segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Epifania

Da primeira vez que vi tua beleza com lentes de aumento, disse repetidas vezes que você parecia um artista de cinema, te admirava, olhava profundamente em teus olhos, tua silhueta morena sob a luz pequena, que entrava pela janela.

Desenho da minha cortina sobre tua pele, vento de leve, cadente, passando pelos nossos corpos, nós dois em cima da cama macia, o tempo parado. Você tão lindo, queria ver-te numa tela de cinema.

Da segunda vez que te vi assim, com meus olhos tocando diretamente tua aura, a luz que tomava conta da sala era azul, uma luz fria e azul com tanta energia, você sem camisa, de calça jeans, teus músculos desenhados, fortes, a barriga firme, revelando teu corpo de atleta, você calado, olhando pra mim, comendo um danone.

E eu tirando fotografia tua com o telefone, dizendo que aquela era a foto mais linda que alguém já fizera de ti. Todos deviam ver aquela foto.

Da terceira vez, demorou um dia inteiro pra eu perceber que tinha vivido uma revelação. Nós dois dentro do mar, você saindo das ondas, aliviando minha angústia de ver-te perdido nas águas a cada mergulho, dizendo pra mim coisas que já nem me lembro, porque abafadas pela beleza que ia se construindo, então, conforme você caminhava pra areia.

A beleza crescente me ensurdecia, no mesmo ritmo, e tudo que eu ouvia era silêncio, enquanto teus lábios se mexiam, falavam apenas pro vento, pras águas, pro céu, pras nuvens que desciam às montanhas, voltados para a África, falando pra natureza, passando através de mim.

Teus olhos castanhos esverdeavam-se e emitiam luz, e eu, estupefato, enquanto você se despedia, dizia: "Volta!", e você voltava, mesmo que eu não conseguisse justificar que desejava sua presença por mais um segundo, pra ver tua completude novamente revelada, agora, como nunca antes, conectada às montanhas e nuvens nubladas que tocavam o chão e todas as pessoas desaparecidas. Apenas você e a imensidão.

Você dizia: "Que frio! Sinto muito frio!". E naquele instante eu pensei que quando você morresse, eu gostaria que aquela fosse a imagem que ficasse pra sempre na minha memória. O sorriso puríssimo, o corpo bronzeado, os cabelos molhados, felizes, felizes tua boca, teu corpo, teus movimentos, você saindo da água e eu, por inteiro, abraçado por tudo, os pés no mar, sob eles conchas e areia fina, eu sentindo todos os pedaços do chão, pequenos, pontiagudos, pressionando minha pele, dizendo que eu estava vivo, sentindo o mundo. O mundo, num abraço quente, você já na areia, eu sentindo o sol.

Um comentário:

Anônimo disse...

para sempre.