sábado, 31 de dezembro de 2011

Declaração de amor ao meu amor, na madrugada de 31 de dezembro de 2011

Te amo tanto, que abdico de mim. Sou tu, inexisto. Existo em ti. Revivo. Sou nós.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Profusão

Bloco. Eu penso num bloco. Penso num bloco. Basta. Penso em bloco, anti-linha. Com hífen, escrevo. Penso nos advérbios, que aceitam vírgulas facultativas, penso na gramática. Anti-parágrafo, defino. Melhor que antilinha, sem hífen. Um bloco. Penso no Aleph borgiano, recorro à alegoria, toda vez que sou tomado por um excesso de pensamentos, ideias contraditórias, vivências, opiniões, desejos, palavras e tudo, finito (ou seria infinito?), impossível (ou seria possível?) de dizer, escrever, pronunciar. Metafísica a ideia dO que não se pode pronunciar. Infinito, como a ideia de deus. Impronunciável. Aleph: passado, presente, futuro, e todos os lugares, em um só lugar, ao mesmo tempo. Eu, definitivamente, não gosto do Papa. E tenho nojo de certas corjas evangélicas homofóbicas. Recanto, da Gal Costa, é quase como Björk, mas a islandesa é veterana, a brasileira, novata, nessa seara. Mesmo assim, existe Vespertine em Madre Deus - bjorkiana e, mesmo assim, tropicalista. Quarta-feira é um dos dias que escolhi pra não comer carne. Na última, comi saladas e queijos. Outro dia, o médico me passou dieta pra cuidar do estômago. E eu jurava que teria que cortar queijos, mas posso continuar. Chocolate, café, álcool, quentes, gelados, chá-preto, chicletes, balas, temperos fortes: evitar. Não desliguei a tevê. Ou será que desliguei? Penso em uma palavra francesa, que sempre uso e me provoca irritação. Não escrevo.

Ser louco, comum, agressivo e excluído. Quatro condições simultâneas de um mesmo estado: ser louco, ser comum, ser agressivo, ser excluído, repito. Barthes. Penso no queijo, sinto fome, bebi suco de manga. Passei o dia espirrando, penso se seria uma gripe. Tenho tão poucas gripes ao longo do ano e sempre acho que isso se deve ao fato de lavar as mãos direito. Tenho sempre as mãos lavadas. Isso evita muita coisa. Três médicos já me disseram pra lavar menos as mãos. Lembro que antigamente se dizia que morria de “ataque”. Antes se dizia que morria de ataque e hoje existe um leque bem gigantesco de possibilidades de ataques. De coração, inclusive. Ataque fulminante. Na quarta-feira, vi um garoto vestindo blusa de marca, na Praça da Cruz Vermelha, e pensei no bloco, pensei na profusão, pensei em músicas no caminho pela Mem de Sá, um cachorro preto deitado na praça, meninos jogando bola na praça, bola quase me pega, Hospital do Câncer. Hoje tanta gente tem câncer. Que horror, que tristeza. Vi um garoto vestindo blusa de marca, na Praça da Cruz Vermelha, e pensei no caminho, pensei no bloco, não como bloco, mas como outra coisa, como quadrado, talvez, como movimento, de paisagem, de vida, de profusão. Os queijos que estavam no forno, sobre os pães, quase queimaram, de noite, em casa. Esperei esfriar um pouco, antes de comer. As partes de baixo dos pães, torradas.

A reciprocidade é uma dádiva, no amor, reflito comigo, apaixonado. Faz cada segundo da vida valer a pena. Meu chuveiro deu pra vazar em pingos enormes, logo agora que eu consertei o vazamento da pia. Um saco. Reflexão filosófica, questão política objetiva, comentário sobre jogo de futebol, especulação sobre os juros do país, nada: é só um pensamento passageiro mesmo. Eu escrevo para quem? É só um registro da vida. Um registro do dia, um pensamento em bloco, uma parede, uma Rua Mem de Sá, uma chegada em casa, de noite, uma autoetnografia, sem hífen. Autoetnografia deve substituir terapia, penso comigo. Nunca fiz terapia. O ciúme é o perfume do amor? Três médicos já me disseram pra lavar menos as mãos. Deixa comigo, eu sei o que estou fazendo. É tudo uma profusão.