quarta-feira, 30 de maio de 2012

realpolitik-ficção

A imagem que me vem à mente é a de uma barreira, que separa o supra do infra - uma parede na vertical, sólida, não-permeável, que funciona da seguinte forma: na parte de cima, onde se estruturam as principais rotinas de poder, as ordens do dia, os diários oficiais e, principalmente, as páginas dos jornais, estão os políticos (o que são políticos?), cuja atividade básica consiste em: a) garantir poder-protagonismo-partidário-supostamente-gestor; b) negociar poder-protagonismo-partidário-supostamente-gestor; c) garantir poder econômico-indivduo-grupo; d) negociar poder econômico-indivíduo-grupo; e) deliberar em nome de tráficos, adjetivados já tradicionalmente de influência; f) criar, votar, vetar, nomear, adiar, sancionar, despachar, discursar, anunciar, legislar e, em última instância, governar, única e exclusivamente em nome do que tradicionalmente se consolidou e se configurou como partido político.

Abaixo, e desvinculada desta, está o que sintetica e tradicionalmente se convencionou chamar de bem comum.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Sobre quando passamos a dormir cedo na sexta-feira e deixamos a comida queimar porque adormecemos de cansaço

Sobre quando passamos a dormir cedo na sexta-feira e deixamos a comida queimar, porque adormecemos de cansaço e não suportamos nossa própria embriaguez, que há bem pouco tempo relevaríamos, e seguiríamos pra balada. Teríamos pique pra duas sem sair de cima. Os tempos mudam. Nos últimos finais de semana, passei as noites em casa, na cama, assistindo filme dublado na tevê.

Ainda nem chegamos aos trinta e, recorrentemente, nos torna um cansaço repentino. Imagine quando tivermos quarenta. Vamos tentar dormir oito horas por dia, antes que venham as rugas, antes que tudo caia e nem tenhamos tempo de aproveitar nossas futuras rendas acumuladas, com o prazer dos corpos firmes, as caras firmes, a mente sã. Usemos filtro solar todos os dias, pela manhã. As luzes de escritório também fazem mal. E as telas de computador? De dez em dez minutos olhe para longe da tela. A cada quarenta minutos, levante da cadeira, flexione os membros, faça alongamentos, ajeite a coluna. Ou seriam cinqüenta minutos? Minha memória fraqueja.

Exercite os dedos. Faça pequenos alongamentos e evite lesões por esforço repetitivo.

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Tenho acordado com pesadelos horríveis. Aviões caindo, assassinatos, fugas, questões intermináveis de trabalho, jornadas inteiras de problemas, computadores, telefonemas, chefes.

Quando se mora sozinho, o ruim de acordar no meio da noite é não ter ninguém ao lado. Sem abraço, sem afago, sem alguém pra buscar um copo d'água. Nunca queira ter REMs.

Ser cético não impede de acordar com a impressão de pessoas à espreita, entre as paredes, atrás da porta, ao lado da cama, entre os móveis. No momento seguinte a nos levantarmos da cama, existe um estado de semivigília assustador.

Uma volta pelo apartamento. Alguns passos até a cozinha, uma olhada pela janela, ida ao banheiro, volta até o quarto, olhar pela janela da área de serviço. Observar os carros.

Sempre imagino a cidade pegando fogo. Vocês não?

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Hoje, busca-se uma profusão nebulosa de coisas, que preza pelo excesso de consumo, de barulhos, de carros, de comida, de lixo, de pessoas, de afrontas.

A conversa de bar mais sofisticada que tive recentemente tratava da Marcha das Vadias, sobre como machismo ainda impera nas pequenas práticas e nas extremas, quando o homem justifica estupro culpando a vítima, sensual demais, criminosa na sua provocação. Discutimos a legitimidade dos peitos de fora no meio da avenida e discordamos. “Peitos não são necessários em uma marcha”. “Sim, são: ainda não podemos topless em plena Copacabana”. Viva o peito de fora!

Busca-se uma profusão nebulosa de relações, numa Woodstock urbana, dissipada e forçada, desapegada, de excessos, sem amor, sem apreço.

“Elegante mesmo é a relação monogâmica”.

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Estilo literário: Notas Para O Futuro Próximo - também conhecidas como "Registros Breves e Esquizofrênicos Para Memórias Afetadas Pela Cultura do Efêmero Ou Cultura De Lapsos Demasiadamente Extensos Entre Sinapses Degradadas Por Cotidianos Massacrantes, Capitalistas Ao Extremo, Subjugadores de Subjetividades Presas Em Horas Determinadas Pela Temporalidade Centrada Na Alegoria Chamada Expediente".

Pós-anti-afeto

É tempo de muito desapego. Apegue-se.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Natural

Duas coisas em que penso todo dia: sexo e ganhar na Mega Sena.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Presença

Fui ao mercado usando seus sapatos.

Biscoito da sorte [ou Desculpa pra ver horóscopo]

Em princípio, e por princípio, eu não gosto de horóscopos. Acreditar que os astros regem nossas vidas, assim, de cara, é uma forma muito chocante de assumir falta de autonomia – coisa pavorosa, a meu ver. Mas atire a primeira pedra quem nunca deu uma olhadinha no horóscopo do jornal e soltou uma interjeição do tipo “caramba! é exatamente isso!”. Aí, no outro dia, a gente olha de novo “só de bobeira, só pra checar, tô zoando”, e vê um conselho nada a ver. Mas ora, quem é você pra falar que eu preciso de mais auto-estima? Que loucura! Tô ótimo! Que charlatanice! E, no dia seguinte, olha de novo e solta um risinho concordando com tudo, só que na outra manhã, percebe que o conselho de quarta-feira pra Aquário é praticamente o mesmo pra Leão, na segunda.

E vai assim, brincando de acaso, de ouvir conselhos em cinco linhas, se divertindo, no que é, afinal, um exercício bastante saudável de refletir sobre os nossos rumos, os nossos desafios, nossos desejos - uma espécie de conselho de amigo, só que envolvido numa aura transcendente, que é muito mais legal que conselho de gente.

Gosto de ver horóscopo como biscoito da sorte, ou realejo, oráculo da vida moderna: algumas mensagens simples às vezes mudam o curso de tudo.

domingo, 6 de maio de 2012

Dança

Fio de tevê a cabo desce do último até o primeiro andar do meu prédio.

Eu moro no onze.

Fio branco, balança em frente à janela da minha sala e eu, estranhamente, acho bonito.

Dança.