sábado, 3 de abril de 2010

Manual de Tautologia – Parte I



Às seis, o sol se levanta. Ao meio-dia, paira no meio do céu e às dezoito horas, some no oeste. Vem então a lua, que logo mais também se vai, e então volta o sol, às seis da manhã, com o dia que chega, na mesma ordem de sempre: os domingos, sucedidos pelas segundas, que dão lugar às terças, daí seguem as quartas, as quintas, as sextas, sábados e domingos, segundas, terças, quartas, quintas, sextas, sábados. Domingos.

No relógio, ponteiros tautológicos. Passam repetidas vezes pelo um, o dois, o três, etceteras. Em casa, acordamos, tomamos café, escovamos os dentes, almoçamos, escovamos os dentes, comemos lanche à tarde, escovamos os dentes, jantamos, escovamos os dentes, comemos algum doce, tomamos leite, escovamos os dentes, dormimos. Algumas pessoas não tomam leite, não fazem lanche à tarde, não almoçam, almoçam um pouco antes ou um bocado depois do meio-dia, substituem o leite por uma fruta, gelatina diet, água, biscoito de água e sal, um bombom, um chiclete, uma formiga, um pedaço de pão, um pedaço de papel, uma flor, uma folha, algodão doce. Comem coisas.

Acordar, levantar, cumprir algumas regras, pegar ônibus, ouvir chefe, produzir algumas coisas não se sabe muito bem para quê, ou para quem, ou para onde, ou com qual finalidade objetiva racional justificável - que justifique aborrecimentos, relações de poder, hierarquia, demissões, assédios, telefonemas grosseiros, intrigas, traições, chutes no traseiro, discussões em voz alta, xingamentos à mãe do outro, vestibular, faculdade, mestrado, doutorado, pós-doutorado, pós-pós-doutorado. Várias coisas que se fazem em função de não muita coisa.

Entretanto, muitas vezes, tais coisas são feitas com plena consciência. Felizes os que fazem, não? Há uma categoria de pessoas que juram fazer as coisas sabendo exatamente onde querem chegar. Por isso acordam, levam coisas na lancheira (uma fruta, um iogurte, um pão com queijo, queijo com tomate, uma paçoca; depende da mãe...). Então fazem continha de somar, continha de dividir, aula de educação artística, plantam feijãozinho no algodão dentro da caixa de fósforos, fazem lição de casa, brigam porque querem uma moto, têm a primeira namorada, o primeiro namorado, a primeira vontade de se matar, a primeira vontade de matar os outros, o primeiro emprego, vontade de trabalhar em vídeo-locadora, vontade de se masturbar o dia inteiro, a primeira bebedeira, entram numa de ganhar dinheiro, noivar, casar, separar, ficar com os filhos na segunda, na quarta e no sábado, trocar os dias no próximo semestre. Bater com o carro. Nunca bater com o carro. Quebrar uma perna. Nunca ter quebrado um dedo. Fazer poupança, comemorar réveillon de branco com a família, comemorar réveillon por décadas, todo ano, dia 31 de dezembro, às 23h59min, com contagem regressiva para meia-noite. Comemorar janeiro, festejar fevereiro. Ver águas de março, abril, maio, junho, julho, agosto... Vestir-se de caipira repetidas vezes, com direito a remendo na roupa, bandeirinha, balãozinho, casamento, fogueira, prisão, pescaria, quadrilha, olha a chuva, é mentira, olha a cobra... A cada ano, com direito a festas julinas, agostinas, às vezes setembrinas.

Então tem presente de dia das mães, de dia dos pais, de dia das crianças, comemorações de Jesus, compras de Jesus, shopping pra Jesus, ovos pra Jesus na Páscoa, presentes pra Jesus no Natal, dia do professor, dia da mulher, dia da sogra, dia do orgulho gay, dia da água, da terra, do fogo, vento, coração. Dia do planeta Terra, dia, noite, tarde, amanhecer, alvorada, tardezinha, aurora, equinócio, solstício, tempestade, furacão, terremoto, aquecimento global, fim do mundo, rompimento da camada de ozônio, El Niño, La Niña, previsão do tempo (todo dia, na TV, de manhã, de tarde e de noite).

Não interessa: num belo dia, você vai sentir medo, vai chorar, vai amar alguém, vai se sentir amado, vai gostar de se sentir desejado, vai se excitar, vai gozar, querer mais, morrer um pouquinho mais. E beijar, no fim do dia, depois de uma jornada intensa de trabalho, depois de perder a hora, chegar atrasado, levar bronca, imprimir papéis, assinar papéis, despachar papéis, enviar papéis, produzir lixo. Vai querer ir ao cinema, deslizar um pouco a mão, enfiar entre as pernas, ignorar o filme na tela.

Alguns beijos a gente prefere porque são mais inexplicáveis, têm um molhado melhor, um palpitar de coração mais rápido, um farfalhar de coisas por dentro mais emocionante, um interromper mais dramático, uma falta mais enlouquecedora, um reencontrar mais flamejante, uma segunda vez com gosto melhor ainda. E mesmo que beijados pela milésima vez, ainda fazem esquentar o corpo de um jeito, que acaba na cama, com um cigarro. Ou sem cigarro, em tempos de vida saudável. Alguns deles a gente quer pra sempre.

E então a gente come sopa de letrinha, joga vídeo-game, escreve poesia, tem um melhor amigo, um cachorro, um diário, um patins, lê Machado de Assis, fica gripado duas, três, quatro, cinco mil vezes durante a vida, reflete sobre a morte e sobre a origem do universo, o Big Bang, e discute Darwin, e combustão instantânea, e fica com raiva de Deus, da mãe, do pai, do presidente, do motorista do ônibus que não parou, e faz regime, esporte, usa roupa pra esconder barriga, o cabelo pra encobrir espinha, faz conta na ponta do lápis pra garantir a compra do mês, pagar conta de luz, água, telefone, internet, condomínio, dentista, cartão de crédito, viagem de avião, hotel, pensão. Acorda, dorme, acorda, dorme, acorda, dorme, come, toma leite antes de dormir, escova os dentes, toma café.

Tem um dia na vida em que a gente joga tudo pro alto, falta ao trabalho pra pisar na areia da praia, pra assistir porcaria na televisão, inventa morte de parente, acha que tem razão discutindo e só descobre dez anos mais tarde que os mais velhos realmente tinham razão, porque, afinal, somos nós os mais velhos e vividos agora, e sabemos que a experiência é, de fato, o que nos faz decidir as coisas de forma diferente, porque são os caminhos errados que pegamos os que sabemos que não devemos repetir. Então a gente ganha cicatrizes, se mete em enrascadas, erra algumas dúzias de vezes até descobrir que disciplina é fundamental quando se quer ser *alguém na vida*. E ri de expressões clichês. E ri dessa porra toda, e ri das repetições. Gente que fuma maconha no apartamento de baixo e ouve Novos Baianos e o caralho a quatro e se acha alternativa. E um dia já houve espermatozóide e nove meses dentro da barriga da mãe, cordão umbilical, umbigo, dor de estômago...

E reflete sobre tautologia. Coisa que todo mundo já fez e que sempre continuará fazendo. Assim como sempre se buscou entender os motivos dos homens, a alma humana, o pensamento humano, o corpo humano, a recorrência do homem, a tautologia do homem. O homem, o homem, o Homem. E briga pra fazer valer as entrelinhas, porque é na costura entre o passado, o presente e o futuro, que se encontram sorrisos, e descobertas, e revoluções. E o novo! E, enfim, o inédito! Uma perturbação, uma vibração na linha da repetição. Um corte, um interstício, uma brecha, uma ondulação...

O futuro, no fim, nos espera com a morte. E o que importa são as entrelinhas! E a gente vive. E até pensa em ser feliz, mesmo que amanhã seja tudo quase igual. E deixa passar um dia meio pessimista, em que o nascer de cada dia é visto como tautologia, em vez de renovação. Seria melhor acreditar que se trata de uma mistura das duas coisas.

* * *

Adendo número um: hoje eu me senti feliz, muito feliz, realizado. Não ainda plenamente. E mesmo feliz, ao fim do dia, eu me senti melancólico. E senti melancolia. Quase senti vontade de chorar. Senti falta de ar no peito. Senti tristeza.

* * *

Adendo número dois. E mesmo assim, sabendo que haverá dias felizes, haverá também, dias de tristeza repentina, mesmo que tudo esteja bem.


3 comentários:

Heder disse...

Que fôlego!!! Muito bom, parabéns, tô impressionado! :D

Me lembra um pouco Henry Miller, só que mais otimista.

Nine disse...

Uau! Adorei esse post. Me permite passear um pouco mais por esse seu espaço virtual?! ;)

Jean Souza disse...

Nossa, por favor! rs
Obrigado mesmo, gente.