segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Pimenta-do-reino, Filosofias

Parte 1 – Cozido sem visita

Ontem, pela primeira vez na vida, fiz cozido de carne com batatas e cenoura. Ficou uma delícia. Usei, além de pimenta-do-reino e muita cebola, um tempero comprado pelo namorado, que jazia num canto do recinto, ignorado, e finalmente teve sua utilidade em minhas mãos. Toque final.

O cheiro subia pelos furinhos da tampa da panela de pressão, tomava o apartamento provocando uma sensação que não experimento muito. Não sou do tipo que cozinha.

Se eu fosse do tipo que faz promessas, prometeria cozinhar mais no ano que vem. Não prometo.

O cozido ficou bom e sentei-me à mesa para degustar a obra-prima, a cidade ao fundo, a janela gigantesca, a cidade toda como testemunha e, de repente, uma solidão imensa.

Ninguém para provar o meu primeiro ensopado de carne com batatas e cenoura, com cebola dando tom especial e leve toque de pimenta-do-reino com participação especial de tempero desconhecido.

Que merda morar sozinho, pensei. Na verdade pensei que merda, sem completar o porquê de ser uma merda. Eu até gosto de morar sozinho. Apenas uma merda, concluí.

Alguém tinha me falado, antes do preparo, que a carne era de segunda, mas o resultado, notava-se (eu) tão bom que, aposto, ninguém pensaria nisso.

Limpei, então, a cozinha, deixando tudo um brinco, brilhando, espelhando. Dona de casa exemplar.

No dia seguinte, teria algo para comer no trabalho, preparado por mim mesmo e, visto que a quantidade era muita, teria cozido pra mais algumas refeições. Acontece, quando se mora sozinho e não se tem muita paciência pra cozinhar poucas quantidades.

Já racionalizo tanta coisa nessa vida, deixe-me errar um pouquinho a mão no preparo das refeições.

Não sou como minha irmã, que não gosta de repetir o mesmo prato na refeição seguinte.

Parte 2 – Filosofia na parede

Você entra na cozinha pra pegar um copo d’água e lá está a Filosofia, pregada na parede. Ela te interrompe todos os movimentos, por alguns instantes. A Filosofia tem esse poder. Congela, te causa inércia. Um choque.

Você entra na cozinha e vê a Filosofia no formato de mancha. Uma nódoa movente, viva, capaz de provocar sensações indescritíveis. Em algumas mulheres, pavor. Em alguns homens, coisas que às vezes não se consegue explicar.

Não sinto medo. É uma mistura de asco e aflição ridícula. Começa um cálculo de como você vai eliminá-la. Você tem que eliminá-la. Jamais com as próprias mãos, jamais.

Você dá uma volta pela casa, como quem dá uma chance pra que o inimigo desista do embate e vá embora por si só, mas não adianta, você volta e a Filosofia está lá.

Você a fulmina com os olhos e ela, imóvel, te ignora, como se a casa não fosse sua e ela, sim, tivesse o pleno direito de entrar e sair quando bem entendesse.

A raiva toma-lhe os braços e sai pela garganta. Que vontade de dar um tiro no inimigo. Que raiva.

A distância não permite acertá-la com precisão usando um chinelo.

Retiro todos os talheres e pratos limpos e espelhados de cima da pia, retiro as panelas, retiro tudo, pego uma vassoura e ataco. Ela cai, ainda viva, meto-lhe mais um golpe, e outro, e outro, e a percebo morta, afinal.

Com um pedaço de jornal (jamais com as mãos), retiro o que resta de suas escamas marrons. Volto a pensar em como me sinto ridículo.

Inicio uma assepsia meticulosa da pobre cozinha, contaminada. Canto a canto precisa ser desinfetado. Produtos químicos pesados entram em ação.
Finalmente encerro.

Por aproximadamente duas horas, penso na filosofia que uma barata gigante me provoca, toda vez que insiste em aparecer num canto da casa.

Parte 3 – Espaço-tempo

O software da minha existência clama por uma filosofia que contemple o passado, o presente e o futuro, mas tudo o que meu corpo consegue sentir e manifestar são sinais de esgotamento. Minhas pernas doem. Nenhuma posição ajuda, na hora de dormir. Esboçam-se olheiras. Minhas costas doem. As horas nos relógios, nos celulares, nos computadores, no topo dos prédios, em todos os lugares insistem em passar cada vez mais rápidas, num rastro de angústia.

Já faz um mês que não durmo sem pesadelos.

domingo, 4 de novembro de 2012

A gente passa os dias tentando preencher as nossas vidas vazias

A gente passa os dias tentando preencher as nossas vidas vazias, pensei, enquanto saía do computador, na sala, pra desligar a tevê, no quarto. Lembrei que há um bom tempo não deixava a televisão assim, falando pras paredes, como diria minha mãe, mas não me concentrei muito no problema. Pouco se assiste tevê nesse apartamento. 

Tenho usado computador demais.  Anunciei pros amigos que em dezembro compro uma bicicleta.

A gente passa os dias tentando preencher as nossas vidas vazias. Eu, por exemplo, estou há duas horas tentando completar uma folha de papel. De cento e vinte minutos tiro cinco linhas.

A gente passa os dias inteiros tentando preencher as nossas vidas vazias. Mesmo o que a gente apaga preenche alguma coisa. 

“Essa história é página virada”. Preencho meu tempo.

Apesar do clichê, nossa história é mesmo um livro que a gente mesmo escreve. E o dia de amanhã, uma página em branco, novinha, branquinha, pronta pra receber grafite, tinta de caneta, aquarela, datilografia, tinta de impressora, carvão.

A despeito da matéria-prima, é preciso tomar muito cuidado pra que as páginas em branco não virem formulários. O ser humano se acostumou a produzir formulários, em vez de páginas em branco. A gente nasce e eles já estão lá. Amanhece cada dia e eles já estão lá: horários retos, formatos prontos, poucos caminhos pra se percorrer numa tentativa de escape. Pobres entrelinhas, pobres linhas de fuga.

A verdade é que me pergunto o quanto do que resta podemos chamar de espaços possíveis.

A gente passa os dias tentando preencher as nossas vidas vazias, penso comigo, enquanto roo as unhas, olho pro lado com preguiça, vejo, à esquerda, os carros se movendo, à direita, quatro pares de sapato, jogados no chão.

Penso que a minha preguiça é apenas uma parte de um todo chamado Preguiça da Humanidade.

Imagine se num Dia D qualquer, o mundo inteiro resolve ser proativo e tenta concluir só um pouco, só um pouquinho do que anda procrastinando nos últimos tempos. Que pensamento idiota, reflito. Mas, mesmo assim, continuo: aposto que, assim, num dia, esse esforço concentrado acabaria tirando a Terra do seu próprio eixo. O planeta até desestabilizaria um pouquinho sua rotação.

A gente passa o dia tentando preencher as nossas vidas vazias, mas não faz quase nada pra mudar o que nos incomoda.