terça-feira, 23 de agosto de 2011

Crise dos 27

São quatro e meia da tarde e estou em casa numa terça-feira de agosto. Moro no 11º andar, a vista aqui é linda e apesar de não morar num dos melhores prédios da cidade (de longe, seria), acho que poderia morar aqui pra sempre. (Então paro, pergunto-me sobre o “pra sempre”, deixo-o ali na frase e aqui prossigo). Homens martelam no meu andar, o corredor está em reforma e, diferentemente de quando cheguei aqui, as paredes estão claras e sinalizam que, pelo menos no Natal, teremos um condomínio todo pintadinho e com ar de novo.

Eu moro em um dos edifícios mais tradicionais da cidade, fica no centro. Daqui eu vejo Santa Teresa, o Sambódromo, a Avenida Presidente Vargas, os morros da Tijuca, os vagões de trens e do metrô, os morros do Centro do Rio, o Cristo e o Maracanã. Cada dia a vista tem uma cor diferente, os tons do cair da noite são lindos, as tardes são amarelas, as sirenes ininterruptas, as ambulâncias, viaturas, ônibus, táxis, carros, bicicletas, caminhões, motos, aviões e pessoas, constantes. A cidade nunca para.

Outro dia um amigo me desafiou a fotografar as sete pistas, no meio da madrugada, sem carro algum. Nunca consegui. De vez em quando, às três, quatro da manhã, fico minutos observando as ruas, pra ver se esvaziam, nem que sejam por alguns segundos. Sem sucesso. Nem no domingo, quando a cidade se move mais devagar e, no final da madrugada, as pessoas já voltaram pra casa, pra acordar ao meio-dia.

Com muita freqüência, eu danço para a cidade. É lindíssimo: dançar de frente pra minha janela, gigantesca, como se a cidade pudesse sentir comigo o prazer de observá-la, de filosofar sobre ela, em plena efervescência, viva, nervosa, feliz, uma cidade com sangue nos olhos, carioca. Eu danço para a cidade, e pra ela faço minha homenagem.

Dançar para a cidade
: um conceito.

* * *

Outro dia pensei sobre como deve ser a crise dos trinta, pois que estou com vinte e sete, e quero me preparar muito pra não cair na crise dos trinta, sendo que até desconheço o que caracterizaria uma crise dos trinta, essa idade tão madura, tão robusta, sexual – momento em que, acredito, todos devemos estar no auge, pós estudos, pós agruras do primeiro emprego, das primeiras dúvidas de amor, dos primeiros tombos pós-vinte-e-poucos-anos, momento em que, enfim, é hora de sair de noite do apartamento em que se vive sozinho, decorado, estruturado, consolidado e, muah!, sair pra curtir a noite quente do Rio de Janeiro, um drink com amigos em Ipanema, um chopp e um beijo molhado na Lapa, a volta, acompanhado, na cama macia de casa, acordar junto pra tomar café com frutas, a luz do sol entrando sorrateira, enquanto se lê o jornal da manhã e se fala sobre a noite perfeita de ontem. A cabeça um pouco mais tranqüila dos trinta: sem preocupações adolescentes dos vinte-e-poucos-anos, o corpo malhado de quem já sambou bastante e hoje tem tempo pra acordar cedo, ir pra academia, chegar cedo no trabalho, produzir e levar a vida numa nice, curtindo uns DVDs quando chega de noitinha em casa, um cinema em Botafogo, passeio de bicicleta no Flamengo, um beijo apaixonado no final do expediente, uma peça de teatro, viagem a Paris em julho ou Madri em janeiro ou Turquia em dezembro.

Outro dia pensei em estar na crise dos 27, ó céus!, uma crise pré-crise-dos-trinta!, como pude embarcar nessa!, uma crise antes da crise, uma crise pra não entrar na crise! Uma culpa financeira no meio do caminho, nessa cidade de pedra, nessa selva inflacionária, que suga nosso dinheiro na sexta, suga a carteira no almoço, na pipoca ingênua da pracinha, na corridinha de táxi daqui pra Santa Teresa, na garrafinha d’água no meio da sede, na entrada pro show que a gente quer assistir na Barra. Puta que pariu, cidade turística do caralho! Vai-tomar-no-cu.

Crise dos 27. Crise dos 27 e eu aqui xingando igual criança. As bolsas caindo pelo mundo, Obama presidente negro de cor irrelevante (ainda bem), a gente no Brasil com primeira presidenta, de gênero talvez também irrelevante nessa altura do campeonato, são quatro e pouco da tarde e acaba de rolar um terremoto em Nova Iorque, a caça ao ditador da Líbia é manchete nos jornais e um regime mais rigoroso ainda é temido, uma juíza de Niterói é morta a tiros e quase uma centena de policiais são suspeitos, eu passo pela Central do Brasil e vejo uns oito moleques enrolados em cobertores na calçada, estou em casa porque o serviço público está em greve, o guarda de trânsito apita incessantemente na rua lá embaixo, começa o engarrafamento religioso da hora do rush, hoje à noite o telejornal vai transmitir uma dúzia de crises na economia, a fome que continua na África, os passes milionários dos jogadores de futebol, eu vou reclamar que não fiz metade do que queria fazer, vou pensar que devia ter dinheiro no banco suficiente pra comprar um apartamento, que devia pensar mais na Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo - como sempre me ponho a pensar, quando me penso na crise-dos-27-pré-crise-dos-trinta. Vou pensar na “ética protestante versus vida loka”. Sim, imaginem: porque é o estilo vida loka carioca, que nos impede a acumulação primitiva de capital, nesse ritmo-rio-de-janeiro de vamos pra praia vamos pro samba vamos pra night vamos beber uma coisa ali na Zona Sul e depois comer uma pizza com a galera. E vou pensar que minha vida nem é tão “loka” assim, minha gente! Eu só quero ir ao cinema na quinta-feira, me acabar em tamborzão do funk e electro-indie na sexta, comer em restaurantes modestos no intervalo do expediente, mandar um dinheiro pra casa dos pais no início do mês, fazer compras modestas de vez em quando nos shoppings da cidade e não me sentir culpado com o saldo do banco depois. Quem sabe uma viagenzinha a Cuba no final do ano? Ou Chile? Ou Portugal? Ou o Mediterrâneo? Ou pelo menos Ouro Preto, porque às vezes, aff, nem tempo a gente tem! Porque quando a gente acorda parece que o mestre de uma gincana surge na nossa frente e grita: Valendo!, e a gente sai correndo pra cumprir tarefas, e só para no fim do dia, quando a maratona acabou, e já é hora de dormir.

Eu penso que devia pensar mais na ética protestante, talvez me domesticar mais um pouco. Ou talvez me culpar menos, porque a culpa nem é minha. É culpa dessa cidade turística, de preços altos, que não deixa sobrar nem um pouquinho pra gente comprar o próprio apartamento. Que vai rindo da nossa cara, enquanto a gente diz que gosta e que não gosta dela, que ama e se contradiz, igual a certas paixões que se tem ao longo da vida. A culpa é do arrocho dos nossos dinheiros, dos nossos salários mais baixos que os de São Paulo! E desse mundo que se repete, desde que mundo globalizado é mundo globalizado. Ou melhor, desde sempre.

A culpa é da vida loka, lek. Tá ligado?

domingo, 7 de agosto de 2011

Cataclisma

Um zilhão de empurrões, um cataclisma, uma fenda anti-inércia. Um beijo, uma droga, uma saliva, um movimento. Um amor, um impacto violento.

Na minha cama.