais.

Inclusive masturbações.

sábado, 26 de junho de 2010

reflexão sobre o sábado, às 17:14h


acho que eu fico tão desesperado que chegou o sábado, esse dia lindo sem trabalho e que não é pré-segunda-feira, que eu fico inerte.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Semiestafa


Até quando aguentará meu corpo?
Minha mente?
Meu coração?

Pequena Reflexão Sobre os Andróides – Parte I



Comprei um andróide. Chegou hoje de manhã, numa embalagem de papelão. Pelo fato de ser um produto da categoria “tamanho-humano”, não há muito o que fazer para disfarçar. Tive de receber uma pequena van na frente do prédio, com dois funcionários da empresa fornecedora, que, muito cuidadosos, subiram com o pequeno mimo até o meu apartamento. Sim, um pequeno mimo, pois me dei de presente. Eu estava merecendo.

Quem vê assim uma caixa de quase dois metros sendo carregada pelos corredores, pensa se tratar de um pequeno armário, uma estante desmontada e encaixotada, um home theater, algum acessório eletrodoméstico, algo para a casa. Mas não! Trata-se do meu tão esperado andróide, modelo A1! Uma outra hora explico toda a nomenclatura envolvida nesses nomes. O que importa agora é registrar a chegada do andróide. Ainda não lhe dei um nome. Pensava que isso não seria problema, mas, agora, falando aqui, imagino que seria mais interessante dar-lhe um nome próprio, em vez de ficar repetindo andróide, andróide, andróide...

Uma hora o nome vem. A gente sente.

Escolhi um dos melhores: pele tenra, bronzeada, poucos pelos, uma infinidade de gibabytes de memória, com algumas das minhas vaidades preferidas arquivadas em um HD personalizado. Modelo ardente-sexual-atlético com tarefas domésticas programadas (e atualizáveis), entre elas, lavar louça e lavar banheiro – coisas que, logicamente, odeio fazer. Só não trabalha por mim, uma pena. Mas, também, se isso acontece um dia, o mundo pára.

Estou economizando em empregada. Também pudera, pelo preço que paguei, alguma coisa deveria ser mesmo suprimida do meu orçamento. Gasto aqui, compensado ali. Ok, me critiquem. Sei que, em breve, isso pode até virar um problema trabalhista grave – trabalhadores substituídos por andróides -, mas, o que posso fazer? Estava à venda, existia a minha demanda. Ele estava ali, pronto para me satisfazer! Comprei.

(Imagino agora: o mercado de profissionais do sexo estaria, também, ameaçado pela crescente demanda por andróides? Aguardemos.)

Ainda pela manhã tivemos nossa primeira “noite” de sexo. Ainda não sei se vou dormir com ele, é meio estranho dividir a cama com uma criatura não viva, mas, enfim, o sexo foi do jeito que eu esperava: intenso, na medida, do meu jeito, o tato perfeito, as palavras certas ditas nas horas certas, a voz molhada e grave certa, tudo perfeito, sem risco de doenças, sem risco de discussões após algum desentendimento. Apenas o risco de, pudera, eu me apaixonar por um robô. Que estranho, mas cheguei a cogitar a hipótese.

Explico para mim mesmo que é resultado do fascínio com a perfeição quase-humana (que contradição mais doce nessa sentença), somada à empolgação de receber e estrear um presente novinho em folha. Ou melhor, novinho em pele, em gosto, em sentidos, secreções e sensações. Um humano quase perfeito, repito.

Relação um tanto mórbida: confesso que, ouvindo sua voz e, olhando nos seus olhos, e ele, nos meus, eu podia jurar que se tratava de uma pessoa real. Logo num momento bom do sexo, fiquei abalado por alguns instantes. (E logo na primeira vez...)

Efeitos colaterais do uso do produto. Isso passa. Espero.

O que fazer se você se apaixona por seu andróide e ele não se apaixona por você?

Por mais que eu o programe – “Apaixone-se por mim”, função 20 –, não seria a mesma coisa. Eu saberia: essa coisa não está apaixonada por mim. Eu a programei para dizer que me ama, que me quer, que me precisa, que me deseja, a programei para sentir e curtir qualquer idiotice que eu diga.

Que complicado.

Andróides não têm sentimentos e por isso mesmo fiz minha aquisição – repito isso pra mim. Andróides não têm sentimentos e por isso são tão sedutores. São apenas máquinas quase-humanas de fazer sexo gostoso. E, por hora, é o que basta.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Alegria


Deveria acontecer uma coisa mágica!
Algo inesperadamente inesperado!
Como o aparecimento de um extraterrestre!
Ou uma explosão repentina no céu!

Um eclipse em pleno domingo,
Uma volta ao contrário na Terra,
Um gênio da lâmpada,
Uma fada-madrinha!

Deveria acontecer um foguete,
Um não-sei-o-quê de alegria!
Uma alegria repentina, infinita!,
Colorida, mágica!

Arco-íris, cores, palavras, bolhas-de-sabão!

Deveriam acontecer coisas,
Cachorros fofinhos,
Quadrados, balões, nuvens, algodão-doce, livros cheios de descobertas!

Mulheres grávidas de animações,
Desenhos projetados nos prédios,
Pipoca-doce, tobogãs, dias de sol, golfinhos!

Deveriam acontecer patins!
E toda ausência de poluição!
E músicas maravilhosas, e bandas marciais estupefatamente coloridas!

Líderes de torcida, pompons!, guerra-de-travesseiros,
Beijos roubados atrás da casa, jabuticabas!
Pirulitos, viagens de avião,

Café, bolo feito pela vovó mais fofa do mundo!,
Roupa nova, cheiro de chuva,
Passeio de mãos dadas, folhas, flores, ventos,
Banho de mar no início do verão!

Deveriam cair neve!, bolas de sorvete, jujubas, chocolate!

Deveria o tempo diluir-se, deixar de existir, esvair-se em sonho, no espaço, no cosmos.
Deveria o tempo parar. Tudo, pra acabar com a sua tristeza.
Tudo pra ver você mais feliz.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

14-04-2010


O mundo atropela a gente. A gente tenta prender o mundo dentro de agenda, calendário, mas é inevitável: o mundo atropela a gente. Porque o mundo é o mundo inteiro. E a gente é só a gente.

sábado, 3 de abril de 2010

Manual de Tautologia – Parte I



Às seis, o sol se levanta. Ao meio-dia, paira no meio do céu e às dezoito horas, some no oeste. Vem então a lua, que logo mais também se vai, e então volta o sol, às seis da manhã, com o dia que chega, na mesma ordem de sempre: os domingos, sucedidos pelas segundas, que dão lugar às terças, daí seguem as quartas, as quintas, as sextas, sábados e domingos, segundas, terças, quartas, quintas, sextas, sábados. Domingos.

No relógio, ponteiros tautológicos. Passam repetidas vezes pelo um, o dois, o três, etceteras. Em casa, acordamos, tomamos café, escovamos os dentes, almoçamos, escovamos os dentes, comemos lanche à tarde, escovamos os dentes, jantamos, escovamos os dentes, comemos algum doce, tomamos leite, escovamos os dentes, dormimos. Algumas pessoas não tomam leite, não fazem lanche à tarde, não almoçam, almoçam um pouco antes ou um bocado depois do meio-dia, substituem o leite por uma fruta, gelatina diet, água, biscoito de água e sal, um bombom, um chiclete, uma formiga, um pedaço de pão, um pedaço de papel, uma flor, uma folha, algodão doce. Comem coisas.

Acordar, levantar, cumprir algumas regras, pegar ônibus, ouvir chefe, produzir algumas coisas não se sabe muito bem para quê, ou para quem, ou para onde, ou com qual finalidade objetiva racional justificável - que justifique aborrecimentos, relações de poder, hierarquia, demissões, assédios, telefonemas grosseiros, intrigas, traições, chutes no traseiro, discussões em voz alta, xingamentos à mãe do outro, vestibular, faculdade, mestrado, doutorado, pós-doutorado, pós-pós-doutorado. Várias coisas que se fazem em função de não muita coisa.

Entretanto, muitas vezes, tais coisas são feitas com plena consciência. Felizes os que fazem, não? Há uma categoria de pessoas que juram fazer as coisas sabendo exatamente onde querem chegar. Por isso acordam, levam coisas na lancheira (uma fruta, um iogurte, um pão com queijo, queijo com tomate, uma paçoca; depende da mãe...). Então fazem continha de somar, continha de dividir, aula de educação artística, plantam feijãozinho no algodão dentro da caixa de fósforos, fazem lição de casa, brigam porque querem uma moto, têm a primeira namorada, o primeiro namorado, a primeira vontade de se matar, a primeira vontade de matar os outros, o primeiro emprego, vontade de trabalhar em vídeo-locadora, vontade de se masturbar o dia inteiro, a primeira bebedeira, entram numa de ganhar dinheiro, noivar, casar, separar, ficar com os filhos na segunda, na quarta e no sábado, trocar os dias no próximo semestre. Bater com o carro. Nunca bater com o carro. Quebrar uma perna. Nunca ter quebrado um dedo. Fazer poupança, comemorar réveillon de branco com a família, comemorar réveillon por décadas, todo ano, dia 31 de dezembro, às 23h59min, com contagem regressiva para meia-noite. Comemorar janeiro, festejar fevereiro. Ver águas de março, abril, maio, junho, julho, agosto... Vestir-se de caipira repetidas vezes, com direito a remendo na roupa, bandeirinha, balãozinho, casamento, fogueira, prisão, pescaria, quadrilha, olha a chuva, é mentira, olha a cobra... A cada ano, com direito a festas julinas, agostinas, às vezes setembrinas.

Então tem presente de dia das mães, de dia dos pais, de dia das crianças, comemorações de Jesus, compras de Jesus, shopping pra Jesus, ovos pra Jesus na Páscoa, presentes pra Jesus no Natal, dia do professor, dia da mulher, dia da sogra, dia do orgulho gay, dia da água, da terra, do fogo, vento, coração. Dia do planeta Terra, dia, noite, tarde, amanhecer, alvorada, tardezinha, aurora, equinócio, solstício, tempestade, furacão, terremoto, aquecimento global, fim do mundo, rompimento da camada de ozônio, El Niño, La Niña, previsão do tempo (todo dia, na TV, de manhã, de tarde e de noite).

Não interessa: num belo dia, você vai sentir medo, vai chorar, vai amar alguém, vai se sentir amado, vai gostar de se sentir desejado, vai se excitar, vai gozar, querer mais, morrer um pouquinho mais. E beijar, no fim do dia, depois de uma jornada intensa de trabalho, depois de perder a hora, chegar atrasado, levar bronca, imprimir papéis, assinar papéis, despachar papéis, enviar papéis, produzir lixo. Vai querer ir ao cinema, deslizar um pouco a mão, enfiar entre as pernas, ignorar o filme na tela.

Alguns beijos a gente prefere porque são mais inexplicáveis, têm um molhado melhor, um palpitar de coração mais rápido, um farfalhar de coisas por dentro mais emocionante, um interromper mais dramático, uma falta mais enlouquecedora, um reencontrar mais flamejante, uma segunda vez com gosto melhor ainda. E mesmo que beijados pela milésima vez, ainda fazem esquentar o corpo de um jeito, que acaba na cama, com um cigarro. Ou sem cigarro, em tempos de vida saudável. Alguns deles a gente quer pra sempre.

E então a gente come sopa de letrinha, joga vídeo-game, escreve poesia, tem um melhor amigo, um cachorro, um diário, um patins, lê Machado de Assis, fica gripado duas, três, quatro, cinco mil vezes durante a vida, reflete sobre a morte e sobre a origem do universo, o Big Bang, e discute Darwin, e combustão instantânea, e fica com raiva de Deus, da mãe, do pai, do presidente, do motorista do ônibus que não parou, e faz regime, esporte, usa roupa pra esconder barriga, o cabelo pra encobrir espinha, faz conta na ponta do lápis pra garantir a compra do mês, pagar conta de luz, água, telefone, internet, condomínio, dentista, cartão de crédito, viagem de avião, hotel, pensão. Acorda, dorme, acorda, dorme, acorda, dorme, come, toma leite antes de dormir, escova os dentes, toma café.

Tem um dia na vida em que a gente joga tudo pro alto, falta ao trabalho pra pisar na areia da praia, pra assistir porcaria na televisão, inventa morte de parente, acha que tem razão discutindo e só descobre dez anos mais tarde que os mais velhos realmente tinham razão, porque, afinal, somos nós os mais velhos e vividos agora, e sabemos que a experiência é, de fato, o que nos faz decidir as coisas de forma diferente, porque são os caminhos errados que pegamos os que sabemos que não devemos repetir. Então a gente ganha cicatrizes, se mete em enrascadas, erra algumas dúzias de vezes até descobrir que disciplina é fundamental quando se quer ser *alguém na vida*. E ri de expressões clichês. E ri dessa porra toda, e ri das repetições. Gente que fuma maconha no apartamento de baixo e ouve Novos Baianos e o caralho a quatro e se acha alternativa. E um dia já houve espermatozóide e nove meses dentro da barriga da mãe, cordão umbilical, umbigo, dor de estômago...

E reflete sobre tautologia. Coisa que todo mundo já fez e que sempre continuará fazendo. Assim como sempre se buscou entender os motivos dos homens, a alma humana, o pensamento humano, o corpo humano, a recorrência do homem, a tautologia do homem. O homem, o homem, o Homem. E briga pra fazer valer as entrelinhas, porque é na costura entre o passado, o presente e o futuro, que se encontram sorrisos, e descobertas, e revoluções. E o novo! E, enfim, o inédito! Uma perturbação, uma vibração na linha da repetição. Um corte, um interstício, uma brecha, uma ondulação...

O futuro, no fim, nos espera com a morte. E o que importa são as entrelinhas! E a gente vive. E até pensa em ser feliz, mesmo que amanhã seja tudo quase igual. E deixa passar um dia meio pessimista, em que o nascer de cada dia é visto como tautologia, em vez de renovação. Seria melhor acreditar que se trata de uma mistura das duas coisas.

* * *

Adendo número um: hoje eu me senti feliz, muito feliz, realizado. Não ainda plenamente. E mesmo feliz, ao fim do dia, eu me senti melancólico. E senti melancolia. Quase senti vontade de chorar. Senti falta de ar no peito. Senti tristeza.

* * *

Adendo número dois. E mesmo assim, sabendo que haverá dias felizes, haverá também, dias de tristeza repentina, mesmo que tudo esteja bem.


domingo, 28 de março de 2010

Chatroulette


Comprei cigarros indonésios.
Andei ouvindo canções de uma cantora da Mauritânia. Chama-se Malouma.
Meus fósforos fazem referência à lascividade do corpo feminino. Ganhei de um cara, num bar.

Noite de sábado. Fumo, ouço Malouma Mint Moktar Ould Meïddah, acendo os cigarros com os tais fósforos. Não sei onde deixei meu isqueiro azul. O laranja não acende mais, só produz faísca. Então a gente usa pra acender as bocas do fogão, porque pra isso não precisa de chama, só de uma lasquinha de fogo. Eu gostava mais do isqueiro laranja. Outra hora compro outro. Provavelmente não laranja. Vou querer um verde. Ou preto, mais sóbrio. Na verdade eu acabo comprando o que tem na hora.

Como se eu fosse tão fumante assim.

Devo fumar em média 0,5 cigarro por dia, contando a partir da data em que comecei, há uns três anos atrás. Não sei. Funciona assim: eu entro em algum período de extremo estresse e compro um maço. Carlton, Lucky Strike, Marlboro, Parliament. Basicamente estes. Já fumei outros, mas nunca me cativaram. Fumo, em noites críticas, uns sete cigarros. Até dez – acho que não passa disso. Aí acontece de eu desestressar e só comprar outro maço uns dois ou três meses depois, quando aparece outra situação um pouco demais perturbadora, fora do atrito costumeiro. Tem vez que compro um maço e uma semana depois já tenho outro. E assim vai.

Não quero dizer que sou fumante. Ora, me entendam!

* * *

Acho que gosto mais do Parliament. Pelo menos tem sido o mais recorrente. Fumo basicamente porque ouvi na letra de uma música da Regina Spektor. Já tinha visto na prateleira antes, mas nunca me interessara. Então depois de ouvir da Regina que houve um tempo em que ela só fumava Parliament, comprei. Influenciável assim.

Os filtros têm um recesso, um vácuo entre os lábios e o filtro propriamente dito. Aí a gente não sente o cigarro tão quente na boca, quando a chama está perto do fim. Frescura minha.

Agora tenho esse cigarro indonésio. Na verdade, é brasileiro mesmo. No maço diz cravo 100% indonésio. Só o cravo. Mas quem se importa se são daqui ou de lá.

Também diz que contém mais de quatro mil e setecentas substâncias tóxicas.

Caralho.

* * *

Entrei no Chatroulette.com. Uma roleta de chats. Uma grande rodada de conversas aleatórias na Internet, auxiliada por recursos tecnológicos chamados webcams. Você entra, liga ou não a sua webcam, e espera o próximo interlocutor, que pode ser qualquer pessoa. Um americano, um chinês, um argentino, um brasileiro, canadense, francês, turco, chileno, dinamarquês. Até indonésio.

Fiquei tão encantado quando usei pela primeira vez, que não consegui desconectar antes de quatro horas de acesso praticamente ininterrupto.

“De onde você é?”. “Do Brasil! Ah, que máximo! Copa da África do Sul!, estaremos lá! Rio de Janeiro? Oh, praias!, Brasil, florestas, calor! Hablas español? Quer me ver tirar a roupa? Que tal fazer sexcam?”

Em um clique, converso com três alemãs, que fazem festinha em casa com a câmera ligada para o mundo. Uma janela aberta. Uma janela um pouco mais moderna. Cada câmera, uma janela. Com a possibilidade do F9. Clica em F9, muda-se a paisagem.

Converso com uma senhora do Chile. Deve ter uns sessenta anos. Leciona História e Línguas. Conversamos sobre os terremotos no país. A família está bem, mas estão apreensivos. “Tenho também parentes aí no Brasil. Em Minas Gerais, no Espírito Santo... É a primeira vez que entro neste site. E acho que será a última também. Cuide-se!”. Besos.

Bastante masturbação masculina, pênis, peitos, penumbras, paredes, quartos, cadeiras vazias, mãos, barrigas, festas, velhos, adolescentes, nerds, revolucionários, nazistas, emos, loiras, negros, fantasiados, entediados. Vê-se de tudo.

Entro na roda e só consigo me lembrar das palavras do filósofo Michel Maffesoli: puro discurso dionisíaco, comportamento movido pelo sexo. A sexualidade em cada contato, tão breve. O contato pelo contato. Cada vez mais aleatório e veloz.

Minha janela se abre por um segundo, vejo um rosto, F9. Ligo a minha câmera, olho para o lado, alguém me vê, não o vejo, nunca saberei quem é. F9. Vejo uma figura interessante, começo a escrever-lhe mensagem, uma saudação. F9. F9. F9. F9. Estabeleço um diálogo interessante. Eu e meu novo interlocutor. Australiano? Conheceu as praias do Rio? Santa Teresa? Que legal! Da próxima vez, conheça as praias de Niterói. Conheça o outro lado da ponte! A câmera trava, o computador trava, a conexão cai.

F9.

* * *

Sou contra os fundamentalistas antitecnologia. Gosto da experiência do contato, até mesmo do contato efêmero deste universo virtual. Sinto o mundo. Vejo o mundo se comprimindo. Abre-se uma nova experiência mundana. É prazerosa, é dionisíaca sim, mas não apenas prazerosas nesse sentido. Não posso me colocar contra o prazer!

O contato está feito. Não importa a língua.

* * *

Post scriptum. A música de Malouma que eu mais gosto chama-se Tuyur El Wad. Não sei o que significa.

quinta-feira, 25 de março de 2010

As mensagens que eu tive pra dizer ao mundo hoje foram:


(15:00h) Boa tarde.
(22:00h) Café amargo.
(23:00h) Cruéis: o tempo e o corpo.
(23:15h) Desculpem, mas não estou conseguindo não ser subjetivo nos últimos tempos.
(23:50h) Dois navios.


Geometria


Formatos. Formatos limitados de amor. Tão formatados. Queremos amores em formatos infinitos? Quais as formas? Queiramos!

De quantas arestas é formado o seu amor? Quão formatado? Formatemos. Vamos além de dois? Que tal três, ou quatro? Um triângulo mais belo que uma linha levando de extremidade à outra.

Queiramos. Pintemos as formas fechadas com tintas alegres. Cores quentes, vermelhas, sedentas, sedutoras.

Um quadrado.
Um quinteto.
Um sexteto.

Uma orgia de arestas! Minha aresta na tua, na dele, na dela, um poliedro.

Que geométrica sensual!

Hahaha.

Gargalhadas.

O gozo.
O vértice.

terça-feira, 23 de março de 2010

Oz


Homem-máquina.
Homem de Lata.
Sem coração.

Overdose.
De trabalho?

segunda-feira, 22 de março de 2010

"Eu te amo"


Pra quem você disse mais "euteamos" na vida?
Paro pra me perguntar agora se "eu te amo" deve ou não ser banalizado.

A banalidade está no "eu te amo" sem muito critério. Aquele que sai da boca como uma vírgula, como um "eu gosto", como um "eu curto".

Dizer "eu te amo" várias vezes é sim, preciso. Mais do que nunca...
Em tempos de fim de mundo, então.

Tenho vinte e seis anos e até agora só disse eu te amo pra uma pessoa com quem dormi. Pois não amei mais ninguém com quem me deitei.

Disse pra tão poucas pessoas. Tão poucos amigos, família. Pra algumas nem me lembro se verbalizei.

Não me dou bem com euteamos. São tão herméticos. São tão pesados. Quando os digo são sinceros, mas ainda herméticos.

Não são fáceis.

Amar é difícil. Mais difícil, admitir que ama. Mais difícil, ainda, dizer.

Eu te amo é muito difícil.

domingo, 21 de março de 2010

Nota


[É necessário] Ser mais multimídia!

(Que horror!)

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Estatísticas

1. Escrever torna-se inversamente proporcional ao seu esforço por vencer na vida.
Digo, trabalho... Trabalho duro... Dedicação, preocupação... Coisas que não são lazer.

Que chato, não?

2. Estado crônico: estado crônico.

Nossa, que sede!

Eu tenho uma sede! Nossa, que sede!

Eu fico horas em frente ao computador, escrevendo, divagando, fazendo um monte de coisa inútil.
Aí fico com sede.

Tenho preguiça de levantar pra beber água, como se o computador fosse sair daqui. Credo, que absurdo.

Um monte de gente querendo água e eu aqui esnobando...

Sobre o problema do mal entendido

Não, eu não estou falando pra você.
Não, não houve mal entendido.
Entende?

Sobre o fato de eu querer escrever que não houve mal entendido, quando na verdade quero dizer que não há mal entendido. O que eu quero é dizer que o meu interlocutor não é você.

Estou falando de um você genérico, saca?
Você....

Você ele, você ela, você cachorro. Qualquer coisa.

Ou melhor, não qualquer coisa. Qualquer ser pensante que lê as minhas palavras.

E agora, eu estou, sim!, pensando em você! Sabe quem é você?
Você sabe!

Nossa, que saudade eu tinha de escrever!

Hoje é dia 11 de fevereiro.

Um beijo pra você, viu?
Sem sarcasmos.

Risos.

Um beijo!

Postar

A crônica no blog, o “post” como sinônimo de publicação. Não mais caneta, não mais tinta na máquina de escrever, não mais tipografia, não mais página de papel. Quem sabe um kindle, ou uma tela flexível da LG ou algum outro desenvolvedor? Uma tela flexível, quem diria? Em breve, estaremos por aí, com alguma no bolso.

Mas e a crônica? O que é a crônica? O que é a minha crônica? Quem sou eu, ou que sou eu, quem me lê, por que me lê? Quais são as minhas angústias, minhas alegrias, minhas experiências, meus relatos, minhas tentativas de escrever para o resto do mundo? (Publicar…)

Continua tudo aqui. Passam os tempos, as tecnologias, as plataformas, os processos, mas a essência é a mesma, imagino. Eu, que desejo falar pra você, que tem a paciência de me ouvir. Talvez o que eu falo lhe interesse, talvez me responda, talvez conversemos de novo… Está formada a conversa. A leitura.

Duas e cinquenta e cinco da manhã. Sinto uma mistura de fome com sono. Um pequeno torpor, visto que já é hora de dormir. Amanhã – hoje – cedo tenho que, de uma vez por todas, arrumar meu quarto, escrever uma notícia, ir pra academia e comer alguma coisa saudável. Talvez resolver conflitos mais delicados. O dia me aguarda. E você, o que faz?

Há pouco preparei uma caipirinha de kiwi. Fazia tempo que não tomava.

Um brinde a nós.