sábado, 1 de junho de 2013

Muleta cognitiva: um conceito

Dar fim a situações incômodas por vias não racionais é uma das melhores formas de livrar-se delas. Pensamento lógico exige coerência e nem sempre as vias da racionalidade nos favorecem, podem acabar mostrando que estamos errados. E estar errado é ruim, somos feitos de muito orgulho.

Pensar logicamente nem sempre exige tanto esforço. Utilizar-se de encadeamentos dedutivos, na maior parte das vezes, imagino, deve ser bem menos doloroso que resolver disputas no braço, no choro, no engalfinhamento, mas algumas dessas soluções são extremamente sedutoras, prazerosas até. Nada como encerrar uma discussão no grito. Um grande foda-se é pura catarse, revigorante, rejuvenescedor.

Entre os casais, sexo é saída certa para estancar discussões que durariam horas. Encabeça o rol das delícias de se postergar uma discussão difícil.

Entretanto, foda-se não resolve problemas. Camufla, suspende. 

Imagino que uma foda até resolva certas querelas. Se essa fosse a saída para a maioria das nossas agruras, que maravilha viver!

Quantas vezes você já se pegou justificando algo a partir do injustificável? Enquanto determinadas muletas concretas nos ajudam a escapar das situações difíceis, certos argumentos que nós mesmos sabemos estarem errados são, inúmeras vezes, utilizados como solução para nos livrarmos da admissão do erro. Muletas cognitivas.

Tomamos argumentos que sabemos falaciosos como corretos, os defendemos como a mais pura verdade e... bola pra frente. Esta lá uma saída cognitiva que nós mesmos temos consciência de que é ruim, mas é a que tem pra hoje, a que nos livra da humilhação de admitir o erro, em nosso orgulho cultivado desde cedo. 

No fundo, cultivamos uma postura muito mesquinha, que não admite o erro. Tapeamo-nos, com nosso próprio consentimento. É como olhar no espelho e dizer: eu sei que estou errado, mas vou me apoiar na defesa desse argumento até que minha conclusão incongruente vença pelo cansaço.

E assim segue a vida. Cheia de orgulho que, ao final, não serve pra muita coisa.