quarta-feira, 23 de junho de 2010

Pequena Reflexão Sobre os Andróides – Parte I



Comprei um andróide. Chegou hoje de manhã, numa embalagem de papelão. Pelo fato de ser um produto da categoria “tamanho-humano”, não há muito o que fazer para disfarçar. Tive de receber uma pequena van na frente do prédio, com dois funcionários da empresa fornecedora, que, muito cuidadosos, subiram com o pequeno mimo até o meu apartamento. Sim, um pequeno mimo, pois me dei de presente. Eu estava merecendo.

Quem vê assim uma caixa de quase dois metros sendo carregada pelos corredores, pensa se tratar de um pequeno armário, uma estante desmontada e encaixotada, um home theater, algum acessório eletrodoméstico, algo para a casa. Mas não! Trata-se do meu tão esperado andróide, modelo A1! Uma outra hora explico toda a nomenclatura envolvida nesses nomes. O que importa agora é registrar a chegada do andróide. Ainda não lhe dei um nome. Pensava que isso não seria problema, mas, agora, falando aqui, imagino que seria mais interessante dar-lhe um nome próprio, em vez de ficar repetindo andróide, andróide, andróide...

Uma hora o nome vem. A gente sente.

Escolhi um dos melhores: pele tenra, bronzeada, poucos pelos, uma infinidade de gibabytes de memória, com algumas das minhas vaidades preferidas arquivadas em um HD personalizado. Modelo ardente-sexual-atlético com tarefas domésticas programadas (e atualizáveis), entre elas, lavar louça e lavar banheiro – coisas que, logicamente, odeio fazer. Só não trabalha por mim, uma pena. Mas, também, se isso acontece um dia, o mundo pára.

Estou economizando em empregada. Também pudera, pelo preço que paguei, alguma coisa deveria ser mesmo suprimida do meu orçamento. Gasto aqui, compensado ali. Ok, me critiquem. Sei que, em breve, isso pode até virar um problema trabalhista grave – trabalhadores substituídos por andróides -, mas, o que posso fazer? Estava à venda, existia a minha demanda. Ele estava ali, pronto para me satisfazer! Comprei.

(Imagino agora: o mercado de profissionais do sexo estaria, também, ameaçado pela crescente demanda por andróides? Aguardemos.)

Ainda pela manhã tivemos nossa primeira “noite” de sexo. Ainda não sei se vou dormir com ele, é meio estranho dividir a cama com uma criatura não viva, mas, enfim, o sexo foi do jeito que eu esperava: intenso, na medida, do meu jeito, o tato perfeito, as palavras certas ditas nas horas certas, a voz molhada e grave certa, tudo perfeito, sem risco de doenças, sem risco de discussões após algum desentendimento. Apenas o risco de, pudera, eu me apaixonar por um robô. Que estranho, mas cheguei a cogitar a hipótese.

Explico para mim mesmo que é resultado do fascínio com a perfeição quase-humana (que contradição mais doce nessa sentença), somada à empolgação de receber e estrear um presente novinho em folha. Ou melhor, novinho em pele, em gosto, em sentidos, secreções e sensações. Um humano quase perfeito, repito.

Relação um tanto mórbida: confesso que, ouvindo sua voz e, olhando nos seus olhos, e ele, nos meus, eu podia jurar que se tratava de uma pessoa real. Logo num momento bom do sexo, fiquei abalado por alguns instantes. (E logo na primeira vez...)

Efeitos colaterais do uso do produto. Isso passa. Espero.

O que fazer se você se apaixona por seu andróide e ele não se apaixona por você?

Por mais que eu o programe – “Apaixone-se por mim”, função 20 –, não seria a mesma coisa. Eu saberia: essa coisa não está apaixonada por mim. Eu a programei para dizer que me ama, que me quer, que me precisa, que me deseja, a programei para sentir e curtir qualquer idiotice que eu diga.

Que complicado.

Andróides não têm sentimentos e por isso mesmo fiz minha aquisição – repito isso pra mim. Andróides não têm sentimentos e por isso são tão sedutores. São apenas máquinas quase-humanas de fazer sexo gostoso. E, por hora, é o que basta.

Um comentário:

Thiago Lethi disse...

ótimo post!

quero um andróide também.
ter um amigo imaginário-real que consiga dividir as tarefas comigo deve ser algo formidável.

só isso. nada de amor. nada de sexo. apenas a companhia.