quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Mudar o caminho

Faz umas duas semanas: ando pelas ruas e, de repente, fito umas pessoas olhando pra mim. Homens velhos, jovens, mulheres. Ontem, uma moça no metrô. Olhos de desejo os dessa moça. Um flerte, se eu tivesse correspondido. Não tenho muita ideia do que acontece. Deixei a barba crescer só um pouquinho, nos últimos dias. Andei com uma camisa rosa, que não costumo usar. Nada de tão diferente, segundo registra agora minha memória. Ah, cortei o cabelo bem baixinho. Coisas que só pessoas do meu convívio perceberiam. Então não é por nenhum desses motivos.

Ando numa felicidade sem tamanho e com um sorriso abobalhado, eu sei. Mas não é o tempo todo. Ou será que o sorriso virou movimento involuntário do meu rosto e nem percebi? Não creio. Hipótese também descartada.

Considerando que eu não mudei, permanece a intriga.

Outro dia, um grande amigo falou que meu semblante não intimida as pessoas. Praticamente uma incapacidade de impor respeito. Bela ofensa carinhosa, que só amigos nos proporcionam. Observação que me fez para pra pensar um pouco.

Outro dia, minha chefe disse que tenho cara de emoticon! Outra pessoa disse, certa vez, que tenho expressões indecifráveis.

Que cara será que ando fazendo por aí? Será que ando pela rua como quem está muito feliz, sem inspirar respeito, com ares indecifráveis, parecendo emoticons? Céus!

Mas talvez não seja isso também.

Creio que seja uma cara de quem está disposto a não criar barreiras. Uma cara que externaliza minha imensa vontade de não julgar. Como eu quero não julgar! Levar à medida extrema a prática de não julgar o alheio, entretanto, obedecendo o limite do que deve ser discutido, conflitado, repugnado. Coisas indesejáveis acontecem. Nem sempre dá pra respeitar a prática do outro, consideremos. Confrontar também é necessário.

Mas voltemos ao não julgamento, que é este o objetivo da conversa.

Acho que me intriguei com mais veemência quando, ontem, andando pelas ruas da Lapa, fitei na porta de dois bares uns tios me olhando com ares de desejo iguais aos da menina do metrô. Uns tios desses, que têm família, esposa, filhos, e passam no bar antes de voltar pra casa, no fim do dia de trabalho. Que estranho.

Quando eu tinha mais ou menos treze anos, vi na TV um desses especialistas, dizendo que era saudável mudar o caminho de volta pra casa, pra sair da rotina e estimular o cérebro, desacomodar automatismos. Na mesma época, alguém semelhante disse que, na escola, seria muito bom que não sentássemos todas as vezes nos mesmos lugares, pra ter sempre uma nova perspectiva de espaço, construir noção geográfica não condicionada, estimular a mente. Acatei as teorias e, desde então, faço as duas coisas. Até a faculdade, colocava em prática uma tentativa de entender melhor a atmosfera da sala; até hoje, experimento um caminho diferente, quando o cansaço não impede de voltar pra casa a pé.

A pluralidade de versões sobre um mesmo objeto é mesmo mágica. Aprendi isso com mergulhos antropológicos quase profundos. Levi-straussianismos, malinowskianismos, evans-pritchardianismos, foucaultianismos... Aprendi com uns relativismos maravilhosos, mas nada que tenha me iludido tanto a ponto de querer admitir que se justifiquem dores humanas em nome de “culturas”. Eu acredito em universalismos.

Em certas ocasiões, como agora, sou mesmo tão ingênuo, a ponto de querer afirmar que é esta vontade de não julgar, transformada em semblante e aura, que talvez tenha permitido ao outro me olhar, como se tivesse certeza de que eu não lhe julgaria.

Olhe-me à vontade, amigo. Me investigue. Por que você me olha? O que você pensa? Por que te atraio atenção?

Eu quero que o desejo do outro, do homem comum no bar, da mulher ou de qualquer outro, não tenha barreiras e impedimentos. Eu quero que o outro deseje aquilo que bem entender. Sem julgamentos. Eu quero que o desejo seja livre. Por favor, deseje.

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