terça-feira, 17 de setembro de 2013

Proibição

Hoje à tarde, a caminho de uma lanchonete, eu passava em frente ao supermercado Mundial, do Bairro de Fátima, quando parei pra que um carro que saía do estacionamento pudesse sair para a rua. Um funcionário do mercado logo dirigiu-se a mim: “Não, já fechou, não pode entrar mais ninguém!”. Um ímpeto proibitivo que não entendi muito bem, pois a meu ver não tinha feito nenhum movimento para entrar no local.

Na sexta-feira, ao pegar um ônibus da linha 321 (Castelo x Bananal), a caminho do Fundão, um homem foi impedido pelo motorista de entrar, porque carregava uma peça de carro, uma espécie de cabo com no máximo 60 centímetros. De acordo com o motorista, ele não poderia entrar, porque a peça poderia sujar algum passageiro e, segundo ele, a responsabilidade cairia depois sobre o condutor do veículo. O homem tentou argumentar, disse estava trabalhando, tinha horários para cumprir, mas não levou o diálogo adiante e, com o dinheiro de volta na mão, disse uma última frase: “Eu estou trabalhando”.

Quantas vezes você já tentou limitar os atos da pessoa que ama? Marido ou esposa, namoro, ficante, parceiro ou parceira, relações de diferentes tipos. Quantas vezes você já se pegou tentando limitar o desejo do outro, impedir que o outro lado olhe pra alguém na rua? Quantas vezes você já demonstrou incômodo, não disse nada, mas deu a entender que o outro, na sua liberdade de desejo, não poderia manifestá-lo?

Lembro-me sempre da professora Janice Caiafa, da Escola de Comunicação da UFRJ, falando sobre a (des)organização do sistema de ônibus do Rio de Janeiro. Certa vez – não tenho como reproduzir aqui a frase exata – ela disse que havia nos motoristas de ônibus algo como uma perversão latente, um poder capaz de ser exercido a qualquer momento sobre o outro (a psicologia deve explicar bem esse tipo de comportamento) e que se revelava no momento em que o condutor do coletivo decidia não parar em um ponto, dirigir irresponsavelmente como se isso não tivesse implicação sobre a vida alheia, enfim, uma dotação de micropoder, capaz de tornar cidadãos comuns em senhores do destino alheio.

Durante os protestos de junho, na Presidente Vargas, o síndico do meu prédio simplesmente quis impedir alguns amigos de fazer imagens da polícia, sob justificativa nenhuma, dizendo a eles que não era permitido filmar no saguão do prédio! Eu não estava presente no momento, mas se estivesse certamente teríamos uma boa discussão sobre a manifestação arbitrária de poder. Parece que, na dúvida, as pessoas concluem que a proibição é o melhor caminho.

Há cerca de dois meses, na orla de Ipanema, ouvi um policial, ao sair de um quiosque, dizer: “Vou ali procurar uns maconheiros”. E isso ficou na minha cabeça, reverberando, e me faz lembrar constantemente que a função da polícia, há anos, parece ser basicamente interferir no uso de drogas pelas pessoas. Que mal faz à sociedade o cara que fuma um baseado na praia? Que ficção é essa que mobiliza batalhões para impedir a recreação alheia?

Mais próximo do campo político e menos da psicanálise (ou talvez não, e também fica a ressalva que as duas coisas também não precisam ser dissociadas), vem agora essa decisão quase surreal, que se soma a um estado de coisas cada vez mais sério nesta cidade, de se proibir o uso de máscaras nas ruas. Muito preocupante. E isso é só um detalhe de algo tão maior...

Há alguns meses, o jornalista Bruno Torturra publicou no seu Facebook um texto, intitulado “Marco Feliciano na Esquina”, em que relatava como moradores de São Paulo, numa reunião catártica com a presença de polícias Civil, Militar e Guarda Civil Metropolitana, estudavam formas de melhorar a ordem na Praça Roosevelt. As maiores preocupações relatadas pelos moradores, durante a reunião, pasmem!, eram a presença de gays e travestis nas ruas e a presença de skatistas no local.

Fico bastante preocupado com esse ímpeto proibitivo que vai tomando todos os espaços possíveis. O interior da nossa casa, as ruas, os governos, as polícias. Tomemos cuidado: proibir está em alta.

(Rio, 8 de setembro de 2013)

Nenhum comentário: