domingo, 4 de novembro de 2012

A gente passa os dias tentando preencher as nossas vidas vazias

A gente passa os dias tentando preencher as nossas vidas vazias, pensei, enquanto saía do computador, na sala, pra desligar a tevê, no quarto. Lembrei que há um bom tempo não deixava a televisão assim, falando pras paredes, como diria minha mãe, mas não me concentrei muito no problema. Pouco se assiste tevê nesse apartamento. 

Tenho usado computador demais.  Anunciei pros amigos que em dezembro compro uma bicicleta.

A gente passa os dias tentando preencher as nossas vidas vazias. Eu, por exemplo, estou há duas horas tentando completar uma folha de papel. De cento e vinte minutos tiro cinco linhas.

A gente passa os dias inteiros tentando preencher as nossas vidas vazias. Mesmo o que a gente apaga preenche alguma coisa. 

“Essa história é página virada”. Preencho meu tempo.

Apesar do clichê, nossa história é mesmo um livro que a gente mesmo escreve. E o dia de amanhã, uma página em branco, novinha, branquinha, pronta pra receber grafite, tinta de caneta, aquarela, datilografia, tinta de impressora, carvão.

A despeito da matéria-prima, é preciso tomar muito cuidado pra que as páginas em branco não virem formulários. O ser humano se acostumou a produzir formulários, em vez de páginas em branco. A gente nasce e eles já estão lá. Amanhece cada dia e eles já estão lá: horários retos, formatos prontos, poucos caminhos pra se percorrer numa tentativa de escape. Pobres entrelinhas, pobres linhas de fuga.

A verdade é que me pergunto o quanto do que resta podemos chamar de espaços possíveis.

A gente passa os dias tentando preencher as nossas vidas vazias, penso comigo, enquanto roo as unhas, olho pro lado com preguiça, vejo, à esquerda, os carros se movendo, à direita, quatro pares de sapato, jogados no chão.

Penso que a minha preguiça é apenas uma parte de um todo chamado Preguiça da Humanidade.

Imagine se num Dia D qualquer, o mundo inteiro resolve ser proativo e tenta concluir só um pouco, só um pouquinho do que anda procrastinando nos últimos tempos. Que pensamento idiota, reflito. Mas, mesmo assim, continuo: aposto que, assim, num dia, esse esforço concentrado acabaria tirando a Terra do seu próprio eixo. O planeta até desestabilizaria um pouquinho sua rotação.

A gente passa o dia tentando preencher as nossas vidas vazias, mas não faz quase nada pra mudar o que nos incomoda.

Um comentário:

Thiago disse...

gostei.