domingo, 16 de dezembro de 2012

Paráfrase

Quanto riso, quanta alegria.
Mais de mil palhaços no salão.

Queria tomar um sorvete, quase caio de costas pro chão nessa boate.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Liberdade

As árvores são livres e, mesmo assim, não crescem até o céu.

As árvores são livres?

Enraizadas, balançam no sentido do vento, mas não saem do lugar.

Liberdade é mover-se? O que é mover-se?

Quem tem liberdade? Os pássaros?

Quisera eu ter asas que me permitissem voar.

Se perguntássemos sobre liberdade, o que nos responderiam os pássaros?

O que é liberdade, quando o limite é a morte?

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Pimenta-do-reino, Filosofias

Parte 1 – Cozido sem visita

Ontem, pela primeira vez na vida, fiz cozido de carne com batatas e cenoura. Ficou uma delícia. Usei, além de pimenta-do-reino e muita cebola, um tempero comprado pelo namorado, que jazia num canto do recinto, ignorado, e finalmente teve sua utilidade em minhas mãos. Toque final.

O cheiro subia pelos furinhos da tampa da panela de pressão, tomava o apartamento provocando uma sensação que não experimento muito. Não sou do tipo que cozinha.

Se eu fosse do tipo que faz promessas, prometeria cozinhar mais no ano que vem. Não prometo.

O cozido ficou bom e sentei-me à mesa para degustar a obra-prima, a cidade ao fundo, a janela gigantesca, a cidade toda como testemunha e, de repente, uma solidão imensa.

Ninguém para provar o meu primeiro ensopado de carne com batatas e cenoura, com cebola dando tom especial e leve toque de pimenta-do-reino com participação especial de tempero desconhecido.

Que merda morar sozinho, pensei. Na verdade pensei que merda, sem completar o porquê de ser uma merda. Eu até gosto de morar sozinho. Apenas uma merda, concluí.

Alguém tinha me falado, antes do preparo, que a carne era de segunda, mas o resultado, notava-se (eu) tão bom que, aposto, ninguém pensaria nisso.

Limpei, então, a cozinha, deixando tudo um brinco, brilhando, espelhando. Dona de casa exemplar.

No dia seguinte, teria algo para comer no trabalho, preparado por mim mesmo e, visto que a quantidade era muita, teria cozido pra mais algumas refeições. Acontece, quando se mora sozinho e não se tem muita paciência pra cozinhar poucas quantidades.

Já racionalizo tanta coisa nessa vida, deixe-me errar um pouquinho a mão no preparo das refeições.

Não sou como minha irmã, que não gosta de repetir o mesmo prato na refeição seguinte.

Parte 2 – Filosofia na parede

Você entra na cozinha pra pegar um copo d’água e lá está a Filosofia, pregada na parede. Ela te interrompe todos os movimentos, por alguns instantes. A Filosofia tem esse poder. Congela, te causa inércia. Um choque.

Você entra na cozinha e vê a Filosofia no formato de mancha. Uma nódoa movente, viva, capaz de provocar sensações indescritíveis. Em algumas mulheres, pavor. Em alguns homens, coisas que às vezes não se consegue explicar.

Não sinto medo. É uma mistura de asco e aflição ridícula. Começa um cálculo de como você vai eliminá-la. Você tem que eliminá-la. Jamais com as próprias mãos, jamais.

Você dá uma volta pela casa, como quem dá uma chance pra que o inimigo desista do embate e vá embora por si só, mas não adianta, você volta e a Filosofia está lá.

Você a fulmina com os olhos e ela, imóvel, te ignora, como se a casa não fosse sua e ela, sim, tivesse o pleno direito de entrar e sair quando bem entendesse.

A raiva toma-lhe os braços e sai pela garganta. Que vontade de dar um tiro no inimigo. Que raiva.

A distância não permite acertá-la com precisão usando um chinelo.

Retiro todos os talheres e pratos limpos e espelhados de cima da pia, retiro as panelas, retiro tudo, pego uma vassoura e ataco. Ela cai, ainda viva, meto-lhe mais um golpe, e outro, e outro, e a percebo morta, afinal.

Com um pedaço de jornal (jamais com as mãos), retiro o que resta de suas escamas marrons. Volto a pensar em como me sinto ridículo.

Inicio uma assepsia meticulosa da pobre cozinha, contaminada. Canto a canto precisa ser desinfetado. Produtos químicos pesados entram em ação.
Finalmente encerro.

Por aproximadamente duas horas, penso na filosofia que uma barata gigante me provoca, toda vez que insiste em aparecer num canto da casa.

Parte 3 – Espaço-tempo

O software da minha existência clama por uma filosofia que contemple o passado, o presente e o futuro, mas tudo o que meu corpo consegue sentir e manifestar são sinais de esgotamento. Minhas pernas doem. Nenhuma posição ajuda, na hora de dormir. Esboçam-se olheiras. Minhas costas doem. As horas nos relógios, nos celulares, nos computadores, no topo dos prédios, em todos os lugares insistem em passar cada vez mais rápidas, num rastro de angústia.

Já faz um mês que não durmo sem pesadelos.

domingo, 4 de novembro de 2012

A gente passa os dias tentando preencher as nossas vidas vazias

A gente passa os dias tentando preencher as nossas vidas vazias, pensei, enquanto saía do computador, na sala, pra desligar a tevê, no quarto. Lembrei que há um bom tempo não deixava a televisão assim, falando pras paredes, como diria minha mãe, mas não me concentrei muito no problema. Pouco se assiste tevê nesse apartamento. 

Tenho usado computador demais.  Anunciei pros amigos que em dezembro compro uma bicicleta.

A gente passa os dias tentando preencher as nossas vidas vazias. Eu, por exemplo, estou há duas horas tentando completar uma folha de papel. De cento e vinte minutos tiro cinco linhas.

A gente passa os dias inteiros tentando preencher as nossas vidas vazias. Mesmo o que a gente apaga preenche alguma coisa. 

“Essa história é página virada”. Preencho meu tempo.

Apesar do clichê, nossa história é mesmo um livro que a gente mesmo escreve. E o dia de amanhã, uma página em branco, novinha, branquinha, pronta pra receber grafite, tinta de caneta, aquarela, datilografia, tinta de impressora, carvão.

A despeito da matéria-prima, é preciso tomar muito cuidado pra que as páginas em branco não virem formulários. O ser humano se acostumou a produzir formulários, em vez de páginas em branco. A gente nasce e eles já estão lá. Amanhece cada dia e eles já estão lá: horários retos, formatos prontos, poucos caminhos pra se percorrer numa tentativa de escape. Pobres entrelinhas, pobres linhas de fuga.

A verdade é que me pergunto o quanto do que resta podemos chamar de espaços possíveis.

A gente passa os dias tentando preencher as nossas vidas vazias, penso comigo, enquanto roo as unhas, olho pro lado com preguiça, vejo, à esquerda, os carros se movendo, à direita, quatro pares de sapato, jogados no chão.

Penso que a minha preguiça é apenas uma parte de um todo chamado Preguiça da Humanidade.

Imagine se num Dia D qualquer, o mundo inteiro resolve ser proativo e tenta concluir só um pouco, só um pouquinho do que anda procrastinando nos últimos tempos. Que pensamento idiota, reflito. Mas, mesmo assim, continuo: aposto que, assim, num dia, esse esforço concentrado acabaria tirando a Terra do seu próprio eixo. O planeta até desestabilizaria um pouquinho sua rotação.

A gente passa o dia tentando preencher as nossas vidas vazias, mas não faz quase nada pra mudar o que nos incomoda.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Epifania

Da primeira vez que vi tua beleza com lentes de aumento, disse repetidas vezes que você parecia um artista de cinema, te admirava, olhava profundamente em teus olhos, tua silhueta morena sob a luz pequena, que entrava pela janela.

Desenho da minha cortina sobre tua pele, vento de leve, cadente, passando pelos nossos corpos, nós dois em cima da cama macia, o tempo parado. Você tão lindo, queria ver-te numa tela de cinema.

Da segunda vez que te vi assim, com meus olhos tocando diretamente tua aura, a luz que tomava conta da sala era azul, uma luz fria e azul com tanta energia, você sem camisa, de calça jeans, teus músculos desenhados, fortes, a barriga firme, revelando teu corpo de atleta, você calado, olhando pra mim, comendo um danone.

E eu tirando fotografia tua com o telefone, dizendo que aquela era a foto mais linda que alguém já fizera de ti. Todos deviam ver aquela foto.

Da terceira vez, demorou um dia inteiro pra eu perceber que tinha vivido uma revelação. Nós dois dentro do mar, você saindo das ondas, aliviando minha angústia de ver-te perdido nas águas a cada mergulho, dizendo pra mim coisas que já nem me lembro, porque abafadas pela beleza que ia se construindo, então, conforme você caminhava pra areia.

A beleza crescente me ensurdecia, no mesmo ritmo, e tudo que eu ouvia era silêncio, enquanto teus lábios se mexiam, falavam apenas pro vento, pras águas, pro céu, pras nuvens que desciam às montanhas, voltados para a África, falando pra natureza, passando através de mim.

Teus olhos castanhos esverdeavam-se e emitiam luz, e eu, estupefato, enquanto você se despedia, dizia: "Volta!", e você voltava, mesmo que eu não conseguisse justificar que desejava sua presença por mais um segundo, pra ver tua completude novamente revelada, agora, como nunca antes, conectada às montanhas e nuvens nubladas que tocavam o chão e todas as pessoas desaparecidas. Apenas você e a imensidão.

Você dizia: "Que frio! Sinto muito frio!". E naquele instante eu pensei que quando você morresse, eu gostaria que aquela fosse a imagem que ficasse pra sempre na minha memória. O sorriso puríssimo, o corpo bronzeado, os cabelos molhados, felizes, felizes tua boca, teu corpo, teus movimentos, você saindo da água e eu, por inteiro, abraçado por tudo, os pés no mar, sob eles conchas e areia fina, eu sentindo todos os pedaços do chão, pequenos, pontiagudos, pressionando minha pele, dizendo que eu estava vivo, sentindo o mundo. O mundo, num abraço quente, você já na areia, eu sentindo o sol.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Águia


Sempre imagino a águia do Jardim Zoológico fugindo num voo louco, desorientado, vindo parar na minha janela, no décimo primeiro andar. Gigante, magistral, assustadora. Penso tanto, que às vezes, quando entra na sala uma rajada de vento, olho assustado pra janela, como quem inconscientemente conclui: a harpia chegou. Desesperado, eu procuraria me proteger embaixo da mesa, com medo das garras afiadas, o bico tenebroso, as asas iradas, o grito ensurdecedor. 

Creio que seja, no fundo, um desejo que alimento. Sublime, porque tenebroso.

Da primeira vez que a vi, imponente, balançando no alto de sua jaula, fiquei estarrecido. Sempre me lembro que ela está lá. Minha janela fica na direção de sua casa.

domingo, 21 de outubro de 2012

Conflito

Quero conhecer tuas vísceras, você diz.
Eu me desejo impassível. Quero proteger meu estômago.
Surpreendo-me com minha serenidade, saio para um passeio e, de repente, percebo que não desce aquele gole de cerveja incumbido de transparecer muita calma.

Bato fortemente um prato contra a mesa.

Procuro não sentir nada, uma cor sem movimento.
Às vezes, consigo.

domingo, 14 de outubro de 2012

questões filosóficas - parte #1

comer um cu ou tomar suco de laranja?

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Desperdício

O dia tem 24 horas, você dorme 8, sobram 16, você trabalha 8, sobram 8, você passa 2 no trânsito, sobram 6, você gasta 2 com refeiçõe, você

Príncipe,

Hoje, comendo pizza de quatro queijos, em casa, lembro-me de quando rodamos as ruas de Buenos Aires, atrás de um lugar pra comer. O taxista rodava e todos os lugares fechados. Era um feriado, frio de sete graus. Achamos um lugar com nome americano. Flórida, Kentucky, agora não me lembro. Lembro apenas que sentia felicidade. Como é bom amar alguém.

domingo, 23 de setembro de 2012

Como vencer a segunda-feira

Um dia, todos acordaram e perceberam que, depois do domingo, já era sábado. E a partir do domingo que se sucedeu, nasceu um outro sábado, e depois um outro domingo, e depois um outro sábado, levando a Humanidade a viver num looping eterno, onde só havia fins de semana. E deram adeus à segunda-feira e a todos os outros dias, que equivocadamente costumavam chamar de úteis. E, depois de um tempo, havia gerações que nunca tinham ouvido falar em segunda-feira. Um mito, um dia-tabu, amaldiçoado, que não precisava mais ser lembrado. E foram felizes para sempre.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Se meu prédio caísse


Sempre imagino meu prédio caindo. Moro no onze, justamente no meio, são mais dez andares acima. Se a queda começasse pelo último, o barulho seria terrível, precedido por um abalo intenso, o som aumentando, se aproximando, e tudo ruindo, talvez com tempo pra correr até as escadas, descer degraus, alguns andares, quem sabe chegar até o chão, são e salvo, com uma história pra contar pelo resto da vida. Um tipo Indiana Jones urbano.

Não costumo imaginar que pode ser o fim. Penso em ficar preso entre uma parede e outra, por algumas horas, talvez um dia, mas sempre tenho em mente o resgate.

Acontece no banho. Tiro a roupa, a água cai, e logo vêm os pensamentos do prédio desabando. É nesta hora que lembro do celular: o edifício inteiro não pode cair nessa situação, eu no banheiro e o telefone em outro cômodo, no quarto, na sala. Não! Pensando na comunicação é que sempre procuro deixar o aparelho carregado. Imagina se fico soterrado e ainda por cima sem bateria. Duplo pesadelo. 

Vivo, eu poderia tuitar: Estou bem! Calma! Tudo vai dar certo! E ali mesmo começaria a ler as notícias sobre meu prédio desabado, as especulações, as causas, o fato de nunca ter visto nenhuma rachadura e mesmo assim o dito cujo vir abaixo. Será que o prefeito viria? E o governador? Em tempo de eleições, seria um factóide de mão cheia pra jogar a favor do bom-mocismo. E a oposição aproveitaria pra lembrar as últimas tragédias da cidade e criticar a situação, por não ter dado atenção devida. 

Caso o resgate durasse dias, teria que desligar o telefone por alguns momentos, pra não gastar bateria e poder continuar me comunicando, aos poucos, com o resto do mundo. Daria entrevista pros colegas do Globo e do Dia e quem sabe até a Patrícia Poeta poderia fazer sua estreia em cobertura de desastres fora da bancada do Jornal Nacional por aqui. Desligar seria também um dilema, pois perderia o contato com todos, ouviria apenas silêncio e, do outro lado, especulariam minha morte.

Será que o poodle do vizinho sobreviveria? E os vizinhos? Não poderia morrer, sem saber quem são as pessoas que moram no andar de cima e fazem barulho a noite inteira, durante a semana. Que tragédia!

Como o primeiro tuíte após o desabamento seria de desespero, faria uma declaração de amor pra minha mãe, pro meu pai, pra minha irmã, pro meu namorado e pros meus amigos. E lembraria que apesar de difícil, os últimos anos foram de muitas alegrias, muitas cores, sabores, bons fins de semana, festas, risadas. E até morreria feliz.

Pensando melhor: não. Quem sente felicidade, na solidão extrema da morte? Não tenho esse espírito elevado.

Além disso, não seria justo acabar tudo sem conhecer a Turquia e o Mediterrâneo, sem ter feito um bom tour pelas maravilhas gastronômicas do planeta. 

Morreria revoltadíssimo. 

Morte é a última opção dos meus devaneios. Sobreviveria. Meu prédio cairia de noite, verticalmente, como numa implosão. Isso poderia me deixar pelo resto da existência com pavor de edifícios, grandes construções, elevadores. Mas esse negócio de trauma nunca foi minha praia, sou mais das paranoias. 



terça-feira, 21 de agosto de 2012

entendimento

Eu digo banana,
você diz: foguete.

Eu digo gilete,
você diz: passarinho.

Eu digo Pindamonhangaba,
você diz: parede.

Eu digo: Quero viajar pra Roma nas férias, esquecer da vida, voltar nunca mais.
Você diz: Quero bolo de fubá. O que você disse mesmo?

Eu digo: Eu te amo.
Você diz: me abraça.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Balada da Mega-Sena

Pode ser que você nunca ganhe na Mega-Sena
Pode ser que você ganhe na Mega-Sena amanhã
Pode ser que seu vizinho ganhe na Mega-Sena
Pode ser que sua ex-mulher ganhe na Mega-Sena e você morra de raiva o resto da vida

Pode ser que seu filho ganhe na Mega-Sena e te compre uma fazenda
Pode ser que um amigo ganhe na Mega-Sena e te compre um carro
Pode ser que você ganhe na Mega-Sena e ajude todos os seus amigos e compre uma casa em Salvador e passe o resto da vida viajando, mas prefira temporadas mais longas em Paris e conheça uma linda mulher na Itália, mas não se case com ela, porque talvez se acostume com laços mais frouxos nas relações e, de vez em quando, volte para visitá-la; e, um dia, quando regressar, ela estará com filhos, e marido, e feliz, e mesmo o seu dinheiro não será suficiente para despertar-lhe interesse, porque não é de dinheiro que vivem as pessoas, elas sobrevivem de dinheiro, mas vivem de afeto, que pode ser um grande amor, mas também o mais simples dos afectos, quando, por exemplo, simpatizamos com um garçom no restaurante e nos cativamos, e preferimos voltar lá um pouco mais de vezes, e criamos uma cadeira cativa; ou então quando ajudamos alguém na rua, porque nos solidarizamos com um lapso de história, um lapso de vida, um lapso de narrativa.

Pode ser que você ganhe na Mega-Sena da Virada, aquela no último dia do ano, que sorteia um prêmio maior que todos os outros sorteios, e você ache graça de todos os jogos que fez durante doze meses, sem sucesso algum, e beije o bilhete que custou apenas dois reais, e guarde segredo até o dia cinco de janeiro, quando não mais aguentará tamanha felicidade e contará pra um amigo, pedindo que ele não conte a ninguém, mas ele contará pra esposa, que contará pra uma amiga, que contará pro marido, que contará pra um amigo, que contará pra esposa, que contará pra uma amiga, que contará pro marido, que contará pra alguém que te conhece e saberá porque você sumiu.

E você não voltará pro trabalho.

terça-feira, 10 de julho de 2012

condicionamento

é café depois do almoço.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

realpolitik-ficção

A imagem que me vem à mente é a de uma barreira, que separa o supra do infra - uma parede na vertical, sólida, não-permeável, que funciona da seguinte forma: na parte de cima, onde se estruturam as principais rotinas de poder, as ordens do dia, os diários oficiais e, principalmente, as páginas dos jornais, estão os políticos (o que são políticos?), cuja atividade básica consiste em: a) garantir poder-protagonismo-partidário-supostamente-gestor; b) negociar poder-protagonismo-partidário-supostamente-gestor; c) garantir poder econômico-indivduo-grupo; d) negociar poder econômico-indivíduo-grupo; e) deliberar em nome de tráficos, adjetivados já tradicionalmente de influência; f) criar, votar, vetar, nomear, adiar, sancionar, despachar, discursar, anunciar, legislar e, em última instância, governar, única e exclusivamente em nome do que tradicionalmente se consolidou e se configurou como partido político.

Abaixo, e desvinculada desta, está o que sintetica e tradicionalmente se convencionou chamar de bem comum.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Sobre quando passamos a dormir cedo na sexta-feira e deixamos a comida queimar porque adormecemos de cansaço

Sobre quando passamos a dormir cedo na sexta-feira e deixamos a comida queimar, porque adormecemos de cansaço e não suportamos nossa própria embriaguez, que há bem pouco tempo relevaríamos, e seguiríamos pra balada. Teríamos pique pra duas sem sair de cima. Os tempos mudam. Nos últimos finais de semana, passei as noites em casa, na cama, assistindo filme dublado na tevê.

Ainda nem chegamos aos trinta e, recorrentemente, nos torna um cansaço repentino. Imagine quando tivermos quarenta. Vamos tentar dormir oito horas por dia, antes que venham as rugas, antes que tudo caia e nem tenhamos tempo de aproveitar nossas futuras rendas acumuladas, com o prazer dos corpos firmes, as caras firmes, a mente sã. Usemos filtro solar todos os dias, pela manhã. As luzes de escritório também fazem mal. E as telas de computador? De dez em dez minutos olhe para longe da tela. A cada quarenta minutos, levante da cadeira, flexione os membros, faça alongamentos, ajeite a coluna. Ou seriam cinqüenta minutos? Minha memória fraqueja.

Exercite os dedos. Faça pequenos alongamentos e evite lesões por esforço repetitivo.

*         *         *

Tenho acordado com pesadelos horríveis. Aviões caindo, assassinatos, fugas, questões intermináveis de trabalho, jornadas inteiras de problemas, computadores, telefonemas, chefes.

Quando se mora sozinho, o ruim de acordar no meio da noite é não ter ninguém ao lado. Sem abraço, sem afago, sem alguém pra buscar um copo d'água. Nunca queira ter REMs.

Ser cético não impede de acordar com a impressão de pessoas à espreita, entre as paredes, atrás da porta, ao lado da cama, entre os móveis. No momento seguinte a nos levantarmos da cama, existe um estado de semivigília assustador.

Uma volta pelo apartamento. Alguns passos até a cozinha, uma olhada pela janela, ida ao banheiro, volta até o quarto, olhar pela janela da área de serviço. Observar os carros.

Sempre imagino a cidade pegando fogo. Vocês não?

*         *         *

Hoje, busca-se uma profusão nebulosa de coisas, que preza pelo excesso de consumo, de barulhos, de carros, de comida, de lixo, de pessoas, de afrontas.

A conversa de bar mais sofisticada que tive recentemente tratava da Marcha das Vadias, sobre como machismo ainda impera nas pequenas práticas e nas extremas, quando o homem justifica estupro culpando a vítima, sensual demais, criminosa na sua provocação. Discutimos a legitimidade dos peitos de fora no meio da avenida e discordamos. “Peitos não são necessários em uma marcha”. “Sim, são: ainda não podemos topless em plena Copacabana”. Viva o peito de fora!

Busca-se uma profusão nebulosa de relações, numa Woodstock urbana, dissipada e forçada, desapegada, de excessos, sem amor, sem apreço.

“Elegante mesmo é a relação monogâmica”.

*         *         *

Estilo literário: Notas Para O Futuro Próximo - também conhecidas como "Registros Breves e Esquizofrênicos Para Memórias Afetadas Pela Cultura do Efêmero Ou Cultura De Lapsos Demasiadamente Extensos Entre Sinapses Degradadas Por Cotidianos Massacrantes, Capitalistas Ao Extremo, Subjugadores de Subjetividades Presas Em Horas Determinadas Pela Temporalidade Centrada Na Alegoria Chamada Expediente".

Pós-anti-afeto

É tempo de muito desapego. Apegue-se.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Natural

Duas coisas em que penso todo dia: sexo e ganhar na Mega Sena.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Presença

Fui ao mercado usando seus sapatos.

Biscoito da sorte [ou Desculpa pra ver horóscopo]

Em princípio, e por princípio, eu não gosto de horóscopos. Acreditar que os astros regem nossas vidas, assim, de cara, é uma forma muito chocante de assumir falta de autonomia – coisa pavorosa, a meu ver. Mas atire a primeira pedra quem nunca deu uma olhadinha no horóscopo do jornal e soltou uma interjeição do tipo “caramba! é exatamente isso!”. Aí, no outro dia, a gente olha de novo “só de bobeira, só pra checar, tô zoando”, e vê um conselho nada a ver. Mas ora, quem é você pra falar que eu preciso de mais auto-estima? Que loucura! Tô ótimo! Que charlatanice! E, no dia seguinte, olha de novo e solta um risinho concordando com tudo, só que na outra manhã, percebe que o conselho de quarta-feira pra Aquário é praticamente o mesmo pra Leão, na segunda.

E vai assim, brincando de acaso, de ouvir conselhos em cinco linhas, se divertindo, no que é, afinal, um exercício bastante saudável de refletir sobre os nossos rumos, os nossos desafios, nossos desejos - uma espécie de conselho de amigo, só que envolvido numa aura transcendente, que é muito mais legal que conselho de gente.

Gosto de ver horóscopo como biscoito da sorte, ou realejo, oráculo da vida moderna: algumas mensagens simples às vezes mudam o curso de tudo.

domingo, 6 de maio de 2012

Dança

Fio de tevê a cabo desce do último até o primeiro andar do meu prédio.

Eu moro no onze.

Fio branco, balança em frente à janela da minha sala e eu, estranhamente, acho bonito.

Dança.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Janela

Cidade, janela, carros, prédios, grandes testemunhas de confissões mudas, que reservo para mim. Não verbalizo, não vocalizo, não externalizo. Penso, em silêncio.

A solidão do pensamento para si contém as maiores angústias que um homem pode ter.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Liberdade também pode significar egoísmo extremo.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Poeminha

Hoje, cuida de mim,
Amanhã, eu de você,
Eu falo, você ouve,
Você fala eu fujo.

Você fala eu escuto,
Grito. Me larga!

Você é eu.
Eu é você.

Não gosto de poesia, mas gosto de poetas.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Águia. Pré-carnaval

Sobre o lençol branco da cama macia, penso sobre a idade, sobre os carros que passam lá fora, cidade grande, que não para. O barulho dos motores é música de fundo. Vida é roteiro.

Disse-me, pela manhã: “É importante forrar a cama, porque essa parte da cidade traz muita poeira pra dentro de casa. Assim você preserva o lençol sem nenhuma poluição, para dormir, de noite”. Convenci-me.

A chuva, aqui de cima, é linda. Olho pela janela, é pré-carnaval. Preservem-se os diários. Isto é um diário. Leia meu diário. Eu vivo.

Tem coisas no amor, que é melhor guardar para si. Há coisas no amor, que é melhor guardar para dois. Tem coisas, que é melhor guardar.

De vez em quando, dá vontade de gritar pela janela, tamanha felicidade. Águia!

O empurrão é a alma das relações. A palma da mão do outro em tuas costas empurra-te para frente, quando não tens forças para o movimento; ampara-te, por trás, quando não tens forças, quando sucumbes.