domingo, 28 de março de 2010

Chatroulette


Comprei cigarros indonésios.
Andei ouvindo canções de uma cantora da Mauritânia. Chama-se Malouma.
Meus fósforos fazem referência à lascividade do corpo feminino. Ganhei de um cara, num bar.

Noite de sábado. Fumo, ouço Malouma Mint Moktar Ould Meïddah, acendo os cigarros com os tais fósforos. Não sei onde deixei meu isqueiro azul. O laranja não acende mais, só produz faísca. Então a gente usa pra acender as bocas do fogão, porque pra isso não precisa de chama, só de uma lasquinha de fogo. Eu gostava mais do isqueiro laranja. Outra hora compro outro. Provavelmente não laranja. Vou querer um verde. Ou preto, mais sóbrio. Na verdade eu acabo comprando o que tem na hora.

Como se eu fosse tão fumante assim.

Devo fumar em média 0,5 cigarro por dia, contando a partir da data em que comecei, há uns três anos atrás. Não sei. Funciona assim: eu entro em algum período de extremo estresse e compro um maço. Carlton, Lucky Strike, Marlboro, Parliament. Basicamente estes. Já fumei outros, mas nunca me cativaram. Fumo, em noites críticas, uns sete cigarros. Até dez – acho que não passa disso. Aí acontece de eu desestressar e só comprar outro maço uns dois ou três meses depois, quando aparece outra situação um pouco demais perturbadora, fora do atrito costumeiro. Tem vez que compro um maço e uma semana depois já tenho outro. E assim vai.

Não quero dizer que sou fumante. Ora, me entendam!

* * *

Acho que gosto mais do Parliament. Pelo menos tem sido o mais recorrente. Fumo basicamente porque ouvi na letra de uma música da Regina Spektor. Já tinha visto na prateleira antes, mas nunca me interessara. Então depois de ouvir da Regina que houve um tempo em que ela só fumava Parliament, comprei. Influenciável assim.

Os filtros têm um recesso, um vácuo entre os lábios e o filtro propriamente dito. Aí a gente não sente o cigarro tão quente na boca, quando a chama está perto do fim. Frescura minha.

Agora tenho esse cigarro indonésio. Na verdade, é brasileiro mesmo. No maço diz cravo 100% indonésio. Só o cravo. Mas quem se importa se são daqui ou de lá.

Também diz que contém mais de quatro mil e setecentas substâncias tóxicas.

Caralho.

* * *

Entrei no Chatroulette.com. Uma roleta de chats. Uma grande rodada de conversas aleatórias na Internet, auxiliada por recursos tecnológicos chamados webcams. Você entra, liga ou não a sua webcam, e espera o próximo interlocutor, que pode ser qualquer pessoa. Um americano, um chinês, um argentino, um brasileiro, canadense, francês, turco, chileno, dinamarquês. Até indonésio.

Fiquei tão encantado quando usei pela primeira vez, que não consegui desconectar antes de quatro horas de acesso praticamente ininterrupto.

“De onde você é?”. “Do Brasil! Ah, que máximo! Copa da África do Sul!, estaremos lá! Rio de Janeiro? Oh, praias!, Brasil, florestas, calor! Hablas español? Quer me ver tirar a roupa? Que tal fazer sexcam?”

Em um clique, converso com três alemãs, que fazem festinha em casa com a câmera ligada para o mundo. Uma janela aberta. Uma janela um pouco mais moderna. Cada câmera, uma janela. Com a possibilidade do F9. Clica em F9, muda-se a paisagem.

Converso com uma senhora do Chile. Deve ter uns sessenta anos. Leciona História e Línguas. Conversamos sobre os terremotos no país. A família está bem, mas estão apreensivos. “Tenho também parentes aí no Brasil. Em Minas Gerais, no Espírito Santo... É a primeira vez que entro neste site. E acho que será a última também. Cuide-se!”. Besos.

Bastante masturbação masculina, pênis, peitos, penumbras, paredes, quartos, cadeiras vazias, mãos, barrigas, festas, velhos, adolescentes, nerds, revolucionários, nazistas, emos, loiras, negros, fantasiados, entediados. Vê-se de tudo.

Entro na roda e só consigo me lembrar das palavras do filósofo Michel Maffesoli: puro discurso dionisíaco, comportamento movido pelo sexo. A sexualidade em cada contato, tão breve. O contato pelo contato. Cada vez mais aleatório e veloz.

Minha janela se abre por um segundo, vejo um rosto, F9. Ligo a minha câmera, olho para o lado, alguém me vê, não o vejo, nunca saberei quem é. F9. Vejo uma figura interessante, começo a escrever-lhe mensagem, uma saudação. F9. F9. F9. F9. Estabeleço um diálogo interessante. Eu e meu novo interlocutor. Australiano? Conheceu as praias do Rio? Santa Teresa? Que legal! Da próxima vez, conheça as praias de Niterói. Conheça o outro lado da ponte! A câmera trava, o computador trava, a conexão cai.

F9.

* * *

Sou contra os fundamentalistas antitecnologia. Gosto da experiência do contato, até mesmo do contato efêmero deste universo virtual. Sinto o mundo. Vejo o mundo se comprimindo. Abre-se uma nova experiência mundana. É prazerosa, é dionisíaca sim, mas não apenas prazerosas nesse sentido. Não posso me colocar contra o prazer!

O contato está feito. Não importa a língua.

* * *

Post scriptum. A música de Malouma que eu mais gosto chama-se Tuyur El Wad. Não sei o que significa.

quinta-feira, 25 de março de 2010

As mensagens que eu tive pra dizer ao mundo hoje foram:


(15:00h) Boa tarde.
(22:00h) Café amargo.
(23:00h) Cruéis: o tempo e o corpo.
(23:15h) Desculpem, mas não estou conseguindo não ser subjetivo nos últimos tempos.
(23:50h) Dois navios.


Geometria


Formatos. Formatos limitados de amor. Tão formatados. Queremos amores em formatos infinitos? Quais as formas? Queiramos!

De quantas arestas é formado o seu amor? Quão formatado? Formatemos. Vamos além de dois? Que tal três, ou quatro? Um triângulo mais belo que uma linha levando de extremidade à outra.

Queiramos. Pintemos as formas fechadas com tintas alegres. Cores quentes, vermelhas, sedentas, sedutoras.

Um quadrado.
Um quinteto.
Um sexteto.

Uma orgia de arestas! Minha aresta na tua, na dele, na dela, um poliedro.

Que geométrica sensual!

Hahaha.

Gargalhadas.

O gozo.
O vértice.

terça-feira, 23 de março de 2010

Oz


Homem-máquina.
Homem de Lata.
Sem coração.

Overdose.
De trabalho?

segunda-feira, 22 de março de 2010

"Eu te amo"


Pra quem você disse mais "euteamos" na vida?
Paro pra me perguntar agora se "eu te amo" deve ou não ser banalizado.

A banalidade está no "eu te amo" sem muito critério. Aquele que sai da boca como uma vírgula, como um "eu gosto", como um "eu curto".

Dizer "eu te amo" várias vezes é sim, preciso. Mais do que nunca...
Em tempos de fim de mundo, então.

Tenho vinte e seis anos e até agora só disse eu te amo pra uma pessoa com quem dormi. Pois não amei mais ninguém com quem me deitei.

Disse pra tão poucas pessoas. Tão poucos amigos, família. Pra algumas nem me lembro se verbalizei.

Não me dou bem com euteamos. São tão herméticos. São tão pesados. Quando os digo são sinceros, mas ainda herméticos.

Não são fáceis.

Amar é difícil. Mais difícil, admitir que ama. Mais difícil, ainda, dizer.

Eu te amo é muito difícil.

domingo, 21 de março de 2010

Nota


[É necessário] Ser mais multimídia!

(Que horror!)