quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Se meu prédio caísse


Sempre imagino meu prédio caindo. Moro no onze, justamente no meio, são mais dez andares acima. Se a queda começasse pelo último, o barulho seria terrível, precedido por um abalo intenso, o som aumentando, se aproximando, e tudo ruindo, talvez com tempo pra correr até as escadas, descer degraus, alguns andares, quem sabe chegar até o chão, são e salvo, com uma história pra contar pelo resto da vida. Um tipo Indiana Jones urbano.

Não costumo imaginar que pode ser o fim. Penso em ficar preso entre uma parede e outra, por algumas horas, talvez um dia, mas sempre tenho em mente o resgate.

Acontece no banho. Tiro a roupa, a água cai, e logo vêm os pensamentos do prédio desabando. É nesta hora que lembro do celular: o edifício inteiro não pode cair nessa situação, eu no banheiro e o telefone em outro cômodo, no quarto, na sala. Não! Pensando na comunicação é que sempre procuro deixar o aparelho carregado. Imagina se fico soterrado e ainda por cima sem bateria. Duplo pesadelo. 

Vivo, eu poderia tuitar: Estou bem! Calma! Tudo vai dar certo! E ali mesmo começaria a ler as notícias sobre meu prédio desabado, as especulações, as causas, o fato de nunca ter visto nenhuma rachadura e mesmo assim o dito cujo vir abaixo. Será que o prefeito viria? E o governador? Em tempo de eleições, seria um factóide de mão cheia pra jogar a favor do bom-mocismo. E a oposição aproveitaria pra lembrar as últimas tragédias da cidade e criticar a situação, por não ter dado atenção devida. 

Caso o resgate durasse dias, teria que desligar o telefone por alguns momentos, pra não gastar bateria e poder continuar me comunicando, aos poucos, com o resto do mundo. Daria entrevista pros colegas do Globo e do Dia e quem sabe até a Patrícia Poeta poderia fazer sua estreia em cobertura de desastres fora da bancada do Jornal Nacional por aqui. Desligar seria também um dilema, pois perderia o contato com todos, ouviria apenas silêncio e, do outro lado, especulariam minha morte.

Será que o poodle do vizinho sobreviveria? E os vizinhos? Não poderia morrer, sem saber quem são as pessoas que moram no andar de cima e fazem barulho a noite inteira, durante a semana. Que tragédia!

Como o primeiro tuíte após o desabamento seria de desespero, faria uma declaração de amor pra minha mãe, pro meu pai, pra minha irmã, pro meu namorado e pros meus amigos. E lembraria que apesar de difícil, os últimos anos foram de muitas alegrias, muitas cores, sabores, bons fins de semana, festas, risadas. E até morreria feliz.

Pensando melhor: não. Quem sente felicidade, na solidão extrema da morte? Não tenho esse espírito elevado.

Além disso, não seria justo acabar tudo sem conhecer a Turquia e o Mediterrâneo, sem ter feito um bom tour pelas maravilhas gastronômicas do planeta. 

Morreria revoltadíssimo. 

Morte é a última opção dos meus devaneios. Sobreviveria. Meu prédio cairia de noite, verticalmente, como numa implosão. Isso poderia me deixar pelo resto da existência com pavor de edifícios, grandes construções, elevadores. Mas esse negócio de trauma nunca foi minha praia, sou mais das paranoias. 



terça-feira, 21 de agosto de 2012

entendimento

Eu digo banana,
você diz: foguete.

Eu digo gilete,
você diz: passarinho.

Eu digo Pindamonhangaba,
você diz: parede.

Eu digo: Quero viajar pra Roma nas férias, esquecer da vida, voltar nunca mais.
Você diz: Quero bolo de fubá. O que você disse mesmo?

Eu digo: Eu te amo.
Você diz: me abraça.